ASSEMBLEIA DE RATOS

Faro-fino
gato ferino
andava comendo
os ratos.

Os roedores
cheios de medo
resolveram fazer
uma assembleia
(que ideia!)

Certo ratinho
inexperiente
ergue-se da turba
e fala o que sente.

Imagem: blog-alfabetizando.blogspot.com
“_ Não há mais problema
para o nosso esquema:
vamos pôr um guizo
no Faro- fino.
Basta de artes
desse mofino.

Porém, um velho
astucioso
brada bem alto
o seguinte refrão:
esse plano é ótimo
mas tem um senão.
Quem tem juízo
pra pôr o guizo
no gato?

Silencioso
o grupo se afasta
arrastando a mágoa
atrás de si.
Nenhum dos ratos
comenta ou ri.

Faro-fino ainda é
o maior perigo
da população.
 Quem é que poria
o guizo no gato
já caiu fora
da decisão.

Moral da história:
pensar e agir
são fatos distintos
numa tarefa
de opinião.




QUADRILHA

Imagem: cartoonostalgia.wordpress.com
 À moda de Carlos Drummond de Andrade 

Dedé auxiliava Dadá, afilhada de Lulu, que contava com Cacá
que era “assim” com Dudu que tinha negócios com Teté
que ligava com todos e com ninguém.


Dedé escorregou na casca da banana da coisa pública,
culpou Dadá
e fez com que ela perdesse a casinha de neném.
Nesta embrulhada, Lulu se deu mal também.

Cacá, até onde sei, continua como equilibrista de corda bamba,
de direito e de fato.

Dudu achou que teria seus crimes perdoados
a troco de derrubar Lulu e Dadá.
Por enquanto, perdeu o posto de delegado.
Mas o povo quer saber se ele vai ser preso e cassado,
se vai devolver todo o dinheiro roubado.

Teté, muito esperto, ganhou o pirulito no palito
e foi dividi-lo com Zezé que, folgado,
ainda não tinha entrado no relato.

Enquanto isso, Cecé, outro folgado que gosta de comer pelas beiradas,
está escondido no mato, correndo do Lava Jato,
que só quer ser Lava PaTo.

Moral (à moda de Millôr Fernandes): Em terras brasilienses,
tudo que se vê, se sente, e se respira, conspira.

Adivinhe quem é quem, nesse faroeste caipira.
Tem mais alguém pra colocar neste trem?


Etelvaldo Vieira de Melo

MAMÃE CORUJA

Imagem: roseartseducar.blogspot.com

"- Façamos a paz"-
diz a coruja à águia.
De hoje em diante,
a senhora não comerá
os meus filhotes."

"- Que faço, para não comê-los?"

"-É simples. Os meus filhinhos
são belos como a lua,
brilhantes como o sol.
          Sua plumagem
              os bicos
             os  olhos
      enfeitam a floresta."

"- Se são assim gentis,
não mais os comerei."

Passam passam-se as noites.
Aí está a coruja,
às turras com a águia.

“- Você devorou sem pena
os meus pequeninos!
Tinha prometido
não molestá-los."

"- Comi os filhotes feios,
horrendos de se ver.
A senhora coruja me dissera
que os seus eram sublimes.
Então, as maravilhas
enfeitam ainda a floresta."

Lamuria a coruja,
compreende a águia
 a LAROM da história:
quem ama o feio,
bonito lhe parece.


O DIA EM QUE ROBERTO CARLOS LEVOU UM CHUTE NA BUNDA

Imagem: minilua.com
Era uma vez um tempo em que caçadores de preciosidades iam para as cidadezinhas do interior em busca de tesouros: móveis rústicos, oratórios e imagens, utensílios antigos, peças de artesanato. Hoje, tal como numa praga de gafanhotos, tais cidades estão infestadas de bugigangas da China. Imagine você que uma amiga, quase nas beiradas do sertão nordestino, foi comprar um chapéu feito com fibras de coco (por mim, caso fosse responsável pela reforma ortográfica da língua portuguesa, botava acento circunflexo no primeiro “o”, para evitar mal-entendidos, i.e., para diferenciar de coco, com “o” aberto, do verbo cocar). O coco e sua referida fibra são típicos da região. Pensei comigo: “Não tem como isto ser produzido fora”. Quando fui conferir a etiqueta, lá estava escrito: “Made in China”. “- Putz grila!” – exclamei.
Por esses dias, aconteceu algo parecido: ao comprar um pacote de alho frito, nem me dei ao trabalho de verificar a procedência, já que a marca era conhecida. Quando fui ler as informações, qual não foi minha surpresa ao ver estampado o dizer: “Made in China”. “Puta merda!” – exclamei, então.
Também hoje, os caçadores de tesouros têm até programa de TV, de modo que as raridades estão cada vez mais raras, quase que só se tornou possível garimpá-las em “ferros velhos”, esses depósitos de sucatas que pululam nas grandes cidades (“pulular” é um termo esquisito, dá ideia de milho de pipoca; se eu fosse responsável pela reforma da língua portuguesa – um cocô, como estou vendo - esta seria uma das palavras que iria riscar dos dicionários).
Alguém me contou que, num desses “ferros velhos”, apareceu um conjunto de pratos, aparentando serem eles de metal. Estavam sujos, e alguém os arrematou por uma bagatela. Tempos depois, a polícia baixou no local em busca dos referidos pratos, já que eram peças raríssimas, de ouro.
Imagine se aquilo viesse parar em minhas mãos, e não viesse a polícia farejar pra cima de mim. A esta altura do campeonato, estaria fazendo turismo pelo mundo afora, postando no Facebook fotos de paisagens paradisíacas (outra palavra que iria riscar dos dicionários).
Enquanto o senhor turismo não vem, ando percorrendo os “ferros velhos” - atrás de raridades, e puxando conversa com as pessoas - em busca de histórias raras.
Hoje pesquei um peixe grande, desses bem graúdos, tão grande que quase arrebenta minha linha. Foi o seguinte:
Em conversa com um conterrâneo, falávamos de nossa cidade natal, de como tudo ali era dividido entre as castas dos ricos e dos pobres.
Esse conterrâneo, que eu considerava de uma família remediada, que não era nem tanto ao mar, nem tanto à terra, desmentiu-me categoricamente, dizendo que jogava no meu time, isto é, o time dos pobres, dos párias da cidade.
Foi então que ele me contou fato inusitado, de deixar qualquer um arrepiado, e que eu repasso para os anais da História, sem medo de sofrer um processo judicial. Se for mentira, será mais um boato a envolver a figura de famoso que, como famoso, deve se guiar pela máxima de “falem mal, mas falem de mim”; se for verdade, estaremos desmascarando a biografia de um “metido a besta” e que jogava no time dos ricos de minha cidade. (Se o famoso já se sentir entupido de fama, espero que tenha atingido o patamar da beatitude da fama, quando se torna pessoa de “grande generosidade”, não se importando que um mísero mosquito Namous venha compartilhar um pouco de seu sucesso).
Roberto Carlos, sim, ele mesmo, embora eu não tenha certeza de nada, estando em início de carreira, foi se apresentar lá na cidade (devia estar “matando cachorro a grito”, devia estar na “pindaíba”, que deve ser a periferia de Pindamonhangaba). Usava cabelos compridos, calças “boca de sino”, “era uma brasa, mora”.
Nada disso impressionou “I*”, que era presidente do clube aonde Roberto iria se apresentar. (Em honra da verdade, “I*” era um dos poucos ricos com quem “eu se me dava bem”).
De qualquer modo, achou um absurdo aquele rapazinho, com cabelo de mulher e vestido de maneira tão estranha, ter a ousadia de se apresentar no “seu” clube: assim que Roberto foi fazer sua entrada no palco, “I*” deu-lhe um senhor chute na bunda, o que fez com que a referida entrada do cantor no palco se desse “catando cavaco”.
Meu conterrâneo jura que tal fato assim se sucedeu. Mas eu me pergunto se ele foi testemunha ocular e auricular do ocorrido, de ver com os próprios olhos e ouvir com os próprios ouvidos. Acho que não, pois Roberto Carlos em inicio de carreira deve ser do tempo de Matusalém ou dos tempos em que Noé projetava sua famosa arca. Meu conterrâneo não é tão matusalêmico assim.
Tudo pode ter sido uma fanfarronice do “I*”, pra mostrar aos pobretões da cidade o que um rico era capaz de fazer.
Havia alguém lá perto para juramentar com a mão sobre a Bíblia que aquilo era verdade?
Sinceramente, não sei de nada. Mas vai que tal caso tenha sucedido. Vai ser o maior furo histórico, maior do que o rombo que o ser humano está fazendo na camada de ozônio, provocando esse calor de esturricar a moleira de qualquer um.
Etelvaldo Vieira de Melo

VOVÔ VIU A UVA?

Imagem: democraciapolitica.blogspot.com

Quem viu a uva
foi a raposa,
não a viúva.
Ave, uva!         
        
Mal viu o cacho,
quis comê-lo.

Laaaaaá no alto,
as uvas.
Caaaá embaixo,
a raposa.

Que figura!

Quem sabe a vara
 derruba a uva?
 (Não se mata a fera
 com vara curta).

 Raposa é um furo:
 não vê a uva
 nem a pau.

Se subir no muro?
Muro e pulo
não colhem fruto.

Melhor ir embora
porque a uva
que o avô quer ver
continua verde.

Lá se vai a moça
que não viu
a uva.

E o vovô?
Ele viu
a uva e a vó.
Ah, de repente
um ruído atrás.

Com certeza é a uva
caída no chão.
Vira-se a raposa,
estendendo a mão.   

Delícia! Delícia!

Mas é apenas
uma folha seca.
Contradição.

Imoral a história.
Quem desdenha
quer comprar.
É pena o dinheiro
à viúva, ao avô, à avó, à raposa
faltar.

 

VIVER É DIFÍCIL, MORRER É FÁCIL (ENTERRAR PODE SER DIFÍCIL)


Imagem: manualdohomemmoderno.com.br
Ia dizer que já estou “careca” de saber que as palavras são perigosas. Não o faço porque as pessoas já estão “carecas” de saber disso, e também porque seria uma ofensa gratuita para com uma categoria de pessoa, a dos “carecas”, que sofre discriminação a vida inteira, tudo por causa da perda de míseros fios de cabelo.
Crianças e adolescentes receberam, nos últimos anos, a armadura protetora de uma expressão importada, bullying, que funciona como espécie de água benta a exorcizar a sanha de agressores físicos e verbais. E os carecas, pobres coitados, que não podem contar com nenhuma espécie de proteção, como acontece com aqueles com o seu Órgão de Proteção para a Infância e a Adolescência? Com tantos cabides de emprego, nunca seria demais criar mais um, a Secretaria de Defesa dos Carecas e Afins (SEDECA).
É preciso considerar, no entanto, que não estou aqui para fazer, de momento, campanha política em favor de determinada categoria. Resvalei no assunto quando mencionava o perigo das palavras.
Embora vá tratar de tema delicado, não pretendo “dourar a pílula”, temporizar com uma espécie que sofre com uma doença chamada “depressão”.
Para evitar mal-entendidos, vamos colocar pingos nos “is” e os acentos em assentos, já que a maioria deles vive no ar ou dependurado. Para que não transpareça um pingo de dúvida de que eu esteja trilhando os trilhos da chamada autoajuda, desde já encaminho os interessados/necessitados para os especialistas. O que você vai ler a seguir é tão somente o depoimento de alguém que se interessa pelo assunto, e quer, de alguma maneira, ajudar aqueles que se sentem acometidos por esse mal.
Pra início de conversa, é importante precisar os conceitos. O que é a depressão?
Evidentemente, não estou me referindo a um acidente geográfico, nem a um fenômeno econômico ocorrido nos Estados Unidos e que foi denominado de “A Grande Depressão”. Grosso modo, depressão é uma espécie de tristeza que, por sua vez, é encontrada no quadro dos desconfortos. Os desconfortos podem ser de natureza física, neurológica ou psíquica. Pode também aparecer em forma de análise combinatória (exemplos: um desconforto neuro-psíquico, um outro físico-neuro-psíquico). No quadro dos desconfortos psíquicos, a tristeza tem vários parentes, como a ira, a ansiedade, o medo. Ela também se apresenta com várias gradações, de leve, moderada a intensa.
A melancolia é título de um filme e uma espécie de tristeza peculiar. Ela é essencialmente feminina e crepuscular. Raramente você vê um homem tomado de melancolia, quase impossível ela aparecer ao raiar do sol. É assim como vampiros, que odeiam raios solares, ou a fêmea do mosquito aedes aegypti, que só tem hábitos diurnos de ferroar as pessoas. A melancolia é feminina porque é uma tristeza sem muita lógica, sem explicação, cujos fundamentos racionais são imperceptíveis.
Já a depressão é uma tristeza de gradação intensa. Quando entra em depressão, o indivíduo tem a sensação de estar atingindo o fundo do poço, estar num mato sem cachorro ou se sente num túnel sem saída. A depressão é, portanto, de caráter mais filosófico, mexendo e remexendo naquelas questões básicas que, inconscientemente, incomodam o ser humano: - Qual o sentido da vida? Quanto mais eu penso e procuro entender, mais eu vejo que tudo não passa de ilusão, que tudo é uma merda – mais ou menos assim chega a pensar o deprimido, em geral, indivíduo de arguta inteligência. Ele/ela não se contenta com meias verdades, não se submete ao “engana, que eu gosto”.
É por tudo isso, embora eu não tenha falado quase nada, que a depressão é tão intensamente triste, algo que deixa aqueles-que-querem-prestar-uma- ajuda com as mãos e os pés amarrados. O que é que eu posso fazer? – perguntam. – E a resposta, amarga: Nada, ou quase nada!
Pensando sobre o tema, vejo como palavras de entonações próximas, de sentidos opostos, muitas vezes acabam esbarrando umas nas outras. Assim, um astuto pode se tornar estulto, um esperto pode vir a se tornar um tolo. Isso ocorre com uma pessoa tomada de depressão.
Quer saber por que ela, de inteligente, acaba se tornando tola? Porque, no fundo e a bem da verdade – como haveria de dizer um amigo – a vida é essa coisa sem sentido mesmo, viver é esse permanente trocar de uma ilusão por outra, bem fazem aqueles que aceitam a máxima do “engana, que eu gosto”. Eles, que estão errados, acabam ficando certos.
Maiakovski dizia que morrer é fácil, difícil é viver. Está bem, embora enterrar também seja difícil (descobri esses dias, indo ao velório de um conhecido, com tanto dinheiro sendo despendido). Mais recentemente, descobri que casar é dificílimo – mas isso vai entrar em outras considerações.
Você acha que não estou dizendo coisa com coisa? Pois vou complicar ainda mais: creio que a vida não está aí pra ser levada tão a sério. É preciso tratá-la com bom humor, rir das coisas, das pessoas e – principalmente – rir da gente mesmo. Porque, no fundo, tudo é bobagem, tudo é futilidade.
Precisamos de boias salva-vidas? Não tem problema; uma ilusão aqui e outra ali não fazem mal algum. Quem sabe, entre umas e outras, podemos encontrar algo duradouro e até definitivo? Um compositor já dizia que no fim do mundo tem um tesouro... Pode ser que tenha mesmo, pode ser que não tenha nada.
Eu quis brincar sobre o tema, tratá-lo de maneira amena. Respeitando sua seriedade, sem querer ridicularizá-lo, pois não sou daqueles que consideram que pimenta nos olhos dos outros seja colírio.
Lembro também que existem medicamentos apropriados para tratamento da depressão, assim como existem profissionais habilitados no ramo. Eles certamente serão de grande valia para aqueles que atravessam momentos de crise.
De minha parte, só quero deixar a consideração de que a vida não deve ser levada tão a sério, que não faz mal recorrer, de vez em quando, ao uso de muletas. Como não disse o Livro do Eclesiastes, em sua reflexão sobre a vida: Bobeira das bobeiras, tudo não passa de uma grande bobagem!

Etelvaldo Vieira de Melo

CONTANDO CROCODILOS

O macaco sabido
pretendia chegar
à outra margem do rio,
para comer
mangas a fio.

Imagem: marciakalel.blogspot.com
Viu um crocodilo
e lhe fez a proposta:
“Trazei vossos amigos
e eu hei de contá-los,
nobilíssimo Senhor.

Depois eu reúno
a macacada,
ó amado rei,
podereis contar-nos
sem lei”.

O crocodilo,
muito satisfeito,
foi juntar seu povo
para o evento.
Veio a crocodilada,
pensando no jantar,
e se pôs lado a lado,
no mesmo momento.

O macaco, então,
saiu pulando
Imagem: semio.com.br
por cima das feras.
“Um, dois, vinte e um,
quarenta, vinte e nove.
Lá está a mangueira
que me comove”.

O velho crocodilo,
vendo o malandro,
rolando na folhagem,
perguntou-lhe aflito:
“onde está a turma,
para a contagem”?

O macaco grita,
comendo a fruta:
“Eu não sou tão burro
quanto um crocodilo.
O que mais queria
já consegui.
Você e seu bando
PODEM SUMIR”.

                      
    



CÍNICO

Imagem: gl1.globo.com
  
            A famosa história, chamada “Famigerado” e contada por Guimarães Rosa, pode assuceder de maneiras diferentes, de outros jeitos. Nesta, um doutor é procurado por um jagunço, encafifado com uma palavra que nem sabia falar direito, mas que tinha desconfiança de se tratar de alguma coisa ofensiva, um desaforo a ser arresolvido com balas de escopeta ou na ponta de um facão. Por outro lado, ainda o jagunço, ficou ele cismado de que aquela palavra estranha, e que tinha lá sua boniteza, podia ser coisa boa, espécie de elogio ou agrado.
     Vira e remexe, a gente mesmo se vê rodeado com palavrório esquisito, que nem sabe se é ofensa ou elogio, agrado ou desafeto. Vai daí que a gente toma posição, tem como acertada uma coisa que, quando vai ver, é outra bem diferente. Eu próprio já andei, nem sei o tanto de vez, trupicando nesse palavreado estrangeiro, que chegou pra mim cheio de não-me-toques, como se fosse uma madama toda emplumada, me deixando azucrinado, com uma baita pulga por atrás da orelha, sem saber se o caso era de dar um sorriso como resposta ou um tiro bem certeiro de garrucha no meio da testa do intrometido.
     Um fato desses foi acontecido quando eu estava naquela fase de encompridar o corpo e engrossar a voz, ocê sabe. Não me alembro dos antecessórios que levaram um sujeito, com quem eu pouco se me dava, a chegar perto de mim com este palavreado:
     - Ocê é um cínico.
     Ele falou estas coisas assim de comprido, sem carregar neste ou naquele pedaço, o que dificultou ainda mais meu entendimento.
     Fiquei abobado, sem tomar tenência. Mas como havia tomado gosto daquela palavra esquisita, depois de algum tempo, achando ela bonita e distinta, acertei que em se tratava de um agrado, um elogio. Por isso, respondi:
     - Brigado, eu que não mereço tanto.
     O distinto ficou olhando pra mim com olhos arregalados, dando a entender que não havia entendido a minha resposta.
     Por isso, porque havia uma poeira de suspeita no ar, arresolvi, depois, ir atrás daquele livro grossão, cheinho de palavras empilhadas, ‘o livro que aprende as palavras’, e que os doutores, por caçoada, chamam de “pai dos burros”. O livrão grosso foi curto e grosso na explicação: “Cínico = que tem cinismo”. E daí? – quis saber mais, já que a explicação deixava tudinho do mesmo tamanho. “Cinismo = descaramento, atrevimento, zombaria, deboche”.
     Espremendo minha inteligência em busca de um entendimento apurado, vi que aquele sujeito, com quem eu não se me dava, estava era jogando uma ofensa pra cima de mim.
     Fiquei injuriado, querendo chamar o distinto para uma briga de morte. No entretanto, assim que fui tirar sastifação, vi que a poeira da reiva já havia assentado. Num sei se acontece com ocê o que sucede comigo: eu não respondo por mim é na hora do meu repente, quando ‘a mandioca azeda’. Aí, então, eu mostro com quantos paus a gente faz uma canoa.
     Agora, aquele distinto, que jogou um tanto de desaforo na minha cara, também andou trocando as bolas, confundindo alhos com bugalhos. Se tem uma coisa que não posso ser chamado é desse tal de “cínico”. No normalmente, o de mais que consigo demonstrar é meu olhar de lerdeza, de abobado. Quando consigo enxergar um tiquinho a mais, eu óio com desconfiança, nunca com esse tal de cinismo. Coitado do moço, pelo que eu estou atentando agora, ele devia estar ofendido de vista cansada, precisava usar ócrus!
Etelvaldo Vieira de Melo

           

A GALINHA


galinha-imagem-animada-0006
Imagem: imagensanimadas.com
A galinha                                                                         
ouviu   ouviu  ou viu
o quê ???
Um barulhão!
Assustada,
saiu gritando:
“SOCORRO! 
O MUNDO ESTÁ SE ACABANDO!”
Todos os bichos
gritavam atrás dela
“... está se acabando!”

Foi assim que vieram
até o rei Leão.
            
“O que houve?” perguntou ele.
“... está se acabando!”
“Quem disse isso?"
“Foi a linha linha galinha!”
“Fui eu, senhor,
O mundo está se acabando!
ouvi se vi um BARULHÃO.”

“Vamos a ver o barulhão”
disse a majestade do rei Leão.

Andaram andar  nda   m.
       
O leão foi até
onde esteve o sinal.
“É só um coco
que caiu afinal a final a fim."

“Quanta gente
vê um rinoceronte
onde há um rato
ou vê um rato
onde há um rinoceronte.
Esta é a moral.”     
Falou o Galo
em cima de um galho.

           


LAVA JATO: SIM OU NÃO?

Imagem: rj.olx.com.br




  R
ecebi uma consulta técnica, querendo saber se é acertado fazer limpeza de carro usando do chamado Lava Jato.
            Antes de dizer se é bom ou deixa de sê-lo, uma pergunta para o consulente: qual a marca e o ano de fabricação do carro? Se for uma Ferrari, um Porsche, uma Lamborghini... nem pensar em Lava Jato! Agora, se for uma Brasília amarela, que até saiu de linha... É preciso considerar também o valor sentimental do veículo. Eu, por exemplo, tenho um fusquinha que é tratado a pão de ló.
            Lava Jato é, como a expressão mesma diz, uma lavagem rápida, direcionada e que cuida de tirar a sujeira grossa e aparente, os pontos sujos (pts sujos: escrita abreviada, para economizar tinta), aqueles que “saltam aos olhos”. Entretanto, se for um lava jato que utiliza daquela escovação automática, onde se aperta um botão e tudo se resolve, há o risco de ficarem arranhões na lataria, tudo dependendo do grau de sujeira do veículo. Além disso, aqueles sujos mais entranhados, além dos pts sujos, não serão removidos, pois há casos em que é necessário o uso de desengripantes (aqui, não se trata de medicamento para gripe, mas óleo antiferrugem).
            Sem dúvida, um Lava Jato tem a vantagem de deixar, parece, todo mundo com as Mãos Limpas. Falam que a técnica foi importada da Itália. No entanto, também parece que lá ela não foi bem aceita, não. Preferiram continuar usando outras espécies de lavagem. Além disso, não dá pra deixar todo mundo com a mão limpa, isso é uma ilusão de óptica.
            Eu, particularmente, não gosto de usar um lava jato; prefiro lavagem manual, com limpeza de estofados e bancos, uma graxa passada nas rodas e silicone nos painéis: em resumo, uma limpeza completa, com direito a serviço de lanternagem e pintura, se for o caso, uma maquiagem perfeita, mais um aromatizante de veículo - para deixá-lo com cheiro de carro novo. Isso não quer dizer que eu seja contra o Lava Jato. Não, em absoluto. O Lava Jato atende perfeitamente, até hoje, ao objetivo de sua invenção: o de remover a sujeira grossa, acabar de vez com os pts sujos. Isso é muito bom e importante. Agora, é preciso levar em conta outras sujeiras, mais entranhadas, e que, se não forem desfeitas, irão corroer as latarias dos carros. Elas requerem outro tipo de limpeza, e não vai ser um Lava Jato quem vai dar conta disso. Além do mais, você, tendo uma BMW, iria querer que ela fosse limpa num Lava Jato?
            Agora, tudo bem se o que se pretende é tão somente tirar aqueles pts sujos, aquela sujeira grossa, deixando a fina e a escondida debaixo do tapete. O que não condiz com a verdade, mesmo aquela juramentada em tribunal, seja superior ou inferior, é dizer que se está fazendo uma limpeza decente, coisa que não acontece. Você vai ver: daí a uns tempos, a ferrugem estará comendo o carro todo, a lataria ficando toda podre.
            Quando você utiliza de um serviço de Lava Jato, está fazendo o que chamam de “meia boca”, quer dizer, não é nada completo, é só mesmo um “quebra-galho”. E tudo bem se você é um sujeito que gosta de quebra-galho, se o que você quer é tão somente tirar aquela sujeira grossa, aqueles pts sujos. Eu, particularmente, sou de tratar um carro com toda consideração e respeito; pra mim, uma limpeza tem que ser completa e total.
            Você pode alegar que uma limpeza de Lava Jato sai mais barato. Eu, particularmente, acho que existem baratos que se tornam caros. Os futuros remendos que o digam.
            PS: Se você gostou de minhas dicas, não deixe de clicar no adicionar +. Numa próxima postagem, estaremos falando sobre como economizar muito dinheiro, sem que seu padrão de vida seja afetado. Aguarde e até.
Etelvaldo Vieira de Melo