UM ÁLBUM DE FIGURINHAS DIFERENTES - OUTROS NOMES E OUTRAS CORES






De que são feitos os dias?

- De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças.

Dentro deles vivemos, dentro deles choramos,

Duros enlaces em novas alianças.

(Cecília Meireles)

 

Álbum de figurinhas. Uma novidade que se repete, particularmente quando é o período da Copa do Mundo. É o futebol na tela, nas camisas, na capa dos cadernos, nas propagandas, nas cervejas, nas praias. Traz de volta outros tempos, outros jogadores. E, assim, os sonhos continuam. E com eles, confirmações, esperanças, surpresas vão sendo construídas. Como lembra Ari Barroso: “Esse Brasil lindo e trigueiro, é o meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro” (e de futebol). No fundo, a memória é também avaliação – reavaliar não só as perdas e ganhos como também os esforços individuais e coletivos. E assim, reaparecem ganhos como também novos e velhos adversários. Entre esses, o mais temido – o medo. Outro álbum de figurinhas apareceu. Diferente. Um álbum só de figuras femininas. Detalhe: não são modelos, nem artistas de novela, nem repórteres de televisão. São mulheres presentes no cotidiano, na história, no trabalho, na política e carregadas de saudade e dor. Um álbum que emociona, lançado a semana passada na Argentina. É uma homenagem às “Mães da Praça de Maio”. Essas mães transformaram a dor e as lágrimas em resistência no período do regime militar daquele país. Denunciaram com silêncio e lágrimas a banalização da vida imposta pela ditadura militar. Elas queriam saber onde estavam os corpos dos seus filhos mortos. Cada figurinha traz foto, nome das mães e dos filhos torturados e assassinados entre 1976-1983 pela ditadura militar. Uma ideia fantástica – não deixar a história ser apagada. Aquelas mães não deixaram que o futuro fosse sequestrado. As silenciosas lembranças, prenhes de ausências, perdas e sentidos devem ser ultrapassadas, pois “a vida é combate, que aos fracos abate; aos fortes, aos bravos só pode exaltar”, como recitou o poeta Gonçalves Dias. A resistência daquelas mães é uma semente que deve ser cultivada. Elas driblaram o medo e fizeram gol num regime autoritário. Este passado não acabou. Assim, construíram, de forma coletiva e participativa, um movimento de resistência. Uma mudança política só se faz com uma cidadania transformadora. A praça em Buenos Aires exigiu coragem, luta, afirmação, troca de ideias, conhecimento. Houve um ensaio de ressurreição. Isso me faz pensar: que tipo de cidadão o Brasil quer ter? Não podemos esperar um salvador improvisado. Precisamos ir às praças, reuniões, grupos, movimentos, debates. Precisamos de esforços coletivos. O encontro com o Outro renova e troca os ventos da vida. As “Mães da Praça de Maio” descobriram o Outro para ir a caminho da praça. Trocaram forças para recriar o país, a política, a cidadania. Uma lição exemplar – esperança compartilhada. Precisamos do Outro para o uso da palavra. Precisamos do Outro para votar no sonho de um “Brasil diferente”. O futuro é o nosso desafio. E, assim, formar uma rede de solidariedade. Colecionar um álbum com nossas cores, lutas e encontros. E os políticos (eleitos) serão nossos conhecidos, nossa voz, nossa sensibilidade. Assim refazemos a unidade perdida.

(Mauro Passos)