ATÉ QUE ENFIM?

 

Uma ideia corrente no país é a de o pau que dá no Chico não deve necessariamente dar no Francisco, pois consideram que a lei não é a mesma para as pessoas, devendo ser aplicada em medidas diferentes, de acordo com o grau de importância de cada cidadão. Foi dessa percepção que expandiu entre nós o ditado bíblico “dois pesos, duas medidas”. Foi essa percepção que ocasionou o comentário de Fernando Sabino, quando disse: “Para os pobres, é dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Para os ricos, é dura lex, sed latex. A lei é dura, mas estica”.

Exemplo recente de uso desses dois pesos e duas medidas nos é dado pelo presidente do CFM, Conselho Federal de Medicina, mostrando-se condoído pelas condições de saúde de Jair Bolsonaro, estando ele preso em sala da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, cumprindo pena por, entre outros motivos, ter liderado uma organização criminosa na tentativa de golpe de Estado. Em outras circunstâncias, nunca ouvimos esse CFM abrir a boca em favor de outros presos em situações mil vezes mais degradantes. É o tal de dois pesos, duas medidas; é o pau não batendo no Francisco, mas acertando cacetadas nos Chicos.

Mas não é só o presidente do CFM que manifesta seu sentimento humanitário; no país, são milhares de vozes ecoando todos os dias, pedindo clemência para o coitado do Jair, tão bonzinho, um santo de homem.

Como bem diz outro ditado, “quem não chora não mama”. Vem daí que todos os dias as redes sociais se tornam palco de carpideiras - advogados e asseclas de Bolsonaro - vertendo lágrimas e pedindo â Justiça isso e aquilo: substituição do regime fechado pela prisão domiciliar humanitária, concessão de acessórios e direitos como assistência religiosa, smart TV e a possibilidade de reduzir a pena por meio da leitura são alguns exemplos.

Frente a tanta lamúria, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou (15/1) a transferência do ex-presidente para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. Tal mudança "permitirá o aumento do tempo de visitas aos familiares, a realização livre de 'banho de sol' e de exercícios a qualquer horário do dia, inclusive com a instalação de aparelhos para fisioterapia, tais como esteira e bicicleta, atendendo a recomendação médica", destacou o ministro.

Em seu pedido de prisão domiciliar, a defesa de Jair Bolsonaro alega que sua permanência em estabelecimento prisional tem afetado a sua saúde, “o que não encontra amparo nos princípios da dignidade da pessoa humana, da humanidade da pena e do direito fundamental à saúde”.

Ora, ora, pois, pois. Certamente, tal petição foi produzida à revelia de Jair, uma vez que ele nunca, jamais, em tempo algum haveria de recorrer aos direitos humanos, esse cocô, esse esterco da humanidade, conforme imagem espalhada pelo seu filho Carluxo.


 

No frigir dos ovos dessa embrulhada a que assistimos, é bem possível que Bolsonaro, caindo mais uma vez da cama, consiga a sua prisão domiciliar. Caso não consiga, ele vai transformar de vez a Papudinha num SPA. Com um pouquinho mais de choro, seus advogados e cupinchas poderão conseguir um abono quinzenal para que possa promover motociatas e passeios de jet-ski no Lago Paranaguá. Tudo isso para deixar bem claro que ele é um Francisco, e não um Chico qualquer.

Querem também os advogados (e estou vendo que esses advogados não entendem nada de Jair Bolsonaro) que ele possa usar do recurso da remição da pena através da leitura de livros (um livro garantindo a redução de quatro dias de prisão).

- Ora, ora, pois, pois – eu diria novamente. – Em 2021, ao receber um livro de presente de um apoiador, ele disse: “Desculpa, eu não tenho tempo de ler. Tem três anos que não leio um livro”. Em 2025, reafirmou que não tem tempo para ler livros e que prefere se informar através de mensagens no WhatsApp.

Depreendo que Bolsonaro tem alergia para livros, algo comum entre brasileiros. Também considero que, se não existissem as redes sociais, Bolsonaro não teria se tornado essa figura tão nociva e repelente. E mentirosa também, já que ele disse, algum tempo atrás, estar lendo a Bíblia (não um livro, mas uma coleção de livros!), de onde teria tirado esta citação: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Falando em Bíblia, seria interessante os advogados de Bolsonaro pedirem para que ela seja incluída no rol das opções de leitura para remição de pena. Então, de uma vez, ele conseguiria um abono de 264 ou 292 dias, conforme optasse pela leitura da versão protestante ou católica, 66 e 73 livros respectivamente. Com isso, estaria “matando dois coelhos com uma cajadada”:  reduzindo sua pena e fazendo um agrado para a Micheque, digo, Michelle, reavivando, assim, as chamas do enlace matrimonial.

Dizem que a "ociosidade é a mãe de todos os vícios”. Bolsonaro sempre foi um trabalhador. Sendo assim, logo que pôde, tratou de entrar na política, a mais espinhenta e exigente das profissões, arrastando consigo os quatro filhos para tamanho sacrifício. Enquanto presidente, eram raras as vezes que arranjava tempo de lazer para fazer suas motociatas, andar de jet-ski, ir a um campo de futebol, comer um espetinho de camarão. Era só uma semana sim e a outra também. Sem contar o tempo reservado para as conversas fiadas no chamado “cercadinho”, ao tempo em que soltava palavrões contra jornalistas e tramava golpes.

Agora, torcemos para que ele seja feliz e encontre a paz em seus 27 anos de cadeia, trazendo, enfim, um pouco de sossego para o país, muito embora os Nikolas Ferreiras da vida teimem em achar que para os Franciscos a lex seja latex.

Etelvaldo Vieira de Melo

 


SOBRE FANTASIAS E DESEJOS, SONHOS E ESPERANÇAS

 

 

Estavam Eleutério, Rivaldo e Fridolino Xexeo sentados em cadeiras em torno de uma mesa, sob uma árvore de jaca e bebendo suco de maracujá. Aguardavam a vinda de Ingenaldo e Ironildo para, juntos, comemorarem a chegada do Ano Novo.

- Este foi um ano muito atribulado para mim, por causa dos problemas de saúde – falou Rivaldo. – Tirando isso, sei que coisas muito estranhas andaram acontecendo em nosso país e no mundo. – Mesmo assim, “este ano deixa para mim, como boa semente, o bom exemplo do nosso STF brasileiro, que soube manter-se fiel ao sentido de Nação, esforçando-se por preservar a justiça e a imparcialidade político social. Foi muito bom sentir que estamos afastando da nossa pátria a impunidade, o que nos dá a garantia de instituição do direito”. (1)

- De fato, esse ano a Justiça parece que começou a enquadrar alguns que atentaram contra a democracia no país – falou Eleutério, passando a mão sobre a barba malfeita. – No entanto, é preciso considerar que “pra fingir que existe harmonia na história do Brasil, tem que se esconder muita dor, fingir que está tudo em paz, tudo verde e amarelo” (2). Daí, nada melhor do que colocar as “barbas de molho” frente ao jornalismo de difamação a que assistimos, que só se preocupa em atender aos interesses do Grande Capital.

- Concordo com você – falou Fridolino, balançando a cabeça em gesto afirmativo. - Também é preciso considerar que o Brasil sofreu um impacto profundo com o crescimento da extrema-direita e o veneno que se tornaram as redes digitais. Sendo realista, acredito que este novo ano será ainda mais turbulento, com as eleições em outubro e a entrada em cena desse personagem, a Inteligência Artificial.

- Vivemos uma nova ordem orquestrada pelas redes digitais – ponderou Eleutério. – Hoje ninguém sabe de nada, mas fica dando opinião sobre tudo, como se fosse dono da verdade. E isso é muito preocupante, pois não há mais discussão séria sobre nenhum assunto, já que as pessoas vivem em bolhas sem se preocuparem em conhecer a verdade.

- Este pé de jaca até que tem sua simbologia. Estamos nessa situação: ou enfiamos o pé na jaca ou ela acaba caindo sobre nossa cabeça. Só espero que o suco de maracujá possa nos acalmar – arrematou Rivaldo.

- Ora, ora, até parece que estamos num velório – aproximou-se Ironildo, tendo ao lado Ingenaldo e seus inseparáveis óculos azuis.

- Pois é – resmungou Ingenaldo. – Será que não estão ouvindo os estouros de foguetes? E você – dirigindo-se a Rivaldo – como anda a sua força?

- Pra dizer a verdade, estou com a sensação de que as pastilhas e as lonas de freio do meu carro já eram. Só estou me garantindo com o freio de mão.

- Deixa de fazer chantagem – falou Ironildo, enquanto bebericava um pouco de suco. – Você ainda vai rodar muitos quilômetros, zerando o velocímetro. E quanto ao Ano Novo, vocês têm algo a dizer?

- O ser humano necessita de ritos para tornar o ordinário algo extraordinário, sobrenatural – quase filosofou Eleutério. – O rito da passagem de ano quer dizer isso, justamente. Já pensaram se, na vida, tudo acontecesse sem essas pausas que nos resgatam a alegria e os bons propósitos? As pessoas, Ingenaldo, têm mais que arrebentar foguetes. Quanto mais foguetes estouram nos céus, maior é o grau de alegria e esperança nos corações das pessoas.

- Bom, mas aí você está se esquecendo dos animais, notadamente os cachorros, que sofrem com tanto barulho – falou Ingenaldo em tom de admoestação.

- Estou me referindo à queima de fogos sem barulho, mais como efeito visual. Continuando, sobre as perspectivas para o Ano Novo, já ouvi alguém dizer que podemos não ser capazes de deter todo o mal no mundo, mas a forma como tratamos uns aos outros é inteiramente nossa. Sendo assim, discordando um pouco da fala do Fridolino, acredito que apesar de todas as nossas imperfeições, estamos cheios de decência e bondade, e que as forças que nos separam não são tão fortes como aqueles que nos unem.

- Muito bem-dito, Eleutério – disse Rivaldo. – “Sobre meus desejos para o Ano Novo, vejo que de repente envelheci e trocar de calendário virou um hábito tranquilo. Que assim seja em 2026: leve, sem apatia ou extravagâncias. Simplesmente seguir a vida em paz.” (3)

Falou Ingenaldo, enquanto limpava as lentes de seus óculos azuis:

- “Meus desejos são os daqueles que amam.  Pois quem ama deseja ao outro amor, porque o amor continua e sempre será necessário a este mundo carente de afeto. No mais, precisamos caminhar, encontrar boas águas, águas do bem, ter energia em todas as áreas pra vencer o dia a dia… “ (4)

- “Desejo que em 2026 avancemos mais ainda, sobretudo no que diz respeito aos direitos humanos, sociais e políticos, para que esta nossa pátria, tão rica e promissora, consiga repartir melhor o pão entre todos os que o constroem no seu dia a dia” – reforçou Fridolino. (5)

 Ironildo disse:

- “Todos querem uma solução para os problemas que nos assolam no dia a dia, mas a vida não tem fórmula. Precaver-se de pessoas que dizem saber alguma coisa já é um bom começo, pois quem diz que sabe não sabe. A expectativa é uma utopia futura, não a tenho, a eternidade é agora, e o amor só existe no presente.  O que pode trazer alguma transformação é a compreensão da verdade do que é.” (6)

- Nosso amigo Tertuliano Rebouças não pôde estar aqui conosco, mas ele mandou para todos esta mensagem – disse Rivaldo, tirando do bolso do paletó um bilhete, onde leu: - “Desejo que todos tenham saúde, paz e alegria. Desejo que a justiça e a verdade prevaleçam. Desejo que a honestidade seja mais intensa entre todos. Desejo que Deus nos abençoe e ilumine na escolha de novos governantes”. (7)

- Nosso abraço, Tertuliano. Particularmente, sonho com saúde, paz e alegria – concluiu Eleutério. - Como não somos pessoas egoístas, vamos estender esses votos para todas as outras: que tenham um ano de muita alegria; que a vida nos proporcione aprendizagem e crescimento; que o egoísmo ceda lugar nos corações para o amor; que amar seja um verbo conjugado por palavras e ações por todas as pessoas e que elas possam viver com saúde e paz.  Finalmente, vamos fazer votos de que uma nova ordem social possa nascer, com as pessoas vivendo com maior dignidade e decência.

- Que assim seja – falaram os outros quatro.

Em seguida, levantaram seus copos de suco num brinde. Lá no horizonte o sol de um novo dia começava a despontar.

Etelvaldo Vieira de Melo

Com as colaborações de:

(1)  Etevaldo B. Dias

(2)  Ellen Pietra

(3)  Fátima Fonseca

(4)  Márcia Chagas

(5)  Etevaldo B. Dias

(6)  Sophia Flora

(7)  Marcos G. Soares