CONFISSÃO DE UM METAMORFOSE AMBULANTE

 

Não querendo ficar na categoria das pessoas alienadas, Eleutério procura, na medida do possível, se informar sobre as coisas relevantes que ocorrem no Brasil e no mundo.

Sendo as notícias numerosas, ele tenta fazer uma triagem, dedicando mais tempo àquelas que lhe parecem relevantes, enquanto as outras são atualizadas em segundo plano, conhecidas tão somente pelos títulos e manchetes.

Tal procedimento, apesar de correto, não o deixa satisfeito, já que fica sabendo pouco de muitas coisas. “Não seria melhor saber muito de pouco?” – ele sempre se pergunta.

Quando tem de dar opinião sobre determinado tema, nosso amigo carrega um sentimento de desonestidade, como se não tivesse direito de falar o que pensa. Ele pensa também que esse é o preço a pagar por seu enciclopedismo. Se fosse um especialista, cuidando só de determinado tema, tudo seria mais fácil.

Para ilustrar seu desconforto, pede para observarmos a situação que vivemos no momento. As redes sociais estão nos bombardeando com notícias e informações acerca do conflito entre Rússia e Ucrânia. As notícias são disparatadas, enquanto que as análises são contraditórias, atendendo a todo tipo de gosto ou interesse. Para ter uma noção com um mínimo de fundamento sobre o assunto, Eleutério acredita que terá de pesquisar muito, confrontando muitas análises políticas e geoeconômicas, além de ter que estudar História (o que ele faz). Quando chegar a um veredicto há o risco de a   guerra ter chegado ao fim ou então o mundo ter sucumbido a uma hecatombe nuclear.

Não querendo ficar em cima do muro, mas também não abrindo mão de seu senso de honestidade, Eleutério se permite pensar igual a Guimarães Rosa: - Não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. Sente pena daquelas pessoas que, sabendo pouco ou mesmo nada, são compelidas, impelidas e coagidas a darem seus pitacos sobre o tema. Como foi o caso da apresentadora de TV Ana Maria Braga, que disse: “A Rússia é um regime comunista, né? Você não pode dizer ‘não’ sem ordem. Tem que dizer ‘sim’ pra tudo”. As pessoas no Brasil que têm alergia ao comunismo devem ter sentido o estômago embrulhando, enquanto um sentimento de ódio subia até a boca. Quando o dito ficou pelo não dito já era tarde e o estrago da desinformação já havia sido plantado. Pouco adiantou ficarem sabendo que a Rússia deixou de ser comunista com o fim da URSS, em 1991.

Por essa e outras, Eleutério pensa que as pessoas só aceitam aquilo que elas querem. Verdade é o que me interessa, e todo o resto é mentira. E pensar que, até poucos dias atrás, os céticos criticavam o dogmatismo dos crentes por encontrarem na religião resposta para tudo...

Hoje, a opinião vem antes dos fatos e, se os fatos contrariam a opinião, mudam-se os fatos. Indo contra a corrente, Eleutério prefere ficar com a ideia de Raul Seixas que, sabiamente, já dizia há dez mil anos atrás: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Desorientados diante dos possíveis desdobramentos do conflito entre Rússia, Ucrânia e OTAN, muitos estudiosos querem fazer valer aquela máxima de Voltaire, dita por volta de 1700: “A paz vale ainda mais que a verdade”. Resta combinar com os poderosos, os que mandam no mundo.

Para os mandachuvas, Eleutério deixa este outro recado, agora dito por Charlie Chaplin, em 1940 – quando a 2ª Guerra Mundial estava em efervescência: “A ganância, o ódio e a prepotência envenenaram a alma dos senhores, os senhores que tratam os outros como um gado humano e que os utilizam como carne para canhão! (Lembrem-se:) Mais do que de máquinas precisamos de humanidade. Mais do que inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido.”

Etelvaldo Vieira de Melo


DEFENDE OS BICHOS

 


Quemquem-de-tela-do-solo

Cachorro-do-mato-vinagre

Gato-maracujá

Tamanduá-bandeira, tatu-canastra, tucano-toco, sabiá-do-campo

                & Cia ilimitada

Graça Rios


NANO DICIONÁRIO ELEUTÉRIO (VOLUME II)

 

DIVAGAR: Pensamento que caminha passo a passo, quase parando.

GASTRONOMIA: Comer olhando para o céu (contribuição de Millôr Fernandes).

ASTRONOMIA: Artista comer olhando para o céu.

ECONOMIA: Mia, se for de gato.

OVACIONAR: Atirar ovos em manifestação pública. (OVAÇÃO: O resultado disso.)

DEVANEIO: Quando o pensamento desprende da matéria e entra em estado de levitação.

CONTUNDENTE: Dor de dente aguda.

EXCLUDENTE: Extrair um dente.

DECADENTE: Extrair todos.

IMPRUDENTE: Quebrar um dente comendo piruá.

CONTADOR: Aquele que, condoído, contabiliza a dor de uma declaração fiscal.

VIOLAR: Tocar viola em casa.

SERGIPE: Sonho secreto de estado brasileiro.

SERPENTE: Anfíbio (também pode ser sonho de cobra).

ARREDAR: Dar marcha a ré no carro.

REPARAR: Parar o carro depois de dar uma ré.

REBATER: Bater o carro de ré.

PIAMENTE: Mentir de mãos juntas, jurando para Deus. (TEMENTE: Aquele que teme e, mesmo assim, mente).

SUSTENTADA: A saúde pública no Brasil.

SUSTENTAÇÃO: Governo querendo acabar com SUS.

PAPELADA: Uma pá sem cabo.

PAPELÃO: Quebrar o cabo da pá (quem faz isso: pessoa da pá virada).

PACIENTE: Estar ciente que a pá quebrou.

RESSALTAR: Modalidade de salto em que o atleta faz um movimento para a frente e se joga para trás.

ACORDAR: Trabalho de pintor.

COMPASSO: Modo de andar.

SOCORRER: Ajuda própria de atleta.

SÓ CORRO: Atleta respondendo a apelo de socorro!

CONTRABALANÇAR: Lançar a lança contra a balança.

EXERCITADOR: Espécie de sadismo (EXCITADOR: de sadomasoquismo).

EXTREMIDADE: Pessoa muito idosa.

TEMERIDADE: Ter medo da extremidade.

CONTEMPORÃO: Tipo de moradia que contém área abaixo do primeiro piso.

COMBATENTE: Espécie de porta almofadada.

REMEDIAR: Um doente se automedicar.

REMOVEDOR: Tomar um bom medicamento com receita médica.

CONDOLÊNCIA: Pêsame de preguiçoso.

DETERGENTE: Especialidade de soldado.

REFEIÇÃO: Fazer cirurgia plástica do rosto. (NOV IDADE: A feição depois da RE FEIÇÃO.)

ELOCUBRAÇÃO: É você estar em quarto escuro, à luz de vela bruxuleante, ponderando ideias em seu encéfalo absconso (o que acabo de fazer).

KBÔ!


Etelvaldo Vieira de Melo


A PEQUENA SEREIA


Quando nasci,

marmanjo movido a jato

falou:

- Ó brutal produto interno,

gerada pelo underground:

                             

Vai, escreve a desdita

de vossa puta

conduta.

    

- Oh, pá lavrada em sangue,

mau fel dos gugu glúteos

nus ainda no berço.

Praga:

Rasgue-se nele o sidéreo saco

Graça Rios 


MÁ ÍNDOLE OU FALTA DE EDUCAÇÃO?

 

O lobinho pela mãe abandonado

Foi por um pastor adotado

Que lhe deu toda atenção e carinho

Além de paciente ensinar

A arte de roubar

As ovelhas do vizinho.


Tendo aprendido muito bem a lição

Pôs-se o guri a roubar ovelha até do patrão.

Este, ao se dar conta do ocorrido,

Reclama: - Por que fizeste isso comigo?

Ao que responde o lobinho sem pestanejar:

- Mas por que me ensinaste a roubar?

Moral:

Esta fábula reflete a questão: o ser humano é mau por natureza, ou é a vida em sociedade que o corrompe? Ela também nos ajuda a pensar sobre o quanto carregamos de herança genética e o quanto aprendemos com os outros.

Uma autoridade do país, o atual vice-presidente, criticou certa vez o povo brasileiro, dizendo que ele apresentava uma falha de caráter por causa de uma herança cultural: “Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. E a malandragem, nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano”. Já a fábula diz que somos moldados pela educação, que aprendemos através dos exemplos.

Desse modo, torna-se perigoso ficar transferindo para a população, o povo em geral, a responsabilidade que é daqueles que detêm o poder e daqueles que tiveram acesso à educação e que desfrutam de boa qualidade de vida.

A fábula quer dizer: não faz sentido ficar acusando o povo pelos pequenos deslizes que comete, justificando, assim, grandes faltas.

O povo necessita de educação, de bons exemplos. Daí, políticos, magistrados, líderes religiosos, autoridades e membros das elites precisam ser boas referências. Mas eu pergunto: - É isso que temos no país? Nossas elites são exemplos de honestidade, de honradez, de defensores da verdade e da justiça, de verdadeiro patriotismo?

É muito cômodo jogar a culpa de nosso atraso na conta de uma herança cultural, assim como é ridículo responsabilizar o pobre pela destruição do ambiente, como se ele fosse culpado pelas queimadas na Amazônia. O Brasil é o que é por conta da irresponsabilidade e da ganância de nossas elites. O povo propriamente deve ser o último a ser responsabilizado por alguma coisa. Quando faz algo errado, muitas vezes está se espelhando nos exemplos que vêm lá da cima.

Etelvaldo Vieira de Melo

SI LE GRAIN NE MEURT

Vídeo: Pinterest

A penumbra da chuva seria esquecimento.

Que esterco metafísico todos os propósitos,

raiva de ter rabo na memória!

Barca absorta, masturbo tempos onde cruzo com.

Plagiária de Vênus sob sensual sede solar,

jogo séries de mim de alguém dentro de mim.

 

- Depois, durmo - água dura   vaga   rendição -.

Graça Rios

SE FICAR, O BICHO PEGA; SE CORRER, O BICHO COME

 

Como haveria de dizer o brilhante ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, “houveram tempos” em que cultivei a pretensão de encontrar uma explicação racional para o sentido da vida, ou seja, em que seria capaz de encontrar uma resposta para estas três perguntas fundamentais: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?

O tempo foi passando e aquele propósito foi esvanecendo, esvanecendo, até sumir de vez. Hoje, contento-me com explicações periféricas, aquelas que me chegam através da leitura dos chamados ditados populares. O que tenho procurado fazer é ajuntar um daqui com outro dali para ver o que pode dar. Sei que os ditos populares representam o substrato de tudo aquilo que a humanidade foi aprendendo através dos tempos. Por se traduzirem em linguagem delimitada pelas circunstâncias, acaba de me cair a ficha, muitos deles se tornam incompreensíveis, à medida em que o tempo muda trazendo novos termos e novos conceitos. De qualquer modo, o que fica é sempre enriquecedor, contribuindo de seu jeito para desvendar o enigma da existência humana.

Um ditado antigo e ainda pertinente para os dias atuais é este: “Se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come”. Tal ditado fazia muito sentido no tempo em que as pessoas viviam mais no meio rural e estavam cercadas de bichos, muitos deles perigosos e selvagens. Hoje, quase não há mais bichos, domesticados que foram, e as pessoas já não correm o risco de serem pegas ou comidas. O ditado se torna pertinente pelo seu sentido figurado: vivemos situações sem saída, onde, de um jeito ou de outro, vamos nos dar mal.

Foi o que deduzi ao assistir a um vídeo, onde determinado cidadão extravasava sua indignação com o preço da tarifa da energia elétrica.

De uma conta de👉R$227,08, ele constatou que estava pagando 🔎R$176,00 (74,68%) de taxas (tributos, incluindo uma taxa de escassez hídrica, transmissão, distribuição, encargos, perdas, taxa de iluminação pública), enquanto 🔎R$51,39 (25,32%) ficavam por conta de seu consumo de energia. Ou seja: de R$10,00, R$7,50 eram pro governo, enquanto R$2,50 pagavam o serviço.

E o cidadão vociferava, quase eletrocutado de raiva:  - Isso aqui é escravidão? O povo é escravo? Tem que trabalhar pro estado ladrão? Cadê os hospitais funcionando? Cadê a saúde melhor? Cadê as estradas melhores? Esse país é livre?

Assistindo ao vídeo, fiquei pensando. Um antigo compositor dizia que o Brasil é um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. E, ainda com esses bônus: tem carnaval em fevereiro, tem futebol e tem uma nega chamada Tereza. Mas cabe perguntar: tanta coisa boa acaba sendo revertida em favor da maioria da população?

Desde que me entendo por gente, percebi que ser cidadão brasileiro é viver sendo jogado entre esses dois extremos: se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come.

Veja o caso da energia elétrica. Estando nas mãos do governo, temos uma exploração danada. Mas, e se cair para a iniciativa privada, vai melhorar? Ela que só pensa em lucro! Foi isso que assistimos com a privatização da VALE e das telefonias.

Falando em telefonia, depois de sugar tudo o que podia do governo e mesmo assim quebrar, a empresa da qual sou cliente acabou sendo leiloada entre outras três. E deste modo estou: sem opção de escolha, encurralado no dilema de se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Ou, no dizer de outro ditado: se sair da brasa, acabo caindo no espeto. Parece que ser brasileiro é ter a opção de não ter opção.

Mas, não obstante, porém, contudo, vislumbro uma luz no fim do túnel, capaz de me animar e acalmar o indignado cidadão da energia elétrica.  Pesquisando sobre a origem do ditado, descobri que ele é conhecido pela metade, faltando o complemento. Enunciado na sua forma original e verdadeira, ele diz assim: Se ficar o bicho pega. Se correr o bicho come. Se juntar o bicho corre. Daí: - Vamos juntar, gente, e fazer o bicho correr!

Etelvaldo Vieira de Melo


CEIA CIA

 

A panela ferve salsa cebolinha erva.

Rainha de Copas olha vermelho na cozinha.

Entoando vassoura,

limpa-me Carollina o último lírico cocô.

Trágico destino o de bicho condenado!

Chapeleiro Louco anuncia jantar nietzschiano:

          ‘O coelho está - quase - morto’

         - País dos Atos Ratos & Pratos! 

             Enfim, termina a censura.

     Alice e Arganaz, bem - a 2 - comidos,

               bebericam livres licor.

        Peixe-lacaio executa ao pistom

           o Réquiem de Mim menor.

Graça Rios

CONFESSO: CORTEI A CEREJEIRA!


Por causa de seu temperamento extrovertido, Fridolino Xexeo pode aparentar ares de arrogância, metidez. No entanto, trata-se de uma pessoa simples e agradável, tirando sua propensão de exagerar as coisas e de ser um tanto quanto aproveitador, pecadilhos de somenos importância. Ingenaldo, que detesta gente cínica e metida, é um de seus amigos mais próximos.

Ingenaldo gosta de adivinhações. Sabendo disso, Fridolino lhe propôs este enigma:

Em viagem, certo estudioso do comportamento humano chegou a uma ilha distante do oceano Pacífico. Os moradores dali – o pesquisador já sabia de antemão – apresentavam uma característica peculiar: quem era político só falava mentira; quem não era político só dizia verdade. Querendo saber quem era quem, o pesquisador perguntou a um indivíduo de topete e bigode, que usava uns exagerados óculos esportivos:

- Você é político?

O sujeito respondeu na língua nativa, deixando o entendimento do pesquisador do mesmo tamanho, sem nada esclarecer.

Outro indivíduo, agora um senhor de cabelos grisalhos e cavanhaque, traduziu:

- Ele disse que é político.

Já um terceiro personagem, um jovem de incipiente barbicha, contestou:

- Não. Ele disse que não é político.

Com base no que disseram, meu caro Ingenaldo, quem é e quem não é político nessa história?

Ingenaldo, que acompanhava com atenção a narrativa, ao ser questionado, tirou do rosto seus óculos de armação azul e ficou limpando lentamente suas lentes com um lenço de papel. Depois, conferiu contra a luz se estava tudo certo. Aparentemente satisfeito, colocou os óculos de volta entre as orelhas. Só depois desses preliminares é que falou:

- Está aí uma coisa que me incomoda muito, uma das grandes tragédias dos tempos modernos.

- O quê? – quis saber Fridolino Xexeo. O fato de os políticos serem mentirosos?

- Não. Estou me referindo a esse dualismo entre verdade e mentira. Seria bom demais se as pessoas só dissessem a verdade ou, então, só mentissem. Não haveria o risco de alguém ser enganado.

- Mas, então, por que as pessoas mentem?

- Vivemos uma época onde os valores são pervertidos, com mentira e verdade sendo relativizados. O que predomina mais do que nunca é o interesse: se for de meu interesse acreditar em algo, ele passa a ser verdadeiro para mim. Então, começo a usar até mentiras para justificar o que me interessa.

- Dentro do princípio de que os fins justificam os meios.

- É por aí. Além disso, o que determinada pessoa fala ou faz deixa de ser desabonador, desde que na essência estejamos de acordo. Essa máxima acaba valendo para quem está à direita, à esquerda, ao centro e até para quem não sabe em que lado está.

- Realmente, essa relativização da verdade é algo terrível. A verdade, que deveria ser um valor supremo, acaba sendo sujeitada aos interesses. É isso que te incomoda?

- Sim, meu maior medo é ver as pessoas misturando interesse com verdade, achando que verdade é aquilo que lhes interessa. Com isso, passam a condenar o que é bom, inocente, enquanto endeusa o que é perverso, o que espalha maldade, só porque atende um pouco que seja aos seus interesses. Quem se deixa levar pelos interesses corre o risco de se tornar cego à verdade.

- A verdade nem sempre é agradável aos olhos; pelo contrário, a mentira é cheia de atrativos – falou Fridolino.

- Seria bom que as pessoas se espelhassem no exemplo de George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos. Ele era tido como uma pessoa íntegra, honesta. Diz a lenda que, aos seis anos de idade, cortou a preciosa cerejeira de seu pai, mas, quando seu vandalismo foi descoberto, o menino imediatamente admitiu o erro: 'Eu não posso mentir. Eu cortei a cerejeira'.

- É. Infelizmente, são poucos os que assumem que cortaram a cerejeira. Estão sempre jogando a culpa nos outros. Mas, voltando à questão da história que te contei: quem é e quem não é político?

- Meu caro Fridolino.  Vamos deixar a solução desse enigma por conta dos leiturinos. Caso algum não saiba, é só avisar, que venho dar a mão. Certo?

Etelvaldo Vieira de Melo

A CAMINHO DO DIVÃ

 


Vestido de bolas, botas, bovarismo. Paixão do pormenor.

Nacionalidade brasileira lendo Baudelaire traduzido para o espanhol

prefaciado por alemão em ótimo inglês ao cruzar Pequim. Coquetterie.

O que se há de fazer por melhorar o visual e fechar a ferida narcísica?

Sapiens mulier, ensaia um sorriso pro alto, tipo anjinho barroco.

(Assim meia Athayde meia Górgona arrepiando os cachos.)

Abre o espelhinho de observar hímen, desfaz a corretivo

pequena ruga de expressão.

Elle vit de sacrifices.

Afinal, como sobreviver sem o pathos da paixão?

Graça Rios

REGIS, O RATO QUE NÃO ROEU A ROUPA DA RAINHA

A existência desse rato inglês foi tornada pública em crônica postada em 01/12/2012. Hoje, transcrevo a singular história de Regis, o rato que não roeu a roupa da rainha.

Regis, o rato que não roeu a roupa da rainha, tinha um nome, registro e domicílio próprios, como sói acontecer aos ratos britânicos de nascença, colonização ou adoção. 

Seu nome era Regis, genitivo de Rex, do Rei, conforme certidão passada em cartório aos seus pais, numa prova cabal de que na Grã-Bretanha até os ratos cultuam a monarquia.

Regis, além da devoção para com a rainha-mãe, Elizabeth, era fã ardoroso da princesa Diane, tendo vários de seus posters espalhados pelas paredes de sua toca. Por isso, torna-se deveras impossível descrever sua consternação, seu desespero quase, quando da morte daquela pela qual era ratazanalmente apaixonado. Entrou em estado de depressão, pensou até em suicídio, quando passava pela sua cabeça a hipótese de ser o trono ocupado pelo príncipe herdeiro, Charles.

O domicílio de Regis estava no rés-do-chão de uma residência nas proximidades da Tower Bridge, aquela famosa ponte sobre o Tâmisa. Ele estava também próximo da Tower of London, uma fortaleza que havia sido transformada em museu. Regis visitou esse museu uma única vez, quando recebeu a visita de parentes vindos do interior. Sentiu-se na obrigação de levá-los até aquela antiga fortaleza, embora estivesse consternado diante da complexidade do comportamento do ser humano: constrói armas de destruição, que provocam a morte de outros humanos e, depois, as exibe como troféus, conseguindo dividendos com a visita de turistas. Aquilo que deveria ser motivo de vergonha torna-se razão de orgulho.

Regis sentia-se bem morando ali em Londres, junto com seus familiares e amigos. Ele não se incomodava nem um pouco com as variações climáticas, com as chuvas intermitentes. Enquanto rato de razoável nível cultural, sabia que a capital britânica tinha muito a lhe oferecer em termos de eventos em casas de espetáculos e museus: Cecil Sharp House, Union Chapel, Royal Albert Hall, 02 Arena, Royal Opera House, Museum of London, Bristish Museum... Apaixonado por futebol e torcedor do Chelsea, frequentava o Stamford Brigde e o Estádio de Wembley.

Certo dia, estando em visita ao Museu de Madame Tussauds, um museu de cera, Regis presenciou uma cena divertida. Entre os inúmeros turistas, havia um brasileiro - Regis ficou sabendo por causa de sua fala - posando para fotos ao lado de personagens históricos e artísticos. Quando ficou ao lado de Steve Spielberg para uma foto, muita gente pediu para que repetisse a pose. Assustado, ele se deu conta de que, com boné, ficava parecido com o diretor cinematográfico. Regis ouviu seu comentário com a esposa, ao que parece:

- Está vendo só? Talvez Steve necessite de alguém para representá-lo em alguma situação. Não custa nada investir nesse sentido. Quando estiver no Brasil, vou quebrar os traumas de minha adolescência e fazer um curso de inglês para me tornar, quem sabe, dublê de um famoso.

 A lembrança desse fato provocava em Regis um sorriso amargo. Já havia passado muitos anos, mas ele não tinha como esquecer aquela que era a luz, o queijo suíço de seus olhos.

Até o dia em que ele estava nas proximidades da Loja Primark, com o olhar perdido no infinito, nem se dando conta do burburinho de pessoas num entra-e-sai frenético, com sacolas abarrotadas de compras. Em épocas passadas, não lhe passaria despercebida a profusão de mulheres árabes e seus vestidos típicos. Ele haveria até de fazer um comentário mordaz: “Olha onde vieram parar os petrodólares!” Mas não naquele momento, quase atropelado por pés apressados.

Foi então que aconteceu o inusitado: uma mão se estendeu até ele e o pegou com cuidado. Tratava-se de um indiano, acompanhado por uma mulher. Entorpecido e um pouco assustado, ouviu-o falar:

- Veja, Rajnandhini, sinto pela maneira de olhar que este rato é a reencarnação de meu pai, Jayanti.

- Suas palavras são sábias, Abhijat. Vamos levá-lo para o Templo de Kasni Mata, onde ele poderá se tornar um kaba.

- E, assim, Regis foi levado para a Índia e alojado no templo de Kasni Mata, ou Templo dos Ratos, onde se tornou um kaba, um rato sagrado. Lá, ele é tratado e alimentado com todas as honrarias. Aos poucos, a dor pela perda da princesa foi passando e, agora, já é visto passeando alegremente entre as salas. Caso você queira visitar esse templo, não se esqueça de cumprir algumas formalidades, como, por exemplo, a de tirar os calçados, mesmo tendo, depois, que pisar nos excrementos dos ratos. Talvez possa identificar Regis em meio a mais de 15.000 outros. Se prestar atenção, vai descobrir fácil: seu sotaque britânico é inconfundível.

Obs.: Einstein teve aquele insight sobre a Teoria da Relatividade observando situações como a descrita acima. Tudo é relativo: ser rato pode representar uma bênção ou uma maldição, dependendo do contexto.

Etelvaldo Vieira de Melo

 


ALEGRES TRÓPICOS



Um pequeno nada

Muda tudo.

Bem vestida mal

Poso muy coquete

Ao som dos blues.

 

Hálito à ping-pong,

Ganho truco à custa

De rapaz criado ogro.

Rei rainha de ouro

Copas a preço de joia

 

Biju moeda cordão Rá

Lata roupa trapo sapo

Vendo venda certa

        Etc e qual

 

Obtenho efeito grandeza

 Ou audaz pequenez.

 Agarra-rato, fito filo fita

 % fato & foto @ como.

 Tantão de moda, tento

     

Invento $ deus

Correndo comendo gente

à vista derrubo elemento P.

 pião na cama-de-gato

elástica.

    

Demais nunca é bastante:

Calço luva longa de angústia

 Fingida sinhá século XIX.

 

(Capricho na grande

trapaça.br.trepada

                                               Lirismo +Tezão,

                                           Vivo desvivo desbundo)

                                             Atual Belle Époque,

 

Cato mancebo, velho, guri,

 Rolo com eles respectiva

            Mente tiro

                                              Tranco matéria de sexo.

 

Se quiser clímax, dê leite.

 Ponha-se carnavalesca

  Colombina colomba.

 

                                                                 Seja

Circo instantâneo. Pano rápido,

                                             déchire les bêtises que je tái dit.

                                                           Falooooô ?

Graça Rios

GAFANHOTO E O MESTRE PÓ

 

Tenho o costume de compartilhar semanalmente com meus afetos e alguns desafetos determinada mensagem. Desta vez, foi uma citação de Lao-Tsé (“Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias; para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias”). Tal pensamento me proporcionou a seguinte reflexão: “Sapiência: Ter equilíbrio entre as adições e as subtrações. Que você seja sempre feliz nessa aritmética da vida”.

Algumas pessoas reagiram a esta mensagem, como por exemplo:

- Genésia Solaris: “Nossa! Excelente reflexão! Estou tentando fazer isso neste início de 2022.”

- Renevildo Ruzac: “Depois de aprender que é importante enxergar sempre a beleza das coisas, deixando a feiura de lado, estou vendo que também importa saber usar a matemática da vida com inteligência e equilíbrio.”

- DB Cristhaldo: “Eliminar a banha que é o problema, seu Lao.”

Ao que respondi: “Gafanhoto, a banha que sai é a mesma que entra. Como querer eliminar aquilo que você permite que entre?

- Profunda sapiência, - retrucou Cristhaldo.

Lendo esses comentários, lembrei-me de um manuscrito que guardo comigo, datado de 1827, um diálogo entre Gafanhoto e o Mestre Pó. Ei-lo:

 

- Mestre, o que é conhecer?

- Conhecer é você adicionar coisas ao seu saber. O resultado disso é chamado de conhecimento.

- E a sabedoria?

- Nem todo conhecimento se torna saber. Sabedoria é você descartar o conhecimento que não é saber.

- Quando o conhecimento deixa de ser saber?

- O conhecimento está a serviço da vida. Ele não tem um propósito em si mesmo, isto é, não procuramos conhecer por conhecer. O conhecimento deixa de ser saber quando perde o seu sabor.

- Quer dizer que sabedoria é o conhecimento saboroso?

- Podemos assim dizer. Mas a sabedoria não se constitui exatamente o ato de subtrair coisas. Esse ato é chamado de sapiência.

- Mestre, tenho uma certa dificuldade em entender o que é o conhecimento.

- O conhecimento é tudo aquilo que você torna seu, e é somente tudo aquilo que você pode tornar seu. Tornar seu no sentido de possuir, não simplesmente de ter.

- Pelo que estou entendendo, mestre, possuir vai muito além do simplesmente ter.

- Exato. Está aí a razão da infelicidade de muitas pessoas. Nem sempre o que você tem, você poderá possuir. O sábio descarta aquilo que não pode possuir.

- É por isso que o sábio é leve, já que não carrega coisas sem utilidade, não é isso, mestre?

- O conhecimento – tudo aquilo que você torna seu, volto a repetir – está a serviço da vida. Muitas pessoas acumulam coisas que quase nada atendem às suas necessidades. O resultado disso é que teremos conhecimentos supérfluos para vidas vazias.

- Mestre, o conhecimento pode ser confundido com informação?

- A informação fornece subsídios para o conhecimento, mas não é conhecimento. Conhecemos quando introjetamos, tornamos nossa a informação que nos é passada. Acontece muito hoje: pessoas que convivem com informações, vivem abarrotadas de informações, sem tomarem conhecimento, sem ciência e muito menos consciência.

- E qual o resultado disso?

- Pessoas informadas, e até mesmo bem informadas, sem, contudo, terem conhecimento das coisas.

- Correm o risco de viverem a ilusão de acharem que sabem, quando, na verdade, nada sabem, não é?

- Quando confundem a informação com o conhecimento, quando trocam o conhecimento pela informação, as pessoas correm o risco de moldarem suas vidas por explicações (razões) que não lhes são próprias. Abrem mão de suas individualidades, passam a ter comportamento de massas. Tornam-se indivíduos massificados, coisificados.

- Pelo que estou vendo, precisamos ter cuidado com as informações.

- O primeiro filtro para elas é o conhecimento, que é o ato de tomar ciência. O seguindo filtro é o ato de avaliar se aquele objeto de ciência atende às necessidades da vida. É isso que chamo de re-flexão, esse voltar-se do indivíduo para dentro de si mesmo. Quando o conhecimento atende a uma necessidade, e não simplesmente a um desejo, ele se transforma em saber, sabedoria.

- Obrigado, mestre Pó, por suas sábias palavras.

- Não tem de quê, caro Gafanhoto. Lembre-se: a vida sem reflexão não merece ser vivida. A reflexão é o oxigênio da vida. É por isso que ela se torna perigosa, ao permitir o pleno exercício da liberdade.

Etelvaldo Vieira de Melo