ESSAS COISAS


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Imagem: super.abril.com.br

Vem comigo, amor
viver na hora
a genital palavra
por onde perpassam tempo
e mortos.
Vem a mim, e ardamos
e calemos
o ambíguo desamparo.
Tua boca exasperada
encontrará meu beijo
calidamente molhado.
Então, um só
escreveremos juntos
tudo aquilo que sonhamos
olvidar.

Graça Rios

ERA UMA BRASA, MORA?

O "Rei" adora fazer amigos, mas isso também tem limites...
Ivani Cunha

TOTÓ, TETEO E OS OUTROS

TOTÓ, TETEO E OS OUTROS
Histórias de relacionamentos nem sempre amistosos
  com cães  e outros bichos

Prepare-se para viver momentos de riso, choro e encantamento!



“Anote aí: quem nasceu pra ser homem nunca chega a ser cachorro.”
“Quando me viu, ele abanou o rabo, sorrindo. /Constrangido, passei na sua cabeça a mão / como a demonstrar arrependimento. / Ao que ele respondeu, latindo: / Amar é jamais ter que pedir perdão.”
“Agora, para você que duvida disso, que julga ser eu uma pessoa exagerada, que tem parafusos a menos no cérebro por dar tanto valor à espécie canina, faço uma simples pergunta: Quando você se dignou ter uma conversa tão afetuosa assim comigo?”

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“História do cotidiano de humor, fantasia e amor do filósofo Etelvaldo que nos levam à reflexão” (Felipe Fonseca Oliveira Rodrigues).
“Divertido, dinâmico. Li com meu neto Caio e nos divertimos muito. Foi uma noite muito agradável” (Neuza Maria de Lima).
“Adorei a experiência da leitura” (Felipe Fonseca Oliveira Rodrigues).
“Nós gostamos muito mesmo!” (Neuza Maria de Lima).

O autor:
Etelvaldo V Melo é natural de Santo Antônio do Amparo, cidade da mesorregião do Oeste de Minas Gerais.  Ainda adolescente, mudou-se para Belo Horizonte, onde se formou em Filosofia. Por muitos anos, dedicou-se ao magistério. Atualmente, destina parte de seu tempo a experimentos literários, resgatando um prazer que ficara descuidado. O bom humor, marca da maioria dos textos, é a maneira que encontra para entender e lidar com a vida.





O ENSAIO

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Imagem: bhdicas.com

- Professor, o que anda fazendo?
- Um ensaio para a morte.
- Mesmo? Qual o tema?
- A doença do pâncreas.
- Título?
- A última Viagem.
- Ah, filosofia! Baseia-se em algum livro?
- Sou eu próprio o autor na próxima encadernação.
- O texto então é biográfico?
- Lógico. Estou partindo para o outro mundo.
- Que mundo?
- O das ideias, onde as letras são C-É-U ou I-N-F-E-R-N-O.
- O artigo tem bons argumentos?
- O sofrimento justifica a prosa.
- Influências estrangeiras?
- Os alemães bebem demais. Cirrose.
- E o estilo?
- Geométrico. Estou na reta final.
- Pontuação...
- Muitas interrogações.
- Espera ser best seller com a superprodução?
- Venderão meus órgãos por muito dinheiro.
- E o final do trabalho?
- Teológico. Encontro com Deus ou o diabo.
- Seja feliz na grande iniciativa.
- Serei, num caixão com flores roxas.
- Até breve, no lançamento.
- Com certeza. Vamos juntos.
Graça Rios


BLACK FRAUDE?





CERTAS PALAVRAS

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Imagem: lilyneves.blogspot.com
Certas palavras são amargas
Muitas são amenas
Há as que são amigas
Enquanto outras são serenas.

Palavras que fazem feridas
Palavras que explodem alegrias
Palavras que aparecem fingidas
Palavras que espalham poesias.

Palavras que gritam, que falam e que calam
Palavras que pisam e cortam e mordem
Palavras que batem, machucam, matam.

Palavras soltas ao vento
Semeando tristeza em vez de alento
Palavras que ferem feito faca afiada
Assim, a troco de nada ou quase nada.

O mundo adoece, pessoas padecem
Palavras boas se calam.
Enquanto verdades emudecem
As mentiras se espalham.

É por isso que, entre tantas mal ditas
Sempre falam com emoção
Aquelas que são bem ditas
E calam no coração.


Etelvaldo Vieira de Melo

MORANGOTANGO

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Graça Rios



AS APARÊNCIAS ENGANAM

Antes de se olhar no espelho e ter um choque, procure um cirurgião.
Ivani Cunha

POR QUE O SENHOR JOÃO "FICOU ENCANTADO"?



Lembrando 19/11/1967, quando João “ficou encantado”.

A gente tem que ter tenência com o proseado do João, mastigando as falas bem devagarinho, de forma que não acaba que nem aquele que come peixe e fica com o espinho entalado na goela.
        


Numa papelada de tamanho frouxo sobre Guimarães Rosa, o professor – que era suspeitosamente também um escritor – foi costurando o texto, colocando uma palavra atrás da outra, como cambão e cangas de carro de bois, tudo numa certa ordem e seguimento, com as pontuações convenientes e acertadas, de modo a que o leitor, desacostumado dos acontecimentos que sucederam realmente ou deixaram de ser, fosse empurrado para a desduvidosa conclusão de que Guimarães havia sido derrubado por um enfarte, três dias depois de sua posse na tal da Academia Brasileira de Letras, tudo por conta de um esgotamento nervoso e que as pessoas de saber mais comprido chamam de estresse, o qual vinha se arrastando, rastejando como uma cobra surucucu, por quatro anos. Se você pega quatro anos e reparte em pedaços de dias, horas, minutos e segundos, vai ver que é tempo pra danar, inda mais com o coitado sendo exprimido pelo tal do estresse. Vai daí que aquela sofridão, que começa lá pelos pés, vai subindo, subindo, até chegar no coração. Aí, ela, a tal de sofridão, dá um aperto de acabar, como uma laçada de derrubar boi. Pois, veja você se estou explicando direitinho o acontecimento, tudo nas conformidades do que escreveu o professor, pois, se tem uma coisa que me deixa injuriado é ser chamado de mentiroso e falastrão. Ora, vai que alguém lhe promete um presente, um agrado, uma bezerrinha que seja. Promete, mas fica enrolando, empurrando com a barriga, deixando pra depois. A bezerra cresce, vira vaca, fica prenhe um tanto de vez; quando vai olhar, já não tem mais serventia. Foi o que acho que andaram fazendo com esse tal de Guimarães Rosa. Falaram assim e assado: o senhor ganhou o prêmio, está eleito pra Academia, mas espera um pouco até a gente preparar a festança; enquanto isso, vai o senhor se ajeitando, manda fazer o uniforme, que nas nossas reuniões a gente vem de farda, já que tudo é muito solene como numa missa de bispo numa igreja. O Guimarães mandou o alfaiate tirar as medidas e costurar esse tal de fardão, que fico imaginando ser do tipo desses uniformes de milicos. A farda ficou pronta e acabada, mas neca de quetibiriba da tal posse acontecer. Foi por aí que o João pensou: “viver é um rasgar-se e remendar-se”. Ele ficou com cara de tacho, de vez em quando experimentando a vestimenta, olhando prum espelho do guarda-roupa do seu quarto de dormir, “ampliando o ilusório, mediante nova capa de ilusão”. O espelho. Naquele experimento, foi tomando gosto, se achando bem aprumado naquele terno. Na maioria do tempo, no entretanto, o fardão ficava mesmo disposto num cabide do guarda-roupa, com um tanto de naftalina, usada de jeito a espantar as traças. Enquanto isso, a sofreguidão, o desconforto e o destempero iam subindo, subindo. E o João pensava: “afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo. Já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”. Até que chegou o dia da dita posse, depois de tanto tempo. Na hora do festório, lá estava o Joãozito todo orgulhoso e com seu fardão engomado. No entretanto, ele estava, como não podia deixar de ser, cheio de emoção, chegando a falar uma coisa que, na hora, pareceu meio sem pés nem cabeça: “a gente morre pra provar que esteve vivo”. E foi, então, três dias em seguida, que aquela angústia represada estourou, e o coração de João parou, ele morreu, passou desta, “ficou encantado” – segundo alguém me disse que era seu jeito de falar. Onde tô querendo chegar? Agora, na hora da onça beber água, eu quero dizer que acho um absurdo sem tamanho o que aqueles velhinhos da Academia aprontaram com o João. Eles sabem de saber e de sentir na própria carne que não dá pra brincar, fazer hora, engabelar uma pessoa de mais idade. Lá pras minhas bandas, que fica pra lá das veredas do sertão, todo mundo sabe que tem quatro coisa que “mata véio”: emoção, tropicão, pneumonia e caganeira. Se por lá, onde a ignorância campeia feito o burrinho Sete-de-Ouros ou a mulinha Beija-Fulô soltos no pasto, isso é mais que sabido, imagino que mais deveriam saber os doutores cheios de letras, que nem parece que sabem usar de “fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana”. Se eu fosse parente desse senhor, ia até um cartório de justiça e registrava uma baita queixa. Porque está claro como a luz de um meio-dia de sol esturricando que o senhor João “ficou encantado” porque um bando de velhos não deixou ele usar de modo conveniente e demorado o uniforme que havia preparado com tanto carinho. Agora, pensando de outro jeito, remexendo meu pensamento, buscando outra ideia, acho também que pode ser que o acontecido não assucedeu da maneira que eu falei. Vai que o professor, por implicância, por birra com os outros escritores, tenha usado de “informação torta”, tenha escrito aquela papelada de tamanho frouxo pra me colocar contra essa tal de Academia. Como ele sabe que sou um camarada que não leva desaforo pra casa, que sou de dar uma boiada pra entrar numa briga, como ele sabe ou pensa que sabe que não sou de medir a compridão das palavras, pode ser que ele esteja me fazendo de boi de piranha, enquanto ri folgado, tomando sua bebidinha à base de limão e pitando seu cigarrinho de paia. Sei não, esse Guimarães Rosa anda remexendo com meus miolos. Já nem sei pra onde apontar minha cartucheira de cano serrado. Vai que, por desatenção, eu acabo dando um tiro no dedão do meu pé. Depois, eu tô vendo que estou igualim ao que ele mesmo disse: “eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”. Melhor mesmo é deixar todo este dito por não dito. Ou não? O João mesmo dizia: “tudo é real, porque tudo é inventado”.
Etelvaldo Vieira de Melo

PASSARINHO ENCUBADO

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Mereço merecemos, meretrizes
Perdão
   Perdoai-nos, patres conscripti
Pai filho espírito de fogo

Engasgadas nos olhos por olhos
Perdi o tom da palavra

                        Sobre os remendos
E complementos
                        Das socioagitações               
I beg your pardon

Por que somos o dilúvio a me afogar
        Litígio recheado de ar
Ou sou É um lapso sutil?

Graça Rios

BLACK FRIDAY


Não é de arrepiar essa mania de importar datas para promoção de vendas cujos nomes não têm pé nem cabeça?
Ivani Cunha

FÁBULA NEBULOSA: DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

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Imagem: vitimasdoinss.blogspot.com.br

FÁBULA NEBULOSA 22: DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS (*)
Pousando sobre uma ovelha, certa gralha começou a dar-lhe bicadas e a arrancar-lhe a lã.
Muito magoada, falou a ovelha:
- Você faz assim comigo, que sou fraca e indefesa. Mas haverá de encontrar um cão, que lhe dará o pago.
- Não há perigo – respondeu a gralha, gralhando risada. – Sei muito bem a quem devo respeitar e de quem posso zombar.
Moral:
Assim parecem certos magistrados na aplicação da lei: para alguns infratores, a reverência e o respeito; para outros, o deboche e os rigores das penas.
(*) Invento e/ou leitura/releitura de Fábulas Universais
Etelvaldo Vieira de Melo



ANTOLHOS


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Imagem: biosom.com.br

Faz tanto tempo, Brasil, que não te vejo. Fiquei cego para os teus encantos, desde que estou no exílio. Não pude mais contemplar as tuas praias, teu sabiá entre as palmeiras, nem o poeta do sabiá. Eu não sabia, naquele templo fagueiro, como eram belos os olhos para mirar as tuas serras, flores, o Cruzeiro do Sul. Na antiga recordação, te dou cor com róseas manhãs. Naquele milênio em que te antevia, nós éramos juntos os frutos da terra. Clara passeava com Drummond pela relva, esperando o correio, medrosa da gripe.
Quão diferente estou hoje, nesta blindagem visual. Os vultos passantes são ladrões de toga, ansiosos por tuas riquezas. Eles te privatizam, entregando aos estrangeiros os teus mananciais. Os posseiros, neste exílio da catarata, passam por mim armados até os dentes porque também sou, - não ESTOU! -, mudo, surdo ao teu apelo. Arrasam as florestas, o solo, os índios. Por que me isolo sem comprometer-me com a justiça sobre os corruptos? Terão sido eles que me roubaram o pensamento crítico e a reação? Por todo lado a maldade passa, destruindo jovens, escolas, a saúde do povo. E eu assim, sendo nomeado O Deficiente Visual. Tanto tempo com essa tarja de deficiente visual... O tempo e o vento carregam-me a memória para cá, no exílio, aonde não vêm as forças ativas do verdadeiramente Eficiente reconstrutor das Minhas Gerais.
Os temporais passados levaram-me as pupilas trêmulas de ardor pela bandeira? Lavaram o sangue rubro que palpitava em minhas veias quando pronunciava ao vendaval palavras de apoio aos flagelados? Fiquei pálido, o cristalino oco ante o roubo de tuas fronteiras, do petróleo dado aos estrangeiros a preço de banana? Eu não amava essas mesmas bananas na cabeça das Mirandas? Tempo agro este de hoje, admirado irado por caminhar com bengalas sobre o asfalto corroído pela falta de verbas governamentais. Tempo de avanço tecnológico que sonda Marte em produção de filmagens caríssimas, mas não encontra o colírio salvador da minha mente opaca.
Aion, eras daquele tempo em que eu nascia, vendo a face de meus pais debruçada nos meus mil milhões olhos de alegria. Eu era olhos nos seus olhos e nos santos óleos. Meus dedos pestanejavam para a moça Pátria à frente, minhas pernas duais sobrancelhas disparavam para o casamento entre o céu e mar. As costas piscavam! Piscavam! para as aves verdejantes dos rios voadores. Sinestesia contente, essa imagem do porvir.
                            LIBERTAS QUAE SERA TAMEN
Está próxima a operação do meu globo ocular. Tenho vistas ao regresso no Brasil tão logo haja a correção das retinas. Homem de meu tempo, hei de achar, no atemporal descontínuo da diferencia, o olhar limpo das crianças no cenho dos ex-políticos, no bolso dos ex-ladrões, na fazenda dos (des)apropriados. Nessa hora, pálpebras penas partidas, meu peito aberto em luz eVidente correrá para o sol brasileiro, antes oculto na poluição. Adeus, cronos medroso! Agora, livre do exílio do invisível, todos dirão a tempo e a hora: ”Uai, aquele moço ao vento, lince lutador, não é mais o Mesmo que outrora chamávamos Deficiente Visual”.

              Graça Rios