POESIA EM TEMPOS DE PANDEMIA
O balão ficou preso
nos galhos da árvore
uma enorme árvore.
Não tem como tirar o balão de lá.
O balão é colorido
tem a forma de peixe.
Quando o vento sopra, fica balançando
de cá para lá, de lá para cá.
É muito bonito o balão preso
mas não vejo um menino sequer
aos pés da árvore
chorando a perda do balão.
Será por quê? – pergunto pra mim mesmo.
Talvez, penso depois, porque
os brinquedos hoje
sejam descartáveis
e ninguém se apega de verdade
a um brinquedo.
A não ser eu, talvez
que na minha infância (desprotegido)
nunca tive um balão
um balão tão bonito, tão colorido.
Etelvaldo
Vieira de Melo
QUERENDO SER RICO, FAMOSO E AMIGO DE GEORGE CLOONEY
Nesses tempos pandêmicos, de repente, não mais que
de repente, fui tomado por profunda reflexão. Ei-la:
Na vida, são muitos os momentos em que deixamos de
fazer nossa própria vontade. É quando lamentamos as palavras não ditas, quando
engolimos desaforos, quando – por ignorância ou fraqueza – deixamos que
opiniões alheias prevaleçam sobre as nossas, quando adiamos decisões ou
delegamos a outros o poder de decidir por nós.
Muitas dessas frustrações irão nos incomodar ao
longo do tempo, frequentemente povoando nossos sonhos e pesadelos.
Mas não dá para ficar lamentando o leite derramado
(ou até mesmo a falta de leite). O que importa é ir tocando a vida, não ficar
remoendo o passado, lambendo suas feridas.
Tal reflexão me ocorre agora, justo no momento em
que duas frustrações teimam em me chatear.
A primeira delas tem a ver com fama e riqueza.
Vivemos numa sociedade onde os valores de fama e
riqueza ocupam os primeiros lugares no ranking das preferências. Como desde
cedo me dei conta de uma inabilidade inata para brigar por isso, procurei o que
no jargão popular é chamado de “dourar a pílula”. Vendo conhecidos e colegas
subindo na escala social, eu resmungava:
- Bah! Eles estão procurando “sarna pra coçar”. Como
bem diz meu ídolo Buda: “quanto mais
coisa você tem, mais terá com o que se preocupar”.
Bem ou mal, tal pensamento me confortou ao longo do
tempo, até que cheguei aos dias atuais, quando me vejo tomado de frustração por
não ser rico e famoso.
O que me fez desejar ser rico e famoso foi uma razão
aparentemente banal: entrar na Justiça com ação contra um desafeto qualquer.
Então, eu iria requerer uma indenização por danos morais. Acho chique
demais alguém conseguir uma indenização assim. Hoje em dia, parece que todo
mundo faz isso. E tem famoso que nem precisa trabalhar: pode perfeitamente
viver das ações ganhas na Justiça.
Você pode perguntar: - Mas por que não entra também
com uma ação, se é tão normal?
Simplesmente porque “danos morais” é coisa de gente
rica e famosa. Gente pobre não tem como sofrer dano moral, já que parece não
ter moral. Quando acham que tem, o ressarcimento não irá passar de uma
bagatela. Está lembrado daqueles guardas municipais de Dourados, Mato Grosso do
Sul?
Ao ser multado por uma irregularidade no trânsito,
um motoqueiro, exacerbado, chamou os guardas municipais que o autuaram de “bostas”.
Feita a denúncia, o juiz (Caio Martins de Brito) absolveu o acusado, dizendo,
entre outras sandices, que acatar a denúncia seria “dar muita relevância para
tão pouca coisa”. Além disso, segundo o juiz, chamar alguém de “bosta” pode até
ser um elogio.
Esta é minha frustração: ninguém nunca me difamou ao
ponto de eu ter que recorrer à Justiça, pedindo indenização por danos morais.
Por outro lado, caso isso venha a ocorrer, meu medo maior é o juiz, em sua
sentença, dizer que não tenho moral para ser danificada, que sou igual aos
guardas de Dourados, que não passo de um “bostinha”.
O segundo desapontamento é recorrente do descrito
acima, já que poderia me trazer fama e riqueza.
A leitura de uma notícia de jornal veio despertar um
dos maiores arrependimentos que carrego: o de não ter sido amigo de George
Clooney. Não que eu seja uma pessoa interesseira, mas fiquei sabendo que
Georginho em 2013 reuniu 14 de seus melhores amigos e doou para cada um a
ninharia de US$1 milhão.
(Quando li a notícia, quis saber se entre os felizardos
estava Max. Quando fui checar, querendo evitar uma fake news, me dei conta de
que Max havia falecido em 2006. Para quem não sabe, Max era o porquinho de
estimação de George.)
A explicação do galã para seu gesto é simples,
servindo de exemplo para tantos outros que não sabem o que fazer com seus bens:
- Estamos envelhecendo. Esses caras sempre me
ajudaram. Muitas vezes, dormi em seus sofás quando estava quebrado. Já me
emprestaram dinheiro. Pensei: - Se eu fosse atropelado por um ônibus,
eles estariam no meu testamento. Então, por que esperar ser atropelado?
Veja você como a vida pode ser cruel: logo agora,
estando na curva descendente, tenho que conviver com os sentimentos de
frustração por não ser amigo de George Clooney, nem tampouco rico e famoso. Só
falta mesmo eu me dar conta de que não passo de uma sucata desprezível e sem
moral.
EL REY DON SEBASTIAN
Especialmente, graça pequena, vento estoura ex-cachos
divos do Tão.
Logo
enverga pro Seminário itapecericano.
O πλοίαρχος της ελληνικής (Port: Mestre do Grego)
e rebus sic stantibus
(Port: As coisas sendo assim),
arqueia-se
em charadas.
Al-beyrutar,
zarqar, nemaccar, oriyar, mihoniar, shqiperiar,
awadhizar, azerbaijar, hauçar,
ganar,
sundar, hakkar, pamjabidar, telugar, tamilar, portugugar, otoponizar,
além
de etceterar
hemû zim anê milyaketan
(Port: Todas as línguas intr/extr/oxtr/angel/
feéricas.).
King Now : Casas no R. Chalé salas
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dá volta aos 80 MILS mundos
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PROCURANDO SOUNDBAR
Não
sei por quê, parte dos brasileiros e (des)governo andam embirrados com a China.
A população alega que a China é comunista, que ela espalha o corona vírus para
enfraquecer os Estados Unidos e dominar o mundo, com sua vacina fazendo parte
do projeto de extermínio da humanidade. Já o (des)governo desempenha seu papel
de vassalo dos interesses dos ianques, seguindo a máxima de que os Estados
Unidos estão acima de todos e de tudo.
Como
penso que não é bem assim, que precisamos cultivar boas relações com a China
(não fosse ela o maior parceiro comercial do Brasil), sob o risco de não termos
a vacina para nos livrar da covid-19, procuro fazer o possível para amenizar as
tensões. Sei que meu propósito é ínfimo, mas penso que, se tivermos um tanto de
pequenas ações, o somatório final poderá se tornar algo grandioso.
A
parcela da população brasileira que tem ojeriza da China, além da fobia ao
comunismo (entendendo por comunismo tudo aquilo que contraria seu interesse),
também tem ódio por ela ter socializado os bens de consumo a preços módicos.
Como a máxima do Capitalismo é consumo/ostentação, o que fez a China nada mais
foi do que tornar vários bens acessíveis à patuleia ignara. (Em outras
palavras, penso que não existe nada mais capitalista do que a China comunista.)
Talvez esteja aí a razão principal desse preconceito de brasileiros: o que eles
experimentam é raiva de ver a pobrada consumindo produtos que eles julgam ser
os únicos merecedores.
Antes
da pandemia, eu procurava estreitar as relações Brasil X China frequentando os
shoppings populares da cidade. Gastando uma merreca aqui e outra acolá,
pensava: - Fazendo isso e ficando bom para ambas as partes, China e Brasil,
também fica bom para mim.
Com
o alastramento da pandemia – e tendo que me sujeitar a um isolamento
horizontal, vertical, perpendicular, paralelo e oblíquo – acabei restringindo o
consumo ao e-commerce tupiniquim.
Aproximando-se
a Black Friday, e tomando conhecimento de um tal 11/11 – Dia do Solteiro,
resolvi retomar minha relação afetuosa com a China, contribuindo, assim, para
que ela relevasse as baboseiras que conterrâneos e (des)governo falam a seu
respeito, liberando de vez a vacina.
Querendo
adquirir um aparelho eletrônico, chamado de soundbar ou barra de som – para
melhorar o áudio da TV enquanto assisto às minhas séries coreanas – entrei num
site chinês famoso. Quase tive um choque anafilático: eram milhares as
opções e ofertas. Como sou um brasileiro mediano e que gosta de levar
vantagem em tudo, tenho costume da fazer compras usando o processo dedutivo,
procurando primeiro ter uma visão do todo para depois ir para as partes. Isso
significa: ler as informações técnicas de todos os aparelhos, as avaliações
dos consumidores e anotar os diferentes preços.
Meu
cérebro começava a entrar em parafuso, quando tive a ideia de fazer uma triagem
com base na potência dos aparelhos. Julguei que 40 watts estava razoável. Tal
procedimento valeu muito, de modo que logo cheguei a uma resposta satisfatória.
Mas
nem tudo estava resolvido: precisava consultar o Dr. Google em busca de
orientação para uma compra internacional, já que era neófito no assunto. O Dr.
Google, solícito como sempre (preciso me lembrar de comprar um presente de
Natal para ele), despejou na tela do computador dezenas, centenas de vídeos que
ensinavam o beabá de tal compra. Foi lá que fiquei sabendo: além de converter
os míseros reais em prepotentes dólares, tinha também que desembolsar dinheiro
para o pagamento do frete, da taxa de importação (60% do valor da compra,
incluindo o frete), da taxa de correio (R$18,00) e do ICMS (18% de tudo).
Recorrendo
a uma calculadora, made in China, fiz e refiz as contas, chegando à conclusão
que não seria desta vez que iria embarcar numa compra direto da China.
Ao
fim de tudo, preciso dizer: é por essa e outras que chego à conclusão que nossos (des)governantes não têm amor com a população. Eles são mesquinhos, não querem que
outros tenham um mínimo de felicidade.
P.S.
Como meu propósito sempre foi, acima de todos e de tudo, contribuir para uma
relação harmoniosa entre Brasil e China, penso em enviar uma cópia deste texto
para a embaixada chinesa em Brasília. Caso algum leiturino seja expert em
mandarim, poderia ajudar na tradução. Aí, tudo ficaria chique demais, tendo
valido muito a pena as infindáveis horas que fiquei frente ao computador, tentando
comprar um soundbar chinês (ou barra de som) para assistir às minhas séries
coreanas favoritas.
Etelvaldo Vieira de Melo
COMO PROVA DE AFEIÇÃO
Para
provar minha discreta simpatia com a classe política, deixo aqui uma série de
ditados populares, esperando que eles sirvam de alento para os candidatos que,
no dia 15 de novembro, estarão “atravessando o Rubicão”. Como haveria de dizer
César, “alea jacta est”: a sorte está lançada. Merda pra eles (na linguagem
teatral: boa sorte).
Em
ano eleitoral, político pula mais que milho de pipoca em frigideira quente.
Como
não existe pessoa mais agradável que um político em véspera de eleição, é
preciso considerar que isso lhe custa caro, não só em termos monetários, como
no dispêndio de esforço físico, no corre-corre para atender uma agenda com
compromissos ultrapassando as 24 horas do dia e tantas coisas mais. Sem
considerar a montagem do sorriso 3D, o Óleo de Peroba passado no rosto e o
cuidado preventivo para com os calos das mãos, em decorrência dos cumprimentos
aos eleitores, não obstante os resguardos necessários por causa do coronavírus.
Condoído
com tanto aperto, andei pesquisando ditados populares apropriados ao contexto,
procurando ser útil a essa nobre classe, que enobrece, cada vez mais, nossa
pátria amada Brasil. Ei-los:
01
– Se é de grão em grão que a galinha
enche o papo, lembre-se que, de voto em voto, você poderá, depois,
encher os bolsos, cuecas e até apartamentos.
02
– Assim como tanta coisa da política e do judiciário brasileiros, eleição é um
jogo de vale tudo, onde os fins
justificam os meios. Por isso, não se acanhe em fazer um agradozinho
para seus eleitores de cabresto.
03
– Esconda suas reais intenções. Nesse sistema eleitoral que temos, quem vê cara não vê coração. Por
isso, capriche no visual, pois eleitores gostam de gente bonita. Invista numa
plástica ou num botox.
04
– Em poço que tem piranha, macaco bebe
água com canudinho. Eleitor não é piranha, nem macaco; ele é um pobre
coitado. Piranhas são seus concorrentes; portanto, cuidado com seu rabo.
05
– Quem tudo quer, tudo perde.
Modere sua ambição, pois nem sempre você poderá recorrer a um recurso
infringente para livrá-lo da degola.
06
– 07 – 08 – Três em um: Antes do resultado oficial, não pense que as eleições
já são favas contadas, pois –
com essa tal de urna eletrônica – é preciso colocar
as barbas de molho; além disso, prudência
e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
09
– Como bem diz a marchinha de carnaval: vai com jeito, se não um dia a casa
cai. Dois provérbios a preço de um: Bezerro
manso mama na mãe dele e nas dos outros e Quando a carroça anda é que as melancias se ajeitam.
10
– Política se faz com dinheiro e idealismo de mais dinheiro. Quanto à verdade,
não se preocupe: Quando o dinheiro
fala, a verdade se cala.
11
– Existe um provérbio judeu que diz: Não
se aproxime de uma cabra pela frente, de um cavalo por trás ou de um idiota por
qualquer dos lados. Tudo bem, quanto ao cavalo e a cabra. Já o idiota,
veja se está portando um título de eleitor. Se estiver, pode se aproximar sem
susto, com direito a dar-lhe tapinhas nas costas.
SONATA DE OUTONO (2ª PARTE)
Regina
Ângela, minha irmã, surge estrelada em maio/14/ mês das flores.
Molhada
fralda, mamãe a troca. Exausta? Nada. Aleita junto à criança farto desejo de
lhe ensinar receita de bolo. Comida bem feita. Limpeza dos tacos a escovão.
Reclama? Nem se queixa frente aos árduos serviços domiciliares. Rodos. Vassouras.
Jogos de cama e mesa. Tudo gira cá pra lá, lá pra cá. Batiza-a nossa Carmense
Igreja Católica. Depois, comunga. Catecisma. Pergunto: Por que nomes nossos
trocados? Maria, eu. Ela, Regina. Ah,
sim! Rainhas vêm ao mundo com semelhantes anjos.
Todos
a amam? Quantos lírios contados? 8. Brinco de bondade, altruísmo, inteligência.
Papai nela se inspira ao compor e tocar delicadas harmoniosas valsas para
violino e flauta. S. Rios Jr. torna-se o melhor amigo-confidente. Jaimico,
partido mano, feliz a conduz entre jardins/ jasmins/ sol nascente. Eu leio,
berçando, O Livro de Lili: ‘Olhem para mim. Sou a graça da titia’.
Promove,
10/Vespasiano, inéditos shows com palhaços, malabaristas, bailarinas. Para quê?
Quer anunciar: ‘Estimado público, eis aqui a deliciosa Papa-Fina do Tão’.
Durante os espetáculos, recolhe nomes: Senhor vendedor local ou d’acolá? À
tarde, carrega sobre os ombros vermelhos enormes pacotes de pipoca. Deles, lota
vendas. Botecos. Armazéns.
Estuda?
Claro, leitor. Faz bonito? Mire azul no Boletim/Grupo Escolar. Aos sábados? Fim
de semana, desfila sereia bela pela passarela/ Funil Esporte Clube. Quem
enfeita suas botas e capas aveludadas no Carnaval? Ora, ora bolas, eu! Afã de
colar robertos carlos. Desenhos. Lãs. Elãs.
Contemplo-a dentro do espelho. Sobe escadinhas até o degrau
enfeitado/caminhão dirigido por tiPedro. Guarde imagens, frágil memória!
Descreva-a, musa pré-adolescente. Saiote laranja. Máscara acetinada. Batom e blush
rosados. E daí e daí? Súbito, lança-nos à cabeça mil marchinhas à la L. Babo.
Confete. Purpurina. Beijos.
Deixo sobrescrito este enaltecimento:
Filhos.
Parentes. Amigos. Colegas. Honrem-na pelo firme caráter. Formosura sem par.
Completa humanidade. Foi assim às 16 primaveras? Óbvio, voz em off. Voa no
ar florido buquê. Alvas camélias.
Cravos. Miosótis. A senhora escritora pede vênia? Por favor. Saboreie comigo,
coautor, um caixote inteiro de dourados biscoitinhos, cartões, risos, canarinhas
palavras.
Quem o fez? Quem o trouxe?
Graça Rios
NOVEMBRO DE COLORIDOS SUTIS
Este
mês também é chamado “Novembro Azul”, com campanhas de prevenção do câncer de
próstata espocando através dos veículos de comunicação.
Sendo
assim, nada mais natural do que recorrer ao tema em dose dupla, antecipando
minha Black Fraude. O primeiro texto analisa uma visita ao urologista do ponto
de vista filosófico, mostrando como na vida tudo é relativo. Já o segundo texto
tal visita é analisada do ponto de vista da Física. Creio estar apresentando
uma ótima sugestão para os representantes do sexo masculino não se intimidarem
com o toque retal. Através de uma técnica simples, eles vão passar pela
experiência sorrindo, na mais pura abstração.
TUDO
É RELATIVO, ATÉ O PRONOME RELATIVO
Hoje estou vivenciando uma situação que
mostra a relatividade das coisas. Palavras mal ditas podem tornar um momento
maldito, enquanto que, em outras circunstâncias, essas mesmas palavras podem
ser aceitáveis.
Será isso que estaria querendo dizer
Einstein com sua famosa Teoria da Relatividade? Se for, estarei fazendo
fenomenal descoberta, ainda que ao cruzar o Cabo das Tormentas! Se não, caso o
tema exija cálculos e teorias da Física, sendo assim, deixa pra lá, que já não
disponho de neurônios suficientes para tais elucubrações.
Do que foi dito, depreende-se a
necessidade de que tudo na vida deva ser contextualizado.
Exemplos:
Na Idade Média, era sinal de devoção a
Deus uma pessoa ficar sem tomar banho, coberta de sujeira. Chegava às raias da
santidade ser infestada por piolhos.
Ser comedido às refeições é sinal de boa
educação? Depende. Os chineses são extremamente barulhentos, arrotando à mesa.
Para eles, isso é uma forma de demonstrar que a comida está boa.
O povo iraniano é conhecido por sua
gentileza, e ela tem um nome (taarof). Por isso, em alguns estabelecimentos,
acontece dos lojistas recusarem o pagamento de um cliente. Mas que os
brasileiros tomem cuidado quando forem ao Irã: isso não quer dizer que devem
deixar de pagar a conta...
No Tibete, se um velhinho cumprimentar
você mostrando a língua, não leve a mal. Uma crença diz que o diabo tem a
língua azul; o velhinho só quer lhe mostrar que é uma pessoa de bem.
Tudo é vaidade, dizia o Eclesiastes.
Tudo é relativo, digo eu.
Vejam vocês um caso que, em outra
circunstância, provocaria a minha maior indignação, com o risco de levá-lo às
últimas consequências. Estou me preparando para uma consulta médica com um
urologista. Você pode, agora, e tão somente agora, falar para mim: “Vai
tomar no ***. Dentro do contexto, eu não me sentirei ofendido.
SER
OU NÃO SER JÁ NÃO É MAIS A QUESTÃO
Um
pensador da Antiguidade, para quem eu nutria certa dose de consideração e
respeito, dizia que o ser é e o não ser não é, que um não pode – sob nenhuma
hipótese – ser o outro. Dia desses, um fato banal veio jogar por terra tão alta
construção metafísica.
Estava eu no ponto de ônibus, aguardando esse transporte coletivo e socializante para me deslocar até um consultório médico-urológico. Para desviar meus pensamentos do triste fim que me aguardava, procurei algo que tomasse minha atenção. Em um poste ao lado do ponto havia um aviso de:
Durante
muito tempo, fiquei pensando naquelas garotas, imaginando a ansiedade com que
procuravam a cadela, que atendia pelo nome de Suzy. Achei aquele gesto bonito,
fiquei torcendo para que fossem bem sucedidas na procura e que a história
tivesse um final feliz.
Enquanto
digeria lentamente essas considerações (para não pensar naquela outra coisa),
comecei a vislumbrar um pensamento diferente, de igual intensidade e de sentido
oposto. Considerei que aquelas garotas agiam de maneira errada, estampando em
postes aquele tipo de anúncio, já que ali não é local apropriado para esse tipo
de coisa. Imagina se todas as pessoas inventarem de colocar anúncios em postes!
Considero
que, se tem algo de bom acontecendo nas cidades brasileiras, esse bom é
justamente a recuperação da dignidade dos postes. Tempos atrás, era ali que
cartazes se sobrepunham, em disputa acirrada, notadamente por políticos em
véspera de eleição (agora, por exemplo, eles estariam sendo disputados a tapas).
Novas legislações foram criadas, punindo com multa os infratores. Entre os
teimosos e sobreviventes, visualizo somente um ou outro anúncio de videntes e
cartomantes, que devem estar “matando cachorro a grito”, prometendo mundos e
fundos: livrar a pessoa de olho gordo, trazer de volta a pessoa amada, ter
sucesso nos negócios, tudo a troco de uma simples consulta.
Falando
em cachorro, vejo que eles se constituem também uma ameaça à integridade física
dos postes. Pensando nisso, vou tentar convencer um conhecido candidato à
vereança nestas eleições, a apresentar um projeto de instalação de sanitários
para cachorros em parques e jardins. Os proprietários de cães estão
mal-acostumados com a higiene pública. Ontem mesmo um técnico, que veio fazer
um serviço em minha residência, dizia, tomado de orgulho, que, assim que chega
em casa do serviço, tem que levar seu cachorrinho de estimação para um passeio
na rua, onde ele faz suas necessidades fisiológicas. Duvideodó que esse senhor se dê ao trabalho de levar consigo uma
pazinha e um saco plástico, para recolher os possíveis dejetos sólidos ou
pastosos despejados em via pública pelo seu amiguinho de coração!
Associei
os postes aos cachorros e, agora, vejo que os cachorros se ligam aos políticos que,
por sua vez, estão engavetados, tal como numa situação de trânsito, aos juízes
do STJ. Esses juízes, vira e mexe,
inventam ou trazem à tona novos termos para serem incorporados ao nosso
vocabulário. Não sei por quê, estou me lembrando da Teoria do Domínio do Fato,
quando da Ação Penal 470, afetuosamente apelidada de Mensalão. Depois, inventaram um tal de Embargo
Infringente, que vem a ser um recurso impetrado pelo acusado, quando não há
unanimidade no julgamento de apelação. Tal embargo nos mostrou que uma coisa
não só pode ser outra coisa, como também pode ser várias outras. Assim, ele
pode se desdobrar em Embargo Absorvente, Solvente, Emoliente, Detergente,
Repelente. Agora, a discussão é sobre prisão preventiva e condenação em segunda
instância. A continuar desse jeito, todos os brasileiros irão se tornar
bacharéis em Direito.
Quando
penso nisso tudo que anda acontecendo no país, fico cada vez mais convencido de
que a nossa Justiça até pode ter seus olhos vedados, mas que tem um olfato
apuradíssimo, isso tem, principalmente quando existe cheiro de dinheiro
circulando no ar. Depois, parece, nossa legislação apresenta mais furos que as
lonas de circos que frequentavam minha cidade natal.
Estava
pensando nos desdobramentos de tais considerações, quando me vi ajeitando a
calça e me despedindo do médico urologista. Também parece que o exame
transcorreu normalmente, mas nem me dei conta, com o pensamento voltado para
Suzy, os postes, os cachorros, os políticos e juízes. De maneira intuitiva,
entrei naquele estado que os iogues chamam de Alfa. Acabei usando um princípio
da Física, que diz não ser possível dois objetos ocuparem o mesmo espaço ao
mesmo tempo: pensando numa coisa, deixei o constrangimento de ter o pensamento
voltado para outra, desagradável e dolorosa.
Aproveito
a ocasião para lhe repassar esse aplicativo gratuito, útil em várias situações
de vida, quando você poderá fingir que está, não estando; estando em outra,
deixará de estar naquela em que não quer estar.












