NO LIMIAR DA LOUCURA OU DA SANIDADE?

 


Ísis Aurora

Todo mundo tem uma palavra que acelera o coração, às vezes ver um filme que já vi e gosto é melhor que ver um filme chato.

Quando eu olho para uma árvore, sinto que a árvore sou eu; se olho para a água, sinto que a água sou eu; se olho no olho do meu cachorro, sinto que o cachorro sou eu... é como se eu me espalhasse nesses segundos de bênçãos.

Se o que digo atinge alguma coisa, essa coisa não parece desconectada de mim.

Como ficar quieta e calada? Se eu não disser nada, eu sinto que não existo. Eu sou ansiosa e falo sem parar, mas as pessoas que gostam de mim acalmam minha ansiedade, e, por isso, eu sinto que não preciso atacá-las. Quando eu me sinto incapaz, sem controle, meu estômago enjoa, daí eu enjoo sobre o mundo inteiro, parece até que vou morrer, ninguém pode mensurar o significado dessas coisas que acontecem dentro da mim. A vivência da dor é estritamente subjetiva.

Só eu posso decidir o que é transitar por essas experiências do sofrimento e do amor. E que se danem os livros de autoajuda e a psicologia!

Como alguém pode me dizer o que é sofrer ou o que é amor?

Se você é gentil comigo, eu vou te dar tudo que tenho, mas por que eu seria gentil com quem não gosta de mim?

Eu sou que nem papel: se você é ácido eu fico ácida; se você é alcalino, eu fico alcalina.  Mas eu sou um amor de pessoa (risos).

O ponto final (.) de 0,02 mm sou eu, e como cabe tanto ódio dentro disso? como cabe tanto vazio dentro disso?

Algumas vezes, o estrago é feito lá na infância, e acontece uma morte dentro da gente que não tem ressurreição. Será que podemos libertar de uma memória da nossa infância ou de uma fase qualquer da vida? Tem coisa que a gente enfrenta e tem coisa que a gente não precisa enfrentar. A paralisia diante da inutilidade não é uma coisa para se enfrentar. Se a gente ignorar, isso passa, não parece razoável enfrentar o que nos faz mal.

Resolvi que agora não sou capacho de ninguém, e se vier para cima de mim vai ver as consequências (risos).

A vida é história, e é a única forma de provar que eu existo.

Decidi viver uma vida inútil, e nem sei por que fiquei desse jeito, sem me importar com o sucesso ou com o fracasso. Eu gosto de ficar solitária, é como destruição e ódio, e às vezes plenitude e completude, e esse é meu estado padrão.

Mas isso pode parecer grosseiro para outra pessoa que não compreende o espelho das relações.

Talvez o amor seja um conceito e não uma emoção. A palavra amor me faz sentir frustrada. Todo mundo fala do amor, mas eu não sei como é isso. Sentir saudade, querer perto, mas eu sempre me perguntei: o que é exatamente o amor? Será que o AMOR é algo que nos faça sentir animados, empolgados, desanimados... que emoção você sente no momento? Isso não deve ser amor.

As pessoas parecem extrato de emoções e suas portas estão todas fechadas.

MAS QUAL O SEU PRÓPÓSITO NA VIDA?

Por que a natureza te colocou aqui? Que tipo de pessoa você quer ser?

No meu caso, eu só quero ser uma mãe forte, sem o tipo de força que vem de comprar filho com o meu dinheiro ou de fazer conchavos com eles, apenas uma mãe que não se abala por nada e consegue deixar as pessoas ao meu redor tranquilas... na corriqueira impermanência, dias de um jeito, dias de outro jeito (risos). Se gostam de mim eu fico aliviada, se não gostam eu fico ansiosa. Eu absorvo tudo que estão sentindo, sou uma serva de emoções... como eu sou idiota!

Eu nem quero ter sucesso, eu só quero fazer algo útil, para não mais me sentir inútil. Queria ser como o sol, projetar luz e não pedir nada em troca. Eu devia ter me apaixonado pelo sol, eu teria aprendido muito com ele. Nós não sabemos nada do universo, a tabela periódica é 1% do que existe de energia e matéria escura no universo, e a ciência não consegue alcançar esses 99%, que talvez só uma consciência meditativa consiga alcançar.  Da mesma forma, a gente tem sensações que não consegue explicar, pois como explicar um sentimento abstrato em linguagem concreta? Tem um abismo entre elas. Quando vejo cair as folhas da minha árvore, eu começo a desvanecer, e passo uma parte do tempo fechada em mim mesma, mas ao mesmo tempo eu quero cobrir o mundo com o meu ser, cada pessoa do mundo tem que conhecer a minha história. PRONTO, saí da fase da inutilidade que quer desvanecer para outra parte que quer cobrir o mundo inteiro! Mas... e se eu fizer sucesso? Como vou lidar com a inveja de todo mundo? Pessoas bem-sucedidas são chatas, né? (Agora fiquei com medo de ter sucesso, posso perder o meu charme de inútil.)

Eu não quero escrever para que as pessoas me leiam e me gostem, eu quero escrever para sentir que existo, mesmo na INUTILIDADE DA PALAVRA. Às vezes, eu sinto vergonha de mim, será que querer ter sucesso é para sentir menos vergonha? Se eu tiver que pedir ao universo para ter sucesso, eu na verdade vou pedir desculpa, eu quero pedir desculpa para todo mundo que eu senti inveja, ou desejei que não tivesse sucesso. Será que só eu sou assim? Já viu gente ruim fazendo autocrítica? Nunca se retratam, e quanto piores mais se admiram. Em algum LUGAR esconderam a culpa, né?

QUAL FOI O MOMENTO MAIS DIFÍCIL DA SUA VIDA?

Quando eu era criança, o que mais me fazia sofrer era ter consciência, eu sentia que a vida era breve e que todo mundo era falso. Quase sempre, eu sentia que tinha nascido na família errada. Como eu vim parar aqui, caramba? Sempre que uma coisa dá errado eu penso: - Tive muitos problemas na infância! Mas será que o passado é só uma desculpa? A mente da gente vive no passado e a gente vive no presente se esforçando tanto para ter sucesso no futuro, como se nunca fôssemos desaparecer. Ah, que se dane! Vou subir numa montanha e gritar meu nome, e tudo que minha voz alcançar será meu. Não tenho certeza se vou fracassar, mas vou ficar satisfeita de ter tentado.

MAS PARA QUE TER CERTEZA?

Será que minha vida já acabou, e antes de fechar os olhos estou relembrando a minha história?

O pensamento é sempre o passado, não existe nada novo, e isso é a morte.

O que vemos agora é o que não lembramos ainda, isso aqui será uma memória daqui a pouco, vai virar pensamento, e não será mais real. Não há nenhuma certeza sobre a causa e o efeito de uma doença, mas, talvez, a doença real seja a depressão, quando você tem certeza que aquele problema é maior que você e se senta em cima dele e, sem nenhum caminho, só busca a pílula.

É aí que a certeza toma conta e você não consegue enxergar a oportunidade de renascer da morte! As pessoas não sabem nem respirar... expirar e inspirar é mexer com o fogo interno, sabia? Parece que as pessoas estão perdidas, não sabem o que querem, nascem sem falar e morrem sem ter sabido o que dizer. "Passam a vida entre o silêncio de quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, e em torno d'isto, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino", disse Fernando Pessoa.

Por que se apegar tanto à vida? A gente está sempre indo para a morte! E, se na vida, todo dia morremos e renascemos como algo novo, então será que existe morte? A certeza é uma bobagem sobre todas as coisas.

MAS QUEM SOU EU?

Eu sou os meus pensamentos ou o meu corpo? Posso encontrar o que chamam de Deus, ter a mente tranquila, se sou ambiciosa, invejosa, ávida de poder e sucesso?

Seriam as emoções que me fazem parecer real? Ou a realidade só pode ser alcançada se me livrar do pensamento e desse eu que cria todos essa confusão dentro de mim?

Pode existir um observador para anotar em mim mesma as minhas próprias emoções, usando o superego de Freud, ou o eu profundo de Yung (o self), ou quem sabe o "vós sois deuses" de Jesus? Parece que eles quiseram dizer que, na observação profunda da emoção que acontece em mim, a história desaparece, acabam as elocubrações inúteis e as emoções perdem seu poder. Constata-se, pois, que a presença que observa não é a mesma entidade que sente a emoção. EU SOU, portanto, o que nenhuma palavra, pensamento ou emoção consegue matar.

Mas eu sou também a natureza... o inverno, o outono, o verão e a primavera, e, assim como essas coisas não podem ser controladas nessa impermanência, SOU como essas coisas que NÃO PODEM SER CONTROLADAS.

Eu sou a vida, com tamanha dor, tamanho ódio, tamanha infelicidade, tamanha alegria, tamanha felicidade e tamanho AMOR.

E no estado de pura observação, não sou toda essa confusão, EU SOU O VAZIO PLENO que acolhe todas as experiências e os fluxos da vida.