LÁ VEM O PAPO (XIII)

Imagem: Wikipédia


 SAPATEiA, PEÃO

O peão entrou na roda.

Bamboleia, ó peão.

Bambeia, avião.

Joga ginga se é capaz

de dançar com o pião

no chão.


SEU FUCIM

Atirei o pau no gato, mas Risonho não morreu. 

Alice disse: ‘No País das Maravilhas,

felino tem zentas vidas.

OZnice pensar que o mata,

Carroll de lata’.


 COM ELA, NÃO, VIOLÂO

Boi boy espacial.

 Valentina astronauta

 dormirá, enquanto

 reiniciamos a missão.

 Acorde a engenheira,

 não!

Acordai, acordai, os tripulantes,

 somente se a nave

 pifar nas luas

 do planeta Plutão. 

      

Graça Rios


ERA UMA VEZ NO ARRAIAL DA GUARITA


Rolando Pedregulho não trabalhava na área de construção. Também não cuidava de explosivos e dinamites. Ele era um peão de boiada e para esse ofício estava se dirigindo ao arraial da Guarita, montado em seu cavalo Trovão, onde iria pegar, junto com mais três companheiros, uma manada de mais ou menos 150 reses para levar até a Estação da Tartária, onde seriam embarcadas em vagões de trem.

Naquele dia, ele se sentia bem disposto, embora a saudade da mulher e dos filhos apertasse um pouco lá no fundo do coração. A certa altura da viagem, com voz desafinada, mas carregada de sentimento, começou a cantar uma música, cuja letra dizia:

Antigamente nem em sonho existia tantas pontes sobre os rios, nem asfalto nas estradas. / A gente usava quatro ou cinco sinuelos pra trazer o pantaneiro, no rodeio da boiada. / Mas hoje em dia tudo é muito diferente com o progresso nossa gente, nem sequer faz uma ideia. / Que entre outros fui peão de boiadeiro por este chão brasileiro, os heróis da epopeia.

Mais adiante, com Trovão trotando devagar, tirou da algibeira do capote um pedaço de fumo de rolo e, com facão, começou a cortá-lo na intenção de fazer um cigarro. Estando o fumo cortado, enrolou-o numa palha, passando a língua na sua ponta, para que ficasse bem fechada, tomando o cuidado de fazer-lhe uma dobra, para que o fumo não viesse a cair. Continuou cantando os versos da música:

Tenho saudade de rever nas currutelas as mocinhas nas janelas acenando uma flor. / Por tudo isso eu lamento e confesso que a marcha do progresso é a minha grande dor. / Cada jamanta que eu vejo carregada transportando uma boiada me aperta o coração. / E quando olho minha traia pendurada de tristeza dou risada pra não chorar de paixão.

Embalado pela canção, Rolando continuou:

O meu cavalo relinchando pasto a fora que por certo também chora na mais triste solidão. / Meu par de esporas, meu chapéu de aba larga, uma bruaca de carga, um berrante um facão. / O velho basto o sinete e o apero, o meu laço e o cargueiro, o meu lenço e o gibão. / Ainda resta a guaiaca sem dinheiro deste pobre boiadeiro que perdeu a profissão.   

Chegando a este ponto, parece que até Trovão se emocionou, parando e olhando para o horizonte a se perder de vista. Rolando aproveitou para tirar de outro bolso um isqueiro, daqueles alimentados a querosene, para acender o cigarro. O pavio estava muito grande; quando o acendeu, quase lhe queimou o bigode. Rolando pensou: “Mais tarde, tenho que cuidar de abaixar um pouco esse pavio, antes que faça um estrago maior na minha cara.”

E a música terminava assim: 

Não sou poeta, sou apenas um caipira e o tema que me inspira é a fibra de peão. / Quase chorando imbuído nesta mágoa rabisquei estas palavras e saiu esta canção. / Canção que fala da saudade das pousadas que já fiz com a peonada, junto ao fogo de um galpão. / Saudade louca de ouvir o som manhoso, de um berrante preguiçoso... nos confins do meu sertão.

(“Mágoa de Boiadeiro”, composição de Nonô Basílio e Índio Vago)

Assim que terminou a música, Rolando deu como que um suspiro, passando a manga da camisa sobre os olhos. Depois, olhou para o céu, vendo que a tarde chegava. Apressou o trote de Trovão. 

A tarde já ia se escondendo, quando o tempo deu uma revirada; grossos pingos de chuva começaram a cair, acompanhados de relâmpagos e trovões, tomando de susto cavaleiro e cavalo. Rolando tentou se proteger com sua ampla capa e um chapéu de abas largas, mas viu que estava remediando o que era inevitável: logo, logo, acabaria encharcado, já que a chuva passou a ser acompanhada de intensa ventania. O cavalo – apesar do nome - relinchava, refugava, demonstrando toda sua insatisfação em se ver naquela situação que ameaçava ir de mal a pior.

Rolando começou a apelar para os santos de sua guarda de proteção, com o adjutório de São Jerônimo e Santa Bárbara, sabendo que deveria ficar sobre terreno descampado, não podendo contar com ajuda de uma árvore sequer, tendo ciência que, se assim fizesse, poderia ser fulminado por um raio. De repente, avistou uma casa lá no alto da colina, o que parecia ser sede de uma fazendinha.

Rolando se aproximou, um cachorro lá dentro da casa latiu, dando conta de sua presença. Desceu do cavalo, amarrando-o numa estaca sob uma coberta. Bateu com os nós dos dedos na porta:

- Toc-toc-toc.

Nada de resposta.

Passados alguns segundos, repetiu a dose:

- Toc-toc-toc.

Agora, sim, ouviu passos no assoalho; logo depois, um rosto apareceu na porta entreaberta. Era um homem de cabelos e bigode grisalhos. Aparentava uns 60 anos de idade.

- O que o senhor deseja? – perguntou ele, não escondendo seu temor ao ver Rolando, que se apresentava de capa, chapéu e uma barba de muitos dias.

(Para dar um desconto ainda maior ao senhor com sua desconfiança, é preciso dizer que Rolando, mesmo em condições normais, não era um indivíduo de boa aparência, era alto, magro e tinha olhos grandes como duas jabuticabas olho-de-boi.)

- Boas tarde – respondeu Rolando, enquanto tirava o chapéu. – Estava indo pro arraial da Guarita e esta chuva brava me pegou pelo caminho. Como já stá tarde, queria saber se o senhor podia me arrumar um encosto, um lugar onde pudesse passar a noite. Amanhã cedinho, eu me aprumo e vou s’imbora.

O senhor, ainda tomado de desconfiança, falou:

- Tem um paiol ali na frente, onde o senhor poderá passar a noite.

- Brigado, discurpa o incômodo.

- Não tem de quê. – E o senhor completou: Vou levar você até lá.

Os dois caminharam em direção ao paiol, Rolando se apresentou, o senhor também, dizendo se chamar Florêncio Flores. Quis saber de onde era aquele peão.

- Eu sou natural de um povoado chamado Fagundes.

- Pois Fagundes me traz uma boa lembrança – falou Florêncio. - Foi lá que meu irmão sofreu um acidente e quase perdeu a vista. Se não fosse um casal de moradores, a situação não teria jeito.

Tomado de curiosidade, Rolando falou:

- Por acaso seu irmão tem nome de Eleutério?

- Tem, sim – respondeu Florêncio, agora ele tomado de curiosidade. – Por que a pergunta?

- Ora, porque foi justamente minha mulher, Doralice, e eu quem cuidou de seu mano!

- Pelas almas do purgatório! – falou Florêncio, com a voz embargada pela emoção. – Meu irmão sempre fala com carinho da ajuda que vocês lhe deram. Deus é que lhes dê o pago pelo bem que fizeram. Olha – continuou ele, tomando Rolando pelo braço – você irá passar a noite lá dentro de casa. Vou pedir à minha mulher, Feliciana, pra lhe preparar um banho quentinho e uma boa janta.

E assim, depois de deixar Trovão no estábulo, Rolando entrou para a casa de Florêncio, onde passou uma noite com há muito não experimentara. E assim termina esta história, com um final feliz, contrariando tudo o que levava a crer. Rolando Pedregulho tinha um nome e por ele foi reconhecido. Tudo mudou a partir do momento em que foi identificado como aquele morador do Fagundes, casado com Doralice, que havia cuidado de Eleutério, irmão de Florêncio, cuja esposa era a Feliciana. Quando as pessoas são reconhecidas pelo nome, o mundo deixa de ser feio e fica todo florido.

Etelvaldo Vieira de Melo

 

LÁ VEM O PAPO (XII)

Imagem: Observatório do Cinema - UOL


BANDEIRA 2

Vendedor oferece

game

filme

tevê

 notebook

 e sei lá mais o quê.

 Zé Mané contra-ataca de $5 pau.

 - Saco memo é frita nas barraca da marmitas.


ELA, ELA, VERDE, AMARELA

- Nós temos uma linda família,

ô maninha.

É ela que nos protege,

ô maninha.

Ela nos alimenta,

ô maninha:

Ela nos entende,

ô maninha.

- Nossa família é o maior Amor.


PEIXADA

Quando a areia arranha a ostra,

quando a ostra arranha a areia,

olha a festa da sereia!

Graça Rios


A VIRTUDE DE ATIRAR PEDRAS NO MEIO DE BOLINHAS

 

Loprefâncio Caparros tem notado que, além de dores a se distribuírem aleatoriamente pelo seu corpo, o tempo também lhe proporciona uma releitura da sabedoria popular, aquela que é traduzida em ditos ou chavões. Ele acredita que, através da compreensão dos ditados, pode chegar a entender o sentido da própria vida!

A virtude está no meio” serve como exemplo. Tal expressão ensina que devemos evitar os extremos, as posições radicais, já que o correto não está com essas partes, mas no meio, na temperança, na moderação. Ela também é usada por aqueles que não colocam a mão no fogo por nada, preferindo ficar em cima do muro.

Tal conceito foi criado por Aristóteles, tendo, pois, quase dois mil e quinhentos anos de vida. Aqui no Brasil, ele tem sido contestado ao longo do tempo, inclusive pelo nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, dizendo que quem está no meio não é a virtude, mas uma pedra.

Os políticos profissionais muito teriam a aprender se dessem a devida atenção aos ditados e expressões populares. Na ânsia de encherem seus bolsos, suas malas, e sacolas com o dinheiro da Mãe Joana, acabam “enfiando os pés pelas mãos”, dando “com os burros n’água”, vendo “a vaca atolar” com chifre e tudo, com alguns chegando a ver “o sol nascer quadrado”. Eles se esquecem que “quem nunca comeu melado, quando come, acaba se lambuzando”. Alguns chegam a ser precavidos, sabendo que “de grão em grão a galinha enche o papo” e que “paciência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”: enquanto os outros são pegos com a boca na botija, escondendo dinheiro até nas cuecas, lá estão eles enchendo suas burras devagarinho (usando de técnicas como “rachadinhas” e “laranjas”).

Voltando “à vaca fria”, essa máxima “virtus in médium est” foi incutida na mente de LC (forma afetuosa com que Loprefâncio é tratado pelos familiares e amigos) de forma tão subliminar que, muitas vezes, ele não sabia qual atitude tomar diante de uma situação, onde se sentia “num mato sem cachorro”, percebendo que, “se corresse, o bicho ia pegar; se ficasse, ele iria comer”.

Como se trata de uma pessoa muito influenciável, não por um defeito de caráter, mas por causa de seu signo zodiacal (pisciano), nosso amigo acrescentou mais este à sua coletânea de defeitos: tornou-se um indivíduo muito inseguro.

Tendo aquela doença diagnosticada como PFC, “Prolapso de Fim de Curso” (lerdeza, retardo mental – em linguagem direta, sem “dourar a pílula”) a releitura dos ditos populares talvez seja sua resposta, mesmo que tardia, a todos os desaforos que teve de engolir ao longo da vida. Entretanto, tal dito contraria outro de seus estigmas, os ensinamentos religiosos, notadamente a passagem apocalíptica que diz: “Porque és morno e não és nem quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca”.

Tem razão o vizinho, que sempre diz: “Está complicado!” Está mesmo, pensa LC:  ao se dar conta de que muitos ditados são contraditórios, acredita que deva ordená-los num somatório, tirar a prova dos nove e chegar à conclusão de que a vida merece ser vivida com atenção, de que é preciso olhar com cuidado cada momento.

Falando em cuidado, alguém já lhe disse que, em sua cidade, existem os “maridos de aluguel”, aqueles profissionais especializados em resolver problemas urgentes que surgem numa moradia: um entupimento, um chuveiro com resistência queimada, uma chave que quebra, a troca de uma lâmpada, e por aí vai. Tudo bem que existam esses profissionais, mas – como disse anteriormente – é preciso ter cuidado ao lidar com essas situações.

Veja você o que aconteceu com uma senhora que era tida e havida como pessoa séria e compenetrada. Certo dia, um desses maridos de aluguel foi fazer um serviço em sua casa. Como acabou se molhando todo, o marido verdadeiro ofereceu-lhe um short (calção) e uma camiseta. Estando ele de costas, o de aluguel, de repente, sentiu-se abraçado por uma mulher, aquela séria e compenetrada, que, levando as mãos até suas partes baixas, apertou-as levemente, enquanto dizia, carinhosa:

- De quem são essas duas bolinhas?

Segundo Loprefâncio, tal fato é exemplo de inversão daquele ditado que diz: “quem vê cara não vê coração”. Originalmente, ele dizia: “quem vê cara não vê calção” – ainda de acordo com nosso paremiologista. Para a mulher séria e compenetrada, que devia estar “matando cachorro a beliscão”, ficou sendo assim: “quem vê calção não vê cara”. E lá foi ela, “com muita sede ao pote”, apertar as bolinhas do maridão... de aluguel. Precisava ver a cara dela quando “a ficha caiu”. Pior de tudo é que a notícia se espalhou qual rastilho de pólvora entre os parentes, amigos e conhecidos, com a pobre mulher nunca mais recuperando a dignidade de ser séria e compenetrada.

Etelvaldo Vieira de Melo


LÁ VEM O PAPO (XI)

 

LÉ COM LÉ

CRÉ COM CRÉ

- Hoje tem espetáculo?

- Tem, sim, senhor.

- Tem bailarina, trapezista, malabarista, lambe-lambe?

- Tem, sim, senhor.

- Goiabada, marmelada, o palhaço o que é?

-Tem, sim, senhor.

- Pois hoje, no circo, pipoca e picolé, sou eu quem quer.

 

ADIVINHA

 Candá Farnanda Sátama

asava A palatá

 Quendé Fernendé Séteme

 eseve É MESMÉ peleté

 Cundu Furnundu Sútumu

 usuvu DU NUVU u pulutu.

 Su fuduu.

 Suguru us urubu!

 

EU TENHO A MANHA!

 Nessa janela da frente,

 morava um dente de leite

 muuui doente.

 Certa noite, o babão

 bobão

 despencou em cima

 do colchão.


Nem pisquei.

Joguei o leitoso no telhado pra curió pegar.

Aí, pedi sugador, ferrinhos, fitas, massinha, luvas,

pra brincar de dentista com os amigos caninos.

Graça Rios


QUANDO O DIFÍCIL TORNA-SE FÁCIL

 

Foi Gertrudes se aconselhar com Venâncio Fortunato sobre um assunto que a incomodava, deveras.

Antes, por educação, quis saber como andava o amigo.

- Estou numa situação difícil, que só você vendo.

- Mas o que anda lhe trazendo tanto desconforto?

- Estou numa situação financeira tão complicada, devendo tanto que, como diria o Barão de Itararé, nem posso chamar minha esposa de “meu bem”.

- Mas por quê?

- É que, se eu chamar uma pessoa de “meu bem”, o Banco vem e toma.

- Ah, deixe de gozação! – falou Gertrudes, sorrindo, quase se esquecendo do assunto que tanto a incomodava.

- É brincadeira mesmo – falou Venâncio. – Entretanto, você sabe que pobre é apertado por natureza, vive pendurado feito cabide. Agora, me diga o que anda aborrecendo a sua beleza.

- Minha reclamação é quanto à falta de homens no mercado. Além de serem em número reduzido, comportam-se como gatos escaldados temendo água fria, isto é, tornam-se cada vez mais ariscos e medrosos.

- Calma, querida, que seu chororô abala meu bondoso coração – falou Venâncio, em tom de leve reprimenda. – Vou sondar minha obscura inteligência, buscando um lenitivo que lhe sirva de ajuda ou consolo.

- É bom você ficar sabendo de antemão que já apelei para toda espécie de simpatia e superstição – cortou Gertrudes, com o dedo em riste.

- Calma, calma – voltou a repetir Venâncio, um tanto assustado com o tom desesperado da amiga. - Já pendurou uma imagem de Santo Antônio, amarrado pelos pés numa jarra d’água?

- Foi a primeira providência que tomei. Tive que tirar o santo da água, senão ele se desmanchava todo.

- Conversou seriamente com sua imagem, ameaçando colocá-la na geladeira, caso não lhe arranje um namorado?

- Ela está no congelador e já virou picolé.

- Por acaso, você já deu para um rapaz...

- O quê???

- ... a água com que lavou uma camisa sua, para ele beber?

- Já fiz isso com um vizinho e, até agora, não tive nada de resposta.

- É, parece que a situação está mesmo grave pro seu lado.

- Ora se está. Outro dia, fui ao casamento de uma amiga e os pais dela até providenciaram uma queima de foguetes. Na hora em que ela jogou o buquê de flores, eu me engalfinhei com outras pretendentes e quase fui parar no hospital.

- Mas conseguiu o troféu?

- Que nada! Somente arranhões e um olho roxo, por causa de cotoveladas.

- Xiii... E uma folhinha de arruda atrás da orelha, já tentou?

- Aquilo fede tanto que, ao invés de atrair, vai afugentar os pretendentes.

- Tem razão. Vamos procurar outro expediente. Estou consultando o Doutor Google e estou vendo que as receitas são até perigosas. Tem uma aqui, por exemplo, que manda escrever o nome do pretendente numa folha de papel, mergulhando-a, depois, num prato com mel. Toda noite, você irá rezar para que seu pedido seja atendido. O prato deverá ser colocado debaixo da cama e só será tirado depois de alcançar a graça.

- Se eu fizer isso, é perigoso as formigas acabarem comigo antes que encontre um namorado.

- Gertrudes, gostaria muito de poder ajudá-la, mas a receita não é fácil. Uma relação afetiva se constrói com o tempo, mas o tempo não conta hoje em dia. É tudo muito apressado, superficial, amadurece rápido igualzinho banana em sacolão.

- Está bem, mas o que eu faço? Deixe-me uma ideia, qualquer que seja.

Bom, você sabe: quando a gente pensa que uma coisa é fácil, ela muitas vezes se torna difícil, não é? O difícil, você também sabe, não é fácil. Mas nem sempre sabemos que o difícil não é fácil. Quando digo: “você sabe”, estou lhe convidando para fazer um discernimento entre o que é fácil e o que é difícil. Se o difícil fosse fácil, ele não seria difícil; sendo difícil, ele não pode ser fácil. O problema da vida das pessoas é que muitas tomam o fácil como difícil, tornando difícil aquilo que é fácil; de outro modo, outros acreditam que o difícil é fácil, facilitando aquilo que, por natureza, não é fácil, mas difícil. Então, meu conselho para você é que viva essa sua situação como sendo difícil. Afinal, só valorizamos o que conquistamos de maneira difícil, enquanto o fácil é facilmente descartável. Vivendo o difícil, ele se tornará fácil, uma vez que vale a pena. E tudo que vale a pena, ao fim, tornar-se-á fácil, justamente por valer a pena. Entendeu, meu Raio de Sol?

- Hããã???

- No mais, bola pro mato, que o jogo é de campeonato!

Etelvaldo Vieira de Melo


LÁ VEM O PAPO (X)

 
Imagem: Vecteezy

LIÇÃO

-Rei soldado,

quem te soldou?

- Moça professora,

ensinando o bê a bá.


PROMESSA INGLESA

Mamãezinha, quando nasci,

 pôs a mão no coração:

- Doutor, se neném escapar,

 JURO!

 Boto nome de Batatinha.


HINO

Carolina, por que tão tristes

teus olhos, meu bem?

Nunca tão tristes vi

 nenhuns por ninguém.

 Rola, ao claro calor da colina.

 Orla o colo com o colar de coral

 cor de anil,

 Nina

Graça Rios

 


‘ONDE FUI AMARRAR A MINHA ÉGUA’ – EXPLICANDO A EXPRESSÃO


Houve um tempo em que cavalo fazia a vez de automóvel. Parece que, naquele tempo, já tínhamos problema de estacionamento, se for para dar crédito ao dito “onde fui amarrar a minha égua”. 

Pensando bem, ao mesmo tempo em que presto ajuda a todos aqueles desconhecedores dessa espécie animal, a dos equinos, vejo que a expressão nada mais representa do que você, de repente, perceber que ficou numa sinuca de bico, entrou num mato sem cachorro, deu com os burros n’água.

Ficou sem entender? Então, vai lá: ‘onde fui amarrar a minha égua’ tem o mesmo sentido da expressão ‘iii... acabei de fazer uma cagada!’.

 Quanto aos cavalos, éguas e burros, a preocupação procede, pois vivemos numa civilização urbana e muitos animais nos são desconhecidos. Minha filha, por exemplo, ainda menina, ficou traumatizada e quase teve que fazer tratamento psiquiátrico, quando viu uma vaca e ficou sabendo que era dali que vinha o tão adorável leite de sua mamadeira. Nem quis saber: seu leite tinha que ser o da caixinha. Também tive um pretendente a namorado que, visitando o sítio onde eu morava e tentando ser agradável com meu pai, perguntou-lhe, apontando para um boi, como se fazia para tirar dali o leite. Como resposta, meu pai sorriu com tamanho deboche, que meu pretendente sumiu no mapa e nunca mais deu as caras.

Veja você como tudo deve ser explicado com detalhes, quando uma comunicação é estabelecida entre duas pessoas. Tenho um primo cuja adolescência foi muito perturbada. Na escola, vivia causando dificuldades aos professores. Até o dia em que foi chamado à sala do diretor:

- Os professores pediram para que lesse este bilhete para você: - Celestino Faustino é um jovem autossuficiente, indiferente, um energúmeno, tetrápode e revoltado – o diretor leu de um papel. 

O jovem se assustou com tantos termos desconhecidos, não sabendo definir se eram palavras de elogio, de crítica ou se tudo aquilo queria esconder uma doença contagiosa e incurável. Por fim, tomou aqueles termos por conta de um elogio, consideração que o levou a mudar seu comportamento, tornando-se uma pessoa melhor. É por essa e outras que a gente vê como a escola exerce um papel tão relevante em nossa formação moral, cultural, esportiva e social. 

Quanto ao ditado “onde fui amarrar a minha égua”, ele me ocorre com a lembrança de meu marido e dois fatos, um ocorrido quando éramos noivos e, o outro, quando nossa filha estava com cinco anos.

Tínhamos um carro Gol da Volkswagen, um modelo antigo com dois carburadores e só um mecânico era capaz de regulá-los, isto é, colocá-los no ponto. Resumindo, era uma porcaria de carro. Foi nesse carro que fizemos uma longa viagem de férias, eu como motorista (meu marido não sabe dirigir). Na volta, ao cruzarmos por uma carroça, senti um cheiro de vela. Achei que aquele odor viesse da carroça. Depois, olhando para o capô do carro, percebi que saía fumaça. Levei o carro até o acostamento. Sentia-me um pouco assustada, já que minha filha estava no banco de trás e desconfiei que algo de ruim acontecia. Quando parei o carro, quis falar pro meu marido para que tirasse a nossa filha, mas vi com espanto que ele não se encontrava perto: estava a uns trinta metros de distância! Felizmente, nada de mais grave aconteceu, a não ser o susto com a fumaça e a tampa do radiador indo para os ares.

Para não dizer outra coisa, falei pro meu marido:

- Impressionante seu instinto de sobrevivência! Não pensou duas vezes em nos deixar sozinhas, eu e sua filha, enquanto procurava salvar a sua pele!

A outra vez aconteceu quando ainda estávamos namorando. Ele havia construído uma casa em um bairro afastado e o acesso era feito através de ônibus, que tinha ponto em local um pouco distante. Ele me mostrou a casa, já praticamente pronta, estando inclusive mobiliada. Tudo aquilo revelava a seriedade de seus propósitos, o que me deixou alegre e envaidecida. Estávamos de saída, quando o tempo fechou por completo, relâmpagos cortavam os ares, acompanhados de trovões assustadores. Quando comecei a subir a rua, pois a casa estava construída numa descida, procurei pelo meu namorado e ele já estava lá em cima, na outra rua em direção ao ônibus.

Foi, então, que eu pensei com meus botões: Onde estou indo “amarrar minha égua”? Não estou “entrando numa fria”? Pensei, fugazmente, que talvez eu iria me casar com um covardezinho. Só que, depois, ele me explicou não se tratar de covardia, mas de um pequeno receio, um pouquinho de medo, coisa à toa. Ele me falou também de seus traumas de infância, quando as chuvas invadiam sua casa lá no interior, pobre e desprotegida, o vento ameaçando arrancar o telhado, as goteiras, a reza do terço, um rosário em formato de “eme” disposto sobre a mesa, a vela acesa por intercessão de São Jerônimo e Santa Bárbara, as peneiras atrás das portas para aparar o vento, os raios e trovões fazendo com que se escondesse debaixo da cama... Bom, com tantos esclarecimentos, acabei me casando com ele, porque, quando tudo é explicado tintim por tintim , pelo menos a gente fica sabendo onde amarrou a égua.

(Relato de Percilina Predillecta)

Etelvaldo Vieira de Melo