NÃO DANDO O BRAÇO A TORCER

 


“Somente os extremamente sábios e os extremamenteestúpidos é que não mudam.” (Confúcio) 

A origem desta expressão vem da brincadeira chamada “Queda de Braço”, onde o vencedor era aquele que conseguia dobrar o braço do adversário. No sentido figurado, passou a significar uma pessoa não renunciar a seus princípios, a suas convicções, apesar de toda pressão contrária. Já “dar o braço a torcer” significa ela reconhecer que errou, que sua ideia não estava certa.

Já aconteceu com você de ter que “dar o braço a torcer”?

José Padilha é um cineasta brasileiro, diretor dos sucessos “Tropa de Elite 1 e 2” (2007 e 2010). Em 2018, produziu uma série chama “O Mecanismo”. Nela, ele descreve a chamada Operação Lava Jato, onde tece loas ao seu desempenho, colocando o então juiz Sérgio Moro lá nas alturas, como paladino do bem e da moralidade.

Tempos depois, Padilha percebeu que não era bem assim, que a operação estava cheia de falcatruas e que Sérgio Moro tinha os pés de barro e bem sujos.

Que fez Padilha? Retratou-se publicamente. Mas parece que as pessoas, de modo geral, não compactuaram da mesma ombridade e não aceitaram as desculpas, deixando o cineasta no limbo do ostracismo.

Não compartilhando dessa percepção generalizada, passei a admirar José Padilha. Porque sei como é difícil “dar o braço a torcer”, como é preciso ter humildade para uma pessoa reconhecer o próprio erro.

“Dar o braço a torcer” envolve situações das mais simples até as mais complexas. Veja os exemplos.

Ivani é um grande amigo e colega dos tempos de adolescência. Além de compartilharmos o gosto pela literatura, éramos também cinéfilos. Pelo fim da década de 60, tivemos uma discussão que não levou a um acordo, pois não “dei o braço a torcer”. A questão era: - Qual o ator do filme “Django”? Ivani disse que era Franco Nero. Teimei que era o ator brasileiro Anthony Steffen. Passado certo tempo, reconheci que o “Django” original era mesmo o Franco Nero, que Steffen veio depois com “Poucos dólares para Django”. Ivani, estou registrando aqui que você venceu, que deixo meu braço a torcer.

O segundo registro vai para uma seita brasileira chamada de “os bolsonaristas”. Eles diziam coisas que eu nunca levava a sério. Pensava: - É só mentira que sai da boca desse povo. Mas não é que eu estava errado numa questão? Eles diziam sempre:

- Olha, olha, que o Brasil vai se tornar uma Venezuela!

E não é que corremos esse risco hoje?

Bolsonaristas, estou dando o braço a torcer para esse vaticínio de vocês.

O terceiro e último registro fica por conta do senso comum que diz que brasileiro não sabe votar. Pensava que até podia ser assim, mas eu me tinha como exceção. Agora, vejo que passei muito pela experiência de não saber votar. Como exemplo, há cerca de 8 anos, como segunda opção, votei para senador num sujeito que apresentava programas policiais em emissoras de rádio e TV. Ele sempre arrematava as notícias com algum comentário moralista, enquanto passava uma mão na outra. Sei lá, fiquei tocado pelo seu jeito de passar uma mão na outra, pelo seu tom de voz empostado, pelas suas lições de moral. Passada a eleição, sabe no que deu: ele jogando lá pelas pontas da extrema direita, associado ao que há de pior na política, envolvido em doações para asilo sem idosos, intermediado pela Igreja-Vorcaro-Valadão-Lagoinha. Não foi mesmo, Carlos?

Como lição desse caso, fica aquela máxima sempre atual: “Por trás de todo paladino da moral, vive um canalha”. Se alguém quiser brigar, lembro que o crédito é de Nelson Rodrigues. E outra coisa: não dar o braço a torcer tanto pode ser sinal de caráter como de cretinice ou estupidez.  Registre-se,  publique-se.

Etelvaldo Vieira de Melo