LÁ VEM O PAPO (IV)


    ??????

 Cresce o dente.

   A unha cresce.

   Cresce o nariz.

    Então, gente

       tem raiz?

                           ?        ??

ROCOCÓ

Olho de vidro,

 nariz de pica-pau,

 aleijadinho?

 Coisas à-toa.

 

Até a borboletinha

tá na cozinha

fazendo chocolate

para o padrinho

                                                Mestre escultor Antônio Francisco Lisboa.


MILLENNIAL

Quantos séculos

tem um dia

de alegria?

Graça Rios

 


ENTRE BUGIGANGAS E VADIAGENS





    Li na Internet: “O Governo Federal prepara uma medida provisória para taxar todos os produtos importados por Marketplace como Ali Express, Shopee e Wish em 60%. A alíquota única de 60% é cobrada, atualmente, apenas em produtos que ultrapassem US$ 50. A nova medida provisória pretende taxar todos os produtos comprados nas plataformas. A ação do Governo é uma resposta à demanda de empresários brasileiros, liderada por Luciano Hang, dono da rede Havan, contra o chamado "camelô digital" (mundoconectado.com.br).

Bolsonaro fazer isso será colocar a cereja no bolo de seu (des)governo. Na minha opinião, já que, para muitos, ele é o melhor presidente que já tivemos nesse Brasil varonil. Tem gosto e interesse para tudo. Mesmo desgostando, tem gente que gosta. Fazer o quê. Estamos vivendo um tempo onde está se tornando cult cultivar a cretinice, a estupidez e a ignorância.

Mas eu fico querendo entender: não dizem que o capitalismo é o suprassumo da bondade? Pois, então, por que não deixar a patuleia usufruir um pouco do consumismo?  Se você abrir as páginas desses chamados “camelôs digitais”, vai ler comentários de consumidores falando da mais pura alegria por terem comprado uma bugiganga pela bagatela de 7 reais! Negar esse prazer para os menos favorecidos parece gesto da mais pura maldade. É como se dissessem assim: o capitalismo é para a classe dos privilegiados. Os menos favorecidos têm mais é que ficar chupando o dedo!

Foi isso que comentou o funcionário dos Correios, quando veio me entregar um rato sem rabo (fio) e com bluetooth, que eu havia importado da China.

- Todo dia eu sou testemunha da alegria de dezenas de pessoas com suas pequenas compras de produtos importados. Acabar com isso é pura maldade, própria de gente sem coração.

Pelo que estou vendo, Bolsonaro quer adotar dois sistemas econômicos para o país: para uns, o capitalismo, com direito a depredar o meio ambiente, envenenar as lavouras com agrotóxicos, encher os bolsos e as cuecas com propinas de orçamento secreto, cumprir as ativas e as reservas regadas a uísque, filé, picanha, leite condensado, prótese peniana e viagra; para outros, o comunismo da penúria, do gás nas alturas, do chuchu a preço de caviar, do osso pra roer.

Enquanto o Brasil tenta se equilibrar nessa balança desigual, o presidente encara sua função como se fosse uma brincadeira. Feito criança que não vê limite para o que quer e o que faz, está todos os dias estourando seu cartão corporativo, uma espécie de cartão de crédito pago com dinheiro público. Entre janeiro e fevereiro de 2022, só ele gastou R$ 1,8 milhão. Até dezembro de 2021, seu governo utilizou R$ 29,6 milhões de verba pública para cobrir o tal cartão.

Fora isso, temos que considerar também o que ele gasta com suas férias. Puxe uma calculadora (made in China):

- As que ele passou em São Francisco do Sul, SC (14-23/12/2020, 08-17/02/2021 e 27/12/2021-02/01/2022) custaram a bagatela de R$ 2.377.101,36. Para passar a véspera do Natal do ano passado em Guarujá, no litoral de São Paulo, nosso amado presidente gastou, junto com sua comitiva, R$ 130.795,96 por dia, durante uma semana. Os gastos entre 17 e 23 de dezembro somaram R$ 915.571,72.

Vamos falar dos passeios de moto?

- Quando foi a Chapecó (22-26/06/2021), foram gastos no total R$ 454.532,94. Já sua ida a Florianópolis (03-07/08/2021) ficou por conta de R$317.223,11.

Já disse aqui neste espaço blogosférico que tenho muita dificuldade em lidar com cifras. Quando elas passam de R$ 10.000,00, minha vista começa a ficar embaralhada, minha cabeça começa a doer e o estômago passa a ficar embrulhado. Como solução, costumo traduzir os valores em anos de trabalho de um assalariado. Sendo assim, tendo por base o salário mínimo de R$ 1.212,00, só o que Bolsonaro gastou com seu passeio em Guarujá (R$ 915.551,72) corresponde a mais de 58 anos de trabalho de um assalariado. Ou seja, ele teria que trabalhar a vida inteira para ganhar o que Bolsonaro gastou numa semana!

Depois que deixou nas mãos e nos bolsos do Centrão o governo do país, a doce vida de Bolsonaro ficou ainda mais suave, aí é que foi vadiar de vez – usando expressão do colunista Vinícius Torres Freire.  O que faz agora é só passear, torrando seu cartão corporativo. Seu ‘trabalho’ mais pesado é fazer propaganda para sua reeleição ou ameaçar dar um golpe, com ataques sistemáticos ao Supremo e às instituições democráticas. Enquanto isso, pegando algum $ por fora da indústria armamentista, ele usa seu papel de influencer, espalhando o mote: “Povo armado jamais será derrotado!”.

No meio de tanto barulho, tem gente que faz vista grossa com esse desperdício de dinheiro público, diz que Bolsonaro é um mito ou um messias.  Só acha absurdo é um pobre coitado gastar sete reais comprando uma bugigangazinha da China.

Para acabar com tal desmando, a receita é dada pelo próprio, quando questionado sobre os gastos com seus passeios. Ele diz:

- Se achar que eu não devo sair mais de folga (!), se eu virar candidato à reeleição, que não vote em mim, aí eu não vou estar mais aqui no hotel gastando esses milhões. Talkey?

- Talkey, Mito. Está anotado aqui na agenda para 2 de outubro.

Etelvaldo Vieira de Melo

LÁ VEM O PAPO (III)

 
Imagem: Vou Passar

MIRAGEM

Mula sem Cabeça,

espelhando-se nas águas

da lagoa

revela-se mágica

pessoa?

 RÁ                                                                            RÁ                   

  Beth Barata

  diz que tem

   mil e um fãs                                                   RAM

só no Instagram.

                        RÃ

 RAM

                                       RÃ

MAROCAS

Tava a velha em seu lugar

com seu fio a fiar

Fia fio 

desconfia,


vem a mosca lhe fazer mal.

A mosca na velha

era dengue.

A tal,

perrengue perrengue,

bejim, bejim,

tiau tiau.

Graça Rios


NO DIA DAS MÃES, A MÃE, SUAS NORAS E OS FILHOS DA MÃE


Foi naquele restaurante sofisticado que se reuniram para comemorar o Dia das Mães. A reserva havia sido feita pelo filho mais novo.

Janice se sentia um pouco incomodada com a presença das noras. Há tempos, já havia notado certa animosidade por parte delas. Ela se perguntava se não era ciúme, medo que elas tinham de compartilhar os maridos. Julgava aquilo uma bobagem muito grande, mas não havia encontrado meios de quebrar aquela barreira. Agora que estavam todos ali, quem sabe não seria a ocasião de derreter aquele gelo! Pensando nisso, seu olhar ia de um filho ao outro, ela se sentindo orgulhosa de vê-los bonitos e bem sucedidos. Por quanto tempo ficou assim embevecida, não sabia precisar. Tudo durou até o momento em que percebeu os olhares rancorosos das noras em sua direção. Foi aí que baixou os seus, modestamente, para o guardanapo sobre a toalha da mesa.

Rogalício, o filho mais novo, conversava com o garçom. Este estava lhe explicando:

- Como você pediu um vinho envelhecido, tive o cuidado de deixá-lo aerando por cerca de duas horas. Ele será servido em um decanter, numa temperatura entre 16 e 18 º C. Tudo bem?

- Ótimo – falou Rogalício, enquanto que, distraidamente, pegava a taça que estava à sua frente pela haste com a mão esquerda e dava-lhe um toque com a unha do dedo indicador da mão direita.

Torradas haviam sido servidas, juntamente com pastas de tomate seco. Rodartino, o filho mais velho, enquanto comia uma torrada, estava pensando: “Eu não devia permitir que meu irmão tomasse a iniciativa de tudo isso. Para mim, seria ótimo que o cardápio fosse à base de massas e cerveja”.

Rogalício parecia ler seu pensamento. Foi então que estabeleceu, mentalmente, um diálogo com o irmão:

- Você precisa aumentar um pouco seu nível cultural. Pensa que tudo isso é bobagem?

- Não penso – respondeu Rodartino, na imaginação de Rogalício. – Pode dar uma de enólogo e me explicar didaticamente o que acontece.

- Que ótimo. Veja bem. Um bom vinho, quando exposto ao oxigênio do ar, sofre ações benéficas, liberando mais intensamente seus aromas e aprimorando seus aspectos gustativos. A aeração ou respiração do vinho é feita justamente para que ele mostre a sua estrutura e complexidade de aromas. Ela deve durar de 1 a 3 horas e pode ser feita num decantador ou decanter, expressão em inglês, e que se presta, também, para acomodar os sedimentos ou borras acumuladas no fundo da garrafa. Nosso vinho será servido num decanter.

- Rogalício, estou observando garçons limpando gargalos de garrafas com panos. Por que eles fazem isso?

- A cápsula que envolve a tampa da garrafa pode ser removida com um acessório chamado corta-cápsulas ("foil-cutter"). Essa cápsula é feita de chumbo, um material tóxico; daí, a necessidade de se limpar bem com um pano o gargalo da garrafa. Um detalhe importante diz respeito ao saca-rolha. Sua haste não pode ser como um parafuso, mas deve aparentar o rabo de um porco, com passes longos, para que abrace firmemente a cortiça e não esfarele a rolha. É importante também que ela seja revestida de teflon. 

Enquanto assim dialogavam, o garçom se aproximou com a jarra de vinho. Rogalício pegou sua taça pela haste. Assim que foi servido, ele ergueu a taça contra a luz e a agitou em movimento giratório. Enquanto isso, explicava ao irmão:

- Segurando a taça pela haste, evito que o calor da mão aqueça o vinho e altere sabores e aromas característicos; erguendo a taça contra a luz, observo a intensidade da cor, se é mais fechada ou transparente; quando a agito em movimentos giratórios, estou oxigenando a bebida, fazendo com que libere mais facilmente todos os aromas. Com esse movimento, também percebo a viscosidade do vinho, suas “lágrimas” e seu corpo. Agora, estou inclinando a taça contra um fundo branco, meu próprio guardanapo, e vejo que nosso vinho apresenta uma cor acastanhada e aquosa, com claros sinais de evolução.

- A explicação está ótima, mas não haveria meios de finalizá-la?

- Que seja. Um vinho se toma através de três etapas. Visualmente, observe se ele é límpido, brilhante, transparente. Note os tons dos reflexos, as lágrimas, os filetes viscosos que escorrem pela parede interna da taça, ao agitá-la. Quanto mais numerosas forem as lágrimas, mais alcoólico é o vinho. Esse apresenta um tom acastanhado, porque se trata de um vinho evoluído, envelhecido. A etapa olfativa talvez seja a mais rica da degustação. Deixo para que você possa desvendar pessoalmente aqueles aromas primários, originários da própria fruta, como os de frutas ou flores; os aromas secundários, aqueles produzidos durante o processo de elaboração do vinho e que apresentam várias espécies de famílias: frutada, floral, herbácea, vegetal, mineral... e, finalmente, os aromas terciários, os chamados buquês e que representam a evolução na garrafa de todos os aromas anteriores. A última etapa é a degustação e você verá que o sabor doce é percebido na ponta da língua; o ácido, nas laterais e o amargo, no fundo da língua. Um bom vinho, no caso dos tintos, é aquele que apresenta equilíbrio entre tanino, acidez e álcool. Em resumo, seu tanino deve ser macio ou elegante, sua acidez adequada - que irá lhe conferir exuberância e vivacidade - e um teor alcoólico que não provoque calor e ardência na boca. 

Depois desse ritual todo e dessa conversa imaginária com o irmão, Rogalício deu parecer de aprovação ao garçom. O prato principal foi servido: Fondue de Carne, acompanhado dos molhos tartare especial, chutney de alho, quatro queijos e molho de ervas.

Enquanto Rodartino, que já havia dado conta praticamente sozinho das torradas, atacava com entusiasmo as carnes, os molhos e a bebida, Rogalício quase que só tomava vinho, como se estivesse num ato religioso. Já as três mulheres comiam e bebiam com moderação e aparente afetação.

No final, encerrando a sessão, sem que nenhuma das partes reclamasse, a conta foi pedida. O garçom, prestativo, a trouxe numa bandeja. 

Rodartino olhou-a de relance e disse:

- Passo.

Entregou a conta ao irmão Rogalício, que a olhou curioso e disse:

- Passo.

Finalmente, ela chegou às mãos de Janice, motivo daquele encontro e comemoração. Ela olhou o valor da nota, sentiu um aperto no coração, mas armou-se de coragem para abrir a bolsa e retirar dali o valor que deveria ser pago.

Todos voltaram para suas casas felizes e contentes. Quer saber se o gelo entre mãe e noras foi quebrado? Não é possível dizer que sim, uma vez que a história se passa em noite de muito frio.

Etelvaldo Vieira de Melo


LÁ VEM O PAPO (II)

 

SÓ RISO

Se não tem

palhaço

em cena,

quem faz

cócegas

na hiena?

 

O MÍNIMO

Por que

não pagam

salário

às abelhas

operárias?

 

QUENTÃO

Noite fria

de São João

leva o olho

ou o balão?

Graça Rios


AOS PERDEDORES, A CEBOLA

 

Cebola faz chorar. Quem trabalha na cozinha sabe muito bem disso. Segundo Germano Luís Marinho, do Colégio Técnico da UFMG, no interior das células de uma cebola há compostos químicos que contêm enxofre. Ao cortar a cebola, rompem algumas células, liberando substâncias químicas no ar. Tais substâncias, sob ação de enzimas, se transformam em compostos sulfurados, que evaporam facilmente. Os compostos sulfurados, liberados quando cortamos a cebola, reagem, transformando-se em gases que irritam os olhos. Entre eles está o gás sin-propanetial-S-óxido (C H OS). Esse gás reage com a umidade dos nossos olhos, formando uma solução muito diluída de ácido (provavelmente ácido sulfúrico), que produz a sensação de queimação e irritabilidade. Como os olhos são muito sensíveis, o organismo reage, produzindo mais água nos olhos, para que o ácido seja diluído, até que pare a irritação.

Existem algumas técnicas que permitem amenizar o desconforto de quem descasca uma cebola. A mais simples delas recomenda que seja mergulhada numa vasilha d’água. Desse modo, ela pode ser fatiada à vontade, sem exalar seu vapor assassino.

Além de nos fazer chorar quando a descascamos, a cebola também está fazendo as pessoas chorarem quando vão a um supermercado ou sacolão para comprá-la. Isso por causa de seu preço, que está chegando lá nas alturas. Tal disparada de preço está acometendo toda espécie de leguminosa, hortaliça e fruta. Dia desses, fazendo minha tradicional compra lá no Sacolão Gigante, que é gigante no tamanho e quer ser pequenino no preço, fui surpreendido por uma espécie de carro forte com guardas, estacionado em frente ao estabelecimento. Imaginei que estivesse ali para recolher um pouco da féria. Para minha surpresa, vi que, na verdade, ele estava protegendo o descarregamento de algumas caixas de cenoura.

Tal preocupação tenho observado em outras situações. Outro dia, a avenida principal aqui do bairro foi tomada por algumas motos, fazendo papel de batedores. Atrás, desfilavam aqueles carros fortes, abarrotados de guardas armados. Num primeiro momento, até pensei que o presidente Bolsonaro estivesse fazendo uma motociata no bairro. Cheguei até a pensar que ele fosse parar na esquina do Açougue Três Amigos, onde tradicionalmente é vendido um churrasquinho no espeto assado em brasas, para saborear um de camarão, com risco de ficar engasgado. Mas me dei conta de que todo aquele aparato era para proteger um caminhão carregado de botijões de gás.

Falando em Bolsonaro, sua eleição para presidente veio mostrar que não devemos lamentar tanto o presente, uma vez que o futuro é sempre pior, que essa história de chegar ao fundo do poço é ficção, com o Brasil se mostrando um buraco sem fundo. Mas não sou de todo pessimista. Na perspectiva do futuro, vejo que o presente está ruim, mas está bom, já que caminha para ser pior. É assim que pensa certo tipo de brasileiro: está ruim, mas está bom.

Esta reflexão me ocorre após a leitura de uma notícia através de meu querido smartphone: uma liquidação de cebolas em um supermercado na região administrativa de Planaltina, no Distrito Federal, causou confusão entre clientes. Tal fato sucedeu no domingo (1º.mai.2022). O produto estava sendo vendido por R$ 0,99 o quilo. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram consumidores brigando para encher o carrinho (aparentemente, não houve mortes e ninguém ficou seriamente ferido). O episódio se deu durante a inauguração de uma unidade da rede Atacadão Dia a Dia.

Como todo mundo sabe (embora muitos finjam que não sabem), o projeto de governo de Bolsonaro é destruir tudo de bom que foi feito até agora no país. De forma brilhante, ele está conseguindo: em um supermercado, as pessoas se agridem por causa de cebolas; em frente a um outro, tentam pegar retalhos de osso para, quem sabe, fazer ensopado em fogões alimentados a gravetos e pedaços de papelão.

Como bem diz Machado de Assis: ao vencedor, leite condensado, picanha, vinho, prótese peniana, viagra e camarão; ao vencido, as cebolas e osso para roer.

Etelvaldo Vieira de Melo


LÁ VEM O PAPO (I)

 

TOQUE   DE SILÊNCIO

                                                                         - Pombinha branca, o que está fazendo?

                                                                                        - Dizendo às crianças

                                                                                           que a Paz é fonte

                                                                                           das mansas águas.


CRIAÇÃO

Quem deu bico

ao tico-tico

patas

ao pato

rugas

à tartaruga

também

deu pena

ao menino poeta?

 

AQUARELA

 Qual a caixa

de lápis de cor

    coloriu

 o beija-flor?

Graça Rios

 

 

VAI? NÃO VAI? RACHA? LASCOU!

 

O tempo vai passando

e já vai se aproximando

o momento da eleição

em que todo brasileiro

levado feito cordeiro

vota por obrigação

decidindo por inteiro

os destinos da nação.

 

O alvoroço já é notado

nas redes sociais e Gabinete

onde a mentira risonha

é sempre atração

e a verdade tristonha

quase sempre é deixada de lado

à custa de robôs de macete

e gado de plantão.

 

Por causa do sistema eleitoral

eleição de bem passa a ser mal

já que é jogo de carta marcada

onde não se aproveita quase nada

o que está fora dificilmente entra

e o que está dentro quase não sai

com o povo que não mais encontra

a esperança que se retrai.

 

Na política é geral a corrupção

onde tem até um tal de Centrão

que entra ano sai ano e qual flagelo

está lá feito Poder Paralelo

chantageando e tomando decisão

do qual não adianta reclamar

pois impedido pode ficar

ou até sofrer cassação.

 

Nosso povo vive de fantasia e ilusão

quando surge algo dizendo ser novo

pensa que está aí a solução

sem se dar conta, faz papel de bobo

já que roupa velha não é algo a ser remendado

conforme diz o Livro Sagrado

que muitos carregam na mão

(mas sem o aceitar de coração).

 

E assim as coisas vão sucedendo neste país desigual

que quando se troca muito é meia dúzia por seis

já que ninguém cuida de uma reforma eleitoral

onde tudo pudesse ser consertado de vez:

número de políticos e de partidos com redução

fidelidade partidária, voto distrital

controle de gastos, tudo de forma legal

e tempo de mandato sem direito à reeleição.

 

Uma verdade que não pode ficar de lado

embora ninguém parece enxergar:

enquanto o povo vai ser criticado

sob alegação que não sabe votar

quem lá está lá vai permanecer

já que com esse sistema

fica sem solução o dilema:

correr e o bicho pegar, ficar e o bicho comer.

 

Nossa democracia, coitada

de bandido, golpista e vilão

por todo lado é cercada

Então, cabe perguntar:

este ano vamos ter eleição?

Tal pergunta não quer calar

tendo em vista que um tal capitão

tudo faz pra acabar com a tal de votação.

 

E mais preciso explicar

já que existe oficial militar

que por ser descompensado

prefere leite condensado

a ter que roer rapadura

deixando de ser polícia

para se unir à milícia

sonhando com a Ditadura

 

Que sou pessimista você pode até pensar

mas o que quero é ser realista

pois como bem diz o ditado

não adianta o chapéu tirar

depois que a procissão passar

E que isso fique registrado

bem de frente de sua vista

pra que não venha depois chorar

 

É hora de agir com precisão

todos juntos, em resumo,

fazendo daqui uma grande nação

Que o Brasil deixa de ter o ofício

de ficar correndo o risco

de ser sem prumo e sem rumo

onde, se colocar lona, vira circo

onde, se colocar muro, vira hospício.

 

Vixe! Que lascou a tábua da beirada!

Etelvaldo Vieira de Melo

QUANDO VIVER DEIXA DE VALER A PENA

 

Manhã de domingo. Rolando a tela do smartphone em busca de uma notícia leve e agradável para adoçar (de forma diet) o final de semana, tenho a atenção voltada para uma reportagem sobre Alain Delon, notícia que não era – vi logo depois – nem um pouco leve ou agradável.

Para quem não sabe, Alain Delon foi um ator francês de grande sucesso nos anos sessenta e setenta. Entre seus filmes, destacam-se Rocco e Seus Irmãos, O Sol Por Testemunha, Os Sicilianos (do qual guardo uma agradável lembrança por causa da trilha musical, composta por Ennio Morricone, um de meus elepês favoritos, em gravação de Raymond Lefrève – Le Clan des Siciliens, veja no YouTube).

Confesso que não tinha muita simpatia por ele, o Alain. Por pura bobagem de minha parte, já que o associava a Jean-Paul Belmondo, outro ator francês. Enquanto Alain Delon era muito bonito (foi considerado o homem mais belo do mundo), Belmondo era narigudo e feio. No fim, a feiura de um acabou contaminando a beleza do outro, e acabei desgostando dos dois.

Talvez meu preconceito tivesse a ver com a escola de cinema francês de muito sucesso na época, chamada Nouvelle Vague. Que podia ser artística, mas que eu considerava de uma chatice sem tamanho. Os diretores usavam câmeras preguiçosas, que ficavam em determinada tomada por longo tempo. Por exemplo, enquanto rolava uma cena de galinhas ciscando no quintal, você podia sair da sala de projeção, fumar um cigarro no hall e ir depois ao banheiro dar uma mijada (mulher faz xixi) – quando voltava pra sala, ainda lá estavam as galinhas ciscando. (Mas não seria essa uma peculiaridade do Cinema Novo brasileiro?)

Alain Delon, que era um ator muito bonito e não fazia esse tipo de filme, acabou caindo no meu conceito por um crime que não cometeu.

Quanto à reportagem do domingo (já estava até me esquecendo), ela dizia algo que me chamou sobremaneira a atenção: Alain Delon estava orientando seu filho Anthony para que providenciasse sua eutanásia, ou morte assistida.

Estando com 86 anos e morando na Suíça, onde tal prática é permitida, ele considerava que esse seria o desfecho natural de sua vida. Ou seja: ele pensa que a vida, a partir de certo momento, só dá prejuízo. Usando de linguagem matemática, seria dizer: a vida deixa de ser adição e passa a ser subtração. Passamos a perder tudo que era bom e adquirimos só coisa ruim.

Recorrendo à analogia de uma baciada de jabuticaba (que você vai ‘plocando’ aos poucos, tendo o cuidado de deixar as maiores e mais saborosas para o final), assim também deveria ser a vida: acabar de maneira saborosa, e não de forma amarga, com dor pra tudo quanto é lado.

Sob determinada perspectiva, Alain Delon tem lá suas razões. Já que a morte é inevitável, que ela venha sem sofrimento. O problema é determinar a hora de se colocar um ponto final em tudo.

Se eu for me espelhar em exemplos ao meu redor, vou ficar sem saber qual esse momento.

Uma vizinha, por exemplo, sempre disse ter desapego com a vida. Depois dos cinquenta anos, então, achou que sua vida era só lucro, que Deus a levasse quando quisesse.

Mas aconteceu de sua filha casar e, logo depois, engravidar. A vizinha pediu a Deus:

- Meu bom Deus, adia um pouco minha ida para seu encontro: deixe eu ver minha netinha crescer um pouco, pelo menos até aos cinco anos.

A netinha cresceu, foi para a escola. A vovó quis acompanhar seu desenvolvimento até a formatura, que Deus ‘quebrasse esse galho’, se não fosse pedir demais. A menina virou adolescente, começou a namorar, e a vó precisava acompanhar, dar seus conselhos, que Deus entendesse mais um alongamento. Depois, a moça casou... engravidou, e a história da vizinha registra um novo capítulo. Está ela agora com seus 83 anos, cheia de cuidados com a bisneta. Para Deus, ela diz assim: - Meu bom Deus, o senhor sabe que sempre me coloquei em suas mãos. Quando quiser, pode me levar dessa vida. Agora, se não for pedir demais, deixe eu acompanhar os estudos de minha bisnetinha. Depois disso, não vou incomodar mais o senhor...

Outro vizinho tem uma maneira peculiar de encarar a vida. Leva tudo com leveza e bom humor: analfabeto, sem saber olhar a hora, busca se orientar pelo Sol (quando chove, procura sentir a barriga); quando perdeu o dedão do pé inflamado, diante da pergunta: “e o dedo?”, respondia sorrindo: “ah, o dedo ficou com o doutor Alfredo”; cada vez mais surdo, vai aos poucos desistindo de conversar com as pessoas; perguntado com está passando, olha para o céu e responde: estou aqui aguardando quando o Senhor quiser me levar.

Esse vizinho ficava sentado na soleira da porta de sua casa, observando o trânsito de carros na rua, as pessoas que passavam. De uns tempos para cá, ele se recolheu. Parentes falam que ele permanece mais deitado na cama. Imagino que fica olhando para o teto do quarto, esperando o chamado de Deus. A imagem que imagino dele é de uma vela que, aos poucos, vai se apagando, apagando, apagando, até apagar de vez.

Enfim, um exemplo que tem analogia com a bacia de jabuticaba vem do cantor Sidney Magal. Ele afirma que sempre encarou os diferentes aspectos de sua vida desta forma, com início, meio e fim. “Mas esse fim não precisa ser amargo. Ele pode ser um fim digno, cheio de lembranças e com o coração repleto de coisas boas”. Neste caso, problema são as dores localizadas e difusas. Mas isso seria tema para outra conversa, que já ultrapassei em meia lauda o limite suportável de um texto digerível.

Etelvaldo Vieira de Melo