EM HONRA DA PALAVRA

 

Homenagem àqueles que, com honestidade, 

usam a Palavra para a prática do Bem e da Verdade

(Denunciando aqueles que, com desonestidade,

 usam a Palavra para a prática da Mentira de da Maldade)

 

Certas palavras são amargas

Muitas são amenas

Há as que são amigas

Enquanto outras são serenas.

 

Palavras que fazem feridas

Palavras que despertam alegrias

Palavras que aparecem fingidas

Palavras que espalham poesias.

 

Palavras que calam, que falam e que gritam

Palavras que mordem e pisam e cortam

Palavras que batem, machucam, matam.

 

Palavra soltas ao vento

Semeando tristeza em vez de alento

Fazendo com que verdade desinteressante

Seja abafada por mentira emocionante.

 

O mundo adoece, pessoas padecem

Palavras boas se calam.

Enquanto verdades emudecem

As mentiras se espalham.

 

Se só a Verdade pode as pessoas libertar

Por que preferem viver na falsidade?

Por que se deixam pela mentira enganar

Se só sendo livres podem ter a felicidade?

 

Dependendo de tempo e lugar

Palavras se tornam vazias

E só o silêncio pode falar.

 

Palavras podem nos confundir

Dependendo de tempo e lugar

Pois muitas que nos fazem rir

Podem também nos fazer chorar.

 

É por isso que entre tantas mal ditas

Sempre falam com emoção

Aquelas palavras bem ditas

E que calam no coração.

 

É por isso que em tempo de tanta maldade

Sempre provoca intensa emoção

Reconhecer aquelas pessoas que com atenção

Usam a Palavra para propagar o Bem e a Verdade.

 

Etelvaldo Vieira de Melo


BARÕES FAMINTOS, NAPOLEÕES ASSASSINOS

 


Ellen Pietra

 

Causa decepção e tristeza ver nossa classe política, em sua maioria, ser tomada por indivíduos preocupados tão somente com seus interesses mesquinhos, não se interessando nem um pouco com o bem comum e com o desenvolvimento do Brasil.

A tristeza aumenta quando percebemos que a elite do país é tão gananciosa, achando-se no direito de consumir todo o bolo da riqueza, à custa da exploração dos menos favorecidos, o que faz lembrar a famosa frase de Leon Tolstoi: “Os ricos farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas”.

Tanta tristeza quase chega ao estado de depressão profunda, quando tais categorias são associadas com a Imprensa, as lideranças religiosas e aqueles usuários das redes sociais, que se julgam no direito de falar de tudo, condenar tudo, menos ter compromisso com a verdade.

Para refletir sobre essas questões, buscando um pouco de alento e esperança, vamos conversar com Ellen Pietra, leitora atenta da realidade brasileira. Formada em computação, com especialização em psicologia empresarial, Ellen diz que suas palavras não têm a pretensão de obter qualquer resultado que não seja a compreensão daquilo que é a verdade.

P – Quais os desafios que o governo Lula tem que enfrentar?

R – Em primeiro lugar, não necessariamente por uma ordem de importância, eu diria que o Congresso, onde os parlamentares bolsonaristas têm um currículo de homicidas na Bancada da Bala, envolvidos com a morte da própria esposa, parlamentar que ingeriu álcool e matou pessoas, parlamentar envolvido com tráfico de droga e com milícia! Chamam o petista de bandido, mas pedem a soltura do mandante do assassinato de Marielle Franco. Lula está preso no ninho da necropolítica.

P – Na liderança do Congresso, temos o Arthur Lira...

R – Sim. Lira é um patrimonialista fisiologista que se uniu ao fundamentalismo (da bolsonarista de Toni à frente da CCJ), numa agenda fundamentalista e econômica pró-mercado, combinada com a tentativa de restrições às liberdades democráticas e de ataques aos movimentos sociais. Lula tem que enfrentar as pautas-bombas, as exigências e o preço do Lira e do centrão pra destravar projetos cruciais para o governo. Lira exige antecipação da reforma ministerial para agosto, querendo trocar os ministros de articulação política, além de ganhar o Ministério da Saúde, a Embratur, o Banco do Nordeste e os Correios.

P – Nossa, que fome! Além de Lira e do Congresso, quem está querendo mais?

R – Um MERCADO, que exige do Lula cortar gastos, como se isso fosse resolver alguma coisa (Temer cortou gastos e aprofundou a crise fiscal). O que querem mesmo é o sucateamento do serviço público e o extermínio do direito universal (saúde e educação).

P – Mas quem é esse Mercado?

R – O Mercado é uma relação direta entre as coisas e não entre as pessoas, onde as pessoas agem como coisas e as coisas como pessoas. O tal mercador se resume em 5000 milionários que têm seus interesses de classe e de lucro, que pressionam o governo para que faça políticas públicas que GARANTAM SUA TAXA DE LUCRO. O controle da economia é exercido pelos bancos e por grandes empresas transacionais, das quais esses 5000 milionários são também os proprietários. Do orçamento público, 48% são gastos com JUROS, corrigidos pela SELIC, uma espiral sem fim de juros, que ninguém sabe o que é, iniciada pelo FHC com o tal Plano Real, pra encher os cofres do MERCADO. Não vão deixar o Lula indicar o presidente do BC, eles querem indicar pra continuar o arroxo fiscal.

P – Aí aparece o Campos Neto. Quem é esse moço?

R – Campos Neto é aquele bolsonarista, que foi escolhido pelo inelegível para presidência do Banco Central, em cuja gestão foi aprovada a lei de autonomia do BC (que impediu Lula de eleger um nome de sua confiança). Campos Neto é dono de empresas offshore, político em campanha com Tarcísio, e está à frente do Banco Central, que é o aliado do tal MERCADO. Não agiu intencionalmente para conter o ataque ao Real, jogou contra o país em benefício político e do Mercado. O dólar subiu porque a burguesia pegou seu lucro que estava no banco em reais, transformou em dólar e com isso a taxa de câmbio subiu, e eles enviaram para investimentos no exterior, em paraísos fiscais, bolsa dos Estados Unidos, etc. E o recado pro Lula foi: tem que cortar gastos públicos, desde que não sejam aqueles gastos que interessam à burguesia, juros e emendas.

P – De onde vem outro desafio para Lula?

R – Da mídia burguesa (Globo, Estadão, Folha – que apoiaram a ditadura de 64). Primeiro, tentaram fabricar uma crise: “Tensão entre Lula e BC leva à alta do dólar”, “Lula fala e o dólar sobe” – berravam as manchetes. Em 1989 a capa do Jornal da Tarde foi: “O dólar explode, foi Lula”. Na época, Lula subia nas pesquisas e o jornal que, assim como a mídia em geral, apoiava Collor, culpou Lula, justificando que o título da matéria era ‘análise técnica’ (dá pra rir). A verdade é que a mídia só apoiou Lula nas últimas eleições para evitar que o ladrão de joias continuasse; se o larápio tivesse agradado mais alguns setores, estaria governando. Agora, comparam a economia atual com o Plano Real de FHC (e sua quadrilha: Aécio, Eduardo Azeredo, Serra, etc.), essa espiral sem fim de juros. Mas não falam dos mais de 600 bilhões atuais de desoneração para as grandes empresas, dos mais de 700 bilhões pagos aos banqueiros como serviço da dívida. Ficam fazendo terror com a volta da inflação, pressionando Lula para que quem pague a conta sejam os idosos aposentados, os deficientes que recebem o BPC. “Equilíbrio Fiscal” é a expressão de ordem da Mídia - capacho do mercado, que a sustenta pra repetir esse refrão.

P – Estou abismado. Mas, juntinho da Mídia, temos também as plataformas digitais.

R – Sim. Nesse desafio todo, Lula também tem que enfrentar Elon Musk e Zuckerberg no debate da regulamentação das plataformas digitais - plataformas que exalam ódio, mentiras e traição, marca bolsonarista. Conseguirá enfrentar a extrema direita com tanta mentira (fake news), sendo esse o tema central para a sobrevivência da DEMOCRACIA?

P – Falar em extrema direita é lembrar os bolsominions.

R – Ah, pois é. Tem também o bolsominion com sua tarefa diária, após a lavagem cerebral do zap da tia ou do pastor, se perguntando: COMO POSSO ATRAPALHAR HOJE?  

Emergem do esgoto, assistidos pelo ladrão de joias, todo dia, com seu histórico de autoritarismo, golpismo, misoginia, racismo, falso elitismo. São escravagistas, vendidos, eleitores da Turma da Bala, do Boi, da Bíblia e do veneno na comida. Chamam Lula de comunista, e a imbecilidade é tanta, que se esquecem que o maior lucro histórico dos bancos se deu no seu primeiro mandato. Segundo o Karnal, todo mundo que não vota na extrema direita é considerado pelo bolsominion um comunista, e esse é um grupo histérico, limitado intelectualmente, descontrolado e cada vez mais associado com desequilíbrios psíquicos, o que também concordo.

P – Entre tantos desafios, Lula pode contar com o Supremo Tribunal Federal?

R – Não podemos esquecer do golpe na Dilma. Segundo o Romero Jucá, foi com o Supremo com tudo. Foi o Xandão que negou o pedido de liberdade de Lula e o impediu de concorrer em 2018, quando estava na frente com 48% na avaliação eleitoral. Também foi o Fachin que fez a manobra e tirou da 2a Turma o pedido de liberdade, mandando para o plenário da corte, o que impediu Lula ser solto pra competir nas eleições. Lula não pode titubear, pois o Supremo não está do lado dele, mas defendendo a parte que os atingiu, na trama do golpe de 8 de janeiro, e também a democracia, só!

P – Tem mais algum desafio que queira lembrar?

R – Cito mais dois. Lula tem que enfrentar o agronegócio e dar 400 bilhões do plano safra pra eles, sem retorno nenhum pro país, a não ser veneno na comida, massacre dos indígenas, grilagem de terras, exportar pra fora sem se importar com consumo interno. O Agro Pop quer sempre mais, mais poder econômico e mais poder político. Por fim, Lula tem que enfrentar os "ditos" religiosos, que o chamam de comunista porque ele tenta proteger as pautas de Jesus, que são todas comunistas, veja só.

P – Uma última consideração sobre Lula, nesse seu terceiro mandato.

R – Lula é um senhor de idade, é e sempre será o maior líder popular desse país. Ao retornar ao seu 3º mandato, recebeu um país completamente desmontado do ponto de vista de todas as políticas públicas, a população totalmente desunida, polarizada e com provocações entre as pessoas. Há uma discórdia, que Lula tenta trabalhar isso todos os dias, porque diz que é preciso governar para todos, reconstruir o país, reconstruir politicamente, reconstruir as estruturas de governo. Seu slogan: UNIÃO E RECONSTRUÇÃO, uma grande chance de contribuir para a Unidade. Os números da situação de empregos estão melhores, a inflação caiu, o PIB tem surpreendido pra cima, a Balança Comercial tem batido recorde sobre recorde. O Brasil passou da 12ª posição no ranking mundial para a 8a, o salário mínimo, depois de 6 anos, teve aumento real, número de carteiras assinadas na CLT é o maior dos últimos 10 anos.  Lula é um gigante, e está lutando com suas últimas forças pra salvar esse país, mas as pessoas são cruéis. Por causa dessa crueldade, que ele sentiu tanto quando das mortes de seu neto e de sua esposa Marisa, eu diria para ele: - Ei, Lula, vá com calma, não queira carregar o mundo nos ombros, as pessoas não merecem!

P – Obrigado, Ellen Pietra.

 

OLHA O JABUTI AÍ, MINHA GENTE!


“Por onde se empurra este país para

 levá-lo para a frente?” (Mafalda)


         No jargão legislativo, “jabuti” é um artifício que os parlamentares usam ao inserir, de forma sorrateira, em uma proposta legislativa (com tramitação mais rápida e com prazo para ser votada) um tema de seu interesse, mas que não apresenta relação com o texto original.

Jabutis também aparecem em outras configurações. Por exemplo, temos o caso da guerra travada entre gregos e troianos, que durou cerca de dez anos e, segundo relatos e mitologia, aconteceu entre 1194 e 1184 a.C., data utilizada pelo poeta grego Homero, em suas Ilíada e Odisseia. O jabuti em questão foi um enorme cavalo de madeira, conhecido como Cavalo de Troia, que foi presenteado pelos gregos aos troianos e onde ficaram escondidos soldados. Quando o cavalo foi levado para dentro de Troia, os gregos ocultos saíram à noite, permitindo a invasão e conquista da cidade, localizada na atual Turquia.

Em se tratando de Informática, um vírus “cavalo de Troia” opera de forma semelhante ao homônimo da antiga história grega - ele se oculta em programas aparentemente inofensivos ou tenta induzir você a baixá-lo. Segundo entendidos, “cavalo de Troia” é um tipo de malware que, frequentemente, está disfarçado de software legítimo. Em geral, os usuários são enganados por alguma forma de engenharia social para carregar e executar “cavalos de Troia” em seus sistemas. Uma vez ativados, os “cavalos de Troia” permitem que os criminosos o espionem, roubem seus dados confidenciais e obtenham acesso ao seu sistema pela porta de fundo.

Os “cavalos de Troia” estão muito disseminados na sociedade. Eles aparecem como embalagens atraentes e agradáveis a esconder coisas perigosas. Assim agem aqueles pastores e líderes religiosos, que usam da religião para atender seus interesses, explorando a ingenuidade dos crédulos. Assim fez aquele político profissional, espalhando aos quatro ventos que Deus estava acima de tudo, que a pátria estava acima de todos, que ele era um exemplo de pessoa do bem, com sua honestidade, moralidade e amor à família. Quando lhe caiu a máscara, as pessoas puderam ver (as que queriam enxergar) que se tratava de um enganador, um mentiroso deslavado, que só explorava o nome de Deus, não estava nem aí para a pátria e cuja honestidade não resistia ao brilho de uma simples joia.

Pelo que se depreende do que dissemos, “jabuti” e “cavalo de Troia” são expressões diferentes, mas que designam o mesmo conceito: referem-se um artifício astuto, um ardil para enganar o outro e conseguir aquilo que se deseja.

Um lugar que está infestado de jabutis é a imprensa. Ali, eles são usados à rodo em artigos e reportagens, tentando dar um tom de seriedade aos argumentos.

Assim é que causa espanto um artigo do portal G1, canal de notícias da Globo. Dizendo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou na quinta-feira (27/06) a lei que estabelece a cobrança do imposto de importação para compras internacionais de até 50 dólares, o repórter Guilherme Mazui, sutilmente, anexa este jabuti ao texto: “A introdução dessa cobrança foi negociada entre o Congresso (que não queria aumentar a carga tributária) (grifo meu) e a área econômica do governo (que tenta elevar a arrecadação). A taxação das compras internacionais foi incluída em um projeto, também do governo, que tratava de outro tema: o incentivo à produção de veículos sustentáveis”.

Ora, ora. De acordo com o repórter, o Congresso não queria taxar nada, Arthur Lira nem chamou tal cobrança de “taxa das blusinhas”. É essa a ideia que quer passar: um Congresso bonzinho e um governo de homens maus e exploradores. Olha o jabuti aí, minha gente!

Por esses dias, um amigo de WhatsApp me repassou um vídeo, a propósito da decisão do Supremo liberando o uso da maconha para consumo individual. Nele, um suposto grupo de estudantes da Universidade Federal do Pará participa de uma brincadeira, aspirando a fumaça de um soprador de folhas. E o vídeo traz escrito: “Liberou geral. Agora que o Brasil vai ficar nas mãos dos traficantes e zumbis atormentando a população. Faz o LLLLLL...”. Está vendo o jabuti aí? O vídeo é antigo e circula na Internet desde 2013. Nele, ouvimos pessoas falando em inglês e espanhol – e não em português.

Pensando bem, podemos observar que certos indivíduos, de tanto usarem jabutis, se tornam, eles mesmas, jabutis. Jesus, nos Evangelhos, os chama de sepulcros caiados, lobos em pele de cordeiros.

Falando em lobo, vejo claro que o Brasil anda escorregando em moralidade por causa da maneira com que os “lobos” daqui são tratados. Em vez de firmeza e justiça, são tratados com condescendência.  Daí, a matilha aumenta cada vez mais, tornando difícil responder à pergunta de Mafalda, feita lá no comecinho do texto: está cada vez mais difícil encontrar um jeito de empurrar esse país para a frente. O número daqueles empenhados em empurrar o Brasil para trás e jogá-lo num buraco é assustador. De forma geral, temos o Congresso, a Faria Lima (com seus banqueiros e empresários) e a Imprensa – como seu porta-voz, as Igrejas com seus pastores e padres, sem contar as forças de segurança e as “tias” do WhatsApp. Diante dessa espécie de gente, vale lembrar o que disse Victor Hugo:

“A compaixão nem sempre é uma virtude. Quem poupa o lobo, condena à morte as ovelhas”.

Etelvaldo Vieira de Melo

O ABORTO: EDUCAR OU GESTAR O ESTUPRO - EIS A QUESTÃO

 

O que mais me dói,

porém,

é a condenação

de um verbo sem futuro.

(Mia Couto)

 

O futuro do catolicismo, mais que em outros períodos históricos, depende de sua capacidade de ser uma religião da esperança, do diálogo e da solidariedade. Vivemos um tempo em que o futuro não é o inesperado, pois o homem contemporâneo sabe e planeja esse novo horizonte. Assim sendo, qual o papel da religião e sua capacidade de harmonizar o mundo contemporâneo? A história mostra que quaisquer que sejam as instituições religiosas, inclusive a Igreja Católica, devem ser de seu tempo; portanto, capazes de avançar e dialogar. Apontar direções. Outras direções.

Aborto: eis a questão. O problema não é novo, mas a solução é punir e condenar? Como se sabe, no Brasil pratica-se, anualmente, um sem-número de abortos mal assistidos, que custam milhares de vida. Estatisticamente, esse número é grande. Tal situação sempre foi trágica e comporta muitos gritos e silêncios. Mas o problema continua sem resposta.

De alguma forma é preciso pensar, criar e incentivar projetos para que o problema seja enfrentado com meios humanitários. Isso significa investir em educação – como se faz com o fumo e as drogas, por exemplo. O Estado tem o dever de planejar e formular políticas eficientes, inovadoras e, ainda, garantir a educação sexual para as crianças, adolescentes e jovens.

O Projeto de Lei 1904/2024 violenta uma segunda vez as vítimas do estupro. Apoia, em vez de repelir a violência sexual de que tantas vítimas padecem. Essa lei não apresenta nenhum projeto educativo de formação humana. É inconclusa e mal vestida (Na moral não existem só princípios). O caráter desumanizador desse projeto submete as meninas, as adolescentes e as jovens das camadas populares a um novo processo de repressão. Nesse caso, a razão e os argumentos apresentados são dependentes do regime de poder: na realidade, é uma jogada política. E, segundo o escritor Affonso Romano de Sant’Anna: “O poder tem sido indelicado com os pobres deste país há 500 anos”.

Com esse cenário, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), perde de vista a maldade política do momento atual e apoia o projeto de lei. Está ausente na nota da CNBB uma proposta para criar um clima de afetos, encontros e pensamentos para as vítimas do estupro e ultrapassar a negatividade moral. A questão do aborto demanda um pensamento crítico e solidário. Exige repensar a função social, cultural, política e educacional da evangelização e das pastorais, particularmente da Pastoral da Juventude. Exige propostas socioeducativas comprometidas com a emancipação humana, capazes de superar tantas ações desumanizantes contra a mulher.

É urgente debater a sexualidade, enquanto dimensão de realização humana. Trata-se de uma questão a ser repensada, considerando os direitos da mulher. Proibir, punir e condenar o aborto é penalizar as mulheres pobres e fazer valer a norma de forma absoluta, sem levar em conta a pessoa humana e o conjunto de problemas que envolve a questão. É desconsiderar a dor e o sofrimento de mulheres, meninas e adolescentes. Lembro-me de Rubem Alves: “A solidariedade, como a beleza, é inefável, está além das palavras”. É uma palavra que abre começos e acolhe sonhos.

Estamos em outros tempos, em outros contextos. Estamos em tempos de privatizações de humanidades. O que interessa agora é a forma de agir e interagir contra a opressão e a violência sofridas pelas mulheres. Qual a proposta da CNBB para as vítimas de estupro? Basta condenar? Existe um projeto de pastoral para as dioceses investirem nesse aspecto, considerando o abuso sexual sofrido pelas mulheres? Na evangelização, não há como esquivar-se dessa exigência hoje, ainda mais que o cristianismo implica um processo de educação e formação humana.

Estamos em tempo de retomar experiências de educação popular e investir na educação sexual de crianças, jovens e adolescentes. Esse é o pano de fundo inicial. Não há receitas prontas, nem um método ou técnica. Tudo isso é para ser pensado, planejado, encarado e decifrado. Entrelaçam-se resistência, formação humana, realidade sócio-política e articulação de grupos e instituições. Uma linha que não se acaba, mas nos une e nivela.

 Mauro Passos

PL DO ABORTO OU PL DO ESTUPRO?



Chico Lima (*) 

Seria muito simplista falar sobre o tal PL DO ABORTO, sem considerar como e porque surgiram tantos apoiadores à misoginia, torturadores e estupradores nessa pátria varonil!

A cada 8 minutos uma mulher ou criança sofre estupro. A cada 15 horas morre uma mulher assassinada por feminicídios desumanos.

A bancada bolsonarista testa diariamente os limites do vale tudo e onde consegue chegar com suas pautas de atrocidade e selvageria. São o exemplo da perversão da religião.

Acham que podem tudo, utilizando o Estado para suas ações obscuras, por busca de enriquecimento, lucro e por poder econômico e político.

Como aliado, o Conselho Federal de Medicina, que fez vista grossa para as posições absurdas do inelegível, na época da Covid, liberou os médicos para prescrição de cloroquina. Este ano, esse CFM, criou uma resolução que impedia a técnica que interrompia a gestação acima de 22 semanas RESULTANTE DE ESTUPRO. O STF suspendeu a resolução.

Pasmem! Saiu desse bando elitista essa ideia perversa e imoral.

Prato cheio pra bancada evangélica bolsonarista ultrarreacionária, omissa contra pedófilos e estupradores, mas firmes pra obrigar a criança a ter o filho do estuprador e a condenando a 20 anos de prisão, se não quiser o feto do estuprador.

O que sustenta a misoginia entranhada no bolsonarismo? O que sustenta essa trupe de seguidores autoritários, preconceituosos, que relativizam a verdade e a transformam em fake news?

Acredito que o ódio, o ressentimento sobre a própria vida, a sensação de abandono e inutilidade seriam a matéria prima, utilizada pela extrema direita pra atrair tanta gente. Idiotizaram esses sujeitos que não conseguem acessar o conhecimento e a diversidade que eles não compreendem. São os idiotas úteis para o momento atual decadente do capitalismo e do neoliberalismo, incapazes de uma reflexão crítica diante do que está acontecendo, incapazes de construir um argumento ou argumentar, a não ser pela conveniência do próprio umbigo. Apoiam as opressões que a sociedade está passando desde que não espirrem neles. São formatados e idiotizados para não refletir, apenas seguir como zumbis que apoiam pena de morte, armas, políticas de segurança pública que matam inocentes, redução da maioridade penal, contra vacinação infantil, contra educação sexual nas escolas e pautas correlatas do bolsonarismo perverso.

Esses crentes, reacionários e conservadores, eleitores e defensores de Bolsonaro e Lira, se aberto o livro de suas vidas, são pervertidos e envolvidos em todo tipo de falcatruas para benefícios financeiros, de cargos, e de toda ordem.

Querem agora que as vítimas do estupro sejam violentadas novamente!

Você consegue imaginar alguma lei que decida sobre o corpo masculino? Não, porque nossa mente está formatada para dar poder somente ao homem.

Mas querem criar uma lei que reduz a mulher/criança a instrumento de suporte para o desenvolvimento do feto. E esse feto, quando crescer, eles o negligenciarão e o espancarão até a morte, por ter roubado um pão na padaria, e dirão o seu refrão predileto: bandido bom é bandido morto!

É o caos do retrocesso, o fundo do poço é aqui e agora, a extrema direita é a dona do congresso, e pouco falta pra chamar as mulheres de bruxas e as queimar em praça pública. São os toscos, bestiais, incultos, selvagens, desconectados e abjetos da sociedade brasileira, reunidos pelo bolso-fascismo.

(*) Colaboração Especial

O NARCISISMO DA SELFIE

 

Elis Queralt (*)

Estava aqui, observando minha mente a observar uma minha selfie com um sorriso enorme! Constatei o quanto a selfie instiga e dá vazão ao narcisismo.

Lembrei das fotos analógicas antigas com toda aquela essência da naturalidade, onde não havia ali nenhuma intenção de informação, como a selfie digital, e era apenas algo factual. Nas fotos antigas não existia nenhuma subjetividade construída em torno da admiração “por si”, e nem a dificuldade de superar essa imagem construída a partir de algum fato.

A gente pensa que narcisismo é gostar de si mesmo, mas pra psicanálise, de uma certa forma, tem um sentido oposto. A pessoa precisa o tempo todo se sentir aprovada, quer prestígio e ser admirada. O NARCISISTA É A PESSOA QUE DUVIDA DELA MESMA, e está constantemente preocupada em encontrar no olhar dos outros a aprovação e a confirmação de que ela não é uma b0st@.

Voltei a observar minha selfie digital sorridente, e percebi que não a guardaria como uma coisa do coração, como guardo uma foto analógica, com expressão triste, ao lado de minha mãe.

Parece que a humanidade está se desmaterializando aos poucos.

Nada é tão atual como as palavras viscerais de Jesus, disse o Caio Fábio: “Quanto mais a iniquidade cresce, quanto mais a injustiça aumenta, mais o amor vai se esfriando e a gente vai naturalizando a indiferença, a perversidade. A gente vai chamando de meu cotidiano, a minha morte todo dia. Não tem amor que sobreviva a isso! Não só o meu amor vai morrendo, mas eu vou matando amor em volta de mim o tempo todo. Eu vou me tornando um assassino coletivo do potencial do amor na sociedade humana.

Essa volta narcisística e esse culto a nós mesmos como imagem, não tem amor nem significação que resista a essa cultuação.  Ela é tão profundamente instalada em nós, que o que sobra é NADA!”

Eu sou, eu fiz, eu serei, eu, eu, eu (….).

O ruído patológico do “eu” continua ininterruptamente para sempre, ou pelo menos até sermos separados dele pela morte.

(*) Colaboração.

CONFISSÃO DE UM BILIORTÁRIO

 

Nessa confusão sobre comprinhas lá da China, estou lendo que Arthur Lira convenceu Lula a aprovar o projeto de lei que vai obrigar os consumidores a desembolsarem mais 20% de custo, além dos 17% já estabelecidos, quando do acerto do “Remessa Conforme”.

O argumento de Lira soou como um som de flauta, tão envolvente e delicado que foi:

- Lulinha, não tenha escrúpulo. Fique com a consciência tranquila, pois quem compra essas “roupinhas” é a classe estribada, a dos ricos.

- Bom, sendo assim, só posso me conformar – falou Lula, com sua voz rouca. - Estava com medo de que as pessoas das classes X, Y, W e Z pudessem ser afetadas.

Bom, eu – Eleutério Salvago Camporez Constâncio – sou um dos que compram essas “blusinhas”, e foi com espanto que vi meu nome figurar na classe dos ricos. Junto com o espanto, senti também um certo orgulho ao me dar conta de que não era um “pé rapado” (de onde vem isso?) como tinha em conta.

Tomado em devaneios, imaginei uma situação onde alguém me destratava. Depois de ouvir um tanto de impropérios, eu simplesmente dizia:

- Você sabe com quem está falando? Pela minha posição social, posso muito bem chamar um policial para te dar um belo corretivo.

O sujeito, então, tomado de vergonha, começa a tremer e a suar frio, enquanto balbucia estas palavras:

- Peço-lhe desculpas. Não era minha intenção te ofender.

Outra fantasia que me ocorre: marcar uma audiência com Arthur Lira. Em seu gabinete, sentado numa poltrona e bebericando um uísque pra lá de envelhecido, falo:

- Arthusinho, como você acertadamente falou que quem compra as “blusinhas” da China é a classe rica, quero lhe passar uma ordem, para que repasse aos demais congressistas em votação.

- De que se trata? – pergunta Arthur, em tom de voz aveludado e melodioso.

- Que aprovem uma lei taxando as grandes fortunas do país. Sei que vai me doer na pele, mas também sei que está passando da hora de dar uma contribuição mais substanciosa para o bem de nosso amado Brasil.

Imagino que Arthur vá arregalar ainda mais seus esbugalhados olhos, com risco de um ataque apoplético. Tudo vai terminar bem, e a saúde Lira não vai sofrer maiores desgastes, uma vez que o Congresso Nacional dispõe de uma enorme equipe de médicos, enfermeiros e auxiliares, em estado de prontidão 48 horas por dia.

Em conversa com o parente Leprofâncio Caparros, esse me disse:

- Sabe, Eleutério, essa conversa de defesa da indústria e do comércio de nosso país é “conversa pra boi dormir”. Primeiro, porque esses produtos chineses vão continuar abastecendo as lojas do país. Depois, os comerciantes vão continuar sonegando impostos enquanto podem. Quer dizer: todo mundo vai lucrar, menos os compradores das “roupinhas” chinesas.

- Nós, os “ricos”.

- Quá-quá-quá – ri Loprefâncio à “bandeira despregada” (o que é isso?). – O Lula está mesmo cercado de raposas, que levam os bônus, enquanto ele fica com os ônus. Se ele olhasse um pouco para esses sites de compras chineses, iria ver “as cobras e os lagartos” que os compradores brasileiros dizem a seu respeito. Nem quero ver o que vão dizer com a taxação das “blusinhas”. Enquanto isso, Arthusinho & Cia vão estar rindo com milhares de “bandeiras despregadas”.

NOTAS:

Pé rapado: o pobretão, sobretudo da zona rural, que andava descalço e por isso era obrigado a raspar (ou rapar) os pés para lhes tirar a lama. Pessoa humilde, pobre.

Rir à bandeira despregada: rir abertamente, como bandeira desfraldada, solta ao vento, em dia de festa. Uma bandeira hasteada em frente a uma Casa Legislativa indica que as pessoas lá dentro ficam geralmente rindo à bandeira despregada.

Conversa pra boi dormir: conversa mole, conversa fiada, frequentemente usada pela classe política para enganar os trouxas, os bocós dos eleitores. Origem da expressão: antigamente, os pecuaristas tinham os bois em alta consideração; daí, conversavam com eles nos cercadinhos dos currais.

Etelvaldo Vieira de Melo

VALE A PENA LER DE NOVO: SOBRE POLÍTICA, VIDEOGAMES E FILMES

 
Imagem: Pinterest

Ando meio injuriado com as coisas que acontecem ao meu redor. Poderia até ser com a política, já que o sistema que nós temos, essa mistura mal feita entre presidencialismo e parlamentarismo, via de regra, só faz promover gente cretina, levando o país cada vez mais para o buraco. O sistema eleitoral, que é um filtro e só deveria deixar passar os melhores e mais capacitados, via de regra, seleciona os desqualificados, aproveitadores, oportunistas e gatunos, raposas para tomarem conta do galinheiro. Depois, quando juntam política com religião, a coisa desanda de vez. Aí, assistimos a uma mistura de safados e aproveitadores com crédulos e estúpidos, fazendo ouvidos moucos para aquela máxima pregada pelo próprio Jesus: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Mas, não, vamos deixar a política um pouco de lado, que isso já se tornou doença crônica. O motivo de meu incômodo em questão tem a ver com aquilo que, até bem pouco, era minha alegria e distração nos momentos de ociosidade: assistir a filmes pela TV e jogar videogame.

Tenho sérias desconfianças de que as pessoas hoje estejam sendo monitoradas por entidades secretas para fins que ainda não atinei. Esse monitoramento se dá ou de maneira ostensiva - como é o caso das redes sociais, onde ninguém tem pudor em revelar suas particularidades - ou de maneira camuflada, como é o caso dos jogos de videogame.

Minha plataforma de videogame vive pedindo para que eu lhe acene e me identifique; só fica satisfeita quando coloco um boné, maneira com que me apresentei pela primeira vez. Isso me enche o saco – ter que ficar acenando e ter que usar boné (embora estar usando boné me torne uma pessoa mais agradável e simpática). O problema maior é que não estou achando nenhum atrativo nos jogos.

Aqueles oferecidos através do plano de fidelidade são aborrecidos ou extremamente violentos.

Os jogos violentos, de tiro, sopapos, guerra, parecem ser produzidos para os consumidores americanos que, parece, têm uma cultura que cultua a violência. Enquanto aderia a esse tipo de jogo, acabei adquirindo uma lesão por esforço repetitivo (LER), um baita calo na palma de minha mão direita. Depois, veio um tal de “dedo em gatilho”, coincidindo com a ascensão ao Poder do capitão Bolsonaro, adepto incondicional de uma arminha de fogo (com o “dedo em gatilho”, inconscientemente me preparei para o faroeste que viria pela frente).

Quanto aos filmes, existe outro porém: a computação gráfica, que está matando a graça dos filmes de ação. Eles ficaram tão exagerados que, nem na fantasia, conseguem ser tragáveis.

Outra coisa que desabona os filmes e os jogos é a apresentação que fazem de seus heróis. Numa guerra moderna, seria herói quem se recusasse a entrar nela. Quando vejo o mocinho matando um tanto de gente, penso com meus botões: esse cara é desequilibrado, tinha que ser internado numa clínica psiquiátrica. Nos filmes de espionagem, definitivamente não dá pra ficar torcendo para um agente da CIA (como no tempo da Guerra Fria), como se ele fosse um mocinho.

Deu para perceber como estou me tornando um sujeito chato? Eu me pergunto: esse culto da violência serve pra quê? Se servisse como catarse, meio do adolescente, do jovem e do idoso descarregarem a agressividade, tudo bem. Mas será que é isso mesmo que acontece? Não estarão os filmes e jogos de videogame banalizando a violência, fazendo com ela seja considerada normal?  Ao fim e ao cabo, acabo achando que tudo está a serviço daquelas entidades secretas, de quem falei no início, para que as pessoas pensem que tem de ser assim mesmo, esse mundo de desigualdade, de exploração, de violência, dominação e injustiça.

Um último reparo. Outro dia, estava assistindo a um filme (“Missing”, de Costa-Gavras, de 1982), este, sim, muito bom. No finalzinho, o personagem interpretado por Jack Lemmon, diz para o cônsul americano em Santiago do Chile:

- Dou graças a Deus por viver num país onde podemos colocar gente como vocês na cadeia.

   Ver aquilo me deu uma inveja danada, especialmente porque aqui no Brasil nem uma mala abarrotada de dinheiro roubado foi suficiente para colocar determinado tipo de pessoa atrás das grades. Depois, para cassar o mandato de um senador, conhecido como “Marreco de Londrina”, não bastaram provas, já que teriam de ser robustas, vitaminadas. (Engraçado é que aquele senador, enquanto juiz, se servia de delações de bandidos e de “fortes suposições” para mandar seus desafetos pro xilindró...)

Nota: Assista ao filme “Missing” (Desaparecido), de Costa Gavras. Lá você vai ver se Ditadura é essa coisa bonitinha que o pessoal besta pensa que é.

Etelvaldo Vieira de Melo


GAROTAS DE PROGRAMAS DE LEITURA



 

Realmente, a literatura moderna é muito original e inventiva. A começar pelos títulos das obras: Garota Exemplar, A Garota No Trem, A Garota Que Roubava Livros, A Garota Do Armário... e por aí afora.

Junto aos títulos, os dizeres: ‘mais de 10 milhões de exemplares vendidos!’. Na contracapa, uma resenha com comentários edificantes de revistas e jornais, 20% de conhecidos e o restante de quem ‘nunca vi mais gordo’. Nas ‘orelhas’, uma biografia dizendo que o(a) autor(a) mora em não sei qual estado americano, junto do(a) marido(esposa) e 4 filhos. E o golpe fatal, para quem ainda duvida de alguma coisa: os direitos de filmagem já foram adquiridos por um estúdio de Hollywood. Depois desse golpe, não resta sobrevivente.

Diante dessa avalanche de títulos chamativos, estou em dúvida sobre qual livro comprar.

Acho “a garota silenciosa” bem interessante. Mas me pergunto: será ela “a menina que roubava livros” ou, ao contrário, “a menina que não sabia ler”? A “história da menina perdida” fala daquela que se tornou “a garota do calendário” ou daquela outra, “a menina que brincava com fogo”?

Penso que “a garota dos olhos azuis”, também conhecida como “a menina dos olhos molhados”, bem que poderia ser “a garota perfeita”, não fosse “a menina do capuz vermelho”, heterônimo de “a menina do vale”. Mas não seria ela “a garota das laranjas”? Não sei. Tem também “a menina morta”, que me deixa na dúvida se era “a garota no gelo”, “a menina na neve” ou “a garota do penhasco”. Certamente “o menino do pijama listrado” a chamou de “garota exemplar”. Isso porque ela era “a menina que tinha dons”.

Entre tantas garotas, tenho também vontade de ler o “diário de uma garota nada popular”, mas não sei se ela é “a garota com a tatuagem de dragão” ou “a garota que chutou o ninho de vespas”. Só sei que ela é “uma garota de muita sorte”.

Faço essas observações lembrando que, aqui, as editoras adotam a máxima de só apostar em time que está vencendo (isto é, seguem a filosofia do que é bom para os Estados Unidos da América também é bom para a República das Bananas). Assim, as diferentes garotas conseguem aumentar seu percentual de vendas. Como possuem status e pedigree, fica fácil para elas desbancar os autores tupiniquins, quase todos inéditos.

No mundo de hoje, nessa sociedade massiva e massificante, onde a arte é processada em liquidificadores ‘Made in USA’ (enquanto o resto fica por conta do ‘Made in China’) artigos de pseudocultura são produzidos em série e sob encomenda para enganar os bocós (e fico arrepiado ao pensar na tal de Inteligência Artificial, IA, e o estrago que ela vai fazer, se já não está fazendo, na produção de best-sellers).

Embarcando na onda, e querendo dar uma de esperto, sob o pseudônimo de E.W. Mellow, tenho um manuscrito e pretendo enviá-lo a uma editora. O título é “A Garota Venezuelana Que Fez Pintar Um Clima Para o Imbroxável”. (Pelo que estou vendo, você já se esqueceu da história, ela que aconteceu outro dia mesmo, em 2022.)

Dando um desfecho ao texto, devo dizer que estou lendo “A Garota no Trem”. Ainda não fui atropelado e estou gostando muito. E não me chame de trouxa.

Etelvaldo Vieira de Melo

O IGNORANTE E OS ERUDITOS

 

(Adaptado de “Os Fazedores de Leão”, Contos Orientais, de Leonardo Fróes, Editora Rocco)

Era uma vez quatro amigos. Três deles haviam se tornado eruditos, tanto tinham estudado; o quarto não gostava de estudo, era tido pelos demais como idiota, mas dispunha de bom senso, coisa que os outros não tinham.

Andavam, certo dia, pela floresta, quando avistaram os restos mortais de um leão. Um dos eruditos, o mais velho, disse:

- Vamos testar nossos conhecimentos, trazendo esta criatura de volta à vida. Sou capaz de unir os ossos e reconstituir de novo seu esqueleto.

E assim ele fez com perfeição.

O segundo, mostrando aptidões invulgares, acrescentou carne, couro e sangue ao animal.

Quando o terceiro erudito ia insuflar-lhe o sopro da vida, o imbecil o interrompeu, dizendo:

- Tenham cuidado, amigos, pois estão fazendo um leão e, se tudo der certo, ele pode comer a gente.

No entanto, ninguém levou a sério sua ponderação. O insuflador chegou a falar, indignado:

- Como se atreve a questionar meu saber, seu babaca? Quer atentar contra minha liberdade?

- Está bem – falou o boboca. – Mas, então, espere um pouco para que eu suba nesta árvore.

Assim, o leão reviveu e, no mesmo instante, atacou e matou seus criadores. Só mais tarde, o idiota desceu da árvore e, guiado pelo seu bom senso, tomou o rumo de casa.

Leitura: Esta fábula vem mostrar que sabedoria não se confunde com erudição: muitos idiotas podem ser sábios, enquanto muitos eruditos não passam de ignorantes.

Esta fábula também nos faz lembrar a Internet com suas redes sociais. A pretexto da liberdade de expressão, internautas criam verdadeiros monstros, quando espalham suas mentiras a troco de interesses sombrios.  Ao fim, esses monstros irão destruir a própria liberdade de expressão. Poderíamos ver isso, se as pessoas não estivessem com ouvidos e olhos tampados, sem enxergarem um palmo à frente do próprio nariz.

Parodiando Malcolm X: “Se você não for cuidadoso, as redes sociais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as pessoas que estão oprimindo”. Esta é a tristeza dos tempos modernos: amamos a quem não merece, enquanto odiamos aqueles que necessitam de nossa atenção e cuidado.

Etelvaldo Vieira de Melo

TESTAMENTO



Quando minha vida chegar ao fim

- Tal fantasia que se esvai -

Quero me ver assim:

Como uma esperança que se desfaz

Um sonho que acaba

Uma luz que se apaga.

 

Quando minha vida chegar ao fim

As decepções estarão perdidas com o tempo

Do mesmo modo que tristezas e alegrias.

Que não venha a doer meu coração

Pois não irei carregar sentimento de culpa

Nem de mágoa. Assim espero.

Quando minha vida chegar ao fim.

 

Quando minha vida chegar ao fim

O que irá restar?

Um pouco de melancolia talvez

diante da incerteza do que há de vir,

do que semeei e plantei

do que ajudei a construir

daquilo que realizei

e, tristeza maior,

do que sonhei mas não fiz.

 

Quisera ter renovado a esperança

Alimentado tudo que quis

Espalhado sorriso e alegria

Construindo pontes para aproximar pessoas

Para iluminar os caminhos

Trazer a paz

Tornar o mundo mais feliz.

 

Este é o sonho que carrego comigo

Na esperança de que seja assim

Quando chegar a hora

E tiver que ir embora

Quando minha vida chegar ao fim.

                                                                                                                                                                                                                Etelvaldo Vieira de Melo 

NEM DE TRISTE CANTAR



 

Passarim está triste 

Passarim desaprendeu de cantar 

Por que tanta tristeza, passarim?

 

Foi por causa do monstro reluzente

vestido de negro 

cuspindo horror 

e gritos de temer?

 

Sim. Ele se achegou até minha casa

e – oh, que dor doida doída!

jogou-a ao chão.

 

De antes, toda manhã era assim:

Eu pousava num de seus galhos,

Ipê Amarelo, para ver o sol nascer.

 

Então, feliz, eu cantava cheio de esperança.

 

Hoje, ficou comigo a tristeza

o vazio de minha voz calada.

O sol desapareceu de minha vista

e, minha vida,

já não faz sentido cantar.

 

É por isso que nas cidades

ainda se vê outro pássaro a dizer:

Bem-que-te-vi! Bem-que-te-vi!

 

Pra quem ele fala assim desse jeito

se todos estão de olhos e ouvidos fechados?

                   Etelvaldo Vieira de Melo