JARARACA OU SURUCUCU?

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Palavras de Ingenaldo:
No princípio dessa embrulhada toda, que é a vida do ser humano na Terra, um animal, um réptil, foi destaque, alcançando o topo da parada de sucesso: a serpente (a propósito, um adivinha que acabo de inventar: qual o réptil que queria ser passado na cabeça de homem com cabelo?). Segundo o relato bíblico, foi ela que induziu a primeira mulher a comer do fruto proibido. Como consequência, todo mundo sabe: o paraíso foi perdido, foi pras cucuias, e o homem teve que comer do pão que o diabo amassou com o rabo, isto é, foi inventado o trabalho, essa coisa horrorosa que aflige a humanidade, esse eterno castigo de Sísifo, de empurrar uma pedra morro acima.
Se não me falha a memória por tantos quilômetros rodados, prometeu o Senhor Deus que uma “outra mulher” haveria de esmagar a cabeça da serpente. Não é isso que está registrado nos anais bíblicos?
Pois bem, o tempo passou, ou a humanidade passou diante do tempo, até que, no início do século XXI da era cristã, em certo país da América do Sul, aconteceu um ferrenho debate envolvendo uma subespécie desse ofídio, a jararaca, e que, pelas proporções do bate-boca, deveria ter cedido o destaque do desfile para sua parente mais avantajada, a surucucu ou surucutinga.
O que anda acontecendo é que uma parcela significativa da população do país desandou a alimentar hostilidade para com um partido político, encastelado no poder, e – em especial – contra a figura de um ex-presidente da coisa pública. A artilharia pesada de ofensas mútuas se espalhou das trincheiras das grande, média e nanica imprensas para a Internet e suas redes sociais.
De minha parte, devo dizer que não vejo nenhum santo ou beato nessa história; não chego a colocar minha mão no fogo pra ninguém, nem mesmo estando usando uma luva térmica, dessas de 1 e 99, importadas da China. Entretanto, prezo a verdade e defendo a justiça.
Quando o ex-presidente foi intimado a depor, de forma coercitiva, junto aos responsáveis por uma operação (Lava-Jato? Lava a Jato?), ele saiu “cuspindo marimbondo”, soltando palavrões e dizendo que haviam “acertado o rabo da jararaca, mas não a mataram”. Logo, pensei com meus botões: “Preciso pedir ao Instituto Butantan a criação de uma vacina dupla, que me livre do mosquito da dengue e da picada de jararaca”.
Dois dias depois desse notável acontecimento, e que chegou a chamar atenção de pessoas desatentas como eu, um alto prelado da Igreja Católica, em homilia, isto é, no sermão que é feito durante uma missa, onde muitos assistentes aproveitam para dar um cochilo, disse, candidamente, sem transparecer nenhuma sombra de maldade: “Peça, meu irmão e minha irmã, a graça de pisar a cabeça da serpente... daqueles que se autodenominam jararacas...”
De tudo por tudo, eu me pergunto quais os fundamentos científicos, racionais e de bom senso para tudo isso que acontece e que irá acarretar desdobramentos (ameaçadores - pra todos os lados em que a gente apontar o nariz).
Cuidando da semântica e da morfologia, sem cutucar a jararaca com vara curta, vejo que:
- A incumbência de esmagar a cabeça da serpente foi dada a determinada mulher; ou seja: não é tarefa de nenhuma “minha irmã” e, muito menos, de nenhum “meu irmão”.
- O termo “jararaca” se presta a diferentes leituras. Entre elas, está a de designar alguém “linguarudo”, falastrão, que “fala pelos cotovelos”. Este sentido está expresso na música que diz: “Que mulher danada essa que eu arranjei / Ela é uma jararaca, meu Deus / Com ela eu me casei / Quando está desesperada, fala, fala pra chuchu / E, quando abre a matraca, logo vem o sururu...”. Neste sentido, o termo se assemelha ao de “cachorro que late, mas não morde”.
- A jararaca não é o tipo de serpente que frequentou os jardins do Éden, já que é nativa da América do Sul, e o continente nem havia sido descoberto naqueles tempos de antigamente.
- Nesta história em que a jararaca é execrada por uns, por ser réptil peçonhento, merece consideração o fato de que seu veneno é responsável pela fabricação de um dos mais utilizados medicamentos para hipertensão, o Captopril. Por isso, antes de matar a cobra e mostrar o pau, é preciso considerar que a preservação da espécie tem suas conveniências.
- Uma jararaca tem como pratos preferidos sapos e ratos. Pra gente que vive engolindo sapos, é sempre bom poder contar com o adjutório de uma cobra. Quantos aos ratos, seria uma boa sugestão pedir ao referido Instituto Butantan providenciar uma remessa de jararacas para serem transportadas para Brasília. Fiquei sabendo que a capital federal está infestada de ratos e ratazanas.
- Esta consideração anterior me leva a questionar a descrição que o ex-presidente faz de si mesmo, como se ele fosse uma jararaca. Eu não sei, só pergunto: é mesmo?
- Em nome da verdade, vejo que ele passou dos limites com seu linguajar, exacerbou ainda mais o clima de tensão em que o país está mergulhado.
- Considero que o prelado, no alto de sua sapiência, enfiou os pés pelas mãos, sem medir o alcance de suas palavras. Depois, falou que não era sua intenção usar aqueles termos, mas que foram bem empregados. Quer dizer: não quis assumir plenamente o que disse, subiu em cima do muro.
O que necessitamos é de bom senso, racionalidade, cuidado com o bem comum. Muitas pessoas públicas e de influência parece que não se dão conta dos riscos do sectarismo, do fanatismo religioso ou ideológico. Se atentassem para a sabedoria popular, haveriam de aprender de ditados que ensinam: * “quem com ferro fere, com ferro será ferido”; * “quem semeia vento, colhe tempestade”; * “em boca fechada não entra mosquito”, e assim vai.
De minha parte, poderia recorrer a outro dito: “em poço que tem piranha, macaco esperto bebe água de canudinho”; ou um outro ainda mais grave: “quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Mas quem me mandou ter a língua trelosa?
Etelvaldo Vieira de Melo


PLANTAS DO CERRADO

sapium_02
Imagem: timblindim.wordpress.com
LEITEIRINHO (Sapium hasterianum)

Leiteirinho
para os bezerros
olhos dos homens.
Quem toma desse leite,
embebeda-se de flor.



Imagem: plantasquecuram.blogspot.com

                   
                                             


VELAME-BRANCO (Macrosiphonia velame)                   
                         
Cai a noite
e as flores
do Velame-branco
desabrocham
no mar de Minas.
Minas não tem mar
mas o cerrado é um mar.
O Velaime navega
pela noite adentro
e as flores derramam
aromas pelo espaço.

Que nave ave,
a vagar sem nunca
sair do lugar!
Que vagas secas
do mar das Gerais!

Amanhã,
na hora mais quente
do dia,
as flores murcham
e o oceano
mineiro de pedras
velará o sono ardente
das flores do Velaime.                         


PODIA SER PIOR

Imagem: ndoline.com.br


Quando algo dá errado pras minhas bandas, eu costumo pensar: “Console, Florisbela, podia ser pior”. A essa maneira de pensar eu chamo de Filosofia de Vida. A FV tem me valido em muitas situações, fazendo com que eu chegasse até aqui sem muitos arranhões ou machucados. Ela é assim como as ferramentas de uma oficina ou as muitas coisas que carrego na minha bolsa. Não sei por que os homens implicam tanto com as bolsas femininas. Com suas calças, camisas e paletós, podem eles dispor de, no mínimo, sete bolsos. Alguns ainda acham pouco: chegam a fazer uso das cuecas para transportar outros bens, além dos genitais. Mas nós, mulheres, só dispomos de um só bolso, que é a nossa bolsa. Na minha, eu carrego de tudo um pouco. Tem até agulha e linha, para o caso do vestido rasgar ou a alça do sutiã se soltar. Como diz o ditado, “seguro morreu de velho”. Agora, apesar de todo cuidado, chego a experimentar situações constrangedoras. Minha amiga Adalgisa havia me convidado para passar o final de semana na sua fazenda. Seria ótimo, se eu não andasse com uma desconfiança danada dela. Da última e única vez em que lá estive, quando saía do banho enrolada numa toalha, ela veio com essa conversa assanhada: “Tira logo esta toalha pra eu te dar uns amassos”. Então, eu falei: “Cruz credo, sai pra lá, sapatão! O que eu gosto mesmo é de homem, homem com agá e, de preferência, maiúsculo”. Agora, ela está me convidando novamente. Parece até que se esqueceu do esfrega que lhe dei.  O meu problema é que, apesar das centenas de anos de terapia, ainda não aprendi a ser totalmente assertiva. Quando, tal como a ingênua Chapeuzinho Vermelho, estava indo pra cair nas garras do lobo, fui salva no último minuto por um pedido de outra amiga, a Tatá. Foi o que falei pra Adalgisa: “Sinto não poder ir pra fazenda com você. É que Tatá tá me pedindo pra ficar com seu cãozinho de estimação. Ela vai passar o final de semana na sua terra natal”. Ouvindo a justificativa, Adalgisa comentou, olhando nos meus olhos com olhar pidão: “Que pena! Fica para a próxima”. Desse modo, eu me salvei de um constrangimento, embora tenha saído da brasa pra cair no espeto: o cãozinho de Tatá, um pequinês que atende pelo nome de Totó, é um capeta. Fica focinhando tudo, fazendo xixi em todos os cômodos do apartamento, marcando território, e eu correndo atrás, com balde e esfregão, para enxugar aquela torneira ambulante. À noite, quando o coloco lá na área de serviço, ele fica chorando feito cachorrinho querendo mamar, enquanto arranha a porta. Em situações como essa é que me valho da FV: podia ser pior. Vai que não aparecesse a Tatá com o Totó, e eu aceitasse o convite de Adalgisa. Vai que ela estivesse numa situação de “matar cachorro a grito”, que ela viesse pra cima de mim feito uma cadela zangada, e eu, desatualizada que ando com essa tal de assertividade...
Etelvaldo Vieira de Melo

FLORES DO CERRADO

Imagem: floresdocerrado.fot.br

Cipó amargoso

Cipó amargoso
      que vais, docemente,
           subindo e descendo
                em  longa espiral
                     aonde tu vais
                          com tantos botões
                               de flores de cores
                          deixando no ar
                     as folhas ovadas
                chamando das estrelas 
           ararinhas-azuis
      asas-brancas
 e Marias-faceiras
                                   para brincar?

       


Imagem: floresquecuram.wordpress.com
       
DORME- DORME

Malícia-de-mulher
arranhadeira
não-me-toque :
mimosa pudica
                             posso desmaiar.         


CARTA PARA UM VELHO AMIGO



Para Teixeira
Caro amigo,
Cá estou eu me servindo deste prosaico e convencional meio de comunicação, uma carta, quando os avanços tecnológicos poderiam nos colocar frente a frente, com os recursos de vozes e até de imagens.
Entretanto, por razões que irei alinhavar em seguida, prefiro me “esconder” atrás de uma carta, quando não sei qual o seu tipo de resposta. Como sou um cara pra lá de medroso, dependendo do conteúdo de seu retorno (se houver), poderei sofrer um abalo ainda maior na minha abalada e combalida saúde. Os termos se equivalem? Estou cometendo um pleonasmo? Que seja, mas que tal redundância lhe sirva de alerta para os danos que poderá me causar.
Primeiro ponto: como haveria de dizer Belchior, ainda sou o mesmo, e só não continuo como meus pais porque eles viveram em épocas tão remotas, que não tem como transportar aquele jeito para os dias atuais, tantas foram as mudanças.
Mas continuo o mesmo dos tempos de convivência. Até mesmo quanto ao físico, costumo ouvir de pessoa que ficou longo tempo sem me ver: “Você continua o mesmo, não mudou nada!”. Ou ele fala isso para “dourar a pílula”, amenizar a dor de uma revelação verdadeira e crua, ou, por um distúrbio funcional, nunca, até recentemente, consegui me ver como sou de fato. Quanto estou frente a um espelho, o que sei é que minha imagem refletida tem me desagradado cada vez mais.
Do ponto de vista psicológico, creio que me tornei uma versão melhorada de mim mesmo. A primeira constatação que salta aos olhos, ou melhor, que fere os ouvidos de quem está à minha frente: como minha fluidez verbal evoluiu! Creio que em decorrência do tempo (que parece lavar nossa vergonha e timidez), sinto minha língua se tornar cada vez mais solta e descontraída. Corro o risco, dependendo do assunto, de falar “pelos cotovelos” – uma expressão usada para nomear aqueles que sofrem de verborragia.
Associado a essa fluidez verbal, noto que meu retardo mental (os especialistas o designam “prolapso de fim de curso”) tem melhorado consideravelmente. Quando alguém me fala algo desagradável, sou capaz de dar um revide de imediato, coisa que era impossível nos tempos de juventude.
Esta nova característica – reverso do verso que já fui: uma pessoa monossilábica, mais ouvinte do que falante – pode não lhe ser agradável, talvez prefira que eu continue na versão mono, eu que já passei da fase estéreo e vivencio, agora, a versão dolby digital.
Mas você pode ficar sossegado, pois não abandonei de vez a capacidade auditiva. Se acha que estou falando demais, isso se deve ao recurso que utilizo para me comunicar com você: uma carta, que não deixa de ser um monólogo, por mais dialógica que seja sua tentativa.
Saber ouvir é uma grande coisa, talvez uma das melhores da vida. E foi você, meu caro amigo, quem me ensinou essa preciosidade. Meus familiares costumam rir de mim, quando pego alguém pela frente e começo a usar de seu método um tanto quanto socrático. Aquele tinha o propósito de busca da verdade, enquanto o seu incentivava o outro a falar, a se apresentar, a se expor.
Você continua assim? Ou será que o tempo acabou com sua paciência e, na pressa de resultados palpáveis, você passou a prescrever receitas e formulários?
Não sei, estou falando isto porque, nos raros contatos que tivemos, você me repassou mensagens de terceiros, quando poderia falar por você mesmo ou, então, usar de sua técnica de “botar a língua dos outros pra fora”, para que eu dissesse aquilo que é importante. Para ser franco, não gostei nem um pouco de sua nova versão. Só espero que esteja fazendo um juízo incorreto.
Você tem uma história de vida rica e que admiro profundamente. Ao longo do tempo, pode até ter feito uma ou outra opção equivocada, pode ter feito leituras da realidade incorretas (coisas que faço de montão), mas nunca deixou de ser aquilo que importava: honesto, sincero. De nosso tempo de convivência, só tenho lembrança de um defeito seu: quando ia coar café, tinha mania de colocar o pó misturado com a água a ser fervida – uma coisa que não se faz e que aprendi depois, desenvolvendo algumas habilidades culinárias.
A honestidade é um valor pra lá de importante, não acha? Faz muita falta no mundo de hoje, quando fica relegada a segundo plano sob a argumentação de que os fins justificam os meios. Quando alguém abre mão da honestidade está abrindo portas para corrupção, conchavos espúrios, toda sorte de coisa errada e que mancha a história de qualquer um.
Agir com honestidade não é garantia de que os resultados serão perfeitos, mas a honestidade sempre deixa algo de bom. E foi isso que você fez ao longo de suas caminhadas: plantou boas sementes, que haverão de germinar, mais dia, menos dia.
Pois bem, estou chegando ao fim desta carta. O propósito principal (mesmo sendo repetitivo – cacoete de professor) é de deixar registrada minha admiração pelo seu jeito de ser e pela sua história de vida. Se for de alguma serventia, junto com um grande abraço, estou lhe enviando também os votos de que tenha muita felicidade, um termo genérico para designar tudo de bom que a gente pode imaginar e viver.

Etelvaldo Vieira de Melo


OUTRAS FLORES DO CERRADO

imagem: biologo.com.br

Mangaba (hancornia speciosa)


Lá vêm os mariposos

polinizar as mangabas.

As levadas abrem as pétalas ( cinco!)

e unidas na base

chamam os esposos:

- Venham, venham.

Os mariposos pousam suas asas

nas flores pálidas de (a) gosto.

Depois se vão, speciosos,

isto, formosos, formosos,

cobertos de perfumes

brancos, calorosos.



Imagem; pirenopolis.tur.br
UMBURUÇU


Na Trilha do Vale da Lua,
contempla o  umburuçu
a paisagem ressecada.
A Chapada dos Veadeiros
surge escaldada pelo fogo,
mas a flor permanece  
alerta e pranteada.
_ Onde estão os homens
que mataram as plantas?
O umburuçu conhece
os vilões de ontem.
A face prateada
dos pistilos
está em guarda
 e encontra no luar
os vestígios dos dragões.         


ENCICLOPÉDIA DE DITADOS POPULARES (VOLUME III)

Imagem: ofunil.blogspot.com


Muitos dos ditados populares surgem assim por acaso, sem nenhuma intenção ou propósito. Caem no domínio público e se alastram como jerimum.
Falo isto tendo por base o que aconteceu na ferraria do Osvaldo Faspalha. Tratava-se de um galpão coberto com folhas de zinco. Um forno ficava ao fundo; ao lado havia uma espécie de mesa de ferro, junto a marretas e bigornas; dependuradas em varais estavam muitas ferraduras; um armário, com muitas bugigangas e um rádio em cima, ficava escorado bem distante do forno. Na entrada, uma tabuleta com os dizeres:
Osvaldinho ferreiro – cervissos onesto.
Foi ele, o Osvaldo, em determinado dia, colocar um jogo de ferraduras no burro que era usado nas lidas diárias, o Celestino. Quando não tinha nada pra fazer, Osvaldinho o arrendava para vizinhos e interessados. No dia anterior, tinha sido alugado pelo Jorjão, para o carreto de cascalho. O Jorjão, preguiçoso como ele só, além de entupir a carroça de cascalho, ainda teve o atrevimento de fazer as viagens sentado com sua bunda e tudo na boleia. Quando foi devolvido à tarde, o Celestino estava arriado, isto é, com meio metro de língua pra fora, tanto o seu cansaço. Estava, no entanto, cumprindo sua sina de “trabalhar pra burro”.
Antes de ajeitar os cravos e as ferraduras, Osvaldinho passou na cozinha de casa para tomar um gole de café, tentando com isso espantar a ressaca, ele que, na noite anterior, havia bebido mais de uma garrafa de cachaça. Junto com o café, tomado em caneca esmaltada, mastigou um pedaço de carne seca e que estava ajeitada em espeto sobre o fogão a lenha. O espeto era de ferro, contrariando o ditado que diz “em casa de ferreiro o espeto é de pau”. Entretanto, foi daí a origem de outro, o de que “toda regra tem sua exceção, e vice-versa”.
Osvaldinho tinha necessidade de tomar umas pingas, segundo ele, para se refrescar um pouco, já que o galpão era um local muito quente, ainda mais com o fogareiro aceso.
Antes de colocar as novas ferraduras, levantou as patas de Celestino e, com uma torquês, soltou os cravos, liberando as quatro ferraduras antigas, já bem gastas.
Enquanto Celestino ficava olhando desconfiado, Osvaldo Paspalha retirou um cigarro de palha de detrás da orelha e o acendeu com isqueiro à base de querosene. Foi até o armário e ligou o rádio, sintonizando sua emissora favorita, especializada em músicas populares, também chamadas de bregas. Um cantor contava a história de um cara que havia se apaixonado por uma mulher da zona, uma coisa que existia em tempos mais antigos.
Quando começou a pregar as ferraduras nas patas de Celestino, Osvaldo se deu conta de que não estava num bom dia para trabalho: era uma marretada no cravo, outra na ferradura. Foi daí que veio esta expressão “um no cravo, outro na ferradura” para dizer que uma coisa certa é feita junto com outra errada.
Celestino acusou as pancadas e, através de seus olhos tristes, assim falou pro seu dono:
            - Lembre-se, Osvaldinho, “quem com ferro fere, com ferro será ferido!”.
Osvaldo parece não ter ouvido a recomendação do burro: continuou com suas marretadas, ora acertando o cravo, ora a ferradura, ora as patas de Celestino. Teve até hora que acertou o dedo polegar. Foi quando soltou um palavrão:
            - Puta que pariu!
Palavrão é uma palavra que acorre à nossa boca sem pedir licença. Quando a gente se dá conta, ele já foi pro ar. Muitas vezes deixa a gente envergonhado, querendo pedir desculpas. O palavrão – que pode ser uma palavra curta – é solto de acordo com o contexto. Quando Osvaldinho falou “Puta que pariu!”, ele estava inconscientemente fazendo referência à música que tocava no rádio. Se estivesse com dor de barriga, iria dizer: “Puta merda!”; em outras circunstâncias, diria “Putzgrila!” (e não sei a que pode ser associada esta expressão).
Assim, depois de muitos “um no cravo, outro na ferradura”, depois de muitas marretadas nas patas do coitado do Celestino e outro tanto no dedo polegar direito, já que era canhoto, Osvaldo acabou de ferrar com quatro ferraduras as patas de seu burro. Distraído, nem reparou no olhar insistente de Celestino com seu vaticínio de que “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.
Foi só o intervalo de uma noite com outro tanto de cachaça para que a profecia celestina se concretizasse.
Nem bem amanheceu o dia e lá estava Clotildes, esposa de Osvaldinho, a sacudi-lo, raivosa:
            - Seu desgraçado, filho de jumento.
            - O que foi, Crô? – perguntou Osvaldo se estrebuchando.
            - O que que foi foi você passar a noite toda falando: “Boazinha, meu bem; Boazinha, querida do meu coração”. Quem é essa sirigaita?
            - Ah, Boazinha é o nome de minha cachaça preferida.
            - Que cachaça, que nada, seu excomungado! – gritou, mais raivosa, Clotildes, enquanto atirava um ferro de passar roupa, desses pesadões à base de brasa, em direção ao marido.
O ferro passou raspando a cabeça de Osvaldo, que por pouco “não bate a caçuleta”.
Clotildes pegou um espeto, agora de pau, e foi empurrando Osvaldinho que, apavorado, ia recuando de costas até chegar à oficina.
Quando lá chegou, Celestino, vendo Osvaldinho de costas, não pensou duas vezes: deu-lhe um coice duplo com as patas, estreando com louvor suas novas ferraduras.
Osvaldinho saiu “catando cavaco” e se estatelou dez metros adiante. Antes de desmaiar, teve o seguinte pensamento:
- Putz caramba, “fui sair do espeto pra cair na brasa!”.
Estou registrando estes fatos não para ficar mangando com Osvaldo Paspalha, que ele descanse em paz, tendo já partido deste mundo. Faço isto tão somente para documentar um fato histórico e que deu origem a um tanto de ditos populares.
Etelvaldo Vieira de Melo

NOVAS FLORES DO CERRADO



Imagem: www.sementerara.com.br


Sempre-viva

Sempre-viva
no deserto onde as areias 
dançam cobrindo
a vida e a morte
do Jalapão, no Tocantins.
Viva ela, viva sempre
a flor de aço.

Imagem: www.viveiroipe.com.br





                

Aleluia de renda (Cassia macranthera)

                                                Concerto amarelo
                                                de notas lá e cá
                                                despencando na pauta
                                                do solo em si.
                                                Conjunto de flautas
                                                e vozes tangidas
                                                por todo o verão.
                                                Orquestra fedegosa
                                                encenando alegria
                                                sob os clarins folhosos
                                                                                                                  em douradas harmonias
                                                                                                                  n'outra ópera de Haendel.
                                                                                                                    Aleluia, aleluiaaah!                           

EXTRA! EXTRA! OPERAÇÃO FRANGO NO ESPETO

Imagem: nabrasacolumbia.com.br

Como bem diz o ditado, nada como um dia após o outro e uma noite espremida no meio.  Outro dia mesmo, estava alardeando aos quatro ventos (ventos Alísio, Elísio, Basílio e Heloísio – segundo internauta brincalhão; Bóreas, Notus, Eurus e Zéfiro – N, S, L e O – segundo a mitologia grega), estava, pois, dizendo de meu renovado sentimento de crença na salvação da humanidade, tudo porque uma mocinha havia me oferecido seu assento num lotação de transporte coletivo.
Pouco mais de uma semana depois de tão notável feito, estou aqui escorregando em casca de banana e dando com a cara no chão.
Existe uma fase na vida do ser humano em que ele se torna invisível. Só pode ser esta a explicação para o que aconteceu comigo, Anatalino Reguete.
No bairro onde moro tem um comércio chamado “Ponto do Frango”. Em certos dias, quando a preguiça em pilotar um fogão se alia ao desejo de digerir algo diferente, é lá que eu me abasteço com um frango assado e um feijão tropeiro. Assim, a preço módico, fica “salva a lavoura” e todos lá de casa podem sorrir felizes.
Como marco ponto com regularidade no Ponto do Frango, noto que o dono me trata com certa deferência, seja me atendendo pessoalmente, seja me entregando uma ficha de atendimento preferencial.
Sábado último, ele não estava presente, e o caixa era uma moça, que me deu uma ficha normal com a letra “F”. Resignado, fui para a fila, essa instituição sempre presente na vida dos brasileiros.
Uma mulher veio logo após, mas, ao invés de ficar atrás de mim, como manda o Manual de Orientações Básicas para se Enfrentar uma Fila (MOBEF), ficou ao meu lado. Quando o entregador de frango perguntou “quem é o próximo?”, ela, mais do que depressa, entregou sua ficha e indicou aquele frango que iria levar, um que estava bem no meio do espeto. Como sofro de certa lerdeza por causa da idade, além de passar por invisível, eu não disse nada na hora. Engoli o desaforo, não lhe chamei atenção para seu atrevimento e sua falta de educação.
Estou fazendo tudo isso agora, não para exercitar minha assertividade, nem pra fazer uma delação premiada nesta Operação Frango no Espeto, mas para refletir sobre como o sentido de justiça pode ser entendido nos pequenos gestos. (A propósito, eu acho que quem faz delação premiada não passa de um indivíduo sem caráter, hombridade, vergonha na cara; quem comete ato de corrupção e se arrepende pode fazer delação gratuita.)
Platão, em seu livro “A República”, dizia que justiça é cada um ter e fazer o que lhe é de direito. No meu caso, justiça era ter sido atendido preferencialmente. Platão adiantava que somente pela educação a justiça iria ser possível. Sem educação, a justiça padece, o egoísmo aflora, explode a corrupção.
Um simples fato, a compra de um frango assado, nos ajuda a entender os problemas maiores do país. É por isso que Fridolino Xexeo, sempre dado a tiradas pseudopoéticas e humorísticas, veio me apresentar este arremedo de Manoel Bandeira:
Vá embora pra Europa
Aqui não dá pra ficar
Se as mulheres daqui são mais belas
Mais inteligentes são as de lá.

Vai embora pra Europa
Pois aqui não dá pra ficar?
Sei: os políticos daqui são corruptos
Honestos são os de lá.

Vá embora pra Europa
Aqui não dá pra ficar
Os frangos assados de lá são os mesmos
E você não tem desaforo que aturar.

E mais Fridolino Xexeo não disse, pois sua mulher, Percilina Predilecta, veio lhe entregar uma lista de compras no sacolão e no supermercado.
            - Ah, antes que me esqueça – arrematou ela: - Não deixe de passar no “Ponto do Frango” e traz um bem passado, mais um tropeiro e um salpicão!
            PS: Assim que acabo de contar esta história, vem minha filha dizendo que já não tolera mais o cardápio de sábado, à base de frango assado e feijão tropeiro. Por acaso, estimado leitor, tem como me indicar um curso de culinária, um que seja compatível como meus desgastados neurônios?
Etelvaldo Vieira de Melo



MAIS FLOR DO CERRADO

Imagem: caliandradocerrado.com.br

Para-tudo            

           
                      Para o desastre
Para o fogo
Para a extinção
dos bichos do cerrado
(socorro ao quenquém-da-teia-de solo
ao cachorro-do-mato-vinagre
ao gato-maracujá
ao tamanduá-bandeira
entre outros)
Para a matança
das árvores e das águas
(salvamento ao araticum
ao baru
ao buriti
à cagaita
à mutamba
ao saputá
à munguba
entre tantos)

Deixa em paz a Para-tudo
e as crisálidas de suas folhas,
as penugens de suas sépalas.
Não perturba a Para-tudo
(sempre Panaceia, Raiz-de-padre,
Perpétua,
a flor que nunca morre)

NOSSO PLANETA ESTÁ DOENTE



Para mim, uma coisa que pode provocar grande desavença é ser chamado de alienado. No meu tempo de juventude, esta expressão andou rondando perigosamente a minha porta. Era um tempo difícil, onde viver significava se equilibrar em corda bamba. Se caísse prum lado, havia a repressão com seus cassetetes e porões; se caísse prum outro, seria trucidado por uma enxurrada de palavrões proferidos pelos patrulheiros ideológicos. Em caso de tombo, como se vê, a gente estava fodido.
O termo “alienação” é complexo. Dizer que um indivíduo é alienado vai além de afirmar que ele está desligado dos problemas sociais e políticos. Significa dizer que tal indivíduo não tem a posse de sua vida, que transferiu para outros o poder de decisão sobre seus atos, não dispõe de liberdade.
No fundo, é isso que se observa na sociedade moderna, de consumo. Os indivíduos não têm autonomia em suas decisões e, mesmo aqueles que não são manipulados pelo “sistema”, mesmo esses que correm pelas margens são monitorados e patrulhados através das “redes sociais”.
Deixando de lado essas considerações conceituais, tentando me livrar da pecha de “alienado”, trago ao domínio público temas que me incomodam e que requerem providências urgentíssimas. Para não cansar a beleza de ninguém, vou me ater, hoje, tão somente a um deles.
AQUECIMENTO GLOBAL
Imagem: sintomasdadengue.net.br
Enquanto o planeta Terra agoniza, uma das ameaças para a humanidade pode ser vista a olhos despidos e sentida na pele. O mosquito aedes aegypti aprendeu rápido as técnicas capitalistas para se tornar um empreendedor bem sucedido: expandiu sua área de atuação, ao tempo em que criava novas franquias. Hoje, é um oligopólio formado por transmissores dos vírus da dengue 1, 2, 3 e 4, além do Zica e da Chicungunya.
Imagem: oportaln10.com.br
O mesmo aquecimento global, responsável pela disseminação desenfreada do danado do mosquito, também provoca degelo na Antártida e, como consequência, avaliam os especialistas, os oceanos podem aumentar seu volume em até um metro. Isso pode trazer trágicas consequências para países como Bangladesh. 
Aqui no Brasil, me causa preocupação a cidade de Recife, que aprendi a amar, mesmo sem ter conhecido “a moça bonita da Praia da Boa Viagem”, a Belle de Jour do Alceu. Ela, a moça, quer dizer, a praia, melhor: a cidade, ela é baixa, está no nível do mar; qualquer mudança na configuração do oceano pode lhe causar desastrosas consequências.
Aproveito o ensejo para mandar um recado pros meus amigos recifenses, para que se mobilizem e se tornem recificientes, desencadeando uma campanha mundial em favor do gelo, contra o degelo. A título de exemplo, eles poderiam montar uma peça publicitária, mais ou menos nestes termos:
            *Primeira Tomada: Uma imagem do globo terrestre girando e pegando fogo. Como fundo musical, “Asa Branca”, com Luiz Gonzaga cantando:
            “Quando olhei a terra ardeno, qual fogueira de São João, eu perguntei, ai, a Deus do Céu, ai, porque tamanha judiação...”
            E a sanfona arremata: Nhem, nhem, nhem, nhem, nhem, nenhem, tcbumbumbumbum, tcbumbumbum...
            *Segunda Tomada: Uma jangada, transportando uma geladeira, um freezer ou um ar condicionado, vai se afastando do Recife, passa pela câmera e se perde no horizonte.
                    *Terceira Tomada (estilo abertura de Star Wars): Os dizeres
Destino
Polo Sul
“Algo deve ser
feito para frear o
aquecimento global.
Já sabe o que você
pode fazer?
Não seja
um alienado!”

Etelvaldo Vieira de Melo