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“Meu pai me penteou /o jardineiro me enterrou /debaixo da figueira /a mando da madrasta / que aqui me deixou” ( cantiga de história popular)


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Eu tive cinco anos
que o padrasto roubou.
Meus pulmões cheios de terra
a polícia encontrou.

Eu tinha cinco anos
por Ana Clara respondia.
Sete vidas eu tivesse
o padrasto tiraria.

Minha mãe ainda me nina
no berço onde me criou.
O padrasto teceu-me a sina
com terra, esse cobertor.

Ana Clara – repete triste –
a mãe que em carne tornou
a menina enterrada  viva
pelo padrasto feitor
Ana Clara, de Carmo da Mata - MG, minha cidade natal,
foi enterrada viva pelo padrasto, em novembro de 2016.

EXCESSO DE INFORMAÇÃO PRODUZ DEFORMAÇÃO


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Introdução
Quando queremos entender alguma coisa e buscamos ajuda, nos tempos de hoje, esbarramos com muitas dificuldades. O avanço científico e tecnológico nos proporciona acesso a milhares de informações. E é justamente aí que mora o perigo.
1º Ato
Uma amiga muito querida, ao se preparar para sua primeira viagem intercontinental, julgou que o melhor a fazer seria contar com a ajuda de entendidos, os chamados experts. Para tal mister (!), foi consultar o Dr. Google.
            1º Quesito: O Que Levar?
Não houve consenso entre os informantes, cada um recomendando determinado tipo de vestuário.
Conclusão: minha dileta amiga julgou por bem levar vestimentas para as quatro estações.
            2º Quesito: Como Levar?
Uma questão que se tornou muito problemática – em virtude do excesso de roupas. Nada que deixasse os entendidos impedidos de palpitar, fato que me deixava com palpitação, já que eu estava também envolvido na trama e no drama da aventura – eu e mais a “torcida do Atlético” (expressão regional para designar “muita gente”).
As sugestões, quase que intimações, iam desde a ordem de disposição dos itens na mala, passando pela ideia de se enrolar as roupas em tubinhos, terminando com a proposta de se colocar tudo em sacos plásticos, chamados de Easy Space. Ao ouvir esse nome chique, as resistências de minha insegura amiga se quebraram. E lá fui eu comprar os tais sacos.
Caso alguém se interesse por essa novidade, adianto uma explicação: Easy Space é um saco plástico onde a bagagem é comprimida, com o excesso de ar sendo retirado através de uma bomba de sucção. No entanto, resumindo essa novela mexicana ou global, quero dizer que nada deu certo, seja o saco, que logo rasgou, seja a disposição das peças em determinada ordem, seja a ideia dos tubinhos. Acabou que tive de oferecer meus préstimos de maleteiro, lembrando meus tempos de estudante de internato. De qualquer modo, as malas ficaram abarrotadas, fazendo jus ao nome de “malas”.
3º Quesito: Qual O Melhor Roteiro Turístico?
Chegando a este nível, a cabeça de minha desorientada e desditosa amiga, como se diz, “entrou em parafuso”. As sugestões eram tantas e tão desencontradas que ela se decidiu, recorrendo a uma brincadeira de criança, aquela da “mamãe me mandou marcar esta aqui”.
2º Ato
Tenho um amigo de nome Eleutério Matoso. Assim que se aposentou de seu trabalho regular, foi exercer as profissões de “piloto de fogão" (PF) e de Assessor Doméstico Para Assuntos Diversos (AD/AD), dois ofícios para os quais os maridos modernos, mais dias ou menos dias, acabam sendo empurrados, tudo por causa da festejada emancipação feminina. (Obs: A emancipação feminina atende a um princípio da Física, que diz: dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. As mulheres ficaram com o espaço de “mandantes”, enquanto os maridos ficaram com o dos “obedientes”. Vem daí o ditado: manda quem pode, obedece quem tem juízo.)
Enquanto Piloto de Fogão, Eleutério se vê às voltas com orientações técnicas sobre quando o preparo de um alimento é saudável ou deixa de sê-lo. Tais orientações jorram aos borbotões pela Internet, sendo coletadas pela diligente esposa.
Como também aqui não existe um consenso sobre o que pode e o que não pode, o pobre coitado do Eleutério fica pulando de lá para cá, como se fosse milho de pipoca em frigideira quente. Uma hora, são gotinhas de água sanitária que têm o poder de desinfetar os alimentos; em outra, é o vinagre a água benta. Existem momentos em que a água sanitária serve para hortaliças, enquanto o vinagre é “tiro e queda” para frutas e legumes. Em outra pesquisa, é a conjunção dos dois, vinagre e água sanitária, mais o adjutório do bicarbonato, que vai dar conta das bactérias, dos vírus e dos agrotóxicos. Em síntese, preparar uma refeição frugal acabou se tornando motivo de pesadelo, tarefa mais difícil do que acabar com as cagadas e os xixis do cãozinho Thor em lugares errados, usando de famosa solução farmacêutica chamada “Aqui Pode, Ali Não Pode”.
A pressão psicológica sobre Eleutério é tamanha que ele já começou a desenvolver a síndrome do pânico e ter palpitações, quando se aproxima do fogão; também já não consegue dormir direito, tendo pesadelos, com os diferentes tipos de óleos vegetais em guerra com as gorduras de coco, de porco e a manteiga de garrafa.
Até pouco tempo, Eleutério tinha as frutas na conta de alimentos do bem; atualmente, sua opinião está mudando, pois ficou sabendo que, quando batidas em liquidificador, elas se transformam em frutose, ou seja, açúcar – um dos maiores vilões da saúde. Para aumentar sua neurose, precisa se policiar e policiar os alimentos para que não passem batidos os que possuem lactose e glúten.
Definitivamente, o pobre coitado do Eleutério já não sabe como dar um temperozinho diferenciado nos preparos, já que não pode contar mais com os pozinhos, todos empesteados com um tal de glutamato monossódico, outro terror para uma vida saudável.
Como os neurônios do depauperado coitado já se encontram naturalmente gastos, ele pretende se matricular num cursinho para entender as características e as diferenças entre gorduras insaturadas, monoinsaturadas, poli-insaturadas, hidrogenadas e trans.
Conclusão
Como estou tentando mostrar, o preparo de alimentos saudáveis requer muita informação, e o disco rígido de Eleutério já não dispõe de memória RAM suficiente para armazenar tantos dados. Como desconfio que os vilões da saúde acabem sendo os chamados “radicais livres”, até estou me dispondo a ir até a República de Curitiba, procurar uma tal de Força Tarefa chamada de Lava Jato, aproveitando que ela ainda está de pé. Ali vou tentar convencer os delegados, promotores e juízes a deixarem esses radicais presos, sem ter direito ao uso das famigeradas delações premiadas.
Só mesmo assim pro pobre do Eleutério ter um pouco de sossego.
Etelvaldo Vieira de Melo

AVISO DOMINICAL


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Marylin Kathleen da Silva, 35 anos, desaparecida, no dia 11/ 11 / 2015,
bairro Lagoinha, Belo Horizonte.
Se alguém souber do paradeiro, ligar para o (0 800), número desta matriz,
que entrará em contato com Judite de Tal, viúva, em seu domicílio.
A mãe, paralítica, doente do coração,
pede socorro para a filha roubada.
Fugir, não fugia, sendo arrimo de casa.
Do lar.
Não tem nenhum vício,
nem namorado.
Usava, na data, calça azul, blusinha amarela, sapatos sem meia.
Marylin sai pouco, só a missa, no domingo.
Trabalha de manicure e cozinha para fora.
Do lar.
É moça solteira, sem dinheiro.
Nem namorado.
Arrimo da casa e da mãe sem recursos.
Fugir, não fugia.
Só a missa, sem companhia.
Cinema, nunca viu.
Nunca foi ao Shopping.
Virgem castíssima. Puríssima virgem.
Sem namorado.
Do lar. Do lar.
Maria Santíssima pague
a quem encontrar.

DECODIFICANDO SENHAS SECRETAS

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             Mensagens edificantes pululam nas redes sociais, tais como pipoca em frigideira. Elas aparecem acompanhadas de imagens e, muitas vezes, sob forma de alegorias ou parábolas.
            Hoje mesmo recebi uma dessas mensagens. Como muitas, estava carregada de certo exagero ou despropósito. Elas parecem bem-intencionadas, tão somente preocupadas em passar boas lições de moral. Entretanto, como é preciso considerar que “de boas intenções o inferno anda cheio”, e que também é bom um exercício de racionalidade, comecei a decodificar aquilo que estava lendo. Apresento a releitura a seguir; antes, transcrevo o texto tal como chegou às minhas mãos, ou melhor: aos meus olhos.
                Um rato, olhando pelo buraco da parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote.
         Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.
         Ao descobrir que era ratoeira, ficou aterrorizado.
         Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
         - Há ratoeira na casa, ratoeira na casa!!
         A galinha:
         - Desculpe-me, Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
         O rato foi até o porco.
         - Há ratoeira na casa, ratoeira!
         - Desculpe-me, Sr. Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique tranquilo que o Sr. será lembrado em minhas orações.
         O rato dirigiu-se à vaca e:
         - Há ratoeira na casa.
         - O quê? Ratoeira? Por acaso, estou em perigo? Acho que não!
         Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira.
         Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima. A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não percebeu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa. E a cobra picou a mulher...
         O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre.
         Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou um cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
         Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.
         Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
         A mulher não melhorou e acabou morrendo.
         Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.
Uma moral da história é apresentada no final do relato, dizendo que “Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre que há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco. O problema de um irmão é problema de todos!”.
Sabe onde estou querendo chegar?
Não sou contra essas mensagens edificantes e que tentam encher de bons propósitos nossas ações. Só acho que elas se parecem com esses xaropes para tosse, uma xaropada: 98,7% deles não resolvem absolutamente nada! Além de mascararem um problema, sem dar-lhe solução adequada.
Veja você que, nesta alegoria da ratoeira, muitos problemas são mascarados:
- Não existe e não tem como existir solidariedade no mundo animal (o rato, por exemplo, rouba alimento do porco e da galinha).
- Com muita esperteza, o autor do texto não faz referência ao gato, inimigo natural do rato.
- De maneira estranha, o rato não vai alertar outros ratos sobre o perigo que paira sobre suas cabeças.
- Qual a preocupação que uma ratoeira pode provocar numa vaca, numa galinha ou num porco? Ora, de fato, uma ratoeira é uma ameaça... para ratos – daí o seu nome: ratoeira (eventualmente, pode ser uma ameaça para cobras). Não faz sentido o rato tentar sensibilizar outras espécies animais de um perigo que rondava sua cabeça.  
- Do ponto de vista racional, humano, é bem sensata a atitude do fazendeiro em comprar uma ratoeira. Afinal, ninguém quer conviver com ratos, a não ser que seja indiano e frequentador do Templo Kasni Mata, ou Templo dos Ratos, onde esses roedores são cultuados como encarnações de parentes e outros humanos. Um rato pode fazer estrago em alimentos e ocasionar doenças, todos sabem.
- Assim como o rato deveria ter, prioritariamente, recorrido aos de sua espécie, dizendo: “- Devemos nos prevenir e nos organizar diante desta ameaça da ratoeira!”, de modo análogo, assim deve acontecer com os humanos: quando em dificuldade, um pobre deve se unir, primeiro, com outro pobre, pois dificilmente poderá contar coma ajuda, por exemplo, de um banqueiro. Quem chamou minha atenção para esse detalhe foi uma senadora da República. Falando sobre a casa do Senado, ela disse: “Pobre não entra nesta casa para fazer lobby. Aqui não vem aposentado que ganha um salário mínimo, aqui não vem pessoal que precisa da saúde do SUS; aqui vem o pessoal da FEBRABAN (os banqueiros) falar com os senadores, aqui vem o pessoal da FIESP”.
O que quero dizer sobre esta história da ratoeira é que ela está construída sobre premissas falsas. Não há como tirar uma conclusão positiva sobre seus antecedentes.
Entretanto, com um pouco de exercício mental, é sempre possível salvar alguma coisa disso tudo.
Por exemplo, podemos fazer algumas perguntas:
- Quem é que o fazendeiro representa?
- E sua esposa, que acaba sendo mordida pela cobra?
- Que cobra é essa, pega pelo rabo? Uma surucucu? Uma jararaca?
(Alerta: Perguntas assim poderão levá-lo a querer procurar “chifre em cabeça de cavalo”. Cuidado!)
Você pode alegar que os humanos não devem ser comparados aos ratos, às galinhas, aos porcos e às vacas; você pode dizer que temos uma dignidade de seres mais evoluídos, racionais. Por um lado, concordo com você; por outro, vejo que a situação pros lados dos humanos pode ser pior do que a que observamos entre outras espécies animais.
            Estou extrapolando ao dizer isso? Que seja, mas o que quero é chamar a atenção para esse jogo de faz de conta da comunicação hoje, onde a verdade fica escondida atrás de enganações. Vivemos um momento particularmente difícil, com as palavras precisando ser pontuadas com pingos nos “is”.
            Não sou contra a fantasia, os devaneios. Entretanto, acho que o país em que vivemos já anda entupido das fantasias das novelas, do carnaval e do futebol. É preciso que tomemos chá de realidade; para isso, precisamos ter os olhos abertos e a consciência atenta. Caso contrário, vem um rato e nos passa uma rasteira, quando não nos coloca numa ratoeira.
Etelvaldo Vieira de Melo  

POEMA EM LINHAS TORTAS

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Vamos deixar
para o ano que vem
a resolução dos problemas.

Hoje, fica tudo no ar.

A política do trampo,
o pensar sobre a morte,
no avião,
tudo é utopia
e predestinação.

Não pensaremos ainda
na derrota do time,
nos gastos de fim de ano,
no livro que não saiu.

Passemos a vida a limpo,
só no ano que vem.
Resistamos, no instante presente,
apenas ao que, de imediato,
não nos convém.

Reste para o futuro
o desgosto da hora,
a alegria de ontem.

(Os gatos miam, no muro,
um gemido atordoante)

No ano que vem,
calamos o bico do gás.
Vamos ao cinema,
dançamos o carnaval.
Se o destino quiser,
voltamos à terra natal.

Será o tempo da liberdade
e da abolição do mal.



QUANDO O TEMPO É MAIS DO QUE UM CONTRATEMPO

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Imagem: osegredo.com.br
                      “Antes do início e depois do final, tudo é sempre o agora.” - T.S.Eliot -
Na vida, o Tempo é tudo. Há tempo em que o Tempo sobra, tem muito tempo; há outros em que ele é pouco, e há aquele em que ele não existe mais. Então, a vida também deixa de existir porque o Tempo passou.
Por causa de sua importância diante da fragilidade da vida, ele é o pano de fundo dos dramas e das tramas do existir. Assim, a Literatura fala de “Em Busca do Tempo Perdido”, do “Tempo e o Vento”; a Música lembra “a rosa que nasceu, todo mundo que sambou, o barco que partiu, o Tempo que passou na janela, mas a menina não viu”; o Cinema, já nos Tempos de antigamente, falava dos “Tempos Modernos”, enquanto a ficção científica desvenda medos e anseios do ser humano diante do mistério do Tempo que virá.
A Religião fala que existe o Tempo para plantar e o Tempo para colher; é ela a armadura com que muitos se revestem diante da ameaça do Tempo.
Pensando o Tempo, invariavelmente somos assaltados por terríveis questões:
            ∞ O Tempo passa ou somos nós que passamos diante do Tempo?
            ∞ O Tempo muda? Os Tempos são muitos?
            ∞ Quando da passagem de ano, damos adeus ao Ano Velho e fazemos votos de um Feliz Ano Novo. Está certo isto? O ano que ficou para trás não é ele mais novo do que o ano que nasce já mais velho?
            ∞ Quem diz que o Tempo é o Senhor da Razão? Não é o Tempo prova da irracionalidade e do provisório da vida?
            ∞ A representação de Deus, como um ser onisciente, onipresente e onipotente, não é ela uma descrição do Tempo? Quem, além do Tempo, se faz presente junto aos fatos que aconteceram, que acontecem e que haverão de vir?
Apresenta o Tempo diferentes aparências: ora, faz ares de inocência; ora, faz de conta que é indiferente; tem momentos em que enseja alegria e risos, em outros, ocasiona lágrimas e dores. No fundo, seu verdadeiro rosto é assustador e angustiante, quando é Tempo derradeiro.
O relógio e o calendário são invenções para marcar o Tempo. Sem eles, há o risco das pessoas se perderem no Tempo, o que seria muito desagradável, um verdadeiro contratempo, com a História – registro da ação humana ao longo do Tempo – sendo um novelo onde se perde o fio da meada.
O espelho também é uma maneira de marcar o Tempo. Alguém disse que ele também não deixa de ser uma punhalada.
Voltando a falar no relógio, quero adquirir um, daqueles de bolso e movidos à corda. Todo dia, pela manhã, eu irei dar corda a esse relógio. Será uma maneira de renovar meu compromisso com a vida e de ter o controle do Tempo, do Tempo do meu viver.

                                                                                            Etelvaldo Vieira de Melo

CAPITALISMO

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Quando penso que penso
Os meus próprios pensamentos,
em verdade estou pensando
o que pensa o social.
Quando penso que como
a comida que quero,
estou digerindo e gerindo
o alheio agronegócio.
Quando penso que visto
a roupa que escolho,
estou vestindo o que a moda
lança no mercado.
Quando penso que olho
a beleza da paisagem,
a beleza que vejo
é um cartão postal
(por trás da montanha
só há devastação).
Quando penso que a política
é fruto do meu voto,
o meu voto é um furto
dos podres poderes.

Quando esboço um sorriso
com dentes de porcelana,
por baixo da porcelana
existem os parafusos
da tecnologia bucal.
Quando falo com um amigo
sobre a liberdade,
o telefone vigia
as palavras e o sentido.
Quando sonho com outra vida,
no  Éden,  afinal,
preciso comprar na igreja
os tijolos da casa de Deus.















NOVA CONVERSA COM DOUTOR FÁBIO GIKOVATE

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              O texto a seguir dá continuidade ao que foi postado semana passada. Na verdade, trata-se de uma produção anterior ao artigo do Dr. Fábio Gikovate, “Individualismo não é Egoísmo”, no qual me inspirei para realizar a “entrevista”. Gostei do formato de diálogo, que ajuda na precisão dos conceitos e no desenvolvimento do tema. Estou repetindo a experiência, inclusive contando com a inestimável ajuda do Dr. Gikovate. Tamanha ousadia, já disse, se deve ao tempo que, entre outros atributos, faz com que me torne cada vez mais atrevido.
            A compreensão de um texto requer, além da análise e da interpretação, um comentário ou contextualização. Pois bem, a necessidade de refletir sobre o Egoísmo decorre da observação de uma pessoa próxima, que disse ser eu um egoísta.
            Pensei comigo mesmo: Sou mesmo? Enquanto pensava, observei que a pessoa em questão contemporizava, com um leve tom de censura na fala: “Somos todos egoístas!”.
            Refletindo, vi que não havia tanto motivo para preocupação ou para recriminação. Se somos ou se deixamos de ser egoístas, não vem tanto ao caso; se existe um “x” da questão, algo do qual não podemos fugir, trata-se justamente desse compromisso com a Verdade. O Egoísmo não é tanto problema (veremos que se trata de caminho para solução); ser mentiroso é que machuca e faz mal.
            Para a entrevista, conto com as perguntas formuladas pelo Dr. Gikovate (FG). Todas elas têm por base o texto que produzi, após refletir longamente sobre o tema.
            FG: Para início de conversa, vamos precisar os conceitos?
            ET: Perfeitamente. Grosso modo, os termos Egoísmo, egoísta, Individualismo e individualista apresentam as mesmas notas negativas. Querem falar do indivíduo que só pensa em si, que – nas relações com os outros – só visa o interesse próprio, apropriando-se de tudo que lhe falta, sem se preocupar em dar qualquer tipo de apoio ou ajuda. Ele, o egoísta, é tachado de explorador, parasita, oportunista, sanguessuga.
            FG: Como você quer tratar os termos?
            ET: Vou levar em consideração apenas dois: Egoísmo e egoísta. O termo “Egoísmo” se desdobra em “ego” + “ismo” e, nesta morfologia, significa: busca, ida, caminhada para o ego, para o eu. Deste modo, Egoísmo significa o indivíduo voltar-se para si mesmo, procurar sua identidade própria, eventualmente, apropriando-se de tudo aquilo que possibilita o encontro consigo mesmo.
            FG: Já o termo “egoísta”...
            ET: Ele representa uma patologia, uma doença, a prática exacerbada do Egoísmo. O Egoísmo pode contribuir para que existam egoístas, mas não é o fator determinante para tal, já que este vem a ser uma falha da personalidade, uma carência emocional e afetiva.
            FG: Ou seja...
            ET: O Egoísmo é um meio, uma estrada que leva a um fim (o eu); o egoísta é aquele que fica na estrada e não consegue chegar ao fim. Na busca de nossa identidade, precisamos do Egoísmo, mas não podemos nos tornar pessoas egoístas.
            FG: Por que não podemos nos tornar egoístas?
            ET: Porque, tornando-nos egoístas, ficamos presos no caminho, impedidos de “voar” (numa alusão ao livro/filme Fernão Capelo Gaivota), isto é, de conquistar a “Liberdade”, que é o fim da ação de Egoísmo.
            FG: O que é e o que representa a “Liberdade”?
            ET: A Liberdade é aquele algo essencial de nossas vidas. Nascemos não para a prática do bem, para o amor ao próximo, para amar a Deus, mas nascemos para construirmos nossa Liberdade. A Liberdade é a essência do viver. Por isso, nossa tarefa deve ser esse esforço permanente de libertação, de rompimento das amarras que nos subjugam aos outros e nos tornam objetos, coisas. Liberdade é a afirmação do sujeito, do eu, do ego, em ação de ego-ísmo. Em outras palavras, a Liberdade significa essa busca de autoconhecimento, com o indivíduo tomando conta de sua existência, buscando cuidar de si mesmo. Essa ação de Egoísmo, de cuidado, de tomar conta, de não deixar para os outros, de afirmação, de ruptura, não é algo fácil, mas de muita dor. Um exemplo ilustrativo é o da criança que nasce e chora. Essa ação de libertação vai nos acompanhar por toda a vida.
FG: Você diz que a Liberdade nos possibilita “tudo”. O que esse “tudo” quer dizer?
            ET: É a Liberdade que nos possibilita “viver”, fazer escolhas, tomar decisões. Ela nos abre um leque de possibilidades, e essas possibilidades representam esse “tudo” que falo. Mas eu considero alguns aspectos que são mais expressivos.
            FG: Por exemplo...
            ET: A minha relação com o outro não se dará simplesmente por razões de troca, por fundamentos morais ou de natureza religiosa. Tais motivações até poderão existir, mas não serão as determinantes principais; o que irá prevalecer será minha escolha livre e consciente. É por isso que uma ação livre é sempre prazerosa, embora represente também um risco, e cujas consequências tenho que assumir.
            FG: Você julga a Liberdade uma porta de entrada para o amor, o altruísmo?
            ET: Ela não é uma porta, ela é “a porta”. Só ama verdadeiramente quem é livre, só dispõe de si (só doa) quem é dono de sua vida. Eu não posso dizer que amo se não me possuo, e o amor só é amor quando expressão da Liberdade. Soa até engraçado dizer que, no fundo, preciso do Egoísmo para amar o outro.
FG: Como você situa a Liberdade sob a lógica capitalista?
            ET: O capitalismo não reconhece a Liberdade. A chamada “liberdade de mercado”, a livre concorrência, tudo isso é fantasia, engodo. O que o capitalismo estimula é a existência de pessoas egoístas, individualistas, seres mutilados, incompletos (é por isso que o capitalismo é tão frustrante: acumular, ter, práticas que levam a lugar algum). Solidariedade para o capitalismo é só uma forma de amenizar conflitos, torná-los toleráveis e suportáveis. As relações humanas para ele não se dão como formas de respeito, mas de dominação e exploração.
            FG: Em citação anterior, você faz referência à religião.
            ET: Sim. Uma religiosidade que não é fundada numa escolha livre dá margem a muitas fraudes, mentiras, usurpações. Eu não condeno a atitude de fé, mas quero que ela não seja ingênua, egoísta, comercial. Quer forma mais sofisticada de atitude egoísta do que o amor ao próximo, aquela caridade praticada em nome da religião? Não é ela um rebuscado comércio, onde se busca garantir a salvação a troco de trocados dados ao próximo? As orações, as preces chegam às raias do exagero de tanto “eu”, “me” e “para mim”.
            FG: Em sua fala, você enfatiza muito sobre a necessidade de se buscar a Verdade. O que isso representa?
            ET: Enquanto ser racional, o que sempre me motiva é a procura da Verdade. A propósito, não existe uma passagem bíblica que diz “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”? Embora, em outra passagem, parece que não existe consenso sobre o assunto, pois Pilatos pergunta: “Afinal de contas, o que é a Verdade?”. De qualquer modo, a Verdade é um bem, o que faz mal e machuca é a pessoa mentir, enganando a si mesma.
            FG: E os princípios morais?
            ET: Eles nos são repassados pela cultura. Enquanto herança cultural, precisam ser analisados com cuidado. Representam o preço a ser pago pelo convívio social, aquela cota de segurança que nos é cobrada pelas regras de convivência. Na verdade, nas nossas relações com os outros, existem as normas sociais e os princípios, as normas morais. É esse conjunto que permite a convivência social. Muitas normas sociais se traduzem em forma de leis; desobedecê-las significa estar sujeito a sanções, penas, castigos. Já os princípios, as normas morais, aparecem como obrigações ou como deveres. Diante de uma obrigação moral, você pode aceitá-la, dizendo que se trata de uma obrigação; pode recusar, dizendo: - Eu não tenho responsabilidade com isso! Se você puder correr de uma obrigação moral, não irá pensar duas vezes.
FG: Já os deveres morais...
ET: Esses são complicados. Eles nos são repassados através da educação religiosa, da familiar, escolar ou nas relações afetivas e sociais. Muitos desses princípios ficam gravados em nossas consciências a ferro e fogo; então, desobedecê-los significa cair num profundo sentimento de culpa. Existem aqueles que carregam por toda a vida o sentimento de se sentirem culpados por um pequeno deslize cometido com alguém significativo em suas vidas.
            FG: Como um egoísta lida com as normas morais? E o indivíduo livre?
            ET: O egoísta é um aproveitador e um mentiroso. Concordo com sua fala, doutor, quando diz que ele é um fraco que usa da esperteza para enganar outras pessoas (pessoas generosas, que buscam aceitação, que carregam sentimento de culpa) e delas obter o que necessita. Assim, com simpatia, muita conversa e muita mentira, acaba ele enganando os outros e, mais sério, enganando a si mesmo. Tive um colega que era assim, um aproveitador. Quando íamos a uma churrascaria, por exemplo, na hora de dividir as despesas, ele se oferecia para fazer as contas; recolhia o dinheiro de todos, não pagava nada e, eventualmente, ficava com algum troco. Assim é o egoísta. Quanto ao indivíduo livre, é preciso considerar que a liberdade nunca é algo acabado e pronto. Trata-se de um processo de construção. O que quero dizer: não existe uma ação plenamente livre. Deste modo, enquanto construímos nossa liberdade estamos sujeitos a limitações, falhas. Isso não quer dizer que iremos abrir mão de nosso compromisso de autenticidade. Seremos assertivos, não regulados por motivações de trocas “justas” – como quer a visão individualista – mas em ações flexíveis, onde poderemos ceder em aspectos menores, sem abrir mão dos referenciais de autenticidade, visão crítica, honestidade, amadurecimento próprio e ajuda leal para os outros, de modo que sejam eles também sujeitos de suas ações e amadureçam como seres humanos.
            FG: Relacionando sua reflexão sobre Liberdade e Egoísmo com o meu texto, onde falo que Individualismo não é Egoísmo, o que tem a dizer?
            ET: Considero que o Egoísmo não implica necessariamente no ser egoísta; que o Egoísmo se constitui o caminho para a construção da Liberdade; que seu conceito de Individualismo, doutor, esbarra numa barreira quase intransponível, quando trata das relações interpessoais. Considero que o conceito de Liberdade, ao contrário do Individualismo que aponta tão só para relações “justas”, pode pedir como desdobramento, o amor, o altruísmo, os valores e a abertura para o transcendente. Assim, é a Liberdade que torna possível amar (e, ocasionalmente, levar “desvantagens”, “tomar prejuízo”, “levar desaforo”), é a Liberdade que reconhece os autênticos valores, que pode levar à fé, que escolhe viver.
            FG: Bom, chegamos ao fim de mais uma conversa.
            ET: Muito obrigado, Doutor Fábio Gikovate.
Etelvaldo Vieira de Melo