![]() |
| Ivani Cunha |
LETRA E PANDEIRO DO PAÍS MIRANDÊS
Carmem Miranda
Vorta pratrás, porta-bandeira. Inda é cedo pra saidêra.
FUNIL! EXPRODIU! partiu.
A sorte da guerra é incerta, evita o ajuntamento dos palhaços, ô paiaço.
A fortuna é uma lida, Isidra. Tamo longe, pessoar. Corre, corre!
GENTE, A MIRANDÊS SE FUDEU!
A saída de forma! Dê forma.
Deu
B
uraco
buraco
U
Co
,que
saco!
Graça Rios
FUTEBOLÊS
ISTO É FUTEBOL
GALOPES ET PLIÉS
![]() |
| Imagem: artesanatopassoapasso.com.br |
Temendo o entrechat da Guerra Fria,
entrei para o balé da Força Militar.
Nos treinamentos,
preciso logo de um développé,
devido ao impromptu das balas voando.
Foge-me, porém, o corpo em pirouette
e quase voo em grandjeté.
Penso: Odile, Odile, eis os cisnes rubros.
Maestre ataque bravíssimo,
e demipliez! sobre eles.
No glissade, concerto o passo
en avant en arrière
destruindo o rond de jambe dos inimigos.
Embora eles em maior número,
lanço entrechat quatre adaptado ao sissone,
plisso 32 fouettés nos combatentes,
que fogem rápido en pas de bourrée piqué.
Graça Rios
CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE UM... BOSTA
![]() |
| Imagem: olhardigital.com.br |
O texto a seguir é desaconselhável para pessoas com
problemas com o SNI.
Calma! Estou me referindo a um distúrbio neurológico
chamado Síndrome de Narina Irritável. Tal distúrbio acomete aquelas pessoas
cujas glândulas olfativas são demasiado sensíveis: ao contato com um mau cheiro
qualquer, logo provocam espirros ou urticárias espalhadas pelo corpo.
O antídoto para tal síndrome pode ser o uso de uma
máscara, daquela vendida em lojas de R$1,99. Se você tem problema com SNI,
coloque uma máscara, antes de avançar na leitura. Eu espero.
(Intervalo
para colocação de máscaras)
Este texto é feito com base em reportagem do
jornalista Fausto Macedo em seu blog, transcrita por Brasil 247, em 12/01/2020.
A manchete dizia:
“Juiz
diz que ‘bosta’ pode ser elogio e absolve
homem
que xingou guarda municipal”
Tal declaração foi feita em sentença proferida pelo
juiz Caio Márcio de Brito, da 1ª Vara do Juizado Especial Cível e Criminal da
cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul.
O fato se deu quando o denunciado resistiu ao ser
autuado por irregularidade na condução de uma moto, chamando os guardas
municipais de “bosta”. O homem alegou ter ficado “nervoso” com a apreensão do
veículo.
O juiz, na sua declaração, alega não existirem provas
aptas a condenar o acusado pelo delito de resistência, conforme declarações dos
próprios policiais.
Sobre a acusação de desacato, por chamar os agentes
públicos de “bosta”, o juiz considerou que acatar tal denúncia seria dar “muita
relevância para tão pouca coisa”.
No desfecho da sentença, sua meritíssima arrematou:
“Ser chamado de ‘bosta’ pode ser até um elogio, porque ‘bosta’ pode ser vista
como fertilizante, algo positivo; pode ser vista como um avião (quando se diz:
será que essa ‘bosta’ vai voar?); também pode ser usada como forma coloquial,
ao se dizer, por exemplo, que a vida está uma ‘bosta’”.
Embora seja uma situação engraçada, as inferências que
podem ser feitas daí não me parecem tão divertidas assim.
Em primeiro lugar, chamou minha atenção o fato do juiz
não ter mencionado a única vez em que o termo ‘bosta’ pode ter uma conotação
positiva, assim mesmo, quando é usado seu sinônimo, ‘merda’. Acontece no mundo
teatral, antes da apresentação de uma peça, os atores se cumprimentarem,
dizendo: “- Merda pra você”, ou seja, “boa sorte pra você”.
Parece que o juiz é mais chegado ao mundo rural, pois
associa o termo ‘bosta’ com ‘fertilizante’. Podemos dizer que tal analogia é
correta se considerarmos que faz referência às fezes de bois e de vacas, mas
não de gente. Quando o denunciado fala pros guardas “vocês são uns ‘bostas’”,
fica claro que estava se referindo a bostas humanas, e não de bois. Está o
juiz, nesse caso, fazendo uma ilação incorreta.
Quando diz que chamar os agentes públicos de ‘bosta’
seria dar “muita relevância para pouca coisa” está sua excelência incorrendo em
erro de avaliação ou demonstrando preconceito. Comete erro de avaliação porque bosta
humana, mesmo quando pouca, é sempre inconveniente e desagradável. Preconceito
porque, implicitamente, parece concordar com a tese de que os guardas
municipais valem pouco, são uns ‘bostas’.
Se fosse o juiz sendo chamado de ‘bosta’, tal fala
ficaria do mesmo tamanho? Certamente que não, pois, na sua visão, chamar um
juiz de ‘bosta’ é uma grande ofensa. A ele e a alguns outros é dado o direito
de recorrer à Justiça por desacato, com direito a pedido de prisão e multa por
danos morais.
Ao dar sua sentença, está sua excelência concordando
com o denunciado, chamando também ele os guardas de ‘bostas’, seres
irrelevantes.
Pensa que estou carregando em demasia as palavras?
Pois é justamente aí que está o perigo: as palavras são perigosas, por detrás
de aparentes inocência e brincadeira, podem esconder maldade e preconceito.
Ao proferir sua sentença, não está sua excelência, por
exemplo, dando o direito de outra pessoa chamar alguém de ‘macaco’? Pois está,
sim, e esse alguém pode alegar em sua defesa que, quando chama o outro de
‘macaco’, não está fazendo uma depreciação, mas um elogio, numa referência aos
ancestrais do homem.
Não é por aí? Seguindo esse diapasão, daqui a pouco,
declarações homofóbicas, racistas, misóginas e aporofóbicas serão traduzidas
como manifestações de amor, simpatia e amizade. Quando diz que ‘bosta’ não é ‘bosta’,
está sua meritíssima dando sinal verde para todo tipo de agressão, verbal e
física, com os menos favorecidos da sociedade, aqueles que são tidos como
‘bostas’ e ‘bostinhas’. Palavras singelas, mesmo em boca de juiz, não passam de
camuflagens para toda ordem de preconceito e racismo. Compactuar com essa ordem de coisas é
concordar com a ideia de que ainda vivemos numa sociedade de castas, onde os
menos favorecidos são uns “bostas”, não valem nada.
Etelvaldo Vieira de Melo
RIR-SE FRENTE AO ESPELHO
O título acima é inspirado no livro que Eleutério
recebeu de presente de Dom Marcos Noronha, antigo bispo de Itabira, contando as
lembranças de seu tempo de seminário.
De repente, não mais do que de repente, tal livro
sumiu do campo de visão de Eleutério, levando-o à suposição de que tenha sido
surrupiado. Coincidentemente, tal fato se deu logo após a visita de um ex-amigo,
Maurindo Compassado.
Eleutério refletiu:
- Se foi por ter cometido tal pecado que fez Maurindo
cortar relações comigo, seria bom que reconsiderasse. Afinal, eu mesmo fiz isso
outras vezes quando, indo até sua casa e fingindo me perder entre as estantes de
sua vasta biblioteca, afanava um ou outro livro de meu agrado. O que vale
dizer: chumbo trocado não dói (ou não deveria doer).
O nome Eleutério é de certa solenidade: significa
libertador, indicando uma pessoa que preza sobretudo a independência – a sua e
a dos outros. Já sua aparência física é bem comum: estatura mediana (baixa,
para os padrões modernos), calvo e com uma barriga bem saliente, devido ao alto
consumo de carboidrato. Interagindo com as outras pessoas, aparenta calma e
ponderação, o que também pode ser visto como lerdeza, retardo mental. Enfim,
ele é o tipo do ser humano genérico, facilmente confundido com outras pessoas.
Como exemplo, ele já foi confundido com gente famosa:
Steven Spielberg foi uma delas. Em visita ao Museu de Cera Madame Tussaudes, em
Londres, e estando Eleutério de boné, teve que tirar várias fotos para outros
turistas ao lado do diretor de ET. Pessoalmente, acha que tem uma certa
semelhança com o ator William Hurt. (As fotos que ilustram o texto apontam
também uma semelhança com Walter White, personagem da série Breaking Bad.)
Aconteceu por esses dias ter sido nosso personagem
acometido por uma traiçoeira gripe, que o deixou prostrado e tossindo feito
jumento (tal expressão é usada aqui na falta de outra mais adequada; se for
ofensiva, que me desculpe esse mamífero perissodáctilo). Quando percebeu que “a
vaca estava indo pro brejo", procurou um Pronto Atendimento, atendendo aos
reclames de Percilina Predillecta.
A médica que o atendeu foi muito prestativa, cumulando-o
de atenção e pedidos de exames: radiografia, sangue, medicação intravenosa e
vaporização. Como complementos, receitou um antibiótico, um spray nasal, um
antialérgico e um corticoide (com a leitura desses textos, você pode não ter um
enriquecimento literário, mas certamente ficará a par de receitas para muitas
doenças).
Tudo isso aconteceu num sábado, quase véspera de Natal.
No domingo, estando mais disposto, pediu para Percilina cortar-lhe o cabelo.
Queria experimentar um aparador de pelos 4 X 1, que havia adquirido também na Black
Fraude (junto com a Alexa), naquela filosofia de se proporcionar momentos
felizes.
O danado do aparelho, além de danado de bom, também
era danado de perigoso. Naquele tira daqui e dali, trocando uma lâmina por
outra, acabou fazendo um “caminho de rato” inconsertável na já combalida
cabeleira de Eleutério. Ao fim, Percilina teve que passar a máquina “zero”,
para nivelar tudo.
Depois, ela foi buscar um espelho, para Eleutério
admirar sua obra de arte. Quando se viu com a cabeça toda pelada, ele começou a
rir, ao ponto de verter lágrimas. Percilina ficou sem graça, sem saber se a
situação era comédia ou drama. Eleutério a tranquilizou, dizendo:
- Meu único medo é você deixar de me amar.
- Quanto a isso, pode ficar tranquilo. Você sabe, meu
amor por você independe de tanta coisa! – ela falou, dando um suspiro.
Ao fim do relato, é preciso dizer que Eleutério acabou
no lucro, apesar do dissabor. É sabido que Percilina, todo dia ao levantar, vai
até a porta da cozinha e, através da grade, coça durante alguns minutos a
cabeça de Thor, o cãozinho da casa. Pois agora está assim: enquanto que,
com uma mão ela coça a cabeça de Thor, com a outra tem que coçar a cabeça de
Eleutério. Quando acaba, estão os dois, o cão e Eleutério, rindo com a mais
pura satisfação. Como diz o ditado: há males que vêm para o bem. Ainda bem.
Etelvaldo Vieira de Melo
CARDÍACA OU ESCRAVA
A poesia é um poço sem
fundo? Então.
Escrevo desenhando um cão
um intento ou
o portão lá e cá
no vento.
Poesia feminina nunca teve
recompensa
Nem convicção? Ah, não.
Versejo desejo na
tangência do tempo.
Vou indo vindo
Caindo na enxurrada dos
beijos processos excessos
fílmicos. Dei pra filmar o
mar.
Fiz-me cinéfila? Poi Zé
arremedo de baixo preço.
Poesia é poço sem fundo?
Allah, meu bom Allah!
Já estou pulando carnaval
pra lá de Bagdá.
Sou muito completude,
certeza, definição?
Isso é o Cão.
Escrevo à flor do nervo,
seu Omar,
Pra me sublimar, aguentar
o tranco.
Franga ou franca? Fraca.
Tô fraca.
Graça Rios
A PROPÓSITO DE DUAS PALMADAS
![]() |
| Imagem: hugogloss.uol.com.br |
Na
noite de Ano Novo, assistimos ao Papa se libertando com duas palmadas de uma
mulher que o puxava, quando ele se afastava de uma multidão de peregrinos. No
dia seguinte, declarou: “Nós perdemos a paciência muitas vezes. Isso também me
acontece. Peço desculpas pelo mau exemplo dado ontem”. Tal fato ocorreu na
Praça do Vaticano.
De
minha parte, está aceita a desculpa, ainda mais que aquilo serviu de lição para
algo que me incomoda.
É
sabido que o Papa Francisco tem se constituído ao longo dos anos uma das poucas
lideranças mundiais que levanta a voz em favor da Paz, da Concórdia, cuidando
dos menos favorecidos, em críticas contundentes ao Capitalismo, que cada vez
mais cria um abismo entre as pessoas. Não é à toa que, vez ou outra, leio
notícias de que vem dos Estados Unidos um movimento de boicote e de confronto
com as teses apregoadas pelo Papa. Sei que um dos mentores desse movimento se
chama Steve Bannon, aquele mesmo que influenciou as eleições americanas e
brasileiras, através de manipulação das redes do Facebook.
O
que tem me incomodado nos últimos tempos é não saber definir qual a estratégia
que devo seguir diante das agressões verbais, e até mesmo físicas, ocasionando
até mortes, de pessoas que se dizem defensoras desse arremedo de governo que aí
está.
Quando
o Presidente que está aí se elegeu, num processo nebuloso (tanto é assim que,
agora, o Ministério da Justiça e Segurança Pública está aplicando multa ao
Facebook de R$6,6 milhões por conta do compartilhamento indevido de dados de
brasileiros), eu disse que certamente ele faria um bom governo para muitos.
Esperava que esses muitos fosse a maioria da população: os pobres, as minorias,
os marginalizados. Tal não se deu. Depois de um ano, estamos vendo quem está
satisfeito: os banqueiros, o mercado financeiro, os rentistas (também pudera:
45% do que o país arrecada vai para pagar os juros da dívida pública, enquanto
a saúde e a educação ficam com míseros 8% - 4,5% para saúde e 3,3% para
educação), as grandes empresas, o agronegócio, o capital estrangeiro.
Aparentemente, também estão satisfeitos os puxa-sacos, aqueles que, mesmo não
se beneficiando diretamente, contentam-se com as migalhas que lhes são jogadas
sob a mesa. Sem contar os trogloditas fascistas, que saíram do armário com a
eleição do capitão.
(Voltando
ao que disse anteriormente: de R$100,00 que o governo arrecada, R$45,00 são
destinados para pagar os chamados “serviços da dívida pública” – juros,
especialmente, enquanto a Saúde fica com R$4,50 e a e a Educação com R$3,30.
Como poderia dizer o Ministro da “Educassão”: - É “imprecionante”! Isso não é
“descente”, merecia uma “suspenção”, uma “paralização”.)
Assim,
desse modo, podemos dizer que o primeiro ano de governo que está aí foi bom pra
muita gente. O vice-Presidente, por exemplo, disse que 2019 foi um ano
maravilhoso, excelente; os militares, de modo geral, também devem estar
satisfeitos com a reforma da Previdência, uma vez que não precisaram sacrificar
nada, só tiveram lucro.
Quanto
à dificuldade em lidar com aqueles que pensam diferente de mim, confesso que me
senti reconfortado com o tapa do papa: ele mostrou que somos seres humanos, que
não temos sangue de barata. Quando tenho que conviver no dia a dia com figuras
misóginas, racistas, homofóbicas, aporofóbicas (que têm aversão aos pobres),
entreguistas, muitas vezes não sei qual atitude tomar. O que sei é que anda me
incomodando muito o que li de Thomas Carothers, cientista político, em
entrevista à DW Brasil:
- Quando a política se torna um conjunto
de identidades, as pessoas de um lado olham para o outro lado e deixam de dizer
apenas “não concordo com você nisso”, mas dizem “eu sou diferente de você”.
Isso rapidamente se transforma em “eu não gosto de você” e, logo depois, em “na
verdade, eu te odeio”.
Ano
Novo é tempo de renovação, de busca de novos caminhos. Não quero compactuar com
a ideia de que o país esteja dividido em bolhas e que a linguagem entre as
pessoas seja construída com base no ódio. As questões que coloco pra mim mesmo e
deixo transcritas aqui no blog são: como construir pontes com pessoas tão
diferentes? existe a possibilidade de diálogo? existe algo em comum que possa
nos aproximar? como reagir aos ataques e às ofensas? como ser assertivo diante
de situações que consideramos falsas e injustas?
São
perguntas que incomodam. Ainda mais se levarmos em conta que muitas pessoas que
hoje “odeio”, ontem caminhavam ao meu dado e eu tinha em conta de amigas.
Talvez
a resposta para tudo isso esteja no comprometimento que devemos ter com a
VERDADE, acima de tudo. Junto com ele,
devemos também ter o entendimento de que a Verdade só é possível quando fundada
no Amor, conforme declarou o papa Bento XVI, na sua encíclica Caritas in
Veritate, muito bem lembrada no filme “Dois Papas”: "A verdade pode ser vital, mas, sem amor, ela é insuportável”.
Etelvaldo Vieira de Melo
SUJEITO D+
Eis um cartum de formato diferente, por meio do qual destilo meu desagrado ante a enxurrada dos pronomes ele/ela e suas variações no plural na sequência dos respectivos nomes próprios a que se referem. Trata-se de verdadeira praga disseminada por radialistas, comentaristas ou apresentadores da TV e às pessoas em geral. Nas conversas do dia a dia essa praga também está presente. Isso não lhe incomoda, calejado leitor? Enfim, aí está o meu cartum, com a previsão de que poucos o levarão em conta.
![]() |
| Ivani Cunha |











