AS ROSAS

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Um jovem estudante
amava os livros,
mas queria finamente
uma certa donzela.

O tempo passou
e ele confessou o que sentia
à gentil senhorita,
que solicitou, como prova de amor,
uma rosa vermelha.
Ora, eis que no reino
só se encontravam
rosas brancas.
Por mais que procurasse
o amante não encontraria
o objeto desejado.

E era uma vez que todas as manhãs
um sabiá vinha cantar à janela
do estudante.
E esse passarinho
quis saber do amigo
por que se prostrava
tão triste.

Contou-lhe o caso da rosa
o moço, entre lágrimas.
E o sonoro sabiá:
"Sei onde achar
uma rosa vermelha.
Ela está plantada
dentro de um poço sem fundo,
cheio de cobras e cacos de vidro".

Sem hesitar,
o estudante lhe pediu
que mergulhasse no abismo
para acabar com sua dor.

Lá se foi o sabiá
descendo ao inferno.
À medida que descia
ia ferindo as plumas
com os cacos de vidro.

Afinal, trouxe para o jovem
a rosa vermelha
(que fora branca
e se tingira
com seu sangue).

O estudante deixou o pássaro
e voou ao encontro da amada.

- "Oh, disse ela, 
eu não quero mais
a rosa vermelha.
Preciso agora
de uma rosa amarela".

Saiu ele a pedir novo auxílio
à ave, 
Porém encontrou-a morta
sobre a janela.

Então, desaventurado,
jogou fora a rosa vermelha
e pensou:
"Vou voltar aos meus livros
que me amam sem medida.
Adeus, adeus
sentimento vão
que me molestou tanto
com seus tolos caprichos".



PÁSCOA: UM TERMO PARA DIFERENTES LEITURAS

“Para quem não precisa de cura, ou para quem já chegou á certeza de que não há cura, este discurso não fará sentido” (Fátima Pinheiro, em expresso.sapo.pt). Penso que sim, que é possível fazer sentido para aqueles que não se armam com preconceitos, apresentando-se como donos da verdade.

Independente de seu sentido religioso, o termo “páscoa” tem uma conotação rica, uma vez que significa mudança, passagem, travessia.
           
Falar deste tema pode representar, também, mexer num vespeiro, cutucar uma caixa de marimbondo, correndo risco de levar muitas picadas. Mas eu não posso temer tratar deste assunto. Se alguém torcer o rosto, e haverá quem faça isso, tenho certeza de que o que será dito aqui servirá de alento e apoio para outro tanto de pessoas. Estarei falando o óbvio? Certamente. Entretanto, é preciso considerar que o óbvio, quando não vivido, torna-se oculto. Assim acontece com as verdades da própria vida.
           
Os religiosos cristãos vivenciam a Páscoa como a mais importante de suas celebrações. Eles se apoiam nas palavras do apóstolo, quando diz: “Se Cristo não ressuscitasse, a nossa fé seria vã, inútil”.
           
Olhando a questão de forma mais penetrante, veríamos que é um conforto para o cristão reconhecer, numa dimensão de fé, que seu Deus assumiu a condição humana, mesmo naqueles momentos mais difíceis, de angústia, humilhação, sofrimento agudo e morte. Quem assistiu ao filme “A Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson, percebeu como essa ideia é tão explorada; a abertura é feita com a citação de Isaías: “Pelas suas chagas fomos curados”. 
           
A vida é extremamente gratificante quando estamos saudáveis, gozamos de razoável conforto material e convivemos com pessoas que nos querem bem. No entanto, como acontece, sempre existe um reverso da medalha, onde viver nos parece algo sombrio. Isso ocorre quando somos acometidos de doença, passamos por dificuldades, sofremos derrotas. Nesses momentos, o cristão se sente reconfortado pelo exemplo de seu mestre; por isso, consegue um novo alento, uma esperança renovada para enfrentar os tropeços e obstáculos, enquanto outros desistem, parando pelo caminho.
           
Entendo que talvez seja essa a razão pela qual a celebração da paixão é mais cultuada do que a da própria ressurreição. Católicos, por exemplo, passando em frente à imagem do Senhor morto, fazem questão de tocar e beijar as chagas do peito, dos pés e mãos perfurados. Este é um momento de conforto que levam para a vida, sabendo que chegará a hora em que terão que tirar dali as forças para enfrentar suas próprias dores e calvários.
           
Tento transferir para aqueles que não creem ou tenham outras crenças todo o simbolismo desse tema, Páscoa.
           
Vejo que a Vida é assim como a Natureza: existe a noite e existe o dia; temos momentos de sol e de chuva; nas estações, a primavera sucede os rigores do inverno.
           
Assim é a vida humana. Temos momentos de dor e de prazer, de sorrisos e de lágrimas, de tristeza e de alegria, de morte e de vida.
           
A que vou me apegar? O que é mais importante? É mais correto considerar que viver é sofrer, que a morte suplanta a vida? Eu me recuso a pensar assim, a fazer esse tipo de juízo. Sei que a morte é algo inevitável, mas prefiro – repetindo uma citação também óbvia, embora pouco compreendida – prefiro morrer vivendo que viver morrendo. Essas são duas posturas distintas. Por causa de um natural otimismo, inverto as ordens do jogo e afirmo: viver é dolorido, sim, mas essa dor se reverte em um bem. Assim como o inverno que prepara a primavera, vejo que os momentos difíceis da vida são vestíbulos para a páscoa de novos momentos. Os momentos difíceis, de dor, angústia, lágrima, morte, são prenúncios de alegria, prazer, sorriso, vida.
           
Como já tive oportunidade de mencionar em texto passado (“Nem tudo é o que aparenta ser”, 23/02/2013): “De tudo, fica a ideia de que VIVER requer coragem para enfrentar os desafios. Os desafios quase nunca escondem lobisomens e assombrações; pelo contrário, na maioria das vezes, o que você descortina logo após a curva do caminho é um belo pássaro, pousado sobre os galhos de uma árvore, e uma flor, junto a um regato de águas cristalinas”.
           
Concluindo, retomo o que dizia Heráclito de Éfeso: “Panta rei” (tudo flui, tudo muda). Mudar faz parte do processo de amadurecimento humano. Entender a vida é saber aceitar as mudanças, amadurecer é conviver com o novo. Mesmo porque, ao fim de tudo, a vida é páscoa. E, como diziam os poetas, não podemos ficar parados, já que navegar é preciso.
Etelvaldo Vieira de Melo           


CÃO




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A netinha quer um presente.            
Não são vestidos de princesa,
ela deixa claro.
Não é um livro,
que é o brinquedo constante da vovó.
Clara diz cantando que quer
um cachorrinho
que anda de skate
e usa óculos azuis.

Então sai a avó à procura do cachorro.
Anda por toda parte,
mas só há os cães de sempre,
latindo e fazendo cocô.

Onde irá vovó encontrar
na capital Belo Horizonte
um cachorro que corre no skate
e usa óculos azuis?
Na cidade se encontram
pombas, rolinhas e pardais.
na Praça da Liberdade,
vêm comer na mão
que oferece alpiste ou pão.

A avó pensa mandar uma pomba,
mas o Sedex não pode
enviar uma pomba,
sem nem menos os óculos azuis
para São Luís do Maranhão.

Resultado: a avó explica numa carta
que não achou o cachorro skatista.
Pelo correio envia uma quantia
para a netinha comprar o seu cachorro
(haverá o animal ou é um sonho?)
com os óculos azuis
de São Luís.
Ali deve haver cães skatistas
de óculos azuis
como há pombas, rolas, pardais
(muito raro um sabiá)
nos contornos de Minas Gerais.

O PÁSSARO QUE NÃO PODIA VOAR (EPÍLOGO)

Assim, os dias foram passando. Eu agitava as asas o tempo todo, achando que, fazendo desta maneira, estaria melhorando suas condições. Todos os dias, à tarde, eu tinha a indesejável visita do cachorrinho e sua dona. Assim que chegavam ao meu campo de vista, logo eu me punha a piar. A dona jogava água nas plantas com uma mangueira, tendo o cuidado de manter o cãozinho longe de minha presença. Meus pais apareciam logo depois, trazendo comida e palavras de conforto.
       
Não me perguntem como sei uma coisa dessas, mas eu sei que numa das religiões dos humanos existe uma passagem falando que haverá um dia em que lobos e cordeiros pastarão juntos. Creio que, nesse dia, os lobos deixarão de ser carnívoros para se tornarem vegetarianos. Às vezes, eu sonho que Thor se tornou vegetariano e nos tornamos grandes amigos. Todo dia à tarde, ele e sua dona vêm me visitar. Corremos atrás da bola; outras vezes, ele vem para cima de mim, mas consigo enganá-lo com um jogo de corpo. Sua dona, que também se tornou minha amiga, ri de alegria e chego a sentir como aqueles momentos lhe são agradáveis.
       
Eu estava dormindo mesmo e sonhando, quando um latido terrível fez com que eu saísse correndo. Contornei o quintal, beirando o muro e passei por baixo de um portão, indo parar num jardim. Logo eu fiquei sabendo que estava no jardim em frente à casa. Procurei me acomodar em um canteiro frente à varanda, pousando num arbusto, que passaria a ser minha casa.
       
Papai e mamãe logo perceberam a mudança e vieram me visitar. Papai falou:
       
- Esta mudança até que foi algo bom. Aqui você fica livre do cachorro. Você irá ver outras pessoas entrando pelo portão, mas não terá que se preocupar, já que seu galho fica escondido. A dona virá aguar as plantas, mas não precisa temê-la. O marido também já sabe de sua presença. Ele também não irá lhe fazer mal.
       
E, assim, os dias passaram. Existiam aqueles de sol intenso e aqueles de ventos e chuvas, quando eu procurava me esconder debaixo de folhas das plantas. Havia noites sombrias, em que eu era visitado por pesadelos, nos quais caía de uma árvore e nunca chegava ao solo. Aconteciam outros, mas o que me despertava assustada era sonhar que já não tinha mais os meus pais. Sem saber, a solidão veio fazer morada comigo, mas nem isso fazia perder esperança na vida, deixar de acreditar que um dia eu poderia voar como os outros pássaros.
       
Meus pais sempre me visitavam, trazendo comida e palavras de conforto. Até que, um dia, usei de palavras firmes e lhes disse:
       
- Papai e mamãe, sou eternamente grata aos cuidados que me dispensaram. Entretanto, está chegando a hora de nos despedirmos e vocês partirem.
       
- Mas, minha filha, luz de nossos corações... – começou a dizer mamãe, antes que eu lhe cortasse a palavra.
       
Imagem: www.azoresbioportal.angra.uac.pt
- Sei, mamãe, do amor de vocês. Mas também sei como se sentem cansados, vejo muitas rugas em torno de seus olhos. Está na hora de aprender a cuidar de mim mesma. Olha, o dono aqui da casa já coloca, perto do galho, uma vasilha de água e uma tigela com painço. Vez por outra, saio entre os canteiros, catando sementinhas. Eu estou bem e está na hora de dizer adeus.
       
Falando assim, Pti, Pzi, Pti encostou-se nos pais, como se fosse um abraço de despedida. Um vento assoprou forte, arrancando uma folha de jornal do piso da garagem da casa, jogando-a próxima aos pássaros.
       
Uma manchete no alto da página, junto à foto de um recém-nascido enrolado em lençol, dizia: Resgatado com vida bebê jogado pela própria mãe na Lagoa da Pampulha!
   Etelvaldo Vieira de Melo

   



      


         

COMPORTAMENTO ASSERTIVO


Ser assertivo                                                            
é fazer o melhor
para não ferir o outro
e para não se anular.
Assertivo é aquele que não julga
nem é julgado.
É aquele que não aceita uma oferta
doada com agressão
ou aborrecimento de quem oferece.
Imagem: bonitoproce.blogspot.com
O agressivo anula o outro
e a si próprio.
O inassertivo não conhece limites:
empresta o que não quer
anula a si próprio
e reforça a exploração do outro.
O assertivo diz o que pensa
com respeito ao próximo.
O assertivo não diz "sim"
quando quer dizer "não".
Não se vende aos que o adulam
nem adula aos que se vendem.
O assertivo corrige o seu erro
e o do outro com lisura.
Há sempre um propósito de reforço
para os atos assertivos do outro para consigo.
O inassertivo não olha nos olhos.
O assertivo vê e olha
olha e mira
mira e fita
as necessidades do mundo.

O gesto assertivo é sempre calmo
e profundo.
O assertivo, não sendo misógino,
considera o outro seu irmão.
O inassertivo é sempre agitado
espezinha o próximo
espezinhando-se a si mesmo.
O assertivo conduz-se conduzindo.
Por isso o inassertivo
é sempre perseguido
e o próprio perseguidor (faz a guerra).
O assertivo traz sempre a luz e a paz
para o planeta em transe. 

O PÁSSARO QUE NÃO PODIA VOAR

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Quando rompi a casca do ovo, 
ainda sem enxergar, ouvi a voz
de meus pais:

- Pti, Pzi, Pti!



                             

Na linguagem humana, isto quer dizer: Luz de Nossos Corações.

Senti outra presença ao meu lado. Imaginei que deveria ser meu irmão, Psi, Pzi, Psi, Semente de Amor.

Durante 21 dias, deveríamos permanecer ali no ninho, sob os cuidados de nossos pais. Logo, eu fui me dando conta das peculiaridades do lugar onde estávamos. Papai e mamãe haviam escolhido aquela árvore de lichia, uma planta bem avantajada, que apresentava uma copa fechada, ideal para abrigar ninhos. Não era à toa que éramos ali, meu irmão e eu, já a terceira ninhada. A árvore também apresentava a vantagem de estar rodeada de grama, no quintal de uma casa, onde moravam um casal e uma filha. A mulher é quem mais aparecia, cuidando das plantas, tendo o trabalho de regá-las todo dia, à tarde.

Isso era o que havia acontecido das outras vezes, fiquei sabendo. Agora, havia um fato novo.

- Vocês precisam ter muito cuidado para não caírem do ninho. O quintal está sendo frequentado por um animal assustador e perigoso – falou papai. – Qualquer descuido, pode lhes custar a vida.

Senti um tremor tomar meu corpo, fazendo com que agitasse as asas. Quis saber qual era esse animal.

- Ele se chama cachorro. O que está aqui ainda é filhote. Por isso, ele se torna mais perigoso, pois quer morder tudo o que vê pela frente. Todas as tardes, sua dona o traz até aqui para que possa correr e brincar.

Dias depois, eu me arrisquei a olhar para fora do ninho e avistei o animal. Sua dona estava sentada em um banco, sob um pé de jabuticaba. Ela jogava uma bola pequena para o ar, enquanto falava:

- Vai, Thor, vai pegar a bola.

E o cachorrinho saía correndo, abocanhava a bola e vinha trazê-la, com o rabinho abanando.

Outras vezes, a dona dava-lhe um osso e ele se entretinha, mordendo-o com dentes afiados. Pensava comigo: De fato, trata-se de um animal bem perigoso!

Os dias passavam e, apesar da ameaça sob nossas asas, dedicávamos aos exercícios para os primeiros voos. Mamãe é quem nos repassava as lições de esticar e flexionar as asas, encolher os pés e alongar o pescoço. Enquanto isso, papai cuidava de nos trazer alimentos, grãos de todas as espécies, painço em especial.

Com o tempo, os exercícios passaram a ser mais arriscados. Tínhamos que deixar o ninho e pular para os galhos vizinhos. Confesso que procurava ser dedicada e atenciosa. Mas aconteceu um dia em que calculei mal o salto para um galho e minha asa se embaralhou; acabei caindo lá das alturas e nem sabia como voar. Bati de encontro à grama e senti que minha asa havia se ferido.

Gemendo de dor, procurei me arrastar entre as folhagens, procurando um lugar onde me esconder, pois sabia que estava na hora em que o cachorrinho chegava para correr e brincar. Meus pais, tomados de aflição, voaram até onde eu estava, olharam para minha asa tombada. Procurando não manifestar qualquer tipo de preocupação, mamãe falou:

- Isso não há de ser nada, Pti, Pzi, Pti. Logo você estará bem. Vamos ficar atentos o dia todo, trazendo-lhe comida. Só peço para que não se exponha, na hora em que o cachorro estiver presente.

Assim aconteceu de ter eu ficado escondida entre as plantas, durante um bom tempo. A dona do cachorro logo notou minha presença e fez o que podia para desviar a atenção do animal. Assim que ele ameaçava vir em minha direção, ela o chamava, levando-o para longe de mim. O pior era que eu, não conseguindo controlar meu nervosismo, ficava piando o tempo todo.

Mais tarde, meus pais vieram me visitar, trazendo comida. Mamãe falou, quando se despediam:

- Amanhã, vamos trazer um tio seu que teve um filho com o mesmo tipo de problema. Vamos ouvir sua opinião.

Assim, no dia seguinte, pela tardezinha, meus pais voltaram, acompanhados de meu tio. Ele olhou atentamente para minha asa acidentada, que era a direita, levantou-a com seu bico, observou a ferida. Depois, ele falou poucas palavras:
       
- Tenha paciência, Pti, Pzi, Pti. Tudo há de se resolver.
       
Falando essas palavras, ele olhou para meus pais e eu percebi como estava preocupado. Aparentando alegria, falei:
       
- Obrigada pela visita, titio. Adeus, papai e mamãe. Peço desculpas por estar lhes dando tanto trabalho.
       
- O que é isso, filhinha do coração – falou mamãe. - Nada do que tivermos que fazer por você será custoso.
       
O tom de sua voz era emocionado. Ela desviou os olhos e alçou voo, junto com os outros dois.

(Continua)

PÁTRIA


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Criança, não verás
país nenhum.
Olha atentamente
a terra onde nasceste.



O povo
se abaixa, se encurva
ante os prepotentes.
Os liberais não têm mais valor.
O povo sai de casa
faz manifestações,
mas é motivo de chacota
no Congresso
e no Supremo que absolve os vagabundos
após tê-los condenado.

Mas alguém há de vir
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Peri que eu sei
impávido intrépido como Bruce Lee.
O índio está a caminho
para cuidar com carinho
do povo brasileiro.
É uma questão de tempo.
Os valores
que estão de cabeça para baixo
serão reelevados
para glória do índio
e do Brasil.

PODE, NÃO PODE (REFLEXOS ACONDICIONADOS)


  F
oi o russo Pavlov quem lançou os fundamentos científicos dos chamados reflexos condicionados, mostrando como animais aprendem a responder a estímulos associados a outros. No caso de seu experimento, um cão aprendeu a salivar ao ouvir um toque de campainha, associado esse a um pedaço de carne que lhe seria oferecido.

Com tal fundamentação, estava Pavlov apresentando razões científicas para domadores aplicarem choques e cometerem outras atrocidades no adestramento de feras para espetáculos circenses e outros mais.

Já o cão da crônica de Millôr Fernandes só aprendeu a comer através do exemplo de seu dono. Acontece que isso perdura até hoje: duas vezes ao dia, o cachorrinho e o dono, lado a lado, devorando suas vasilhas de ração.

Eu é que não posso rir dessa situação. Toda manhã, assim que meu cão aponta o focinho no vidro da porta da cozinha, tenho que sair para a área e brincar com ele por cinco minutos, já que não tenho preparo físico para mais do que isso.

Falando no distinto, estamos – os moradores lá de casa – tentando condicioná-lo a fazer suas necessidades fisiológicas em determinado local, através de reforço de “muito bem”, e “aí não pode”. Não está sendo fácil, estamos quase deixando-o fazer pra onde o nariz apontar. O problema é que, quando faz algo de errado, ele olha pra gente, como a perguntar: “Por que vocês estão bravos?”.
           
A indústria canina abarrota os pseudos proprietários com uma infindável lista de produtos de domesticação. Entre tais produtos, estão as soluções de “aqui pode” e “aqui não pode”. Quando o cãozinho faz xixi em lugar proibido, você goteja a solução do “aqui não pode”. Lá em casa, nosso melhor amigo ainda não sabe disso, tem marcado território pra tudo quanto é canto.
           
Essa situação faz com que eu pense na possibilidade de fazer um curso de psicologia canídea (família animal da qual também faz parte a raposa, de quem, ultimamente, não quero ver nem sombra), com especialização no ramo canino. Ao longo do curso, estarei apto para condicionar nosso animalzinho a fazer de maneira correta suas necessidades; ao final, poderei abrir uma clínica de aconselhamento psicológico. Poderei atender àquele cachorrinho de senhora que, em sua infância, teve uma experiência traumatizante: estava ele mamando na cadela de sua mãe quando, de repente, uma inusitada pulga a mordeu; ela, raivosa, latiu para a pulga, mas o filhote pensou que a mãe estava latindo raivosamente para ele. Então, ele cresceu com esse trauma de infância - não podia ouvir um latido mais forte que logo começava a tremer. A madame-sua-dona o levou até meu consultório. Deitei o cãozinho num divã e, passando a mão em sua cabecinha, perguntei-lhe: “Qual o problema?”. O cão abanou o rabo e latiu para mim, falando-me do problema que o atormentava.
           
Como, por enquanto, não consigo nem mesmo resolver os problemas de urina e de cocô, com o “aqui pode” e o “aqui não pode” sendo ineficazes, acabo tendo uma ideia que pode funcionar, não com os cachorros, mas com os humanos.
           
Tenho um parente sofrendo com incontinência urinária e fecal. Estou pensando em lhe enviar de presente os frascos dos dois produtos. Sua esposa irá pingar gotas de “aqui não pode” nas suas cuecas, pijamas e na cama; enquanto isso, gotas de “aqui pode” serão borrifadas no vaso sanitário. É como diz o ditado: não deu pro Chico, mas serviu pro Francisco.
Etelvaldo Vieira de Melo
          

           


 

ISSO TAMBÉM PASSARÁ

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BODE VELHO QUER CAPIM NOVO

F
loriano Fatiota nasceu numa cidadezinha do interior das Minas Gerais. Quando colheu a primeira flor da juventude, resolveu por bem tentar a vida na capital, já que a perspectiva de sobrevida em sua cidade lhe parecia sombria, tenebrosa.
           
Assim, na base da cara e coragem, juntou seus pertences numa mala e rumou pra capital, logo se ajeitando no ramo da construção, atuando, primeiro, como servente para, logo depois, tornar-se um pedreiro de colher cheia.
           
Para disfarçar um problema que lhe parecia extremamente grave, o fato de ser analfabeto, deixou crescer um bigode, pensando que aquilo poderia servir de despiste. Quando aparecia uma situação que exigia um conhecimento mínimo da escrita, ele afagava o bigode, como a dizer pro interlocutor:
           
- Mas isso não se resolve com poucas palavras, não!
           
O outro, então, cuidava de lhe explicar, tintim por tintim, a acontecência, deixando Floriano totalmente a par do que se tratava. Satisfeito com sua estratégia, dava uma alisada final no bigode para comentar:
           
- Está bem, vamos tocar assim o negócio.
           
Tantas situações estressantes, somadas à solidão de um estranho na cidade grande, fizeram com que se tornasse um viciado em bebida alcoólica. Não que ele fosse um alcoólatra propriamente; ele bebia mais para calibrar o medo, a insegurança e uma natural timidez. Portador de uma boa resistência, passava desapercebido como ele se segurava por detrás de umas bebidinhas e do bigode.
           
Com muito trabalho e persistência, foi se ajeitando, comprou um lote, construiu uma casa e se casou. No dia do casamento, ele fez o favor de deixar a noiva esperando, porque havia bebido tanto que se esqueceu da hora.
           
Tudo isso não impediu que ele tivesse uma vida de casado normal para sua maneira de entender a vida. Tiveram alguns filhos, que cresceram, casaram e, depois, a sua esposa morreu.
           
Floriano viu-se, então, vivo, livre, leve e solto. Enquanto casado, ele se segurou como foi possível, nunca dando margem para falatórios, agindo sempre com integridade, pagando o que fosse possível para não entrar em qualquer tipo de confusão.
           
Mas aconteceu que sua mulher morreu, partiu dessa, deixando-o livre na flor da melhor idade. Nessa altura, ele já não se escondia por detrás do bigode. Havia frequentado uma Escola de Alfabetização, chamada de EJA, já sabia muito bem bordar o nome e fazer algumas leituras rasteiras. E estava solteiro.
           
Foi, então, que ele partir para a guerra. Percebeu que havia muitas mulheres disponíveis no mercado, era só ter paciência, armar a arapuca ou colocar isca no anzol, que algo de bom ficaria preso ou fisgado. Cuidou melhor da aparência, matriculando-se numa academia de ginástica. Quis também entrar numa academia de dança, mas foi convencido por um amigo a adiar tal projeto.
           
- Acho melhor você deixar para mais tarde – explicou o amigo. – Como você tem um problema de catarata, há o risco de você levar gato por lebre, ou seja, você escolhe lá uma mulher pensando que é uma coisa; quando for ver, ela é outra coisa bem diferente. É melhor você operar as vistas, primeiro.
           
Assim ele fez. Ele, que tinha uma vista meio turvada, agora está enxergando que é uma beleza.
           
Como tudo de bom na vida tem um reverso, Floriano enfrenta um dissabor: foi se apaixonar por uma mulher bem mais nova, cheia de boniteza, além de ser uma pessoa muito agradável. Está claro que já contabilizou várias conquistas; quando se encontra com aquele amigo, como despiste para ouvidos terceiros, essas conquistas são enumeradas por códigos: A, B, C, D... Assim, eles se comunicam, sem que outros deem com as línguas nos dentes, isto é, venham a fazer fofocas. Tantos troféus, entretanto, não conseguem amenizar a dor no coração de Floriano. Ele só tem pensamentos para a sua Deusarina.
           
Deusarina só fala em amizade, mas Floriano quer mais, quer aquilo. Quando ele vem chorando pro seu lado, com cara de pidão, Deusarina desconversa e dá um chega pra lá nele.
           
Floriano se sente desesperado, chegou a procurar orientação técnica. Falaram que, diante de uma retranca, a melhor tática é jogar pelas pontas. Ele fez isso, mas o resultado foi pífio, não passando de um 0X0. Resolveu, depois, marcar sob pressão, mas não existe preparo físico que aguente fazer isso durante todo o jogo. Quando resolvia ir pro abafa, todo no ataque, ela avançava a zaga e o deixava em impedimento.
           
Floriano está decidido a abandonar essa partida. Como última cartada, num desespero de causa, fez como aquele rapaz que, após assassinar os pais a facadas, pediu clemência aos jurados dizendo ser órfão. Floriano falou assim para Deusarina:
           
- Sua presença faz meu coração disparar, minha vista fica embaralhada e começo a tremer. Vou me afastar de você, já que não existe espaço para mim em sua vida.
           
E assim ele fez. Com o coração sangrando, ele se afastou e até arranjou uma substituta (como as mulheres gostam de falar, a fila anda). Não se trata de nenhuma Deusarina, mas tem poucos quilômetros rodados. Quando Floriano chegou naquela afobação, ela aplicou-lhe um cartão amarelo, com a advertência:
           
- Vem com modos, seu apressadinho, que sou mulher de respeito.
           
Aquilo foi só conversa, pois, no terceiro ataque, Floriano já havia marcado gol.
           
Com isso, acabou se esquecendo da paixão por Deusarina. Contou também uma simpatia para velho deixar de gostar de menina mais nova: torrou a ponta de uma espiga de milho com sal grosso e bebeu daquele caldo. Foi tiro e queda.
           
Aquele amigo, já mencionado por outras duas vezes, manda pedir desculpas pelas brincadeiras, que não falou nada por maldade, diz que Floriano é um senhor de grande coração e que merece todas as felicidades possíveis e imagináveis. Fica registrado o pedido.
Etelvaldo Vieira de Melo





           
           

 

MUNDO GRANDE E PEQUENO




Uns dizem que o mundo é grande.
Outros dizem que é pequeno.
O mundo grande é pequeno.
Nele cabem os conflitos na Ucrânia na Crimeia Na Venezuela
além das flores
dos preconceitos de cor, de raça, de religião
e de forma física.

Imagem: millyrabelo.blogspot.com
Vem chuva
e não lava o mundo.
Vem um sujeito
oculto na rua.
Vem uma dama
com seu cachorrinho
e eis mais um assalto.

Vem um sujeito
do alto escalão
colarinho branco
e arromba o país.
Esses cabem no mundo
grande-pequeno.
Eles se regalam
e riem.
Quem rirá por último?

O mundo grande é pequeno.
Nele cabem os heróis do futebol
e o jeitinho brasileiro.
Por que o desejo sofrido
do povo
é o único que não cabe no mundo?