ALDRAVIAS

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Aldravia
un'
altra
volta
da
poesia

Uma                                 Políticos
lua                                   da
crescente                        nova
flor                                 era:
na                                    tudo
semente                           primavera

Dilma                               O
ou                                    Aécio
Marina:                            tira
olho                                 ouro
na                                    do
mina                                 nariz



CAGADA DE JACU

O comentário da lei é a eterna malícia“ – Machado de Assis .

Uma coisa que me tira do sério e bole com minha crença no ser humano é encontrar alguém que não cumpre com a palavra dada.
        
Não que eu seja uma pessoa dura, exigente, já que me vejo tão flexível quanto uma vara de marmelo. Se a pessoa em questão arranja uma desculpa, esfarrapada que seja, eu aceito, uma, duas, três vezes. Depois disso, coloco ponto final em minhas expectativas e risco aquela pessoa do rol dos confiáveis.
        
É frequente encontrar tais indivíduos no ramo dos prestadores de serviços, notadamente nas famílias dos “eiros”: pedreiros, carpinteiros, serralheiros, lanterneiros, marceneiros, bombeiros. Eles não são os únicos, pois poderia nomear outros, como os pintores e os mecânicos.
        
Se, entre tais profissionais, a palavra dada vale pouco, entre outros parece que ela não vale nada.
        
Entre esses, colocaria no rol da fama a categoria dos políticos. São eles que me tiram ainda mais do sério, abalam meu sistema nervoso.
        
Uma coisa que um político faz com a cara lavada e que é a maior sem-vergonhice ocorre em época de eleições.
        
Temos, por exemplo, o caso daquele que se elegeu vereador, prometendo trabalhar em favor da cidade. Pelo que me consta, o mandato de um vereador é de quatro anos, mas, no segundo, já está ele em campanha para deputado estadual.
        
Ele deveria considerar que ninguém lhe deu o seu voto para meia legislatura. Por uma questão de consciência, para que honrasse os seus compromissos, deveria permanecer na vereança por quatro anos.
        
Quando ele tenta um voo mais alto, está usando de faca e de queijo para atingir seus interesses, nunca os de seus eleitores. Ele terá à sua disposição os recursos da máquina administrativa e, não estando de licença, as benesses e os salários do cargo. Sem contar o “empurrão” que o suplente de sua vaga estará lhe dando. Caso seja eleito no pleito estadual, irá ganhar a sorte grande; caso perca, retornará à função de vereador, julgando ter expandido seu nome junto a outros municípios, deixando a semente para futuras empreitadas.
        
Não é à toa que, desde sempre, estou batendo nesta tecla da necessidade de uma reforma política e de uma reforma eleitoral. É um absurdo acontecer uma coisa assim em nosso país.
        
Agora, se o político que faz uma jogatina dessa, cospe no prato em que comeu, renega os compromissos firmados com seus eleitores, até que poderia tomar essa deslavada atitude, desde que abrisse mão dos salários e das bonificações, renunciando ao cargo anterior, caso as eleições não lhe sejam favoráveis.
        
Eu nunca vi um indivíduo dessa espécie fazer isso. Caso fizesse, pelo menos estaria demonstrando um pouco de vergonha na cara, sem fazer essa coisa mal feita, essa “cagada de jacu” – expressão usada pelo povo de Pernambuco e que estou incorporando ao meu vocabulário.

Nota: Não faço crítica endereçada a este ou àquele político em particular. Falo de forma generalizada, já que deixar um mandato pela metade do caminho para ir em busca de outro é uma prática de “fazer política”. Gostaria de estar enganado neste meu juízo, que viesse alguém para me contestar, para dizer que estou sendo injusto, que estou faltando com a verdade. Eu me sentiria reconfortado ao constatar que a política em nosso país não é tão dramática como imagino. Já a expressão “cagada de jacu” permite uma releitura: de coisa malfeita, pode se tornar uma coisa boa, como acontece com alguns cafeicultores do Espírito Santo. É de lá o “Jacu Bird Coffee”, produzido com sementes retiradas das fezes do jacu, quando esse se alimenta de frutos maduros de café. Assim, a cagada de jacu rende ótimos dividendos, com aquele exótico café vendido a preço astronômico. Quem sabe a analogia não sirva para nosso quadro político e algo de bom (uma reforma) não saia daí, dessa outra cagada. Esta é a minha esperança.    
Etelvaldo Vieira de Melo              

ENTREVISTA COM A ESCRITORA ANA CRISTINA CESAR (BASEADA EM "INÉDITOS E DISPERSOS")



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R  : Defina-se para o leitor, ACC.
AC: "Não sou divina, não tenho causa.
        Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
        Sou a própria lógica circundante."
        Sou uma mulher do século XIX disfarçada em século XX."
        "Femme d'interieur e Femme intrigante."
R  : Que pensa neste momento?
AC: "Eu penso
        a face fraca do poema
        a metade na página partida
        mas calo a voz dura
        flor apagada no sonho."
R  : Faça uma pergunta ao leitor.
AC: "Pergunto aqui, meus leitores,
        Quem é a loura donzela
        Que se chama Ana Cristina
        E que se diz ser alguém.
        É um fenômeno mar
        Ou é um lapso azul?"
R   : Do que você anda atrás?
AC: "do depoimento mais inteiro
        da simplicidade mais erma
        da palavra mais recém-nascida
        do nascimento a mais da palavra."
R   : Com que você sonha?
AC: Sonho "Inesperadas estrelas
        silhuetas
        que se unem
        ajuntam
        céus sem vácuo
        véus caindo."
R   : Fale sobre a Política.
AC: "É difícil ancorar um navio no espaço."
        "Devo impor justiça do um gesto da outra mão
        alimentá-los."
        "Ao meio-dia ligo e leio a última notícia:
        menina de dois anos causa pânico na vida da cidade.
        O tempo virou dramaticamente."
R   : Para quem você escreve?
AC: "É para você que escrevo
        hipócrita, fã, cônjuge, craque,
        de raça, travestindo a minha pele."
R   : Despeça-se do leitor.
AC: "Pensei que não viria mais aqui,
        nas fiz por onde."
        "Chegamos ao mesmo tempo ao mirante
        onde a luz se rompe."
R   : Obrigada pela entrevista.
AC: "Que perdoem (meus) silêncios,
        e os ventos altos."
("Inéditos e Dispersos" foi tema de nossa tese de Mestrado)

CONSIDERAÇÕES SOBRE A PALAVRA

(100ª Postagem)

Existem pessoas que temem as palavras. Tom Jobim, por exemplo, dizia: “Cuidado com as palavras. Eu digo ‘Maria’ e fico achando que conheço Maria. As palavras são enganadoras”.

Existem outras para quem elas são assustadoras. Belchior cantava: “Sons e palavras são navalhas”.

Existe aquele que acredita poder brincar com as palavras. Uma hora as coloca aqui, outra hora as joga para lá; em certos momentos, quer que elas sirvam à verdade, em outros, que elas se prestem à tapeação. Para ele, a palavra é pura conveniência. Usada para atender a interesses, ela passa a ter um preço e serve a quem lhe paga mais.

Existem outros que vivem de discursos, Porque as palavras podem ser como embalagens de caixas vazias.
        
Existe pessoa que reverencia a palavra, quer lhe conferir poderes sobrenaturais. Para ela, a palavra é pura magia.

Procuro tornar as palavras minhas amigas. Não as trato mal e nem as desprezo, a não ser por ignorância ou por dificuldade de articulação. Também gostaria muito que elas pudessem estar a serviço do bem, que elas contribuíssem para tornar esse mundo melhor, um lugar mais agradável, onde as pessoas pudessem viver em paz, construindo a felicidade.
        
Gostaria que as palavras não pudessem ser usadas para servir à mentira e à falsidade. Quando alguém fosse dizer uma mentira, que ele se engasgasse com as palavras, não conseguindo dizer nada.
        
Vejo que o mundo seria um lugar maravilhoso se houvesse mais respeito com as palavras. Assistindo a um noticiário pela TV, por exemplo, junto com a imagem, que não deixa de ser uma palavra, ouviríamos aquelas outras, que chegariam aos nossos ouvidos de forma límpida e nos ajudariam a entender cada vez mais e melhor o mundo, as pessoas, os acontecimentos.
        
Gostaria mesmo que a palavra estivesse a serviço da verdade. Você poderia perguntar: O que é a verdade? Eu não saberia responder, nem da forma como entendo e nem da maneira que você seria capaz de entender ou aceitar. Mas isso não importa, já que a verdade não é propriedade minha, nem sua, mas da vida, essa que está aí, independentemente do que penso ou deixo de pensar.
        
É assim que vejo as palavras. Quisera que sempre estivessem a serviço do bem, ajudando a colorir o mundo e a vida das pessoas. Olhando ao redor, vejo tanta coisa sombria! Eu me pergunto: não há como melhorar tudo isso, resgatando a alegria, o amor e a paz? Acredito que, uma das formas de tornar isso possível, seja através da palavra. Uma boa palavra, uma palavra bonita, sincera, transparente, uma palavra honesta. Uma simples palavra, uma palavra extraordinária.
Etelvaldo Vieira de Melo




POEMA EM LINHA DUPLA

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Vou deixar   
para depois de amanhã
a resolução do teorema.

Hoje está tudo resolvido.

Vou deixar 
para depois de amanhã
o pensar sobre a vida
e as filosofias da morte.

Hoje a vida está viva.

Vou deixar
para depois de amanhã
as premissas do dia
e os juízos de valor.

Hoje, na matemática,
dois e dois são três.

Vou deixar 
para depois de amanhã
o tema que não escrevi
por causa do mau tempo.

Hoje a poesia
nasce cheia de sol.

O HOMEM QUE NÃO AMAVA AUTOMÓVEIS

       A casa onde mora Modestino Gurgel não é aquela casinha branca de varanda ♫ com quintal e uma janela para ver o sol nascer. Ela fica situada numa rua, que termina na avenida principal do bairro, justamente numa curva. Com o tráfego intenso, somado a um posto de saúde e a um depósito de bebida, frequentemente visitado por caminhões que ali vão desovar engradados e engradados de cerveja, o local se tornou perigoso para pedestres e motoristas, embora a Prefeitura tenha tomado o cuidado de montar dois quebra-molas, tentando refrear a ferocidade dos hps de cavalos instalados nos motores dos veículos. Mesmo assim, são frequentes as freadas bruscas, pedestres correndo como galinhas tontas, querendo alçar voo, brigas, discussões e xingamentos, temperados com palavrões.
        
Outro dia, um vizinho, o Alberto Grabulosa, tentou fazer um seguro de vida, mas acabou desistindo no meio do caminho: quando informou o endereço residencial, o corretor aumentou o valor da prestação, justamente por causa do risco de vida a que Alberto estava exposto.
        
Hoje, outro vizinho teve sua mãe, avó, bisavó e tataravó xingadas, justamente porque queria converter seu carro, da avenida em direção à rua, e um afobado quase arrebenta sua traseira (a do carro).
        
Modestino sabe que não está inventando a pólvora quando fala essas coisas, pois problemas de trânsito são comuns no Brasil, de rabo a cabo, exceção para algumas cidades do Sul Maravilha, onde sequer existe semáforo. Nas faixas marcadas no asfalto, o pedestre pode atravessar até de olhos fechados. Quando esteve numa dessas cidades e se deu conta desse privilégio, o Gurgel ficou indo e voltando pela faixa, até se sentir expurgado do trauma de ter que atravessar ruas correndo, com o coração saindo pela boca.
        
Se existe uma categoria humilhada no Brasil, essa é a de pedestre. Mesmo quando o sinal está verde para sua passagem, tem que ouvir o ronco ameaçador de motores querendo assassiná-lo.
        
Andando pelas ruas do bairro e chegando a um cruzamento, Modestino ainda nota certa tolerância de motoristas homens, fazendo sinal com o dedo para que ele atravesse; quando está ao volante uma mulher, parece que ele se torna invisível e o perigo fica real e imediato.
                 
Caso seja veraz o princípio de que, por detrás de toda ação, existe uma oculta razão, trazendo novos subsídios para o tema, Modestino tenta entender: qual a intenção oculta da Disney, quando lança filmes humanizando a figura desse monstro assassino, o carro?
        
Fazendo um exercício de reflexologia, mas sem desgastar muito os neurônios, chega a considerar que aquele estúdio está a serviço da poderosa indústria automobilística, desviando a atenção para os incontáveis danos que os carros causam à humanidade: poluição sonora e visual, envenenamento da atmosfera com monóxido de carbono, engavetamentos, acidentes fatais, desvio de verbas públicas para construção de pontes, viadutos, elevados e passarelas. Também, alegar que a produção de carros gera empregos não passa de uma balela: hoje em dia, quase tudo é automatizado, produzido por robôs.
        
Gurgel garante que não é contra o progresso, mas gostaria que o transporte fosse socializado, através de trens, ônibus, metrôs, bondes. Assim, haveria mais encontro entre as pessoas e elas poderiam andar pelas ruas, sem medo de serem atropeladas. Andando pelas avenidas, você poderia aspirar o perfume das flores e um ar puro. Não teria que usar máscaras, como já ocorre em certas cidades do planeta.
        
Quando humaniza o automóvel, a indústria cinematográfica está dizendo, subliminarmente, que acontece, de fato, o inverso: o homem se automatiza e passa a se relacionar cada vez mais com a máquina. As outras pessoas deixam de ter importância, passam a ser descartáveis e hostilizadas.
        
Talvez seja por isso que os homens são tomados de amores por seus carros. Para tornar ainda maior o poder de sedução, os automóveis são, todos os anos, repaginados com um novo figurino e designer. Modestino pede àqueles que duvidam de suas palavras para analisarem com cuidado a publicidade que fala de automóvel, digam se ele está exagerando em sua crítica.
        
Modestino também considera, usando de sua psicologia rasteira, que, quando o carro é novo, seu cheiro provoca emoções tão fortes que pode levar uma pessoa ao desmaio – caso que aconteceu com um parente. Ele se pergunta por que a indústria de cosméticos ainda não produziu uma loção com a fragrância de carro novo. Já imaginou uma loção com aroma de uma Ferrari 599XX ou de um Bugatti Veyron Superesport? Seria o maior sucesso, como era – em tempos antigos, quando a mulher não havia se emancipado – o cheiro de gasolina. Após alguma reflexão, Modestino descarta essa possibilidade, com a lembrança do romance “O Perfume”, de Patrick Süskind, onde a produção de uma essência capaz de despertar nas pessoas sentimentos de amor e de paixão acarretou trágicas consequências. Quanto à gasolina, nas cidadezinhas do interior, era costume rapazes passarem um pouco da dita por trás das orelhas, antes de irem para o jardim da praça. Naqueles tempos matusalêmicos, conforme lhe foi repassado por seu bisavô, outra coisa que atraía a atenção das mocinhas era batina preta de padre. Mas isso já é assunto que está fora de questão.  

Etelvaldo Vieira de Melo

EM MEIA HORA

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- Passo a limpo uma vida.
- Calo o bico do gás.
- Lavo o corpo e a alma.                                  
- Como o pão que a empregada amassou.
- Faço a torre de papel.
- Ligo a Internet e o E-mail.
- Resisto ao vão suicídio.

ENSACANDO O SACOLÃO

    Sacolão é aquele estabelecimento que, entre outros, vende verduras, legumes e frutas. O termo passou a ser usado quando os comerciantes do gênero começaram a vender tais produtos, com algumas exceções, a preço único, com valor convidativo. Logo, logo, quase todos os produtos foram para o campo das exceções, o que fez com que a regra se tornasse, essa sim, exceção.
        
Fato similar aconteceu com as lojas de R$1,99. Hoje, quando você entra em uma dessas lojas, tal preço só é encontrado em produtos que são a sucata da sucata. Tanto em um caso como no outro, o que verificamos foi a esperteza de artistas em engambelar a plebe ignara. No caso dos sacolões, certos produtos atingiram o patamar de primeira linha e nunca mais foram rebaixados, como o inhame, a banana e o quiabo. Outros oscilam, numa gangorra, que assusta e diverte. O chuchu, por exemplo, é um vegetal, vamos dizer, vagabundo, que não tem gosto de nada, a não ser quando cozido à moda de “chuchu beleza”, uma especialidade do amigo Raimundo e que se tornou, mais tarde, Santiago.
        
O chuchu tem, em geral, uma cotação baixa, vendido a preço de sacolão. Entretanto, existem momentos em que ele atinge preços estratosféricos. E não é que, nessas ocasiões, o desejo de comer chuchu fica aguçado? Quem vai entender e explicar o funcionamento de nossos dois cérebros...
        
A banana da espécie “prata” subiu e nunca mais perdeu sua dignidade. Logo, essa história de “dar uma banana” ou aquela outra de dizer que determinado produto é vendido “a preço de banana” mudaram radicalmente de sentido. Se alguém fala: “Estou dando uma banana pra você”, não entenda como ofensa, pois ele pode estar lhe fazendo um elogio; se outro fala: “Este produto está a preço de banana”, pode estar querendo dizer que o tal produto está caro.
        
A ida a um sacolão de bairro popular, o que não é lá essas coisas, requer paciência e análise cuidadosa do que se pretende comprar. No meu caso, quando vou a um supermercado, também demoro, pois, além de confrontar preços, tenho que alisar as latas e suas bundinhas, evitando, assim, comprar alguma amassada.
        
No sacolão onde faço minhas compras, “gigante no nome e pequenino nos preços”, noto muitos frequentadores com problemas de vista, sendo que vários já utilizam óculos. Talvez isso se deva ao fato de que os produtos à venda necessitem de exame minucioso, pois, caso contrário, a gente acaba levando gato por lebre.  Talvez seja por isso que, no quadro de avisos do estabelecimento, existe um cartaz de propaganda de exame de vista em sala das proximidades e a preço módico.
        
Pelo que andei falando, você deve estar pensando ser cansativo como uma maratona o ato de fazer um sacolão. Realmente, posso dizer que sim, mas não fique preocupado em demasia. Caso venha a esbarrar por essas bandas e tenha que se submeter a isso, terá uma agradável surpresa, que irá lhe amenizar a dor: o dono do estabelecimento, cada vez mais rico, mais estribado, logo nos primeiros contatos, estará lhe cumprimentando, apertando sua mão. Ele irá falar assim, o que deverá enchê-lo de orgulho:
        
- Bom dia, chefe. Tudo bem com o senhor?
        
Melhor do que isso, só mesmo ir ao Mercado Central da cidade e, depois de comprar queijos e doces, ouvir a vendedora, toda apetrechada, perguntar:
        
- Mais alguma coisa, querido?
Etelvaldo Vieira de Melo

            

ENQUANTO O SONO NÃO VEM


AS APARÊNCIAS ENGANAM

Folheando uma revista de dois anos atrás, li uma nota curiosa. Uma atendente de caixa de um supermercado na Inglaterra se recusava a vender uísque para uma senhora de 92 anos de idade. O motivo? A senhora não portava documento que comprovasse sua idade. A velhinha disse para a moça: “Filhinha da vovó, olhando pro meu rosto e minhas rugas, não dá para perceber que tenho mais de 18 anos?” Ao que a moça retrucou, singelamente: “Aparências são como rótulos de uísque, muitas vezes enganam”.
           
Diante de tal notícia, lembrei-me daquela máxima latina “Dura Lex, sed Lex” – a lei é dura, mas é lei – que era do domínio popular, mas que, diante de tantos abusos, tornou-se artigo de museu, perdeu seu sentido. Não foi aqui no Brasil onde alguém disse que temos excesso de leis, que o problema é aplicá-las? Isso me faz considerar que uma nova versão dessa máxima, MD/Br2014, poderia ser: “A lei é dura, é lei, mas podemos negociar”. Fernando Sabino, comentando sobre essa máxima, dizia: “Para os pobres, é dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Para os ricos, é dura lex, sed látex. A lei é dura, mas estica”.
           
Depois, considerei que não disponho de neurônios suficientes para entender outras culturas, notadamente a inglesa. Aqui no nosso país tupiniquim, qualquer garoto, assim que aprende a soletrar algumas palavras, pode ir a um boteco comprar uma garrafa de cachaça.
           
Numa terceira consideração, lembrei-me de um amigo que, estando em visita ao Museu do Louvre, foi logo dispensado de entrar na fila, sem ter que apresentar documentação, ele que dispunha de pouco mais de 60 anos. Chego a considerar que essa dificuldade em reconhecer a idade das pessoas seja mais próprio das mulheres. Eu mesmo, que, absolutamente, não aparento meu tempo de vida – especialmente quando estou de boné – nunca tive que comprovar nada para usufruir de algum benefício. Observo, entretanto, que isso ocorreu quando era atendido por um representante do sexo masculino. Quando era uma mulher a me atender, muitas vezes tive que reclamar meu direito. Tudo isso me faz perguntar: será que idade é um problema na cabeça das mulheres?
           
Sei não. Sei que essa história de que as aparências enganam tem um fundo de verdade.
           
Quando estudava num internato, observava adolescentes com hormônios explodindo por todos os lados. É o que acontecia com Doroteia, sobrenome do José e com o qual era conhecido. Foi ele que, querendo dar uma de esperto, aproximou-se de Geutiliano Amendoeiras, conhecido como Maria Mole – numa alusão àquele doce tremeliquento, tido e havido como um bocó, um palerma – e, julgando que seria moleza, lhe propôs que fizessem “aquilo”.
           
O outro concordou, com a condição de que ele fosse primeiro. Quando chegou a hora de inverter os ponteiros, Maria Mole não quis de jeito nenhum.
           
A partir de então, Doroteia perdeu o moral frente os colegas, virando motivo de chacota. Todos diziam:
           
- Que vergonha, Doroteia! Logo para o Maria Mole...
           
Tem razão a moça lá do supermercado inglês. O cinema não mostrou Brad Pitt velhinho? Com essa história de plástica, vai que uma mulher queira ter uma aparência mais idosa... Estou vendo que, neste mundo doido de hoje, tudo é possível.
           
Qual bólido de Fórmula 1 (mas sem ser pilotado por um desses brasileiros de ultimamente), aproveitando carona no vácuo desta história inglesa - agora que estamos em período eleitoral e minha caixa de correio anda cada vez mais entupida de “santinhos”, cada qual mais angelical que o outro – fico imaginando um possível diálogo com um político:
           
- Vim pedir seu voto – fala ele, apertando minha mão com a sua cheia de dedos, dando-me um tapinha nas costas.
           
- Mas como posso dar o meu voto para você, assim no escuro?
           
- Ora, eu passei pela lei da Ficha Limpa...
           
- Essa lei da Ficha Limpa está uma verdadeira peneira furada. Tem político de passado tenebroso e respondendo a processo, liderando intenção de votos para governador em vários estados.
           
- Mas, então, o que posso fazer para ganhar seu precioso voto?
           
- Por acaso você dispõe da CH, Carteira de Honestidade?
           
- Xiii..., obter essa carteira está mais difícil do que o Brasil se recuperar moralmente da derrota para a Alemanha por sete a um no futebol.
           
- Já que é assim, você pode brigar até a morte por uma reforma política em nosso país?
           
- Meu querido, se for atender a seu pedido, estarei cortando em minha própria carne. Veja que a classe política é formada por raposas velhas, a maioria de fato e outros por vocação; assim, como macacos velhos, não vão querer meter a mão nessa cumbuca de uma reforma. Mas qual é mesmo o seu nome?
           
- Eu me chamo Ingenaldo.
           
- Pois, então, seu Intrevaldo, nem que você cozinhe a galinha e beba o caldo. Só quero lhe dizer uma coisa, mas que fique entre nós: como político, estou lá no Congresso para defender o meu e os interesses daqueles que injetaram dinheiro em minha campanha, grandes corporações - na verdade. Além disso, o sistema que aí está atende os nossos interesses, sem contar os urubus e as hienas, que também levam seus petiscos.

- É lamentável ouvir suas palavras – concluiu Ingenaldo, com voz embargada. – Contudo, tenho que continuar correndo atrás de meu sonho, ou então terei que mudar meu nome. O slogan de minha campanha será: Ou o Brasil faz uma reforma séria, acabando com esse Sistema Político – e isso é uma verdade inegável - ou esse jeito de fazer política vai comprometer o futuro do Brasil de maneira irrevogável. E o meu nome é In-ge-nal-do.

Etelvaldo Vieira de Melo

O ANIVERSÁRIO DE CLARA (FINAL)

Parabéns pra você
Nesta data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida.

- Sopre as velas que estou fotografando!
- Faça um pedido.
 - Quero ganhar um skatenet.
 - Não pode falar. O desejo é segredo.
         - Tá bem. Vou pensar. Agora vou distribuir os docinhos. Quer um bombom, Mimi?
           - GATA NÃO COME BOMBOM!
           - Não vê que é tudo de brincadeira?
           - Ah, é mesmo. Mimi gosta.
           - Mamãe, vai experimentar minha torta?
           - Que delícia. Dê um pedaço para a vovó.
           - Obrigada, Clara.
           - E você, Lucy? Quer mais um doce?
           - Outro.
           - Coma o bolo, mamãe.
           - Obrigada.
           - Podem pegar os balões, tem muitos por aí.
           - Papai quer um brigadeiro, o desenho e os apitos.
              - Vamos dançar. Cante em inglês, Clara.
           - I Love you, oh, oh, I Love you. Mude o disco, papai. Cante também, Lucy.
           - I Love you, I Love you.
           - ESTÁ NA HORA DE DORMIR.
           - Então, vamos dar as lembrancinhas, bonecas.
           - Eu quero os retratos da festa.
           - Podem deixar. Vou passar por e-mail.
           - Tiau, Ana Clara.
           - Volte amanhã, Lucy.
           - Boa noite, Clara.
           - Boa noite, urso Panda.
           - Até amanhã, princesa.
           - Até amanhã, Miau.                                  
Imagem: www.fotosimagens.n






- Direto para a cama!
- Amanhã tem natação!
- Primeiro vou tomar o meu leite com Nescau
- Taqui, filha.
- Boa noite, vó.
- Boa noite. Durma bem.





O CÃO QUE NÃO PODIA VER O PÁSSARO QUE NÃO PODIA VOAR


O
 meu nome é Thor. Não sou nenhum deus da mitologia nórdica, nem personagem de quadrinhos; sou um cachorro. Se fosse para olhar sob a perspectiva humana, a história de minha família é pra lá de complicada.
           
Pra início de conversa, meu pai é também meu avô, já que, ao mesmo tempo em que engravidava minha mãe, também colocou minha avó de barriga prenhe. Conclusão: tive quatro irmãos por parte de mãe e quatro por parte de avó e que, por isso, eram também meus tios.
           
Já minha avó era também minha madrasta, por parte de pai. A única que ficava sem tirar nem por era minha mãe, que era minha mãe – mesmo que a olhasse por todos os lados.
           
Com tantos irmãos e tios, minhas primeiras experiências de vida foram o que os humanos chamam de “balaio de gatos”, ou seja, vivi momentos de muita confusão. Tive que disputar, a tapas com os parentes, ora as tetas de mamãe, ora as de vovó. Como eu era muito esperto, sempre acabava me dando bem. E não tinha esse negócio de respeito aos mais velhos, já que meus tios eram também meus irmãos e, a bem da verdade, um pouco mais novos do que eu.
           
Tanto mamãe como vovó sempre se mostravam dispostas a doar seus leites, mesmo que fosse para os netos (caso de vovó) ou para os irmãos (caso de mamãe). Evidentemente, os mais espertos conseguiam tirar melhor proveito. Eu jogava nesse time e, por isso, logo fui ganhando corpo, ao tempo que deixava meus irmãos e irmãos-tios para trás.
           
Enquanto estávamos naquela luta renhida pela sobrevivência (e que me fazia lembrar aqueles versos de Gonçalves Dias: "Não chores, meu filho; / Não chores, que a vida / É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos /Só pode exaltar!"), meu pai-avô ficava de longe, observando, mas não querendo se envolver com nada. Era isso que me incomodava em seu olhar, seu jeito de ser. Ele é de uma raça chamada Shar Pei e tem a pele toda enrugada. Seu rosto também é tomado por rugas, o que lhe confere um ar de tristeza e enfado. A qualquer hora do dia em que eu olhava para ele, lá estava ostentando aquele aspecto de cansaço, ansiando por sombra e água fresca. Essa maneira de olhar provocou em seu dono, eu ouvi, o seguinte comentário:

           
- Quando olho para Zau, sou tomado por profundas questões metafísicas: Afinal, quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Qual o sentido de tudo isso? Será que vale a pena viver?
           

Se fosse humano, os médicos haveriam de prescrever-lhe uma dose diária de antidepressivo.
           

Sei que carrego muito dele como herança genética. Sinto que, fisicamente, somos até parecidos um pouco (tenho até mesmo a língua azul-escura), embora, enquanto filhote, eu seja muito mais charmoso. Quanto ao aspecto psicológico, fico torcendo para que a herança genética seja de minha mãe, uma cadela vira-lata, mas que tem muito bom humor e alegria de viver.


Enquanto conto esta pequena história de vida pra vocês, muita coisa anda acontecendo, sendo a principal ter sido adotado por um casal, o senhor Florêncio e dona Rosália, e, assim, acabei me afastando dos meus parentes.


No início, foi difícil suportar a separação. Por duas noites eu chorei, achando que havia sido abandonado.


Ultimamente, sinto-me bem adaptado à nova situação de vida. Eu me dou bem com todos da casa, em especial com a filha do casal, a Margarida. Todos brincam comigo. Sinto um prazer especial em roer aqueles ossos vendidos em pets-shop. Também gosto de mordiscar uma bolinha e correr atrás de uma garrafa de refrigerante. Um cobertor - que eles chamam de “são vicente”, daqueles doados para asilos - era usado para forrar minha cama, mas sofreu tanto comigo, que acabou todo estraçalhado. Tornou-se, também, um de meus brinquedos favoritos. Dias desses, recuperei outro brinquedo favorito e que andava sumido: uma tira de sandália havaiana, cortada por meus afiados dentes.


Uma coisa de que eu gosto, mas que está errado, é mordiscar as plantas que estão no quintal. Vez por outra, acabo me esquecendo disso e arrebento muitas plantas, o que causa um desgosto enorme em dona Rosália. Sei que, quando me tornar mais velho, vou acabar corrigindo esse meu defeito de caráter.


Outra coisa que tenho a dizer tem a ver com aquele passarinho que não podia voar, o Pti-Pzi-Pti. Eu sabia muito bem de sua presença no quintal, só fingia não me dar conta. Ouvi as pessoas da casa comentando o fato de ter ele, finalmente, conseguido voar. Torço muito para que ele seja feliz; gostaria que aquele seu sonho de que éramos amigos tivesse sido realidade. Achei bonita a lição que ele e seus pais deixaram.


Eu me sinto assim também, feliz por ter sido adotado por esta família que me quer tanto bem. Quando algum deles, depois de brincar comigo, tenta entrar para a cozinha da casa, logo eu abraço uma de suas pernas, pedindo para que não vá embora.


Esta é uma das maneiras que encontro para demonstrar carinho. Se tem algo que posso ensinar para os humanos, esse algo se chama reconhecimento. Carinho, respeito e reconhecimento são valores que andam fazendo falta aos humanos. Pelo menos, é isso que tenho ouvido as pessoas comentarem aqui em casa.


Quando eu crescer e tiver mais experiência, poderei, se vocês quiserem, fazer outras considerações sobre o que a vida me ensina. Por enquanto, é só o que posso dizer. Adeus. Assinado: Thor.