PASSARINHO ENCUBADO

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Mereço merecemos, meretrizes
Perdão
   Perdoai-nos, patres conscripti
Pai filho espírito de fogo

Engasgadas nos olhos por olhos
Perdi o tom da palavra

                        Sobre os remendos
E complementos
                        Das socioagitações               
I beg your pardon

Por que somos o dilúvio a me afogar
        Litígio recheado de ar
Ou sou É um lapso sutil?

Graça Rios

BLACK FRIDAY


Não é de arrepiar essa mania de importar datas para promoção de vendas cujos nomes não têm pé nem cabeça?
Ivani Cunha

FÁBULA NEBULOSA: DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

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FÁBULA NEBULOSA 22: DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS (*)
Pousando sobre uma ovelha, certa gralha começou a dar-lhe bicadas e a arrancar-lhe a lã.
Muito magoada, falou a ovelha:
- Você faz assim comigo, que sou fraca e indefesa. Mas haverá de encontrar um cão, que lhe dará o pago.
- Não há perigo – respondeu a gralha, gralhando risada. – Sei muito bem a quem devo respeitar e de quem posso zombar.
Moral:
Assim parecem certos magistrados na aplicação da lei: para alguns infratores, a reverência e o respeito; para outros, o deboche e os rigores das penas.
(*) Invento e/ou leitura/releitura de Fábulas Universais
Etelvaldo Vieira de Melo



ANTOLHOS


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Imagem: biosom.com.br

Faz tanto tempo, Brasil, que não te vejo. Fiquei cego para os teus encantos, desde que estou no exílio. Não pude mais contemplar as tuas praias, teu sabiá entre as palmeiras, nem o poeta do sabiá. Eu não sabia, naquele templo fagueiro, como eram belos os olhos para mirar as tuas serras, flores, o Cruzeiro do Sul. Na antiga recordação, te dou cor com róseas manhãs. Naquele milênio em que te antevia, nós éramos juntos os frutos da terra. Clara passeava com Drummond pela relva, esperando o correio, medrosa da gripe.
Quão diferente estou hoje, nesta blindagem visual. Os vultos passantes são ladrões de toga, ansiosos por tuas riquezas. Eles te privatizam, entregando aos estrangeiros os teus mananciais. Os posseiros, neste exílio da catarata, passam por mim armados até os dentes porque também sou, - não ESTOU! -, mudo, surdo ao teu apelo. Arrasam as florestas, o solo, os índios. Por que me isolo sem comprometer-me com a justiça sobre os corruptos? Terão sido eles que me roubaram o pensamento crítico e a reação? Por todo lado a maldade passa, destruindo jovens, escolas, a saúde do povo. E eu assim, sendo nomeado O Deficiente Visual. Tanto tempo com essa tarja de deficiente visual... O tempo e o vento carregam-me a memória para cá, no exílio, aonde não vêm as forças ativas do verdadeiramente Eficiente reconstrutor das Minhas Gerais.
Os temporais passados levaram-me as pupilas trêmulas de ardor pela bandeira? Lavaram o sangue rubro que palpitava em minhas veias quando pronunciava ao vendaval palavras de apoio aos flagelados? Fiquei pálido, o cristalino oco ante o roubo de tuas fronteiras, do petróleo dado aos estrangeiros a preço de banana? Eu não amava essas mesmas bananas na cabeça das Mirandas? Tempo agro este de hoje, admirado irado por caminhar com bengalas sobre o asfalto corroído pela falta de verbas governamentais. Tempo de avanço tecnológico que sonda Marte em produção de filmagens caríssimas, mas não encontra o colírio salvador da minha mente opaca.
Aion, eras daquele tempo em que eu nascia, vendo a face de meus pais debruçada nos meus mil milhões olhos de alegria. Eu era olhos nos seus olhos e nos santos óleos. Meus dedos pestanejavam para a moça Pátria à frente, minhas pernas duais sobrancelhas disparavam para o casamento entre o céu e mar. As costas piscavam! Piscavam! para as aves verdejantes dos rios voadores. Sinestesia contente, essa imagem do porvir.
                            LIBERTAS QUAE SERA TAMEN
Está próxima a operação do meu globo ocular. Tenho vistas ao regresso no Brasil tão logo haja a correção das retinas. Homem de meu tempo, hei de achar, no atemporal descontínuo da diferencia, o olhar limpo das crianças no cenho dos ex-políticos, no bolso dos ex-ladrões, na fazenda dos (des)apropriados. Nessa hora, pálpebras penas partidas, meu peito aberto em luz eVidente correrá para o sol brasileiro, antes oculto na poluição. Adeus, cronos medroso! Agora, livre do exílio do invisível, todos dirão a tempo e a hora: ”Uai, aquele moço ao vento, lince lutador, não é mais o Mesmo que outrora chamávamos Deficiente Visual”.

              Graça Rios 

LAGOA DA PAMPULHA

Ivani Cunha

A MENINA QUE QUERIA TRABALHAR


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Estava no ponto do ônibus, sentado num banquinho de espera, quando se aproximou uma mulher maquiada com exagero e fumando, que logo me perguntou:
- Está esperando o ônibus?
Deu vontade de dizer: - Não, estou esperando o navio, que vai passar daqui a pouco.
- Você paga passagem? – ela adiantou, para me deixar mais aborrecido.
Ante minha recusa, ela explicou:
- Estou indo fazer uma entrevista de emprego. A situação pro meu lado está difícil, desempregada e sem dinheiro até para a passagem.
Sentimentos contraditórios tomaram conta de mim: Fiquei penalizado, tomado daquela compaixão dalaimática; também fiquei ressentido, já que a moça estava muito maquiada e fumando (“Para cigarro e cosméticos, ela arranja dinheiro” – cheguei a pensar).
Prevalecendo o sentimento de compaixão, enfiei a mão no bolso para retirar um trocado. Para minha surpresa, havia esquecido o dinheiro em casa.
- Você desculpa, mas estou vendo que estou sem dinheiro – falei. – Tenho que ir lá em casa buscar.
 Veja você, simples acontecimentos possibilitam grandes reflexões. O fato relatado me proporcionou a seguinte:
- O drama da mulher em questão, correndo atrás de emprego, é um exemplo do caos em que o país está mergulhado: enquanto alastra o desemprego, com a fome batendo à porta de muitos lares, vemos políticos, sem vergonha na cara, carregando malas de dinheiro roubado; magistrados, também sem vergonha na cara, nadando em salários e penduricalhos imorais e ilegais; presidente, desprovido de vergonha na cara, comprando votos de congressistas para não ser cassado. Esse é um quadro deprimente que afronta a nossa vergonha na cara.
Fui até em casa, peguei o dinheiro e voltei para o ponto. A mulher ainda estava lá, disse que o ônibus não havia passado (estaria me esperando?). Dei a metade do valor da passagem, pedindo-lhe para que desse um jeito de conseguir o restante.
Pensa que foi maldade minha? Acho que agi assim porque reprovava o fato dela estar fumando, além de usar uma maquiagem muito carregada.
Quando veio o lotação, a mulher não se levantou, permaneceu sentada no banco. Achei estranho. Aquilo me proporcionou uma derradeira e dramática reflexão:
- Está vendo como você é uma pessoa mesquinha, Eleutério? Por causa de sua sovinice e de seu falso moralismo, alguém está perdendo o emprego. Por que não lhe deu todo o dinheiro da passagem? Não vê que o fato dela estar fumando se deve á sua ansiedade e nervosismo? Não percebe que a maquiagem carregada é para causar boa impressão na entrevista?
Eu sabia, com tanta consideração e reflexão, algum trocado ia sobrar pra mim. Estou com sentimento de culpa: impedi uma menina de conseguir um emprego. É isso que dá ter vergonha na cara. Mas eu não lamento ser assim. Para mim, vergonha na cara é uma qualidade de caráter e que anda fazendo muita falta no Brasil.
Etelvaldo Vieira de Melo


EXTIMIDADES

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Imagem: bolsadeviagem.com.br
Belo horizonte tem palmeiras
que despencam com a chuva e
matam taxistas por eletroplessão.
Os pardais moram nelas e
regurgitam pios piolhos sobre
 pombas bombas mega-aéreas.
Lá vai um lá vão dois três cagões aerossólicos
sobre o transeunte que
passaranda num trote para o  sistema digital Spacegate Duo.
Os guardas não veem o shou dos mochileiros
lavando com voluptuosidade os sacos
sujos
com mil artesanatos dentro e mais e mais
na fonte luminosa.
Os guardas estão do outro lado onde
onde as gotas batem isócronas no asfalto furado.
Belo Horizonte, visceracidade skymaster de ruas de árvores incorretas
e cantos bárbaros de mindingos mijando na entrada plástica
dos museus.
Graça Rios


ONDE ESTÁ O DINHEIRO?

Ivani Cunha

PARAFRASEANDO CARLOS

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imagem: copacabana.com
Lembrando os 115 anos de nascimento de Drummond (31/10/1902)

Disseste que no meio do caminho
Haveria de ter uma pedra.
Curioso, quis saber qual, já que caminhos são tantos:
Uma estrada, avenida, uma rua.
Uma simples trilha? Seria?
Nada precisaste.

Pedra tem de todo tamanho.
Cuidadoso, perguntei: qual?
Uma pedreira, um pedregulho
Ou uma simples pedra?
Nada detalhaste.

O que afirmaste com certeza
É que uma pedra iria estar
No meio do caminho.
Nem à esquerda, tampouco à direita
Simplesmente no meio do caminho.

Assustei com essa ideia
De uma pedra que não sei qual
Em um caminho que não sei onde
Que não sei como.

Foste tu, anjo torto, quem me disse
Pra ser estrangeiro na vida
Andar pelo acostamento
Caminhar pelas beiradas
Porque lá no meio do caminho
Haveria de ter uma pedra

Uma pedra que haveria de estar
No meio do caminho.                                                   

Etelvaldo Vieira de Melo

LEIAM-ME, SE FOREM CAPAZES


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Imagem: acijs.com.br
                                             
Perder-me no exílio da memória de navegantes cativos, vencidos, afogados.
O olhar blasé em constante mobilidade guarda em mim a potência da viagem.
O objetivo: chegar ao porto impossível da linguagem.
Sapho na escritura, sirgo entre zonas inquietíssimas do corpo.
Figuro esse desejo: o oco, o vazio, a palavra copiosa.
Um malogro de linhas cruza o itinerário deste discurso.
Daqui o país é estrangeiro. É preciso ancorar o navio no espaço.
Sei: as letras fazem-se plásticas na ponta escura do cais.
A impermanência, afasia do fantasma, solta-me as páginas do livro sem causa ou finalidade.
Miro no ponto cego do mapa um lar hipotético: residência no refluxo dos termos.
Busco a loucura de fazer uma volta ao dia em oitenta mundos.
Portadora de passaporte em heteroglossias, finjo-me simulacro de todos os desejos.
Viajante de papel, tento escapar pelo espaldar da cadeira onde me inscrevo.
Escrevo...

Graça Rios

LET IT BE, SÔ!

Ivani Cunha

ENCONTRO DESMARCADO

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FÁBULA NEBULOSA 32: ENCONTRO DESMARCADO (*)
    Vô João era Raimundo de nascença. O apelido veio com a profissão, servente de pedreiro. A cor de sua pele era de um pardo indefinido, que ficava escondida por trás de uma mistura de cimento, poeira e cal. O cabelo encarapitado estava sempre grisalho, como se estivesse coberto de neve.
    Raimundo era conhecido pelo nome somente em casa, pela esposa e pelos sete filhos. Sua esposa, Clotilde, ora o chamava de Reimundo, nos momentos de braveza, ou de Mundinho, quando o mau humor lhe dava trégua. Os filhos invariavelmente o chamavam de paiê. Já Raimundo chamava sua mulher de Crotildes.
    Vô João, o Raimundo, morava na periferia da periferia da cidade, em um aglomerado próximo a uma fábrica. Todo dia da semana, quando o apito da fábrica tocava para a troca de turno das seis horas, ele já estava quase chegando ao centro da cidade. Ali, deveria tomar outra lotação até o serviço, pois era assim sua rotina: duas conduções pra ir, duas pra voltar.
    Durante o dia, ficava por conta do trabalho, com direito a uma pausa de uma hora para o almoço. Então, vô João se afastava discretamente dos companheiros e, de cócoras, abria a marmita. Via de regra, a comida era constituída de arroz, macarrão e feijão; de mistura, uma couve ou um tomate fatiado. A comida estava fria, mas ele não se importava, pois se achava também um boia-fria.
    Quando voltava para casa, de tardezinha, vô João passava num supermercado para comprar alguma coisa encomendada pela Crotildes. Nos dias de pagamento, a sacola ficava mais pesada.
    Foi justamente num dia de pagamento, estando já a caminho de casa (ele tinha que andar por cerca de 25 minutos, depois de descer do lotação), que vô João, estando muito cansado, sentou-se no chão, junto a uma pedra que estava à beira do caminho. Fechou os olhos e respirou fundo. Não sabe quanto tempo passou, mas se lembra de estar dizendo:
- Que vida mais ingrata a minha, sô. Melhor seria se me aparecesse a morte.
Nem bem pronunciou tais palavras, um vulto de negro surgiu à sua frente, carregando uma enorme foice ao ombro.
- Chamou, chamou? – perguntou a figura, com voz cavernosa.
Raimundo se encolheu, apavorado. A outra repetiu:
- Pois não, seu Raimundo. Em que posso ajudar?
Redobrando um pouco a coragem, Raimundo disse:
- Não dá pra senhora me ajudar a levar esses mantimentos até em casa?
Raimundo não sabe se, como concordância ou ameaça, a senhora de negro se aproximou. Ele, em desespero, começou a correr. Foi quando acordou e viu um cachorro preto roubando da sacola um pacote de salsicha. Colocando o cão pra correr, Raimundo pensou:
- Estou vendo: quem abre a boca sem pensar acaba engolindo sapo sem querer.
Outra Moral
Se é preciso ter cuidado com as pedras que estão no meio do caminho, mais ainda é preciso com as que estão lá pelas beiradas.
(*) Invento e/ou leitura de Fábulas Universais

Etelvaldo Vieira de Melo


SALVAR, COMO?

Graça Rios