BABEL
Não é fácil
fazer
edifício. 
OPOSIÇÃO
Escrevo versinhos
não
versões















CONVITE
Que tal
uma fuga
de bar?




Imagens:pensanoamor.blogspot.com




                                                                   




                                                              


















MALA: COMO AMÁ-LA?

Para neófitos em viagens longas, sem dúvida, a mala se constitui um problema crucial. Desde sua aquisição, passando pela montagem e transporte, ela se apresenta como motivo de medo, ansiedade, angústia, muita preocupação.

Comecemos pela compra e as perguntas inevitáveis: Qual o tamanho apropriado? Diante da opção por uma no limite do exagero, não seria conveniente que ela fosse um pouquinho maior, em razão do volume inimaginável que vai transportar? Qual deve ser a sua cor, para ser reconhecida mais facilmente na esteira do aeroporto? Será conveniente amarrar-lhe uma fitinha, para melhor identificação?

Transposto esse round, que quase leva a nocaute nosso herói, eis que ele depara com novo desafio: como equipá-la? Para responder a essa questão, ele faz profundos cálculos mentais, multiplica o número de peças pelo número de dias, acrescenta o coeficiente de imprevistos, consulta o Dr. Google e internautas experts. Por fim, está atolado no lamaçal da incerteza, pois quando a dúvida chega, o bom-senso se afasta.

Com esse tempo destemperado em razão do aquecimento global, considera – ouvindo sábios conselhos - que deve levar agasalhos para todas as estações. Os especialistas dão orientações desbaratadas, cada qual com sua lógica e que merece ser atendida. A mala se torna insuportavelmente pequena, mas alguém dá a sugestão de se comprar um saco plástico do qual pode ser retirado o ar em excesso, por meio de um aspirador de pó, com a consequente redução de volume. Outro sugere que as roupas devem ser enroladas em tubinhos. Atende a todas propostas, ele que se considera um analfabeto perante tantas sumidades.

Finalmente, a mala fica pronta, etiquetada e com dois lacinhos amarrados para identificação: um azul e outro verde. Olha, orgulhoso, para sua obra como a dizer:

- Está vendo? Eu venci...

Entretanto, parece que a mala está a lhe responder:

- Bem que você venceu esta batalha, mas e a guerra?

Nos primeiros momentos, a guerra lhe foi favorável: o entra-e-sai de táxi, o deslocamento no aeroporto, a retirada da esteira, o percurso de trem, a entrada no hotel, a acomodação no quarto.

Ali, teve o primeiro revés: não teve como reativar o sistema a vácuo do saco plástico, que se tornou inútil e foi descartado. O volume ficou transbordante, o que levou à mudança de algumas peças para uma mochila de mão.

No deslocamento pela estação ferroviária, ela quebra sua base de suporte, o que faz com que se apoie apenas nas rodas, sendo impossível deixá-la na posição vertical. Com imensa dificuldade, é arrastada até o hotel do novo destino, sendo substituída por outra, naturalmente maior e melhor reforçada.

Com o suceder dos dias, vai a mala passando por arranjos e desarranjos, sofrendo e fazendo sofrer nos deslocamentos entre estações, trens e hotéis, com a compra de uma lembrancinha aqui e outra acolá, tornando-se naturalmente incapaz de transportar tudo que lhe é devido.  Ganha uma companheira, nas mesmas proporções e medidas, também capaz de provocar as mesmas ganas assassinas, quando aberta e arranjada no interior do quarto de hotel.

E assim transcorre aquele maravilhoso passeio, com a mala se destacando em primeiro lugar pelo tempo de arruma-desarruma, pelo aborrecimento de ter que deslocá-la, pelo esforço de acomodá-la em diferentes lugares, por se tornar insuficiente ao ponto de requerer mais duas companheiras. Pior é que os conselhos dos especialistas falharam miseravelmente: fazia muito calor e as roupas de inverno só serviram para ocupar espaço e aumentar o volume.

Na chegada, enquanto retira as suas da esteira, tem o consolo de verificar que o problema não é privilégio seu: outros passageiros também estão abarrotados de malas, etiquetadas e enfeitadas com fitinhas de todos os matizes...

Nota Complementar. Malartrose: Trata-se de uma virose decorrente do uso doentio de mala em viagem. Ela se manifesta através de pesadelos, durante oito noites, em que o paciente sonha que está arrastando malas entre aeroportos, estações e hotéis; em outros momentos, ele se vê arrumando a mala, mas ela nunca fica pronta, sempre há alguma coisa a ser retirada ou ali colocada.

Infelizmente, ainda não se descobriu um medicamento apropriado para essa moléstia. Estudos, nos USA, em países da Europa e Ásia, já conseguiram uma regressão em torno de 34,52% nos casos pesquisados; entretanto, a droga definitiva continua sendo uma esperança para os turistas, notadamente de brasileiros que realizam, agora, aquele sonho/pesadelo de Ícaro: “Voar, voar, subir, subir... / Ir até que um dia chegue enfim / Em que o Sol (a Mala) derreta a cera até o fim”.  
Etelvaldo Vieira de Melo
Oração
O bichim
também
louva-deus.
Imagem: bocaberta.org
   Pagando Mico
          A cobra
             réptil
            o ano.


 Imagem: curiosoeengracado.blogspot.com.br


PRO ANO NASCER FELIZ, APESAR DE VOCÊ, 
NA BELEZA DE SER UM ETERNO APRENDIZ

Natal e Passagem de Ano pedem textos contidos, reflexivos, comedidos. Essas datas são águas passadas e o que importa, agora, é a retomada daqueles outros, livres, leves e soltos.

Queremos voltar ao tom de alegria, apesar de que – em pleno início de ano – estarmos sendo atropelados pelos mal-humorados governos municipal e estadual, que nos dão facadas quase fatais com seus famigerados IPTU e IPVA, enquanto o federal afia as garras de seu leão para, a partir de março, nos atacar com unhadas e mordidas. Definitivamente, quase não dá pra ser feliz – como cantava o saudoso Gonzaguinha. Definitivamente, não sei pra que serve um órgão como o IBAMA, que permite ao Ministério da Fazenda manter em suas dependências um felino de tal porte. Por causa de um tiquitinho de azulão, meu sobrinho levou uma multa de R$500,00...

Não sei porque, mas sinto que nossas autoridades nunca estão de bem com a vida. Contiveram seus ímpetos assassinos nas comemorações de final de ano, preparando seus “presentes” para serem entregues agora, quando ainda estamos anestesiados física e psicologicamente.

Já disse, algo a ser transcrito em breve, que, em outra encarnação, caso venha a acontecer, sob as mesmas condições de temperatura e ambiente, pretendo construir uma super-casa subterrânea, mas com cobertura de zinco ao nível do solo, para me prevenir de uma possível hecatombe nuclear, prestar uma singela homenagem a Herivelto Martins (“Ave Maria do Morro”), fugir do furor arrecadatório do governo municipal e seu IPTU.

Falando em governo, por acaso você já recebeu seu cartão de felicitações das secretarias municipal e estadual, agradecendo o fato de ser proprietário de um veículo automotor? É o mínimo que deveriam fazer, diante do muito que lhe é espoliado com taxas, impostos e multas. Como esse não é meu caso - ser proprietário de automóvel - deixo para você a alternativa de inventar um meio em que possa manifestar sua indignação.

Sinceramente, não era minha intenção falar sobre nada disso. Queria mesmo era falar de férias, viagens e passeios. Iria me deter em seus preparativos: a arrumação das malas, talvez o principal capítulo dessa novela. Como desandei a falar mal do governo, esse tema fica para a próxima semana. Já tem até um título: “Mala: Como Amá-la?”

Como não tem jeito de consertar o que já está feito, como o texto foi caminhar por caminhos espinhentos e cheios de urtiga (quem é do interior e já andou pelos campos, sendo acometido de dores abdominais, sabe do que estou falando), quero, pelo menos salvar alguma coisa.

Já fizemos votos de que a Esperança possa estar presente em cada passo de sua vida ao longo de 2013. Além dela, esperamos que você esteja, durante o ano, sempre com o espírito desarmado. Isso é, que deixe de lado o preconceito, o pré-juízo, achar que já sabe de tudo, não permitindo que a vida lhe seja sempre uma novidade.

Outra coisa importante é que você esteja sempre “faminto”. Em sentido figurado, existem pessoas que se dizem sempre “cheias”, “satisfeitas”. Elas se acomodam diante da vida, porque não julgam importante irem atrás do novo.

Finalizando, importantíssimo é ser honesto, sincero. Ano Novo é tempo de promessas muitas vezes vazias, mentirosas, feitas da boca para fora, com palavras que não são legítimas, verdadeiras. Como daquele jovem que dizia querer ser religioso, queria encontrar a Deus. Um dia, ele foi testado pelo seu mestre, quando, ao atravessarem um rio, segurou-o pela cabeça debaixo d’água, deixando-o a ponto de morrer sufocado.

- De que você sentiu mais necessidade enquanto estava submerso? - perguntou o mestre.
- De ar – respondeu o discípulo, respirando fundo.
- Será que você tem tanta sede de Deus como tinha de ar há pouco? Se tiver, certamente o encontrará. Caso contrário, é melhor continuar ateu. Porque um ateu pode, muitas vezes, ser sincero, ao passo que você não é.

Veja você, como sou diferente dos membros do governo. Ao invés de aplicar-lhe uma multa ou um imposto, estou lhe oferecendo – atrasado, por causa de minha doença PFC (Prolapso de Fim de Curso) - em singela embalagem, a Esperança, junto com os votos de que esteja sempre faminto, que viva os acontecimentos de maneira desarmada e que seja sempre honesto consigo mesmo. Pode parecer pieguice, mas você sabe como isso é importante para a construção de sua felicidade.
Etelvaldo Vieira de Melo

P/S: Aproveitando o ensejo, renovo o convite feito na edição de 15/12/12, para que você faça seu comentário nas postagens deste blog, seja naquelas da Graça, seja nas minhas. Além de concorrer aos mencionados prêmios, será ele uma forma de avaliar o nosso trabalho. Por que não usar desse espaço para falar de suas esperanças para 2013? Existe algo que você aprendeu com a vida e que seria importante repassar para outras pessoas?      

JOGRAL: A ESPERANÇA NOSSA DE TODO DIA

INGENALDO (IN) CINISVALDO (CI) REALISVALDO (RE) RISVALDO (RI) TODOS (TD)

IN: Nos tempos de antigamente, havia os deuses e havia os titãs.

CI: Titãs não é aquele conjunto de rock nacional, mas seres gigantes que habitavam a Terra; depois de uma discórdia com os deuses, foram derrotados em guerra terrível e expulsos dos céus.

RE: Como todos sabem, os céus são uma região situada acima do Monte Olimpo; é por isso que, de quatro em quatro anos, sua memória é reverenciada com a disputa dos Jogos Olímpicos, onde são eleitos os novos deuses dos esportes.

RI: Prometeu era um titã inconformado com a derrota para os deuses. Certo dia, ele teve uma ideia de vingança.

IN: Ele pegou um pouco de barro e deu forma ao primeiro homem. Para que a sua obra tivesse vida, foi necessário roubar um pouco da centelha do fogo divino.

CI: Para isso, contou com a ajuda de Minerva, deusa da sabedoria, que era muito generosa e ingênua, como você, Ingenaldo, e que não deve ser confundida com antiga marca de sabão em pó.

RE: (Vamos omitir detalhes da Guerra dos Titãs, os castigos que sofreram, a aventura de Prometeu nos céus, a história de Apolo e a explicação para o fato de que na África, até hoje, nascerem indivíduos queimados.)

RI: (Fazemos isso em atenção ao nosso leitor, cuja paciência não ultrapassa 20 minutos de tolerância.)

IN: Admirando sua obra, Prometeu disse: “Está aqui aquele que vai derrotar os deuses.”

CI: Júpiter, vendo aquilo, disse a Vulcão, arquiteto dos céus: “Faça algo que cause tanto trabalho ao homem e ele não encontre tempo para incomodar-me.”

RE: Vulcão pegou um tanto de barro e muitas centelhas do fogo divino e criou, com a perfeição de um deus, ... a primeira mulher . 

RI: Deuses e deusas se encantaram com a obra e lhe deram muitos presentes: beleza, afetação, bom humor, belas roupas, muitos pares de sapato, estojo de maquiagem, charme... inteligência... fluência verbal...

IN: Júpiter disse para a mulher: “Vá até Prometeu e diga-lhe que você será a sua esposa. Estou lhe dando um presente especial, que está embalado nesta caixinha, mas que só poderá ser visto no dia de seu casamento “  - E Júpiter mostrou-lhe um estojo em rica e decorada embalagem.

CI: Certo dia, estava Prometeu admirando a sua obra, quando viu, descendo do Monte Olimpo, a mais bela das criaturas.

RE: “Quem é você?” – perguntou Prometeu. Ela respondeu que se chamava Pandora, o que significa “todos os presentes”, e que vinha lhe trazer tudo de bom: beleza, saúde, alegria.

RI: Prometeu quis saber da caixinha.

IN: “Oh! - falou Pandora. – Trata-se de um presente de Júpiter e que só poderá ser aberta na noite de nosso casamento.”

CI: Prometeu não gostou de ouvir aquilo. Disse: “Pensando bem, não me casarei com você. Como seu trabalho foi muito em vir até aqui, eu a levarei até meu irmão, Epimeteu, e ele irá se casar com você.”

RE: Em grego, Prometeu significa “pensar antes” e Epimeteu, “pensar depois”. Daí, o ditado que diz: Quem pensa, não casa; quem casa, não pensa”.

RI: Pandora se casa com Epimeteu, com a promessa de jamais abrir a caixinha com o misterioso presente de Júpiter.

IN: Tudo correu bem durante certo tempo, mas houve o dia em que ela não resiste, depois de se perguntar: “Não está dentro desta caixa o melhor dos presentes?” Ela bem que não queria contrariar as ordens do marido, mas...

CI: Pandora abriu a caixinha e, imediatamente, saíram voando milhares e milhares de vespas que, ao se sentirem livres, se espalharam pelo mundo. Aquelas vespas eram todos os males que afligem a humanidade; a guerra, a fome, a pobreza, a inveja, a dor...

RE: Pandora, ao ver o que estava acontecendo, subiu sobre uma mesa e começou a gritar histericamente, enquanto agitava nervosa os braços. Ouvindo seus gritos, Epimeteu acorreu apressado e fez o que era sensato fazer: tapou a caixinha.

RI: Felizmente, a tempo a reter a última vespa a escapulir-se, a única digna de ser conservada na caixinha, um pequenino ser chamado...

TD: ESPERANÇA!

IN: Estamos terminando 2012, com milhares de vespas a espalharem dor e sofrimento sobre a humanidade.

CI: Existe a vespa da fome assolando milhões de pessoas, enquanto sobra comida na mesa dos abastados.

RE: Existe a vespa da falta de moradia para muitos, que tentam se esconder do frio e da chuva sob viadutos e marquises de prédios, enquanto outros moram em palacetes.

RI: Existe a vespa da violência e da guerra, linguagem universal para uma humanidade que ainda não aprendeu a usar da palavra “diálogo”.

IN: Existe a vespa da corrupção, que corrói consciências, destruindo valores e instituindo a lei da esperteza, com a honestidade sendo vista como sinônimo de ingenuidade.

CI: Existe a vespa das leis frouxas, que permitem conchavos a troco de poder, dinheiro e artimanhas judiciais.

RE: Todas essas vespas tentam enfraquecer e matar esse pequenino ser que carregamos e que se chama “esperança”.

RI: Mas ela irá resistir contra tudo e contra todos. Não porque sejamos...

IN: Ingênuos.

CI: Cínicos.

RE: Alienados.

RI: Ela resiste porque é o oxigênio da vida e nos permite acreditar no amanhã, apesar de tudo aquilo de ruim que conspira contra as possibilidades de ser feliz.

IN: Que, nesta passagem de ano, possa você reanimar a esperança que carrega consigo, uma esperança abalada, machucada diante de tantas decepções e maus exemplos. Não a deixe morrer, pois, quando morre a esperança, também morre todo sentimento de humanidade.

CI: Compartilhe a esperança, espalhe a ideia de que vale a pena ser honesto.

RE: Vamos, juntos, cuidar desse dom maior que é a vida.

RI: Juntos, vamos semear as sementes da alegria, da amizade, do amor.

TD: JUNTOS, VAMOS TRANSFORMAR ESSE CANTEIRO QUE É O MUNDO EM UM JARDIM DE FELICIDADE! FELIZ 2013!
FIM
Etelvaldo Vieira de Melo



Recados de Fogos de Artifício

Splash de Cores
O QUE TEM UMA MULHER?
 Flor na cabeça
Cravo nos pés.












Dois Mil e Treze

Que os geolhos arrasem
Que os sapatos saphateiem
Que as meias afinem
Que os destinos atinem
Que o esmalte transcenda
Que as luvas animem
Que o cabelo desperte
Que o crayon arrebente
Que a sobrancelha carregue
O olhar oblíquo e dissimulado.


Foto de bebê Lindo

Nasce uma criança:
A esperança do mundo.
Traz a nossa estrela,
Alumia este fundo
Lugar que não se alcança.                                      





CONSUMISMO              
Inda não comprei
mas hei de comprar
um carrinho branco,dois azuis,três amarelos, quatro verdes... 


                                                       







QUANDO A ORDEM DOS FATORES ALTERA O PRODUTO

Muitas e muitas vezes, eu questiono se vale a pena a vida do ser humano aqui neste planeta, se não seria melhor que tudo fosse como no tempo em que a Terra era informe e vazia, com as trevas cobrindo o abismo e apenas o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Eu não estaria aqui, neste momento, escrevendo essas palavras, o relógio não estaria aqui na minha frente, arrastando os minutos e as horas para o fim, enquanto lá fora, no mundo, uma imensidão de coisas explode a cada segundo e se derrama em cores e tons por sobre países e continentes, matando, provocando a destruição e o caos.
           
Muitas e muitas vezes, eu me vejo pensando sobre a vida, seu encantamento, sua beleza. Mesmo entendendo quase nada sobre seu sentido, penso que Deus tinha toda a razão quando, depois de ter criado as coisas, contemplou sua obra e viu que tudo era muito bom. Aqui estou, neste momento, escrevendo essas palavras, o relógio está aqui na minha frente, registrando a passagem do tempo, enquanto que lá fora, no mundo, a vida explode em cores e sons, sob os reflexos do Sol.
            
Eu não sei, mas – às vezes – gostaria de que tudo não passasse de um sonho. Poderia ser um sonho meu, estando em outra dimensão. Poderia ser até que eu não existisse, não passasse da fantasia de um sonho de outra pessoa, do próprio Deus, quem sabe, entediado do próprio poder ou no exercício de suas infinitas habilidades.
           
É a vida um sonho? Prefiro entendê-la como um mistério. A aceitação do mistério não significa fechar as portas do entendimento, decretar o fracasso da razão. Significa reconhecer que a vida vai sempre mais além da percepção de momento, que há um mundo de revelações logo ali, após a curva do caminho. Aceitar a dimensão de mistério é ter a humildade de reconhecer que a vida nos surpreende a cada momento com novas manifestações de beleza e sentido.
            
Eu não sei, mas acho atraente a ideia do vazio, da ausência, do nada. Porque, se tudo fosse reduzido a nada, a maioria das pessoas estaria ganhando, lucrando. Porque essas pessoas só levam da vida o prejuízo: dor, sofrimento, lágrimas, decepções, tristeza, desilusão. Se tudo fosse reduzido a nada, não haveria alguma coisa de bom, mas também não existiria nada de mau, de ruim, de errado, estaria tudo em equilíbrio, em paz, em silêncio, na imobilidade do vazio, do nada.
            
Eu nada sei, já disse e posso repetir mil vezes. Não tenho a pretensão de ser dono da verdade. Observo e vejo pessoas que, apesar de tudo conspirar contra, sempre encontram um motivo para viver, para construir seus sonhos. Para elas, o sofrimento é fortaleza, meio de eliminar falsas ilusões a fim de alcançar os verdadeiros objetivos. É preciso tirar essa conotação negativa das dificuldades, pois são elas que nos ajudam a crescer e a nos tornarmos pessoas melhores.
            
Eu não sei se o que está aí e denominamos vida é fantasia, projeção ou realidade verdadeira. Sei que se trata de manifestação de um princípio só. Parece que as pessoas não nasceram para compartilhar, respeitar e fazer valer os direitos dos outros. Elas nasceram marcadas pelo estigma desse pecado original chamado egoísmo. Os mais injuriados diante dessas palavras são justamente os mais falsos, pois se escondem atrás da hipocrisia, tentando passar despercebido seu egocentrismo. Se não, como calar e tapar os olhos diante da perversão do trabalho, da inversão de valores – onde o ter se sobrepõe ao ser, da demagogia, corrupção, da exploração dos mais fracos, da fome e falta de moradia, da pobreza e miséria, tudo isso num quadro de guerra e violência?
            
Eu não sei se o que está aí e denominamos vida é fantasia, projeção ou realidade verdadeira. Poderia ficar lamentando os erros cometidos pelos humanos. Eles estão aí, como a lama na terra após um momento de chuva. Eu sei, porque meus olhos não estão fechados e nem meus ouvidos estão vedados. No entanto, esses erros são menores, valem menos que os acertos. O ser humano não é, por natureza, ruim. O seu egoísmo resulta de uma má educação, que pode ser reparada. O amor é uma força superior, embora seja muitas vezes abafado, como na trágica história de Orfeu e Eurídice, porque – infelizmente - as coisas ruins conseguem falar mais alto, aparecem mais. Por isso, quase passa a ser estranho falar do sorriso de uma criança, da beleza da Natureza, dos cuidados de uma mãe e seu amor incondicional, dos sonhos que se realizam, das palavras amigas, do perdão, da beleza de uma pintura ou de uma música, das pessoas que fazem o bem e trabalham pela Paz.
            
Enfim, tem razão o Jó das Escrituras, quando diz: “Por que não saí num aborto escondido? A vida do homem sobre a Terra é uma guerra. A minha carne está coberta de podridão e imundície do pó. A minha pele está seca e enrugada. A minha fortaleza não é como a das pedras. Nem minha carne é de bronze.”
            
Enfim, tem razão o Eclesiastes, quando, refletindo sobre a vida, chega à seguinte resposta e conselho: “Vai e come teu pão com alegria, bebe teu vinho com o coração alegre, pois tuas ações já foram há muito aprovadas por Deus.... Tudo que possas fazer, faze com todas as forças.”

 Etelvaldo Vieira de Melo

Segundo especialistas, três meses é o tempo médio de sobrevida de um blog. Como estamos nos aproximando dessa data fatal, cuidadosos, lançamos mão daquela máxima preconizada por Tim Maia (Blogu’eus – edição de 26/10/ 2012) de que aqui “vale tudo”. Sendo assim, todos aqueles que postarem seus comentários em nossas edições semanais, desde a 1ª, em 24/10/2012, até a de 20/04/2013, estarão concorrendo ao prêmio de dois livros, publicados pelos autores. Leitor atento e amigo, esta é a maneira simples e sincera que encontramos para expressar nossa alegria em estar compartilhando com você este espaço. Também é uma forma de avaliar o alcance e os reflexos de nosso trabalho. Graça e Etelvaldo.
Nota: Algumas pessoas manifestaram dificuldade na postagem de comentário.  A forma mais simples é através da conta no Google, para quem tem gmail. Outra forma é através da opção “Anônimo”. Você faz o comentário e digita seu nome. Depois, o sistema operacional vai pedir para você identificar algumas letras, querendo confirmar que se trata de um ser humano, e não de uma máquina. Depois de tudo isso, é só clicar e enviar a mensagem. 

Bebe em meio a flores
Surpresa
Cresce a unha
e o cabelo
cresce o dente
e o nariz:

então gente
tem raiz? 



ENQUANTO O SONO NÃO VEM
Enquanto o sono não vem
escrevo o meu diário.
mulher escrevendo no jardim pintura sem nome de autor EscreverConto novidades do dia e tristezas da noite.
Colo uma flor onde devia haver um verso
dedicado ao possível bem.
Folheio as páginas
vejo papéis de bombons
fotos
bilhetinhos laços de fita retratos de artistas pensamentos              
uma poesia escrita por Manoel de Barros.
Meu diário é um maracujá
das horas de medo e insônia.








Nota Explicativa: Por fazer referência a determinada data, 21 de dezembro de 2012, o presente texto mereceu tratamento diferenciado, antecipando-se a outros que aguardam pacientes em fila. Como o tempo é inexorável e uma contingência da vida, ou ele aparecia agora - talvez prematuramente, ou corria o risco de não resistir a três meses de espera, conforme registro em sua senha de inscrição: Nº 19.

VANITAS VANITATUM

Preciso tomar cuidado com esses textos que ando produzindo e seus termos, uma vez que não sei onde poderão parar – se é que não ficarão guardados em uma gaveta de minha escrivaninha, sem irem à luz do Sol.

Sendo assim, tenho notado que estou me tornando uma pessoa muito linguaruda, eu que, por índole e educação, sempre fui um sujeito comedido, poderia até dizer enrustido, mas aí estaria dando margem a análises psicológicas que poderiam me transformar em sucata de Ferro Velho.

Então, para precisão de conceitos, estou usando o termo “linguarudo” com a conotação de quem fala demais, e não no sentido de designar alguém que tenha a língua grande. Enquanto falastrão, poderei estar ofendendo essa ou aquela pessoa, mas não pretendo machucar ou magoar ninguém. O acontecido é que, de repente, minha língua se soltou e não estou encontrando meios de ficar com a boca fechada.

No momento, o assunto que anda me incomodando já foi tratado em outra ocasião e será apresentado em oportunidade futura, quando falei do risco que as pessoas correm ao demonstrarem ostentação, exibindo para outros suas posses e pertences.

A ostentação ou exibicionismo de hoje é mais de cunho psicológico, quando determinada pessoa quer aparecer diante das outras por seus dotes intelectuais ou morais, procurando chamar a atenção.

Tempos atrás, nos estertores* (uma das 100 Palavras Exóticas Que Você Um Dia Deverá Pronunciar) da Ditadura, ou Regime Militar, dois políticos participavam de um debate televisivo; Tancredo Neves representava o MDB, enquanto Jarbas Passarinho pontuava em favor da Arena, sendo MDB e Arena os dois partidos políticos permitidos então.

Logo no Prefácio do debate, Jarbas Passarinho gastou todos seus trunfos, com seis ou sete citações, algumas delas em língua estrangeira. Assim, já pelo meio do programa, estava refém de Tancredo, uma esperta raposa na arte de argumentar, que tratou de colocar aquele passarinho em uma gaiola, terminando a discussão sendo ovacionado pelos telespectadores em suas casas.

Tempos depois, um Presidente da República, que se elegeu usando o slogan de “caçador de marajás”, prometeu matar a Inflação com um único tiro. Esqueceu-se de que aquele monstro requeria até mais do que uma rajada de metralhadora. Essa foi uma das razões pelas quais se tornou desacreditado, mesmo tendo, depois, recorrido a outros planos para remendar seu deslize verbal.

Vez por outra, ouvimos alguém anunciar o fim do mundo. Certos líderes arrebanham seus seguidores e os preparam para a hecatombe anunciada. Imagina a cara desses fulanos quando, passando a data fatal, nada de mais aconteceu! O “hit” do momento vem de um Calendário Maia e sua previsão de uma catástrofe para 21 de dezembro de 2012. Vamos ver no que vai dar. Aposto, com quem quiser, que não vai dar em nada. Se nada acontecer, estarei ganhando a aposta; se acontecer o pior, não estarei aqui para pagar o devido.

Ainda nessa linha de ostentação e exibicionismo, devo lembrar um professor de Geografia que, na primeira aula, dramatizou uma situação em que iríamos conhecer a Floresta Amazônica por meio de um voo de avião. Essa pessoa era mais um ator do que um professor. Pessoalmente, senti todas as expectativas e emoções proporcionadas pela aventura. Recorrendo à memória, entretanto, vejo ser esse o extrato de todo seu trabalho. Parece que o avião caiu no meio da floresta, por falta de combustível.

Tenho um parente que, por volta do término de sua terceira... quarta... não, de sua segunda relação matrimonial, apresentou-se perante o juiz todo arrumado, perfumado, sapato pra lá de social, calça presa por suspensório, camisa de manga comprida, enfim, estava todo elegante. Sua ex, no entanto, colocou um vestido de terceira categoria, até mesmo tomado de remendos, deixou os cabelos desalinhados, colocou umas sandálias tipo “havaianas” e parece que passou cinzas no rosto, para aparentar um aspecto sombrio e doentio. Quando confrontados perante o juiz, esse não pensou duas vezes para proferir a sentença: deu ganho de causa para todas as pretensões da ex, enquanto que meu parente voltou para casa sem nada, quase tendo perdido a própria calça, que se desprendeu do suspensório.

Falando tudo isso, vejo como é fácil enxergar um cisco no olho do vizinho. Entretanto, olhando para mim mesmo, observo que o sentimento de fracasso como professor, sentimento que carrego como uma cruz e uma dor permanente, vem de quando, nos primeiros contatos com os alunos, na pretensão de seduzi-los, esgotava meu repertório de trunfos, lançava-me na aventura de uma viagem sem combustível suficiente, ostentava uma aparência que contrariava radicalmente com minha pobreza franciscana, usava de uma erudição contrária à minha maneira de ser. Talvez se eu fosse eu mesmo, honestamente, colhesse melhores resultados. Poderia não ser bem sucedido, mas estaria sendo sincero, e a sinceridade é sempre um valor.

Pelo que foi dito e descrito, fica a certeza de que, no final, caso alguém possa se sentir ofendido com minhas palavras, esse alguém só pode ser eu mesmo.
Etelvaldo Vieira de Melo