UM SOPRO DE BRISA

     Pequenos fatos, aparentemente banais, toda hora, chamam nossa atenção para os perigos do sectarismo dogmático.
        
Eu explico: Dias atrás, andei fazendo algumas considerações desabonadoras sobre o fato de terem umas meninas espalhado pelos postes avisos de procura de uma cadela chamada Nani.
        
Ontem, entrando numa loja de pet-shop, vi, fixado na parede, um novo aviso, dizendo mais ou menos assim:

PROCURA-SE NANI DESESPERADAMENTE
        
E o novo panfleto prometia uma generosa gratificação para quem desse notícia da cadela.
        
Engana-se quem pensa que achei graça ou ironizei aquilo. Desta vez, foi meu coração que doeu e algumas lágrimas teimaram em cair pelo meu rosto.
        
No intervalo de tempo entre os dois avisos, acerca de doze dias, aconteceu que minha filha ganhou de presente um cão da raça Yorkshire Terrier. Tratava-se de uma fêmea. Veio com o nome de Violeta, mas logo a apelidamos de Vivi. Estava com três meses de vida, pesava 890 gramas, cabia na palma de minha mão e todos de casa nos apaixonamos por ela.
        
Ela é muito brincalhona, medrosa, mas atrevida, gosta de focinhar tudo que encontra pela frente e, quando recebe uma reprimenda por fazer algo errado, fica olhando para a gente com olhos inocentes e tristes.
        

Minha filha equipou a casa com todos os apetrechos produzidos pela indústria canina, procurando atender às exigências de proporcionar ao nosso melhor amigo todo o conforto e toda comodidade.
        
Deixando de lado a questão financeira, onde poderia ser considerado que criar certa espécie de animal de estimação pode ser mais caro que criar um filho, quero considerar que a presença de um animal assim em casa pode nos tornar pessoas melhores. Vocês mesmo poderão observar como meu coração se tornou mais sensível e afetuoso depois que passei a conviver com Vivi.
        
Divagando sobre o tema, dois assuntos chamam minha atenção.
        
Primeiro, quando aquele político falou que aquele outro político despertava nele os mais baixos instintos, isso aconteceu porque o outro não estava com um Yorkshire nas mãos. Se estivesse, os sentimentos daquele seriam de ternura, carinho, amor.
        
Segundo, de uns tempos pra cá, o povo brasileiro anda muito nervoso, qualquer coisinha é motivo de manifestação e quebradeira. Está na hora do governo criar mais um programa social, que poderá receber o nome de “Meu cão, minha paixão”. Um cãozinho Yorkshire pode ser doado para cada família, juntamente com o bônus “ração popular”. As famílias seriam orientadas para educar os animaizinhos a fazer suas necessidades fisiológicas, sem maiores traumas para uma das partes. Não sei, mas talvez aquele experimento de Pavlov sobre reflexos condicionados possa ser utilizado.
        
Estou fazendo essa divagação toda, não querendo falar algo necessário. Ontem, Vivi começou a passar mal, com vômitos. Ela foi encaminhada a um hospital veterinário, chegando a fazer exame de tomografia, com suspeita de perfuração intestinal. Hoje, pela manhã, um vazio imenso veio tomar conta de mim, uma saudade danada já aperta meu peito: o coração de Vivi, do tamanho de uma bolinha de gude, não resistiu e ela morreu.

Etelvaldo Vieira de Melo

DÚVIDA

Imagem: sandraokajima.com.br

Não sei
se vou
ou se fico.
Não sei 
se faço                                                             ou desfaço.      
Não sei
se creio
ou descreio.
Não sei
se estudo
ou trabalho.
Não sei
se escrevo
ou se leio.
Não sei
se falo
ou me calo.
Não sei
se ando
ou se paro.
Não sei 
se vou
ou se fico.
Não sei se faço
ou...

VERDADE DE CALÇAS CURTAS


E
stando certos os que acreditam em reencarnação, devo ter sido testemunha em tribunais de justiça noutras passagens, tal o meu empenho com a verdade. Quando me surpreendo no intuito de dizer uma mentira, pequenininha que seja, logo fico vermelho qual pimentão maduro.
        
Essa crença inabalável até bem pouco, teve suas estruturas seriamente comprometidas dias desses, quando vivenciei um fato banal.
        
Para não fugir ao costume, estava eu no ponto de ônibus, esperando o distinto para me levar para casa, meu lar, meu doce lar.
        
Um desconhecido, que nunca tinha visto mais gordo (e ele era um pouco gordinho), que logo se identificou como Júnior, veio puxar conversa comigo. Ao mesmo tempo em que tentava puxar conversa, ele me puxava pelo braço. Achei tudo aquilo muito estranho e fui me afastando da calçada pro asfalto, correndo risco de ser atropelado por um veículo qualquer.
        
Como meu instinto de sobrevivência sempre fala mais alto, cuidei de voltar para o calçamento. Pensei: fazer o quê? Enquanto isso, o Júnior, qual metralhadora giratória, disparava palavras pra tudo quanto é lado, chegando ao ponto de dizer que eu parecia com um seu amigo.
        
Perguntei pelo olhar: como assim? – e ele explicou que se sentia incomodado em conversar com o amigo, pois só ele falava, enquanto que o outro balançava a cabeça.
        
- Por que somente eu falo? – quis saber Júnior.
        
- Ora – respondeu, finalmente, o outro. – Não sei se você já observou que temos dois ouvidos e uma boca. Se fosse para falar mais do que ouvir, haveríamos de ter várias bocas e alguns poucos ouvidos.
        
Júnior não ficou vermelho - ou porque era moreninho, ou não se deu conta da direta do outro. Continuou seu diálogo monológico comigo, dizendo ter sido técnico em eletrônica, mas que se tornara corretor de imóveis.
        
- Dias desses, levei um sujeito para comprar a casa da minha mãe, e sabe o que ela fez? Ela disse assim: Olha, seu moço, se eu fosse você, não comprava esta casa, não. Estas paredes aqui são todas de adobe, a laje está com filtração; quando chove, é um Deus nos acuda. Também tem a vizinhança, que mexe com drogas. Quando baixa a polícia, a casa vira um beco de saída pros traficantes, voando bandido pra tudo quanto é lado. Outra coisa é que estou precisando pedir é a ligação de esgoto, pois a fossa está toda cheia.
        
Ao ouvir aquela descrição, o sujeito virou pra minha mãe e falou assim:
        
- Dona, sou muito agradecido pela sua franqueza. Eu estava pensando seriamente em fechar negócio, mas, depois de suas palavras, acho melhor desistir.

Quando o distinto se foi, Júnior passou uma reprimenda na mãe:
        

- Mãe, mãe, deste jeito a senhora me leva à falência!
        
Foi aí que ele se lembrou de outro amigo e que tinha uma porção de namoradas: Olha aqui, Júnior, vou colocar o telefone no Viva-Voz pra você me ouvir marcando encontro com uma gata. E assim ele fez com uma e mais uma. Eu falei pra ele: Cara, você é casado, tem uma mulher linda, tem uma filha, por que você faz uma coisa dessas? Ora – falou o outro: - Se eu falar que sou casado, acabo não pegando nada; por isso é que, pra elas, eu sou solteirinho da silva.
        
Nessa altura dos acontecimentos, quer dizer, do falatório, como o ônibus ameaçava chegar, Júnior quis fechar com chave de ouro sua explanação: Eu nunca vou dizer a verdade total para um cliente. Se ele me pergunta se existe problema com drogas nas imediações do imóvel, eu vou dizer: “Meu amigo, você sabe que o problema de drogas é generalizado; por isso, não vou dizer que tem ou deixa de ter. Você sabe como é.” Pra você, eu digo uma coisa: quem fala a verdade, não sai do chão.
        
O ônibus chegou, passei pela roleta, usando da carteirinha que me dá direito à gratuidade. O Júnior também pegou o mesmo ônibus, mas ficamos separados por uns bancos. De longe, eu lhe disse: Abraços pra sua mãe! Quanto ao princípio de que quem diz a verdade não sai do chão, por causa de meu retardo mental, ainda não digeri bem. Depois eu vou ter uma opinião formada sobre o assunto, isto é, se o fato de ter vivido rastejando até hoje, como se fosse uma tartaruga, decorre do compromisso de sempre dizer a verdade. Ai, se for!
Etelvaldo Vieira de Melo


SALDÃO DE CARNAVAL

Imagem: bestness.com.br

Vendem-se poemas
quatro quartos
suítes
1,99.

Versos à vista
seios empinados
aproveite a oferta.

A estrofe fechou em alta
lavagem
de frase peculato
doloso e poesia
dez vezes sem juros.

Rima de trinta graus
em Belo Horizonte.

Cai o PIB da métrica
cresce a crise
no engenho e arte.
Espetacular o salto da palavra
que infelizmente
não leva o ouro.

Taí a Copa
implantes de inspiração
sem dor.
Só você não vê
a vantagem
de comprar um verso livre
numa vaga de cemitério
finíssima aquisição.

Eis um livro garantido
Senado vota nele
ano que vem.

Melodias
esqueça essa história
de corpo.

Épicas
a novela das sete das oito
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continua no próximo capítulo.


ESQUISITICES



S
e a gente for observar bem, não existe ser humano que deixe de ter suas esquisitices. Holofontina Fufucas chamou atenção de seu marido, Melidônio Ferrara, para a mania que ele tinha de, estando conversando com alguém, ir se aproximando, enquanto o interlocutor tinha que se afastar, até ser prensado de encontro a uma parede. Se estivessem próximos de um precipício, era perigoso o outro ser arremessado de encontro aos rochedos.
           
Quando foi chamado à atenção, Melidônio cuidou de se policiar, a fim de evitar maiores vexames; ao mesmo tempo, começou a observar as esquisitices de outras pessoas.
           
Reparou, por exemplo, que seu amigo Anus Gamberini, quem sabe por influência do próprio nome, tinha a mania de se coçar na região glútea. Como dizem as pessoas lá de sua terra, “tretô-relô” e lá estava o Fuinha – apelido com o qual era conhecido – com os dedos se coçando.
           
Já seu colega Boris Kossaks tinha a mania de se coçar na frente. Seu nome foi uma homenagem que sua mãe quis prestar àquele escritor russo, Boris Pasternak, autor do sucesso Doutor Jivago e que se tornou uma superprodução cinematográfica, dirigida por David Lean, estrelada por Omar Sharif e Julie Christie. Quando estudou, não havia bullying, mas Boris sofreu com as perseguições e provocações dos colegas, que o chamavam de Boris Coçassaco. E não é que, de tanto ouvir isso, ele acabou adquirindo essa mania?
           
Melidônio ria interiormente quando se encontrava com Fuinha e Boris e eles, distraídos pela conversa, davam vazão às suas esquisitices. Elas tiveram fim, ou ficaram suspensas, quando Fuinha – que não usava o vaso sanitário de forma convencional – caiu de um deles e acabou se cortando exatamente na região glútea, levando ali vários pontos. Já o Boris, parece que teve uma reprimenda em casa. Muito raramente ele se coça, assim mesmo quando julga estar sozinho ou não sendo observado.
           
Foi na leitura desses casos que Melidônio se lembrou de um colega de adolescência e que também tinha comportamento pra lá de esquisito, o Avercílio. Esse tinha a mania de comer sabonete. Se você queria fazê-lo feliz, bastava lhe oferecer um. Não que fosse um esfaimado; ele gostava de sabonete, sim, mas os comia com moderação, um pedacinho por dia. Melidônio não sabe como está sua condição hoje, com a proliferação de várias marcas e espécies. Fica incomodado ao saber que existem os esfoliantes, que podem causar um estrago no esôfago, e os antibacterianos, que podem acabar com a fauna intestinal. Melidônio se pergunta: será que o Avercílio resistiu aos tempos modernos?
           
Quando comentou esses casos com o amigo Fridolino Xexéo, esse quis acrescentar mais um exemplo de esquisitice. Melidônio não quis dar crédito às palavras do amigo, já que o considera um pouco exagerado e chegado a uma mentirinha. De qualquer modo, o caso é que Fridolino mora num prédio e tem como vizinhos de apartamento um casal, cuja mulher atende pelo nome de Carmen Lúcia Bizetina Macarenas. Ela é brasileira, mas os pais são espanhóis. Eles tanto encheram a cabeça da moça com Andalucía, Sevilha, Granada, tourada e flamenco, que a pobrecita ficou traumatizada para o resto da vida.
           
Fridolino teve oportunidade de conhecer o pai de Carmen pessoalmente, quando esteve em seu apartamento e ele ali estava de visita. Tratava-se de um senhor distinto, trajando um terno de linho bege, com gravata listrada nas cores vermelha e amarela; seu cabelo era todo grisalho e ele estava sentado numa poltrona, chorando copiosamente. O aparelho de som tocava Ojos de España.

          

- Foi, então, que me dei conta de um cacoete de Carmem, professora de rede pública de ensino. Assim que cheguei à porta, ela foi dizendo: “Que bom que você veio, psiu, Fridolino, psiu.” - E apontando para o senhor sentado na poltrona: “Este é meu pai, psiu, que está passando, psiu, alguns dias aqui em casa, psiu.” O senhor se levantou e, estendendo a mão, falou, numa mistura de línguas: “Mucho prazer. Perdone mis lágrimas. És la soledade qui apierta mi corazón.” Apesar de estar na faixa dos trinta anos, Carmen tem voz metálica, estridente, como se fosse uma taquara rachada. Deve ser por gritar com alunos e dizer psiu.
           
O amor pela Espanha estava tão enraizado no coração de Carmen que Fridolino diz ter ouvido à noite, vez por outra, os acordes de España Cañi.



Em certas ocasiões, esta melodia era substituída por outra, El Gato Montes.



Fridolino ouvia, então, barulho de cama rangendo, acompanhado de gemidos e suspiros, entrecortados por psius. Ultimamente, o apartamento tem ficado silencioso, o que leva o amigo à suposição de que as touradas foram suspensas, talvez pela morte do touro, talvez por um acidente fatal com o toureiro.
           
Melidônio acha a história do amigo carregada de exagero, mas que se salva pelas referências musicais. Você também pensa assim?
Etelvaldo Vieira de Melo  
  


SIMBOLISMO

Imagem: www.wallsave.com
Ouço o piano
soando na noite
piano piano
nos refúgios da mente
onde dormem as águas
crisálidas de sonhos
pétalas das horas.

Ó formas alvas
indo ao recôncavo
das dores renhidas
nas guerras perdidas
do sono e torpor.

Ouço o piano
e as notas latentes
túrgidas lembranças
do que foi e não é.
Piano piano
espinhos que ferem
desferem ardumes
de loucos pesares.

Ouço o piano
piando piando
pássaro arisco
no gris do passado
nas flores medrosas
que nascem na rocha
de amargo venir.

Crepúsculo e cores
lontano lontano
sons esquecidos
tons aturdidos
que passam
e roem
presenças e ausências
de vago não-ser.

Formas claras
da morte
cristalinas raízes
do que se desfaz.
Crescidos alvores
na alma tangida
pela voz do piano.

 

PERFORMÁTICO

P
orque o sistema político brasileiro privilegia o Poder Executivo, colocando em suas mãos, no dizer popular, “a faca e o queijo”, sobra muito pouco trabalho efetivo para os membros do Legislativo, além de comer o dito queijo e fazer chantagem para conseguir mais benesses. Não estou dizendo com isso que os políticos sejam preguiçosos ou deixem de trabalhar, mas eles o fazem em causa própria, fazendo “política”, isto é, cuidando de garantir os votos de eleitores para a próxima legislatura. Para comprovar a veracidade do que falo, temos o exemplo de um deputado federal por Minas Gerais que, durante 8 mandatos (31 anos), apresentou 20 míseros projetos, quase todos arquivados e que quase nada de positivo acrescentaram à vida da população.
           
Falando dos vereadores, de suas poucas atribuições, e que eles amam de montão – pois acreditam que podem lhes trazer dividendos eleitorais, estão a de dar nome às ruas e a de oferecer títulos de cidadão honorário para personagens de destaque na mídia.
           
O nome de uma rua deveria ser escolhido por seus moradores, através de consenso. Quando não fosse possível, que se acolhessem sugestões tiradas de nossa flora e de nossa fauna, buscassem nomes sugestivos ou até mesmo de valores, cujas cotações andam em baixa.
           
- Moro na Alameda da Esperança, quase esquina com Avenida da Honestidade – iria responder Brisabela Alves à pergunta de Armando Bonfim.
           
Raramente seria admitido dar nome de pessoas aos logradouros. Eu, por exemplo, moro numa rua com o nome de um indivíduo que nunca vi mais gordo. Gostaria que ela se chamasse Rua da Solidariedade, para que as pessoas que ali passassem pudessem ser tocadas por esse valor.

          Outra mania que toma conta da classe política é a de espalhar estátuas de bronze pelas praças e calçadas da cidade. Não tenho nada contra isso, até acho bonito, embora carregue um pouco de receio de levar um tropicão em uma delas.
           
Imagem: www.skyscrapercity.com
Existe outro inconveniente. Minha amiga Isaura Felicidade, passando por uma das principais praças da cidade, vislumbrou algo que ela imaginou ser um artista performático. Ela se aproximou e lhe disse:
           
- Parabéns pelo seu desempenho. Você se apresenta igual ao Roberto Drummond.
           
(Para os desavisados, Roberto Drummond foi aquele cronista que induziu toda uma torcida de futebol a comprar secadora de roupa, tendo se declarado inimigo do vento: “Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade, o... torce contra o vento”.)
           
Como o pseudo-Roberto não disse nada, nem estendeu a mão como gesto de pedir um trocado, Isaura tocou-lhe o rosto e se deu conta de que estava, na verdade, diante de uma estátua de bronze.
           
Dias desses, passei perto do Roberto e notei-lhe o rosto um tanto descascado, parecendo que estava com aquela doença chamada vitiligo. Pensei: Será que a Prefeitura não toma a iniciativa de passar um protetor solar no rosto desta estátua? Com essa onda de aquecimento global, não há pele que resista, mesmo sendo de bronze! Se eu fosse o Roberto, deixaria de bobeira e, quando o calor apertasse ou já chegasse a noite, iria tratar de me esconder sob uma marquise.
           
Está certo que existem outras estátuas espalhadas pela cidade, como “os quatro cavaleiros do Apocalipse”: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos. Estão eles numa praça bastante arborizada, estando Otto e Fernando sentados. Quer dizer que a conversa deles pode se prolongar indefinidamente, sem problemas. O mesmo ocorre com Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava. Embora tenha a cabeça desprotegida, Carlos pode contar com as sombras dos prédios. O problema mesmo ocorre com o Roberto. Também, quem mandou ele ter sido torcedor daquele time...

Etelvaldo Vieira de Melo

QUATRO HAI-KAIS



ESTUDO:
Estuda
que a pena
é mais leve
que a pá.

ESQUELETO:

As pedras
são os ossos
do planeta.




TETRA-CHAVE:
Quatro vezes
sem entrada.

SAPATOS:

É pra frente
que a gente
anda.





POBRES MOÇOS: AH! SE SOUBESSEM O QUE EU SEI

O
utro dia, encontrei o Raimundinho da Geovita, sim, aquele mesmo que havia se casado com a Viúva-Negra, tema de um relato já postado em 14/12/2013. Apesar de seu aparente bom humor, notei seu semblante um tanto quanto abatido, com uma incipiente barba branca, em contraste com o bigode ainda preto.  Pensei: será que seu estoque de lenha anda no fim e a Viúva-Negra já começou a devorar o pobre coitado?
           
Quando me despedi, essa preocupação me acompanhou, junto com uma revelação que nos mostra a sabedoria dos idosos:
           
_ Bem dizia meu pai – falou Raimundinho, fazendo-se acompanhar de um sorriso maroto: - Procure agradar sua mulher de todas as maneiras, varrendo a casa, lavando os talheres, passando pano nos móveis, pois, quando pedir-lhe um beijinho, ela não terá como negar!
           
Meu amigo, aquele que anda tomado de dores por tudo quanto é lado, resmungou que na casa dele não é assim, não. De minha parte, falei que ainda não havia pensado no assunto daquela maneira, mas que sempre tivera o cuidado de agradar minha mulher, com esse propósito, quem sabe, ainda gravado no plano inconsciente. Foi então que me dei conta de uma das serventias da classe dos terapeutas: a de trazer para o plano consciente aquilo que anda dormindo nos lugares mais escondidos de nossa mente.
           
Sem mais divagações, quero dizer que vivemos numa sociedade que cultua a juventude e a aparência física. A indústria da beleza prospera a todo vapor e seu comércio se multiplica. O ser humano enfrenta ferozmente a marcha do envelhecimento e só entrega os pontos quando não tem mais jeito de fazer os remendos.
           
Minha flor da juventude já foi linda, mas agora está murchando. Nesse momento, tento ver as qualidades da fase mais madura à qual estou adentrando. Tirando a rabugice, a língua solta e as dores que se espalham por todos os lados, a maturidade tem muito de bom. Afinal, a vida, ao mesmo tempo em que tira muito de nós, nos oferece sabedoria, que é sapiência, sabor, saber. Depois, com a aposentadoria, você enterra de vez aquela máxima “engana trouxa” de que o trabalho enobrece o ser humano. Quem inventou isso não sabe como é agradável acordar numa segunda-feira como se fosse domingo.
           
Infelizmente, como tudo se tornou descartável hoje em dia, a experiência de vida virou coisa de se jogar no lixo. Vez por outra assisto a um filme, onde um problema crucial de determinada comunidade é discutido e resolvido por um conselho de anciãos. Pode ser que em sociedades secretas, isso exista entre nós, só que – até o presente – ninguém me fez qualquer espécie de convite para participar de uma delas.
           
Em termos políticos, o Senado da República poderia ser algo assim, mas, por causa de nosso Sistema, tornou-se cabide de emprego nada confiável. Os velhinhos que ali sobrevivem nem mesmo se assumem como tais. Grande parte da produção das tinturas de cabelo e bigode é para ali destinada, a fim de atender aos anseios e desesperos de pessoas que buscam ostentar juventude.
           
Creio que, se um político assumisse sua idade verdadeira, estaria dando um belo exemplo para a sociedade, contribuindo para a valorização dos mais idosos. Quando recorrem a tinturas, plásticas e botox, passam a mensagem subliminar de que podem aprontar atos indecorosos, como pecadilhos de jovens. Caso ostentassem seus reais cabelos e bigodes brancos, haveriam de ser reprimidos:
           
- Isso é uma vergonha! Um senhor de cabelos brancos escondendo dinheiro na cueca!
           
Em países da Europa, legislações tentam inibir publicidades que abusam de imagens produzidas por Photoshop, já que elas enganam os consumidores. Nossos políticos custam a engolir a petição popular da Ficha Limpa, mas eu quero mais: quero que eles limpem suas caras e se tornem mais transparentes. Ficha Limpa e Cara Limpa, para orgulho dos idosos e felicidade geral da Nação!

Etelvaldo Vieira de Melo

ROL



ESTÁ SOBRANDO ATÉ PARA O COITADO DO POBRE!




Imagem/Texto:Augusto de Campos






     
  M
inha filha anda implicando comigo por causa de alguns deslizes que cometo ao pronunciar determinadas palavras (“poblema” e “restorante” são exemplos). Não adianta eu alegar que estou empregando um termo coloquial ou usando de uma figura de linguagem - uma síncope , por exemplo (embora não saiba se esse bicho existe de fato e se presta para redimir meu erro verbal). Ela diz que isso é sintoma de que meu nível (intelectual/econômico) anda lá embaixo, rastejando quase.
            
           
De minha parte, temo que ela já esteja jogando no time daqueles que andam com nariz empinado, exalando metidez e afetação. Se for assim, fico preocupado, pois antevejo sérios conflitos entre nós, daqui para frente.
           
Como tive uma formação onde me foi incutida a máxima de que a virtude está no meio, tenho a tendência em enxergar virtudes e defeitos nos dois extremos da escala social, dos ricos e dos pobres. Para não cansar a paciência de quem quer que seja, vamos destacar somente um defeito da porção pobre. Quanto a falar mal dos ricos, quero, primeiro, afiar minhas armas para aplicar-lhes um golpe fatal. Eles não perdem por esperar.

Sei que estarei agindo errado, atirando pedras naquela que é a mais vilipendiada das classes sociais, os párias da sociedade moderna, principal vítima de uma imprensa sensacionalista, que faz dela atração de seu cardápio carregado de notícias ruins e maldosas. Sei que ser pobre numa sociedade capitalista é a maior danação, é ser tratado como cachorro vira-lata, morrendo de fome, frente a uma máquina de frango assado, contentando-se em comer aqueles deliciosos petiscos somente com os olhos. Mas não é isso que o pobre visualiza através da TV? Tanta ostentação, enquanto sua casa e sua vida caem aos pedaços...


Apesar de tudo e falando dos pobres, alguns deles acham que podem alugar os ouvidos dos outros, despejando ali algo indescritível, mas que chamam de música. Um deles faz isso usando de potentes alto-falantes de um carro, estrategicamente instalado na descida de uma rua e que proporciona a maior ressonância possível. Ele aprecia um gênero musical chamado funk, cujas letras jogam por terra meu resto de inocência. Minha esperança é de que as crianças das redondezas não entendam nada daquilo; caso entendam, o mundo está definitivamente perdido.

Aquele som horripilante, que bate nos meus ouvidos e arrebenta meus restantes neurônios, acontece invariavelmente nos fins de semana e nos feriados. (Antes que alguém se sinta ofendido, quero dizer que concordo com o que diz Sérgio Vaz, poeta da periferia: “O que é lixo para uns é luxo para outros”.) Certo dia, peguei um binóculo para conferir visualmente o que acontecia: o carro estava com o porta-malas aberto; junto dele, uma jovem, vestida de short, dançava, balançando a bunda e se achando a tal. Não percebi o dono do carro e responsável por aquela chacina auditiva. Ele devia estar no quintal da casa, junto com outros amigos, tomando umas e comendo churrasco de gato ou de costela de boi.

Bem sei que ele estava socializando seu gosto musical e sua alegria de final de semana. Também sei que essa é uma das virtudes do pobre, essa de compartilhar o pouco que tem. Reconheço sua boa intenção, mas preciso dizer que, de pessoas bem intencionadas, o inferno anda cheio. Aquele som nas alturas e aquelas letras indecentes abalam meu estado emocional. Talvez seja por isso que meu vocabulário anda caindo pelas tabelas, isso de estar, todo fim de semana, esbarrando com tamanho “poblema”.
Etelvaldo Vieira de Melo

    

REGINA COM BRINCOS DOURADOS



Um anjo bom, Regina, minha amiga,
Vem visitar-me e tomamos chá.
Ela é pra mim, numa conversa antiga,
O que melhor existe e haverá.

Depois do chá, aninha-se em meus braços.
Então reparo em seus brincos dourados.
Ela os traz sem saber que são dois laços
Entre mim e ela, assim simbolizados.

A tarde passa e vamos caminhando
No universo da paz e da ternura.
Ela sempre me ouvindo e me falando

Do que é por vir, da lua, das estrelas
De sua flor que murcha, mas perdura,
Além da vida, onde eu possa vê-las.

TERAPIA DO GRITO


S
ei que este texto irá provocar a indignação de um analista, amigo meu, e de todos os outros profissionais do ramo, mas fazer o quê? Entre outros objetivos menores, minha missão aqui é a de ajudar as pessoas, aliviando-lhes, no que me for possível, as tensões do dia a dia. Nesse propósito, poderia começar falando da dança como exercício terapêutico.  Quando estava no maior sufoco, Zorba, o Grego, costumava apelar para a dança. E isso o aliviava. Tenho comigo que uma das mais belas passagens da literatura mundial é aquela em que Zorba relata a morte de seu pequeno filho. Diante de sua extrema dor, ele extravasa todo seu sofrimento dançando diante do corpo do filho. Pode ser que funcione para você, esse exercício de dança, mas trata-se de uma coisa que não daria certo para mim. Simplesmente, não sei dançar e não adianta os terapeutas ocupacionais tomarem meu tempo, dizendo que a dança é um gesto de humildade, que – aquele que não dança – é um reprimido sexualmente. Fico aborrecido ao ouvir uma coisa assim, esse tipo de ofensa gratuita. Pode até ser que eu aprenda a dançar, agora que ganhei outro videogame de presente no dia dos pais. Esse dispõe de um sensor que lê o movimento corporal enviado pelo jogador. Sei que existem games de dança e pode ser que eu venha a adquirir um. Só acho esse sensor muito chato, pois, assim que ligo o videogame, ele pede para que eu lhe abane a mão. Quando não tem alguém por perto, até que me submeto a essa brincadeira de retardado mental. O problema é quando existem pessoas nas proximidades: o que elas vão pensar ao me virem agitando as mãos para uma máquina?  Sei que, na vida, a gente tem que engolir muitos desaforos. Se formos contabilizar, existe pelo menos um a cada dia. Como engolir desaforo não faz bem, seja para nosso sistema digestivo, seja para nossa autoestima, seja para o psiquismo, estou repassando a quem interessa, a custo zero, um tipo de exercício que possibilita descarregar tensões, frustrações, tropeções e safanões. O invento se chama “terapia do grito”. Não tem nada a ver com o Grito de Independência proferido por Dom Pedro I. Aliás, segundo as más línguas, ele estava vivenciando uma situação de emergência, quando foi notificado das pretensões de Portugal de aumentar a alíquota sobre a produção de minério do Brasil. Portugal não aprende mesmo; se tivesse um pouco de atenção para os quebra-quebras aprontados pelos tupiniquins diante do aumento das tarifas de transporte, teria refreado um pouco sua ganância. Mas, mesmo assim, a solução empreendida por Pedro não convence até hoje. E tudo por causa de suas condições físicas de momento. Estaria ele com indisposição intestinal (uma maneira sutil de dizer dor de barriga)? A questão é saber se ele já tinha “obrado” (um termo usado por uma senhora que, durante certo tempo, trabalhou em minha residência). Gritar: “Independência ou Morte”, no aperto, é uma coisa; aliviado, outra. De qualquer modo, nos dois casos, a Independência fica comprometida. O Brasil teria se dado melhor caso sua Independência fosse proclamada num momento de fome de Dom Pedro. A fome provoca raiva, que leva à luta. Nossa miscigenação étnica e cultural, somada a esses pequenos deslizes, moldou a índole de um povo tido por muito tempo como pacato, bonzinho. Juntando o arroz com feijão, tenho um parente que me confessou não estar suportando nem ele mesmo. Por qualquer contrariedade, lá está ele rosnando para as pessoas, querendo brigar, xingando até com palavras de baixo calão. (Engraçado esse termo “baixo calão”. Vou deixar anotado aqui esse adendo para, mais tarde, consultar o Dr. Google sobre sua origem. Quanto ao significado, não tenho nenhuma dúvida: quer dizer palavra chula, imprópria, indecente.) Falei pro meu parente para ele conter seu instinto assassino, moderar seu ímpeto de esganar as pessoas, relevar as ofensas menores. Já uma amiga experimenta o reverso do que sente meu parente: diante de uma ofensa qualquer, ela se trava, fica sem palavras, acaba engolindo o desaforo. E ela se sente muito mal por não encontrar os termos adequados para dar um revide e nocautear o adversário, jogando-o na lona. No meu modo de entender o psiquismo humano, considero as duas atitudes incorretas. O destempero e a passividade promovem mais estragos em quem os pratica do que em seus alvos. Assim, quero deixar para quem possa interessar um aplicativo gratuito e que ocupa pouco espaço de memória. A Terapia do Grito é inspirada naquele famoso grito proferido por Tarzan (Oooooooh!), conforme vídeo baixo.



Para que não se torne um hábito desgastante e inócuo, você poderá praticá-lo uma vez por semana. Siga os procedimentos relacionados a seguir: 1º) Escolha uma moita ou região de arvoredos próxima de sua residência; 2º) Verifique atentamente se existe alguém nas proximidades. Em caso afirmativo, espere que a pessoa se afaste; 3º) Inspire profundamente, batendo com as duas mãos fechadas no peito e solte o grito (Oooooooh!) (procure alongá-lo de 30 segundos a 1 minuto). O grito deverá conter toda a carga de raiva e mágoa que esteja carregando. O efeito benéfico de tal terapia você irá observar logo nas primeiras aplicações.

PS: Caso apareça alguém durante seu exercício, há o risco de que ele queira interná-lo num hospício. Caso seu grito chame a macaca Cheeta, se for de seu interesse, poderá lhe explicar que, além da semelhança gutural, você não tem nada mais a ver com o Tarzan, paixão de sua vida.

Etelvaldo Vieira de Melo