NOTURNO




No silêncio da noite

o ruído do relógio, tic-tac

parece dizer: Deus está morto

 

No silêncio da noite

o cigarro aceso e a fumaça

fazem lembrar o sol que,

montado num cavalo,

voa para outra galáxia

 

No silêncio da noite

a lua parece estar com medo da chuva

quando o rádio toca joni métis

cantando o tema de Romeu e Julieta

 

No silêncio da noite

a mosca voa em volta da luz

sem saber o seu querer

talvez, quem sabe, morrer

 

O time de futebol perdeu

(palavrão)

o creme dental que promete um sorriso feliz

o dente

e o espelho

(colorido, pelo amor de Deus)

 

noite, noite, noite

ah! noite

noite, boa noite

Etelvaldo Vieira de Melo

 

  

CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA: O INSULTO

 

Diretor: Ziad Doueiri

Belerofonte, figura mitológica grega, representa a desmesura nos atos. Mata o próprio irmão Belero involuntariamente, sendo, por isso, considerado impuro. Júpiter o condena a lutar contra a Quimera, a fim de ser trucidado. Adormecido ante o pórtico de sua deusa Atena, aí espera longamente pelos instrumentos de purificação. Então, montado no Pégaso, derrota o monstro.

Numa passagem do filme de Ingmar Bergman, Morangos Silvestres, 1957, entre onirismo, falas filosóficas, alternância de tempos/modos narrativos, Victor Sjöström confronta suas passadas escolhas. Em viagem com a nora, a fim de receber um prêmio médico, adota a solidão voluntária como punição por sua antiga ‘culpa’ (frieza, egoísmo, ausência de compaixão). Façamos, a partir do introito, análise do filme O Insulto, direção de Ziad Doueiri, Beirute/Oriente Médio. Tony Hanna (Adel Karam), cristão libanês, costuma regar as plantas da varanda, negando-se a instalar ali uma calha. Certo dia, acidentalmente, molha Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha), um engenheiro, mestre de obras, refugiado palestino. Humilham- se, e o segundo decide consertar o objeto por sua conta, atitude negada pelo opositor. Sucede um intenso desacordo, que progride em julgamento. Ampla cobertura midiática transforma o fato em conflito nacional.

No caso, nenhum dos personagens se coloca aos pés da deusa ou almeja refletir. Os dois precipitam-se logo no bate-barba cristão versus palestino, malgrado as relembranças da terra natal e abusos na época.

Por uma questão cotidiana, tola, envolvem-se com o imediatismo preconceituoso, incitando grande tumulto geral.

O palestino, contido, perde o trabalho e a segurança. Sabe-se que ele é um ser arquetípico, não possuidor da terra. O libanês, por sua dureza evontade, exagera o ódio racial, visando a destruí-lo.

Passemos ao julgamento. O Insulto seria considerado um filme de tribunal. O pai Nadine (Diamand Bou Abboud), e a filha Wajdi (Camille Salameh), apresentam argumentos capciosos, disputando o poder de arguição. Ele, a favor de Yasser; ela, de Tony. Pares/ parentes, simbolizam também o insidioso fraudulento contra a perspicácia feminina. Tal audiência não é factual, colocando em pauta a dificuldade no ato de julgar. Ainda que haja uma decisão judicial, não existe The End ganhador nem perdedor. A própria idiossincrasia humana explode dentro de um convívio social pluralista em território hoje conturbado. Felizmente, o aceno e sorriso de um para outro, após o dilema, permite uma esperança de paz ao espectador.

Mais algumas intervenções pessoais. Na realidade, a defesa de território político-social é uma ilusão. Acaso Moisés tomou posse de toda a terra de Canaã até os montes Líbanos, no Norte, e até o grande rio Eufrates, no Leste, conforme previa? Flaubert discute a matéria, durante a inútil liberdade sexual de Emma Bovary no século XIX, hostil à sua independência. A história, lógico, termina em suicídio.

Vem Freud com a pergunta: O que quer uma mulher? — enquanto Santo Agostinho afirma: Nossa Pátria é a cidade de Deus. Sartre, existencialista, argumenta: Cada um de nós é somente um projeto quando se projeta.

Note-se, digo eu, que o fim da Segunda Guerra Mundial de Hitler encetou sonhos frustrados, falta de retorno às origens, miséria, ou seja, termo da arrogância dos belos jovens combatentes de ambos os lados.

Ultimando, O Pássaro Pintado, excelente livro de Jerzy Kosinski, baseia-se nas memórias do próprio autor. Fala das deambulações de uma criança deixada ao cuidado alheio durante a Guerra, numa aldeia recôndita da Polônia. A velha responsável morre, e o rapaz se vê sozinho no frio, sem abrigo ou alimento. Sucessivamente marginalizado pela tez morena entre modelares aldeões louros de olhos azuis, recebe atos de agressividade perversa. Entretanto, campeia seu lugar e aceitação no mundo, mesmo rejeitando o convívio familiar. Torna-se, a cada sofrimento, mais forte ante a adversidade.

Conclui-se deste texto que é na base da realidade que temos raízes: não no excesso e na aspereza de caráter.

Graça Rios


NOITE


 

A noite me abraçou

junto com meus anseios,

desejos e fantasia

 

Não havia luz na terra

nem estrelas no céu

- só havia a escuridão,

o silêncio, o vazio -

 

Eu não tinha fósforos

não tinha lanterna

não tinha bússola

 

(O frio e o vento me acariciavam,

roubando-me o alento da procura daquilo que tanto queria)

 

(Tropecei, sem saber se era lata de lixo ou flor)

 

Queimei minhas energias

meu sorriso engoli

sufoquei minha dor

gastei todo meu dinheiro

e minha esperança se foi com o tempo

- na procura do que eu mesmo não sabia -

 

Etelvaldo Vieira de Melo


A DEUS

 

A    DEUS

para Regina Leão

 

Minha infância

ansiava viver

no mato

— alto —

 

dentro dum

cálido ninho,

pois era filha

de passarinho.

 

Criança

! quase mansa !

concertava

louras toadas

 

junto a douradas

aladas

(às vezes,

caladas

andorinhas).

 

Havia o córrego,

onde molhava

pezinhos,

essa pequena

 

enorme Helena,

tão ente

sozinho…

 

(

Velho Afonso

vê arrelia

nesse triste belo horizonte.

 

Ai!

Deslisa ainda,

ao longe,

in fonte

dos olhos

 

folhos de mágoa

uma lágrima:

Ah! pena

)

 

onde estão

as lavadeiras,

ligeiras

formiguinhas,

lavando roupa

 

clarinha,

ora escura

frágua?

 

Ai, dilúvio!

Tempos

templos idos,

 perdida

 

história

desta infante

rememória ,

 

              Graça Rios


ISRAEL X PALESTINA

 

                               (Heleno Célio Soares)

No solo antigo,

Onde o sol se deita,

Entre as terras...

E onde a história se entrelaça...

Israel e Palestina,

Numa dança feita,

Sobre promessas e dores,

Sua vida se embaraça.

  

Ecoam-se histórias milenares...

Cada pedra carrega um suspiro...

Almas marcadas por lutas singulares...

E... Em meio a cicatrizes...

O tempo é um tiro.

 

JERUSALÉM!

Cidade de crenças entrelaçadas...

Aí se reza em línguas

De deuses distintos.

As lágrimas caem

Em terras sagradas...

A paz e o conflito

Tecem seus instintos.

 

Os olhos,

De lágrimas carregados

De quem ali habita

Sentem a sombra da dor

E da separação.

Rogam por um futuro...

Mas... A paz

Que reúne compaixão

Não é vista.

 

Que a esperança,

Como uma estrela a brilhar,

Guie passos à reconciliação.

Seja a paz a bandeira no ar,

Unindo corações

Na mesma canção.

  

Israel e Palestina...

Terras irmãs...

Numa jornada, dia a dia...

Que encontrem paz e harmonia...

Que o amor

Supere a fronteira final

E floresçam a paz e a alegria.


O CANTO DA SEREIA





 

AS SEMENTES DA CORGAEM E O SOM DA COR

 

“O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África”.

(Antônio Vieira)

Pessoas, livros, mapas e líderes existem para nos ajudar a percorrer caminhos.  Muitas questões, conceitos e preconceitos estão presentes na história dos povos. Na história e nos becos do Brasil. O som da cor acompanha as versões e interpretações da nossa cultura. No trilho de vozes, nas mãos calejadas pelo trabalho duro e no brilho de rostos que canta e encanta, a raça negra construiu o Brasil. Forçados a migrarem para o Novo Mundo, várias nações e tribos africanas fizeram o Brasil. As gerações que se seguiram colheram os frutos dessa gente sofrida. Entre tantos líderes, permanece viva a figura de Zumbi dos Palmares. Encarna e lembra muitos líderes que “fizeram o brasil, Brasil” e que "fazem o Brasil", trazendo lições de trabalho, arte e afeto.

No final do século XVII, o padre Antônio Vieira afirmou: “O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África”. O que foi acontecendo, ao longo dos séculos, com nossa brasilidade e maneira de perceber a história? Na diáspora social, a afirmação da “consciência negra” foi-se sedimentando com dor, coragem, arte e conquistas. Não se pode esquecer que o racismo, como ideologia elaborada, é fruto da cultura moderna a serviço da dominação. O combate ao racismo acontece no interior da luta social, através de um processo de “descolonização cultural”. Segundo a filósofa Angela Davis: “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

O preconceito e a segregação, segundo o filósofo Martin Buber, põem a relação “Eu-Isto” em lugar da relação “Eu-Tu” (o Outro) e termina por relegar as pessoas à categoria de coisas. Tudo que degrada a pessoa é injusto, fere a alma e rebaixa o ser humano. As diferenças culturais, religiosas, de raça e gênero, como outras, são reais e históricas.

Como sempre, a inspiração para a luta vem das bases com os movimentos sociais e a articulação de grupos pela justiça e pelos direitos humanos, políticos e sociais, apesar dos limites que fazem parte da história. Diante da “ordem burguesa” ou do “branco moderado e morno”, somos convidados a abrir propostas solidárias e éticas, a suscitar não apenas emoções, mas inquietações para estimular outras ações a serviço de uma causa humana, social e cultural justa.

É bom lembrar a “Missa dos Quilombos”: letra de Dom Pedro Casaldáliga, Pedro Tierra e Milton Nascimento. Foi celebrada em Recife (1981). Na homilia, Dom José Maria Pires afirmou: “Mais longa que a servidão do Egito, mais dura que o cativeiro da Babilônia, foi a escravidão do negro no Brasil. O negro como negro continua marginalizado”. Isso lembra tantos espancamentos, assassinatos e violências, São vítimas desse processo histórico perverso. Como a música de abertura da Missa dos Quilombos: “Estamos chegando do alto dos morros / estamos chegando da lei da Baixada / das covas sem nome chegamos / viemos clamar”. O passado vive pesadamente nas consciências.

No Brasil, atualmente, tem-se falado muito o nome de Deus. Muitos partidos políticos proclamam: “Deus, família e democracia”. Qual Deus? Na realidade emagrecem a democracia. Infelizmente ainda caminhamos no século XXI com uma sociedade adaptada ao status quo. Como tornar real a democracia?

O problema não é novo. É de todos os tempos. Quem mais proclama o nome de Deus é quem tem menos direito de falar dele. A história guarda cenários para interpretar o tempo presente. A solidariedade não é apenas uma resposta a problemas individuais, mas a problemas sociais. A união dos seres humanos é o cimento da moral.

Nossa brasilidade é construída com cores e dores. O tema “Consciência Negra” é um convite à reflexão para um amplo debate na sociedade e, assim, continuar os enfrentamentos – avançando e abrindo caminhos de humanização. Concluo com o pensamento de Martin Luther King em sua “Carta a colegas de bom senso”: “Chegamos agora ao momento de tornar real a promessa da democracia e transformar nossa promissora elegia nacional num salmo criador de fraternidade. Chegamos agora ao momento de elevar nossa política nacional da areia movediça da injustiça racial ao rochedo inabalável da dignidade humana”. Não importa quão duro seja o presente, precisamos reinventar o futuro com sementes de coragem, esperança e solidariedade.

Mauro Passos

O FIO DE ARIADNE


Imagem: Pinterest







JUDAÍSMO E SIONISMO



A postagem desta semana é do amigo Heleno C. Soares. Ela vem nos ajudar a entender conceitos amplamente empregados, mas nem sempre bem compreendidos. Daí, pessoas emitindo opiniões sem fundamentos, provocando novos motivos de discórdia.

Judaísmo e Sionismo

                                

Nas páginas do tempo, um conto a desvendar...

DUAS sendas DISTINTAS a se entrelaçar.

JUDAÍSMO e SIONISMO... Sob o céu a dançar...

Um poema tecido... A verdade a revelar.

 

No coração ancestral, o JUDAÍSMO floresce

Crenças e tradições que não envelhecem.

Na Torá... A sabedoria que ao povo enriquece,

Um vínculo com o divino... E o tempo estremece.

 

À sombra desse sol, um movimento político surge:

SIONISMO, no horizonte. O estandarte emerge...

Não só fé, mas território almeja e dirige

Para um lar “prometido”, onde a esperança insurge.

 

SIONISMO... Uma ideia, sonho a concretizar...

Retorno a terra, um lar a reivindicar.

Mas...  No diálogo da história, é preciso notar

Que, entre AMBOS, há caminhos distintos a trilhar.

 

O JUDAÍSMO, um laço espiritual,

Com JEOVÁ e história, pacto imortal.

O SIONISMO: um movimento terreal,

Busca de um lar, onde o povo possa estar.

 

Assim, nesse poema, a diferença desenha,

Entre a FÉ ANCESTRAL e o TERRITÓRIO que se empenha.

JUDAÍSMO e SIONISMO, cada um em sua trilha,

Numa dança complexa, onde a história brilha.

 

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Observações:

1)      JUDAÍSMO: É uma religião monoteísta que surgiu com os israelitas no território Oriental. Provém de uma das tribos nômades da região. São assim chamados porque se consideravam descendentes de Jacó, que mudou seu nome para Israel.

2)      SIONISMO: Movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e a existência de um estado nacional judaico. É um movimento internacional que resultou na formação do Estado de Israel.

SER contra o SIONISMO (antissionista) NÃO é ser contra o povo judeu. São duas coisas bem distintas.

Heleno Célio Soares

 

ALI-BABÁ

 


NOVOS CALHAUS BLOGUÉTICOS

 

“Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de ternura.”

(Thiago de Mello e sua quase utopia)

 

📌📌📌 Questão de Semântica 📌📌📌

Estado não é terrorista. Que terrorismo é palavra feia, coisa de facção, de grupos, de comunistas e afins. Enquanto isso, enquanto a Imprensa determina que Estado não pode ser terrorista, Estados praticam terrorismo sem serem terroristas.

 

 🏆🏆🏆 Questão de Torcida 🏆🏆🏆

Em canteiro de principal avenida do bairro, alguém teve a ideia de construir um varal e nele dependurar bandeiras de Israel e do Brasil. Junto delas, dependurou bandeiras do Cruzeiro e do Atlético. Percebi que o autor é um aficionado do futebol e imaginei que torce para Israel no jogo contra a Palestina. Faz ele ideia que a vitória de Israel não vai ser traduzida em gols, mas em mortes, milhares de mortes de mulheres e de crianças? Caro futebolista: a questão aqui não é ser a favor deste ou daquele, de judeus ou palestinos. O que importa é defender a Liberdade, a Igualdade, a Paz e a Justiça. Que não se concretize a profecia de José Saramago, ao dizer: “Um dia se fará a história do sofrimento do povo palestino e ela será um monumento à indignidade e covardia dos povos”. Quer você receber a pecha de desprezível e covarde?

 

✋✋✋ Questão de Entendimento ✋✋✋

Quarta-feira, 8 de novembro de 2023, o embaixador de Israel se reuniu na Câmara com oposicionistas e Jair Bolsonaro, para exibir um filme do atentado do grupo Hamas em Israel. Fiquei sem entender muita coisa. Quer ele trazer a guerra com os palestinos para o Brasil? Um embaixador não representa papel de Estado? Ele não deve agir como tal? O senhor Embaixador tem que meter o nariz em questões de política interna de outro país? Seria conveniente nosso embaixador fazer o mesmo lá em Israel (por exemplo, reunir com a oposição para reclamar da demora em liberar brasileiros retidos em Gaza)? E o suprassumo de minha ignorância: o que Bolsonaro estava fazendo ali? Por acaso é parlamentar? O que sei: ele sempre demonstrou simpatias com o neonazismo. Mas isso talvez não venha ao caso, talvez a extrema-direita que está no poder em Israel seja ela mesma... nazista (por mais absurdo que isso possa parecer).

 

💥💥💥 Questão de Sentimento 💥💥💥

Quando da pandemia da Covid 19, um pensador israelense disse que aquela calamidade iria fazer brotar uma nova consciência de solidariedade universal e de preservação da Natureza. Infelizmente, ele se enganou. Eu me arrisco a sonhar que o conflito entre judeus e palestinos vai criar a consciência de um modo novo de povoar a Terra, promovendo o encontro e o entrelaçamento de mundos diferentes, criando alianças e espalhando solidariedade. Caso tal não aconteça, podemos desistir de vez desse projeto que é o ser humano, permitindo que uma bomba venha destruir toda a humanidade.

Etelvaldo Vieira de Melo


PEQUENA MÚSICA PARA A NOITE

 


Graça Rios


Graça Rios


SER OU TER, EIS A VERDADEIRA QUESTÃO


 

Quando caminhava na linha da pobreza, costumava proclamar aos sete ventos que o importante na vida é o ser, não o ter. Quando era pobre nem tanto, começou a ter suas dúvidas. Pensava assim: se a felicidade não é um estado definitivo, mas algo constituído de momentos, é bem provável que o ter pode, sim, ser importante, ou seja, o ter pode ter valor, ser um bem. Quando a China passou a disponibilizar, através das chamadas marketplaces, bens de consumo a preços acessíveis, chegou à conclusão acabada de que ser e ter caminham lado a lado na obtenção dos chamados momentos felizes, ambos com seu grau de importância, nunca um podendo se sobrepor ao outro. Como chegou a tal veredicto? Observando que o Humanismo é uma ideologia inerente ao ser humano e o Capitalismo é o sistema econômico que conseguiu sobreviver ao longo dos séculos. O Humanismo proclama que o Ser é a base da Felicidade, enquanto o Capitalismo diz que é o Ter.

Nosso amigo em questão buscou um arranjo existencial entre esses aparentes opostos, estabelecendo para si mesmo este princípio:

- Eu serei na medida em que tiver, assim como terei na medida em que eu for. Se não sou, não poderei ter; se não tenho, não poderei ser. Porque sem ser não há ter, assim como sem ter não há ser. Por via de consequência, terei sendo, do mesmo modo que serei tendo.

Acha que esse amigo está querendo “dourar a pílula” de sua compulsão para o consumismo? Que seja. Mas você precisa ter certeza de uma coisa: ele estava se sentindo muito bem entre uma comprinha e outra, tomado de discreta alegria pela vida ter lhe proporcionado as possibilidades de ter e de ser.

Não obstante o promissor andar da carruagem, cabe não esquecer que vivemos no Brasil, e o Brasil é aquele país das possibilidades mais absurdas e inusitadas, conforme podemos inferir da fala de Marcelo Claure, presidente do conselho consultivo da Shein para a América Latina, ao dizer que “o Brasil é um país complicado em termos de estruturas tributária, logística e regulatória”.

Se um alto executivo, acostumado com todas as tramoias possíveis e imagináveis, pensa assim, imagina o que pode suceder com um vulgar brasileiro.

Tempos atrás, estando esse nosso amigo fazendo compras numa loja de produtos para casa, o balconista lhe fez esta pergunta:

- Quer com nota fiscal ou sem nota?

Pego de surpresa, retrucou:

- O que você acha melhor, tendo em vista o bem de nosso Brasil varonil?

- Penso que é sem nota fiscal – respondeu o indivíduo, sem pestanejar. – Assim, você não estará segurando a escada para as roubalheiras nas altas esferas.

Quando o atual governo quis fazer média com o dito comércio nacional e com os governos estaduais, ao mesmo tempo em que amealhava algo para seu próprio bolso, que ninguém é tão altruísta assim, instituiu um programa chamado “Remessa Conforme”, a fim de regular as compras feitas por meio das plataformas voltadas para produtos importados.

A regra instituída já veio com uma pegadinha: compras até US$50 estão isentas de imposto, sendo aplicados tão somente 17% de ICMS sobre o valor do produto e seu frete; as compras acima de US$50 serão taxadas com um imposto de 60% mais o ICMS de 17%, chegando ao total de 92% (aí está a pegadinha do juro sobre juro).

- Está bem, eu engulo essa aritmética, já que não pretendo fazer compras que ultrapassem os US50 – falou o amigo em questão para seus botões. – Vamos às compras, já que meu Ter está ficando defasado em relação ao meu Ser.

Assim que a Remessa Conforme começou a vigorar em agosto/2023, foi ele fazer uma singela compra de um desumidificador de aparelho auditivo na sua plataforma de compras favorita. O produto custou no total a importância de R$67,81. Poucas semanas depois, foi notificado de que o aparelho havia ficado retido em Curitiba por causa de tributos a serem pagos. Os Correios recomendavam gerar o boleto para pagamento, algo mais do que 90 reais. Indignado, o já não tão amigo se recusou a pagar, enviando os dados comprobatórios do preço da mercadoria. Dias depois, a Receita repassou os valores “corrigidos”:

- Imposto de Importação: R$40,68

- ICMS:                             R$38,42

- Multa:                             R$  6,68

- TOTAL:                           R$85,88

O já inimigo, analisando os valores cobrados, chegou às conclusões:

- A Receita Federal reconheceu o valor da compra como sendo de R$67,81, uma vez que cobrou o imposto de R$40,68 (60% do total pago), valor abaixo de US$50 – o que seria isento de tributação;

- Cobrou, também, fora de propósito – por reclamar um direito? -, uma multa R$6,78 (10% de R$67,81);

- Sendo mais realista do que o rei, anexou uma taxa de R$38,42 ao valor da compra, a título de ICMS.

O agora inimigo visceral da Receita Federal, do Ministério da Fazenda e afins, tenta entender o porquê da cobrança do imposto e do ICMS. Ele se perdeu em cálculos, tentando encontrar uma resposta. Acompanhe seu raciocínio:

- Se a taxa de ICMS fosse de 17% sobre o valor do produto, teríamos: 17% de 67,81 = R$11,57 (valor que estaria atendendo às normas baixadas pela Receita e que teria aceitação do querelante);

- Se a taxa de ICMS fosse de 17% sobre o valor do produto + imposto de importação, teríamos (67,81 + 40,68) X 17% = R$21,84;

- Se a taxa de ICMS fosse de 17% sobre o valor do produto + imposto de importação + multa, teríamos: (67,81,81 + 40,68 + 6,78) X 17% = R$23,00.

Em todas as situações, a taxa de ICMS nunca chegaria ao valor de R$38,42.

Sendo assim, ou seja, considerando que as cobranças do imposto, da multa e do ICMS se afiguram ilegais, irracionais e imorais (não estou falando de você não,  Alexandre), meu amigo desiste do aparelho desumidificador. Diz que pode ser doado para leilão dos BBB (Bens para o Bem do Brasil). Como o aparelho auditivo que dispõe corre risco de estragar por causa da umidade, o amigo pensa encaminhá-lo para esse tal leilão. Aceita, dona Receita?

Etelvaldo Vieira de Melo