Estavam Eleutério, Rivaldo e Fridolino
Xexeo sentados em cadeiras em torno de uma mesa, sob uma árvore de jaca e
bebendo suco de maracujá. Aguardavam a vinda de Ingenaldo e Ironildo para,
juntos, comemorarem a chegada do Ano Novo.
- Este foi um ano muito atribulado para
mim, por causa dos problemas de saúde – falou Rivaldo. – Tirando isso, sei que
coisas muito estranhas andaram acontecendo em nosso país e no mundo. – Mesmo
assim, “este ano deixa para mim, como boa semente, o bom exemplo do nosso STF
brasileiro, que soube manter-se fiel ao sentido de Nação, esforçando-se por
preservar a justiça e a imparcialidade político social. Foi muito bom sentir
que estamos afastando da nossa pátria a impunidade, o que nos dá a garantia de
instituição do direito”. (1)
- De fato, esse ano a Justiça parece que
começou a enquadrar alguns que atentaram contra a democracia no país – falou Eleutério,
passando a mão sobre a barba malfeita. – No entanto, é preciso considerar que “pra
fingir que existe harmonia na história do Brasil, tem que se esconder muita
dor, fingir que está tudo em paz, tudo verde e amarelo” (2). Daí, nada melhor
do que colocar as “barbas de molho” frente ao jornalismo de difamação a que
assistimos, que só se preocupa em atender aos interesses do Grande Capital.
- Concordo com você – falou Fridolino,
balançando a cabeça em gesto afirmativo. - Também é preciso considerar que o
Brasil sofreu um impacto profundo com o crescimento da extrema-direita e o
veneno que se tornaram as redes digitais. Sendo realista, acredito que este
novo ano será ainda mais turbulento, com as eleições em outubro e a entrada em
cena desse personagem, a Inteligência Artificial.
- Vivemos uma nova ordem orquestrada
pelas redes digitais – ponderou Eleutério. – Hoje ninguém sabe de nada, mas
fica dando opinião sobre tudo, como se fosse dono da verdade. E isso é muito
preocupante, pois não há mais discussão séria sobre nenhum assunto, já que as
pessoas vivem em bolhas sem se preocuparem em conhecer a verdade.
- Este pé de jaca até que tem sua
simbologia. Estamos nessa situação: ou enfiamos o pé na jaca ou ela acaba
caindo sobre nossa cabeça. Só espero que o suco de maracujá possa nos acalmar –
arrematou Rivaldo.
- Ora, ora, até parece que estamos num
velório – aproximou-se Ironildo, tendo ao lado Ingenaldo e seus inseparáveis
óculos azuis.
- Pois é – resmungou Ingenaldo. – Será
que não estão ouvindo os estouros de foguetes? E você – dirigindo-se a Rivaldo
– como anda a sua força?
- Pra dizer a verdade, estou com a
sensação de que as pastilhas e as lonas de freio do meu carro já eram. Só estou
me garantindo com o freio de mão.
- Deixa de fazer chantagem – falou Ironildo,
enquanto bebericava um pouco de suco. – Você ainda vai rodar muitos
quilômetros, zerando o velocímetro. E quanto ao Ano Novo, vocês têm algo a
dizer?
- O ser humano necessita de ritos para
tornar o ordinário algo extraordinário, sobrenatural – quase filosofou Eleutério.
– O rito da passagem de ano quer dizer isso, justamente. Já pensaram se, na
vida, tudo acontecesse sem essas pausas que nos resgatam a alegria e os bons
propósitos? As pessoas, Ingenaldo, têm mais que arrebentar foguetes. Quanto
mais foguetes estouram nos céus, maior é o grau de alegria e esperança nos
corações das pessoas.
- Bom, mas aí você está se esquecendo
dos animais, notadamente os cachorros, que sofrem com tanto barulho – falou
Ingenaldo em tom de admoestação.
- Estou me referindo à queima de fogos
sem barulho, mais como efeito visual. Continuando, sobre as perspectivas para o
Ano Novo, já ouvi alguém dizer que podemos não ser capazes de deter todo o mal no mundo,
mas a forma como tratamos uns aos outros é inteiramente nossa. Sendo
assim, discordando um pouco da fala do Fridolino, acredito que apesar de todas
as nossas imperfeições, estamos cheios de decência e bondade, e que as forças
que nos separam não são tão fortes como aqueles que nos unem.
- Muito bem-dito, Eleutério – disse
Rivaldo. – “Sobre meus desejos para o Ano Novo, vejo que de repente envelheci e
trocar de calendário virou um hábito tranquilo. Que assim seja em 2026: leve,
sem apatia ou extravagâncias. Simplesmente seguir a vida em paz.” (3)
Falou Ingenaldo, enquanto limpava as
lentes de seus óculos azuis:
- “Meus desejos são os daqueles que amam. Pois quem ama deseja ao outro amor, porque o
amor continua e sempre será necessário a este mundo carente de afeto. No mais, precisamos
caminhar, encontrar boas águas, águas do bem, ter energia em todas as áreas pra
vencer o dia a dia… “ (4)
- “Desejo que em 2026 avancemos mais
ainda, sobretudo no que diz respeito aos direitos humanos, sociais e políticos,
para que esta nossa pátria, tão rica e promissora, consiga repartir melhor o
pão entre todos os que o constroem no seu dia a dia” – reforçou Fridolino. (5)
Ironildo disse:
- “Todos querem uma solução para os
problemas que nos assolam no dia a dia, mas a vida não tem fórmula. Precaver-se
de pessoas que dizem saber alguma coisa já é um bom começo, pois quem diz que
sabe não sabe. A expectativa é uma utopia futura, não a tenho, a eternidade é
agora, e o amor só existe no presente. O
que pode trazer alguma transformação é a compreensão da verdade do que é.” (6)
- Nosso amigo Tertuliano Rebouças não pôde
estar aqui conosco, mas ele mandou para todos esta mensagem – disse Rivaldo,
tirando do bolso do paletó um bilhete, onde leu: - “Desejo que todos tenham
saúde, paz e alegria. Desejo que a justiça e a verdade prevaleçam. Desejo que a
honestidade seja mais intensa entre todos. Desejo que Deus
nos abençoe e ilumine na escolha de novos governantes”. (7)
- Nosso abraço, Tertuliano. Particularmente,
sonho com saúde, paz e alegria – concluiu Eleutério. - Como não somos pessoas
egoístas, vamos estender esses votos para todas as outras: que tenham um ano de
muita alegria; que a vida nos proporcione aprendizagem e crescimento; que o
egoísmo ceda lugar nos corações para o amor; que amar seja um verbo conjugado
por palavras e ações por todas as pessoas e que elas possam viver com saúde e
paz. Finalmente, vamos fazer votos de
que uma nova ordem social possa nascer, com as pessoas vivendo com maior
dignidade e decência.
- Que assim seja – falaram os outros
quatro.
Em seguida, levantaram seus copos de
suco num brinde. Lá no horizonte o sol de um novo dia começava a despontar.
Etelvaldo Vieira de
Melo
Com as colaborações de:
(1) Etevaldo B. Dias
(2) Ellen Pietra
(3) Fátima Fonseca
(4) Márcia Chagas
(5) Etevaldo B. Dias
(6) Sophia Flora
(7) Marcos G. Soares
