O ANIVERSÁRIO DE CLARA

Imagem: fotosimagens.net

     
     



      - Você quer brincar comigo?
     
      - Claro.
         
     - Então é seu aniversário. Vamos convidar o Kiwí, mas que ele não chegue com o pelo imundo, sujando com as patas o tapete da sala. Vamos chamar minha irmã, Anne, as Barbies e todos os bichos da sala para comerem o bolo.
         
    - E o que será o bolo? Ah, essas massinhas estão boas para ser o bolo. Temos também os docinhos que a vovó está preparando.
         
     - E o jogo de xicrinhas? O namorado da Barbie pode usar o uniforme de velcro com a jaqueta que acende e apaga.
         
    - Vou começar a fazer os convites. Estou desenhando os corações e posso escrever o meu nome: C – L – A – R – A.
         
      - Não se esqueça do papai e da mamãe. Desenhe para eles também.
         
      - A que horas vai ser a festa?
         
      - Hoje.
         
      - A Lucy está ensaiando o desfile das princesas.
         
      - Você vem de Branca de Neve?
         
      - Não. Vou de Frozen. Passe o laptop que vou fazer as pinturas.
         
      - Enquanto isso, Clara, vou chamar os convidados.
         
      - Mamãe, papai, vovó! Vai começar meu aniversário.
          
       - Já vamos, filha.   
            
       - Estamos na televisão.
         
      - E as maquilagens? Você quer o batom, Anne?
         
      - Põe o gloss marrom. E pinta minhas unhas de azul.
         
      - Tá bem. Aqui estão as velas. Bote em cima do bolo.
          
      - Já chegamos, Clara. Trouxemos presentes.
         
      - Você vai experimentar a fantasia da Else que a vovó fez.
         
      - Isso, vista. Quer a Maria Chiquinha mais apertada?
         
      - Já estou pronta. Deixe ver no espelho.
         
       - Você está linda!
         
      - Vai começar o desfile. Pode assentar aqui, papai. E as fotos?
         
       - Eu mesmo tiro. Faça uma pose.

       - Quero tirar uma com a gatinha.
           
       - Já tirei. Quer ver?

       - Tire esta com a Anne.
           
       - Ficou ótima!

       - Tire outra com o Kiwí.
          
       - A vovó também quer sair na foto!

       - Vamos cantar o parabéns. Chegue para cá, Miau.

Parabéns pra você
Nesta data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida.


(continua)

VAI, QUE A FILA ANDA!

Em plena segunda-feira, mais de seis horas da tarde, ou 18 horas (6:00 p.m., para os leitores internacionais e os que estão nas “nuvens”), passava Ilvimar por uma avenida do bairro e viu multidão a quase se perder de vista, frente a uma Casa Lotérica. Deduziu que tanta pessoa não estava ali para fazer uma fezinha, jogar dinheiro fora. As casas lotéricas se tornaram, ao longo do tempo, instituições multifuncionais. Além do tradicional jogo de loteria, pode o cliente ali utilizar de serviços bancários, como pagamento de faturas e saques.
         
Ilvimar considerou um absurdo o governo, ao mesmo tempo, proibir jogos de azar para particulares, enquanto arranja os seus, tantos que seria enfadonho enumerá-los aqui. O azar continua para aqueles que ficam tentando a sorte. Ela sorri mais para aqueles que encontram, assim, uma forma fácil de extorquir o dinheiro suado de pobres coitados. Muitos deles deixam faltar o pão em casa, seduzidos pelo canto de sereias, empenhadas em afundar-lhes os barcos.
         
Além dessa consideração sociológica, Ilvimar observou também um aspecto psicológico naquela situação. As pessoas que ali estavam não demonstravam cansaço ou revolta. Elas exerciam um dos reflexos condicionados do povo brasileiro, o de frequentar uma fila. O hábito de estar numa fila é tão enraizado na mente das pessoas que existem aquelas que entram numa e, se você lhes pergunta o que estão fazendo ali, irão responder:

    - Nem sabemos. Vimos a fila e achamos por bem entrar nela.

Antigamente, filas se formavam nas agências bancárias, frente aos caixas. Como banco não é instituição de caridade, havia um sentimento crescente de revolta nas pessoas ao se sentirem extorquidas, ao mesmo tempo em que se sujeitavam a aguardar em fila. Os banqueiros tiveram a brilhante ideia de tratar aquelas pessoas como se fossem filhotes de cobra: fizeram com que as filas tivessem formato de meandros, formados por suportes e correntes, dando a ilusão de que o atendimento seria em instantes. Aquilo acalmou um pouco o nervo das pessoas. Logo depois, vieram os caixas eletrônicos. Frente a eles, as filas também se formam, mas o sentimento que despertam é de quase religiosidade. Ali, as pessoas se sentem dialogando com a tecnologia em um de seus mais evoluídos estágios. Por isso, o nível de reclamação é baixo, mesmo quando muitos caixas ficam inoperantes, por estarem em “manutenção”, e apenas dois ou três são disponibilizados para um grande número de clientes.

Ilvimar considera que esse hábito de induzir as pessoas a frequentarem filas não passa de um artifício do Todo Poderoso, o Sistema, para domesticar, eliminar qualquer sentimento de rebeldia, “abaixar o facho” de quem quiser falar mais alto.
         
Assistimos, hoje, a um estágio evolucionado da fila: ela não se faz mais coagindo as pessoas a ficarem em pé; em muitos casos, há uma distribuição de senha e o pretendente aguarda sentado em poltrona ou cadeira. Entretanto, tal situação não deixa de ser uma fila.
         
Refletindo sobre o tema, viu Ilvimar que ele envolvia questões complexas. Considerou, por exemplo, que provocar fila é estratégia de marketing: filas para comprar ingresso de um show; filas pra aquisição do último lançamento de determinada marca de Smartphone; fila para comprar numa queima de estoque de uma rede varejista.
         
Fechando suas lucubrações, Ilvimar considera que o povo, qual cachorro no experimento de Pavlov, já se condicionou a uma fila, sente prazer em estar numa, mesmo que seja para reclamar, dizer desaforos. A única que provoca indignação genuína é aquela formada nas seções eleitorais, Mesmo assim, quando sai da cabine, pode se ver um meio sorriso orgulhoso no rosto daquele eleitor, enquanto cuida de guardar o ticket comprovante de votação na carteira.
         
Quase chegando em casa, Ilvimar encontrou o amigo Fridolino Xexéo, aquele que já brindou os leitores do blog com três belas músicas espanholas. Comentando o tema, soltou Fridolino estes versos:

Dizia o político à multidão:
O ex-ministro Beltrão
Infelizmente errou a mão.
O problema do país não é a burocracia
Mas o número de fila em demasia.
Para sanar a questão,
Enviarei uma moção
Em forma de abaixo-assinado
Ao Congresso para ser votado.
Por favor, assinem este atestado.

Estando em frente à Prefeitura
Criou-se enorme confusão
Todos querendo, a um só tempo, dar sua assinatura.
O político, vendo aquilo, ergueu a mão,
Dizendo: Para que possam assinar todos da Vila
É bom se organizarem em fila!

Nessa segunda-feira em questão, Ilvimar vai se encontrar com sua namorada, Darcília Abraços. Como Ilvimar anda mais enrolado que bobina de motor, numa indecisão danada, sem saber se vai ou se fica, a Darcília, ao invés de um abraço, deu-lhe uma intimação:
        
    - Vê se decide, projeto de homem, que a fila anda!

Etelvaldo Vieira de Melo

HOJE É O ZERO

Imagem: filosofiaeapologtica.blogspot.com


Numa verbal volúpia
escrevo-te o poema.
Não me esqueço do corpo,
erotizando as palavras.

Quando a lua pisca
e a casa cai
como um punhal,
mando esta carta triste
e mando com final.

  Sou uma figura estranha:
vou até a exaustão.
Não temo a tua memória,
mas tenho pânico
à mão.

Fiz o que pude.
Cedo ou tarde reencontro
o ponto de partida.

As horas fundamentais
já me visitaram.
Por que será que te esqueço
e fico só na ilha,
pensando em correr,
ao invés de caminhar?

Precisávamos ir mais devagar.


QUANDO É FÁCIL, FICA DIFÍCIL

         FOI Gertrudes se aconselhar com Venâncio Fortunato sobre um assunto que a incomodava, deveras.
           
Antes, por educação, quis saber como andava o amigo.
           
- Estou numa situação difícil, que só você vendo.
           
- Mas o que anda lhe trazendo tanto desconforto?
           
- Estou numa situação financeira tão complicada, devendo tanto que, como diria o Barão de Itararé, nem posso chamar minha esposa de “meu bem”.
           
- Mas por quê?
           
- É que, se eu chamar uma pessoa de “meu bem”, o Banco vem e toma.
           
- Ah, deixa de gozação – falou Gertrudes, sorrindo, quase se esquecendo do assunto que tanto a incomodava.
           
- É brincadeira mesmo – falou Venâncio. – Entretanto, você sabe que pobre é apertado por natureza, vive pendurado feito cabide. Agora, me diga o que anda aborrecendo a sua beleza.
           
- Minha reclamação é quanto à falta de homens no mercado. Além de serem em número reduzido, comportam-se como gatos escaldados temendo água fria, isto é, tornam-se cada vez mais ariscos e medrosos.
           
- Calma, querida, que seu chororô abala meu bondoso coração – falou Venâncio, em tom de leve reprimenda. – Vou sondar minha indefinida inteligência, buscando um lenitivo que lhe sirva de ajuda ou consolo.
           
- É bom você ficar sabendo de antemão que já apelei para toda espécie de simpatia e superstição – cortou Gertrudes, com o dedo em riste apontado pro amigo.
           
- Já pendurou uma imagem de Santo Antônio, amarrado pelos pés numa jarra d’água?
           
- Foi a primeira providência que tomei. Tive que tirar o santo da água, senão ele se desmanchava todo.
           
- Conversou seriamente com sua imagem, ameaçando colocá-la na geladeira, caso não lhe arranje um namorado?
           
- Ela está no congelador e já virou picolé.

- Por acaso, você já deu para um rapaz...
           
- O quê???
           
- ... a água com que lavou uma camisa sua, para ele beber?
           
- Já fiz isso com um vizinho e, até agora, não tive nada de resposta.
           
- É, parece que a situação está mesmo grave pro seu lado.
           
- Ora se está. Outro dia, fui ao casamento de uma amiga e os pais dela até providenciaram uma queima de foguetes. Na hora em que ela jogou o buquê de flores, eu me engalfinhei com outras pretendentes e quase fui parar no hospital.
           
- Mas conseguiu o troféu?
           
- Que nada. Somente arranhões e um olho roxo, por causa de cotoveladas.
           
- Xiii... E uma folhinha de arruda atrás da orelha, já tentou?
           
- Aquilo fede tanto que, ao invés de atrair, vai afugentar os pretendentes.
           
- Tem razão. Vamos procurar outro expediente. Estou consultando o Doutor Google e estou vendo que as receitas são até perigosas. Tem uma aqui, por exemplo, que manda escrever o nome do pretendente numa folha de papel, mergulhando-a, depois, num prato com mel. Toda noite, você irá rezar para que seu pedido seja atendido. O prato deverá ser colocado debaixo da cama e só será tirado depois de alcançar a graça.
           
- Se eu fizer isso, é perigoso as formigas acabarem comigo antes que encontre um namorado.
           
- Gertrudes, gostaria muito de poder ajudá-la, mas a receita não é fácil. Uma relação afetiva se constrói com o tempo, mas o tempo não conta hoje em dia. É tudo muito apressado, superficial, amadurece rápido igualzinho banana em sacolão.
           
- Está bem, mas o que eu faço? Deixe-me uma ideia, mesmo mudando o tom de nossa conversa.
           
- É preciso que você se valorize, não se torne vulgar, ao ponto de qualquer rapaz passar a mão em você. Mesmo porque, no fundo, os homens não gostam de mulheres fáceis. Quando os encontros são fáceis, fica difícil uma relação séria.
           
- Quer dizer, então, que a liberdade só vem com o tempo...
           
- Exatamente. Mas não é só. A mídia nos passa estereótipos, modelos que não precisam e nem devem ser copiados. Seja você mesma, não tenha medo de ser diferente. Não brinque e nem permita que outros brinquem com seus sentimentos. Lembre-se: você só será amada verdadeiramente que for você mesma. No mais, é bola pro mato, que o jogo é de campeonato.
Etelvaldo Vieira de Melo

 

MATERIAIS


,

O telefone que não toca,
o copo sujo de leite,
são motivos de poesia.

As asas brancas da xícara,
o voo negro dos urubus,                  
são motivos de poesia.

O véu cintilante da noite,
o brilho louco das estrelas,
Imagem: era uma vez laranja.wordpress.com (Google)
são motivos de poesia.

Um abridor de amanhecer,
o bico calado do gás,
são motivos de poesia.

A janela e suas retrancas,
o passeio nublado no ônibus,
são motivos de poesia.

A boca do forno,
as pernas da cadeira,
são motivos de poesia.

A queda da aeronave,
a luta no Iraque e na Palestina,
essas não,
esses objetos de guerra,
são tratados para morrer.

A FELICIDADE NÃO FOI EMBORA: ELA MORA LÁ PERTINHO DE CASA

         Quando completou 49 anos de vida, uma famosa atriz fez uma declaração terrível: “No fim da minha vida estou descobrindo que não sou uma pessoa amável, que não mereço ser amada, que tem alguma coisa de muito errada comigo”.
           
Tais palavras mostram uma pessoa que, aparentemente, chegou ao fundo do poço da infelicidade. Também demonstram que o ser feliz para ela está associado ao amor, na relação de ser amável e ser amado.
           
Não sei por que, ao ler tal declaração – talvez como contraponto – ocorreu-me a lembrança de outra pessoa, aparentemente feliz. Ele tem apelido de Nô e nunca teve uma vida carregada de glamour, luxo e riqueza. Veio de uma família humilde e nem mesmo conseguiu elevar sua estatura física: não chega aos um metro e cinquenta.
           
Ao longo do tempo, foi acumulando aparentes defeitos, que tornavam sua vida cada vez mais custosa.
           
Primeiro, foi o analfabetismo, que lhe impossibilitou atos triviais, como o de olhar as horas.
           
Tentando ajudá-lo, seu irmão deu-lhe de presente um relógio que, logo logo, foi devolvido, Deus que te pague, como algo imprestável.
           
Dias desses, perguntei-lhe como se orienta diante de rotinas – almoçar, por exemplo.
           
- Eu olho para o Sol – explicou ele, sorrindo.
           
- Mas, e quando está chovendo?
           
- Aí, eu vou pela barriga – completou, com um sorriso grande.
           
Não pense que tal diálogo foi fácil. Nô sentiu crescer, à medida que o tempo passava, outro “poblema”, o da surdez. Recorrendo a dados estatísticos, tão caros ao amigo Amador (aquele de “Atração Fatal”, postada em 13/04/2013), creio que o índice de surdez de Nô anda na casa dos 94,8%.
           
Anos atrás, arrumou uma infecção no pé e, só recentemente, conseguiu passar por uma cirurgia, que lhe extirpou o dedão do pé direito. Quando lhe pergunto como está de saúde, responde:
           
- Estou bem, com a graça de Deus.
           
- E o dedo?
           
- Ah, o dedo ficou com doutor Alfredo!
           
Não sei se Nô teve algum envolvimento afetivo. Sei que não se casou e mora sozinho.
           
Para ameniza um pouco sua solidão, o mano deu-lhe de presente um rádio que, logo logo, foi devolvido, Deus que te pague, pois a altura do volume haveria de incomodar muito os vizinhos.
           
Assim, sem dedo, surdo e analfabeto, Nô vai tocando sua vida. Caso lhe pergunte se é feliz, haverá de me dar uma resposta que imagino qual seja. Ela não é transcrita aqui, em respeito àquelas outras pessoas que, por caminhos diferentes, também conseguem ter essa tal felicidade.
           
PS1: Como provocação, sabendo que você é desprendido e não se incomoda em compartilhar suas descobertas de vida, por que não deixa aqui suas considerações sobre esta questão, da felicidade?
           
PS2: Só não vale mandar as pessoas tomarem Fluoxetina.
Etelvaldo Vieira de Melo

PENSAR É ESTAR DOENTE DOS OLHOS

Imagem: blogsdelagente.com


Uma rosa é uma rosa.                       
A mulher é a mulher.
Néscio é aquele que diz:
"Essa mulher é uma rosa"
ou
"Essa rosa é uma mulher".

Uma pérola é uma pérola.
A mulher é a mulher.
Tolo é aquele que diz:
"Essa mulher é uma pérola"
ou
"Essa pérola é uma mulher".

Muitos poetas já compararam
mulher e flor.
Bobos são eles
pois flor é flor
mulher é mulher.

Também houve os tontos
que viram a mulher na lua
e vice-versa.
Certamente que estavam
tocados pela influência
da mãe de Freud.

Há um poeta
chamado "o poetinha"
que compara a mulher ao mar,
às estrelas, à terra,
menos ao sol,
que sempre é ele, o poeta.

Louve-se e salve
quem soube ver as coisas como são
e não através de fúteis imagens.

Louve-se
quem viu a natureza
e não chamou-a Deus.

Afora isso,
apascenta o teu rebanho
e deixa em paz as mulheres
e as suas supostas tempestades.

FATOS & FOTOS

         Há séculos, os japoneses já nos ensinavam (e a gente os ridicularizava por isso) que o chique de um passeio é documentá-lo através de fotografias.
        
Para uma boa foto são necessários dois requisitos básicos: percepção e reflexo, atributos que eu – definitivamente - não disponho. Não querendo que um passeio ao Rio Grande do Sul se perdesse nos escombros de minha decadente memória, tratei de registrar alguns momentos, usando de palavras, em vez daquelas modernas máquinas digitais, cheias de pixels, zoons e outros bichos estranhos. Ficou assim:

PRIMEIRA IMAGEM: UM SENHOR GORDO, EM PÉ E GESTICULANDO, NO CORREDOR DE UMA AERONAVE

Não sei como certos malfeitores conseguem sair impunemente do país. Quando do embarque, ficamos aguardando por quase uma hora solução para o impasse sobre o número de passageiros registrados na contagem dos comissários de bordo e aquele que constava no Sistema. Havia um a mais, segundo a contagem visual. Fiquei extremamente nervoso ao ouvir a palavra “Sistema”, já que nossa relação não tem sido nada amistosa. Pensei: É agora que ele vai me pegar! Entretanto, fui ajudado por um senhor gordo e que demonstrava certo complexo. Ele se levantou da poltrona e disse:
           
- Vai ver que sou eu esse passageiro fantasma. Podem me colocar para fora do avião.
         Foi aí  que me dei conta  de como seria  difícil ajudar aquele  político impossibilitado de colocar um dedinho do pé fora do país, tudo por implicância de estrangeiros, que acham um absurdo uma pessoa, tida e havida como ladrão, não estar atrás das grades. Eles não sabem que ele está lá em Brasília, trabalhando arduamente para o bem geral da nação.

SEGUNDA IMAGEM: CONVERSANDO COM O CAIXA DE UMA
SORVETERIA
           
Já no Sul Maravilha, notei que as pessoas da região dificilmente usam a expressão “real” para designar dinheiro; para eles, o termo é “pilla” (uma “casquinha” custa 4 pillas). Trata-se de uma herança cultural de um político gaúcho, chamado Raul Pilla. Por causa da diferença de fuso horário entre o real e o pilla, estou vendo meu suado dinheiro ir pro ralo da pi(ll)a. Como as coisas aqui são caras! Entretanto, como todo turista tem sua dose regular de bobeira, antevejo um abalo em minhas finanças, que me levará a um longo período de recessão.

TERCEIRA IMAGEM: CAMINHANDO SOBRE UM ASFALTO
SOLTANDO FUMAÇA
           
Embora o contexto seja de verão, imaginava que a Serra Gaúcha tivesse um clima ameno. Que nada! Com a onda de aquecimento global, aqui anda pegando fogo. Foi isso que comentei com um parente, via telefone:
           
- Vim para o sul comer churrasco, não para virar um.

QUARTA IMAGEM: EM UM ÔNIBUS DE TURISMO, UM GUIA
FALANDO PARA PASSAGEIROS
           
Vivendo e aprendendo: nunca havia imaginado que a dança italiana chamada Tarantella foi criada como forma de tratamento para a picada da aranha tarântula. Foi isso que nos disse o guia. Caso esteja em desacordo com a história, favor fazer acerto de contas com ele, o guia.

QUINTA IMAGEM: DO ÔNIBUS DE TURISMO, A VISÃO
DE UMA PEQUENA CIDADE
           
No Sul Maravilha existe uma cidadezinha chamada Feliz. Com o analfabetismo erradicado, sua população ainda atinge os mais altos índices de vida do país. Uma possível explicação para tal sucesso talvez seja o festival de chope que a cidade promove todo mês. Ao ouvir a explanação do guia turístico, fiquei entusiasmadíssimo, pensando em me mudar para tal cidade, enquanto é tempo. Na minha idade, um tempinho a mais de vida já vale muito, eu que estou rapando o tacho com a colher. Tornando-me morador de Feliz, serei um felizense; se jogar na loteria e ganhar o prêmio máximo, serei um feliz felizense felizardo. Para fechar com chave de ouro tanta alegria, ou: colocando a cereja no bolo, em Feliz poderei morar em dois bairros: primeiro, em Roncador, sem problema para mim; depois, quando as cortinas estiverem se fechando, no bairro Bom Fim.

SEXTA IMAGEM: DENTRO DE UM VAGÃO DE TREM,
APRESENTAÇÃO DE UM GRUPO MUSICAL
           
O percurso entre as cidades de Carlos Barbosa e Bento Gonçalves pode ser feito num trem, uma Maria Fumaça. Muitas brincadeiras, shows e números musicais são apresentados durante o trajeto. Enquanto rola a brincadeira, duas moças tentam nos empurrar bugigangas e comestíveis, esvaziando ainda mais nossos bolsos. Em dado momento, um passageiro capixaba falou pra um cearense, que devorava um pacote de amendoim:
           
- Amendoim, não! Com tanto menino abandonado, você não vai querer fazer mais um.
           
Achei aquele comentário sensato. Tanto assim que me dispus procurar a empresa que administra o passeio, pedindo para suspender a venda do dito amendoim.

SÉTIMA IMAGEM: DENTRO DE UMA LOJA DE UMA
FÁBRICA DE CRISTAIS

No município de Gramado, existe uma fábrica de cristais. Lá, o princípio de que tamanho não é documento definitivamente está enterrado. Fiquei procurando peças miudinhas para levar de souvenir ou lembrança. Tinha que comprar uma coruja para um parente, já que ele é colecionador dessa espécie ovípara. Falei para o vendedor, um uruguaio de pouco tempo de Brasil:
           
- Sei que a coruja é símbolo de sabedoria, mas você pode me arranjar uma bem burrinha, que não acho ruim, ainda mais tendo um precinho em conta. Outra coisa: também não importa se tiver uma asa quebrada ou um defeitinho de fabricação. Vê se pode me ajudar.
           
De nada adiantou tanto choro e reclamação. Tive que comprar uma em estado normal, pequena e de preço salgado.

OITAVA IMAGEM: DENTRO DE UMA PASTELARIA TEMÁTICA
           
O pasteleiro aqui do sul não é bem o que imaginava. Os pastéis são temáticos, fazem referência a filmes, não a atores. De qualquer modo, não tem comparação aos de Campos de Jordão, em São Paulo, que homenageiam, imagina, os políticos! Não tendo como saborear uma de minhas muitas atrizes favoritas, contentei-me com o pastel doce “Cinema Paradiso” (na verdade, um de meus filmes favoritos), com recheio de doce de leite, nozes, castanhas e catupiry.

NONA IMAGEM: NO TERMINAL RODVIÁRIO DE CANELA,
UMA MULHER (EM PÉ), UM CÃO (APOIADO NAS PATAS)
E O AUTOR (SENTADO NUM BANCO, AO FUNDO)
           
Definitivamente, os cães estão com cotação em alta. No Terminal Rodoviário de Canela, estava eu sentado num banco, aguardando o ônibus que me levaria ao aeroporto. Ao meu lado, estava um cão, daqueles bem comuns. Uma senhora se aproximou, falando assim com o cachorro: “Oi! Oi, amor!” – e nem me cumprimentou ou se dignou a olhar para a minha cara. Eu me senti um autêntico vira-lata.
FIM.

Etelvaldo Vieira de Melo

CANÇÃO DO EXÍLIO



Belo Horizonte,                                         
estamos de volta.
De novo com os amigos,
com essa gente boa
próxima do espírito.
Sentimos falta
de seu clima agradável,
da vida que é esta:
subir Bahia 
e descer Floresta.
Quantas lembranças
em solo alheio
da Savassi
e do Sion.
Quanta falta
das suas igrejas
da Praça Sete
onde o povo formiga.
Imagem: fragmentodetempo.wordpress.com
Enquanto no exílio,
não comemos do queijo
não vimos as canastras
nem a Serra da Mantiqueira.
Lá onde estivemos,
não existe a Liberdade
em que caminhamos
soltos, de tênis
todas as manhãs.
Vontade louca
nas tardes vazias
de comer feijão com arroz
e emendar um doce de leite.
Adeus, falta de telefone,
Facebook, Internet.
Aquele sofrimento
a gente só esquece
no Mercado Central
ou na Praça do Papa.

Só lastimamos
a queda abrupta
do viaduto.
Disso não soubemos
por causa da Copa.
Essa notícia,
cidade-jardim
põe triste a poesia
que mora em mim.