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| Ivani Cunha |
UMA LIÇÃO
| Imagem: facebook |
A notícia da morte do ex-presidente do Peru Alan Garcia me deixou
chateado por uma série de razões.
A primeira delas, vamos dizer assim, é de natureza etimológica ou
gramatical. Os jornais do dia 17 de abril de 2019 noticiaram que Garcia havia
“se suicidado”. Ora, eu não dava conta que o verbo suicidar flexionava assim
com esse “se”. Pensava que quem suicida está naturalmente se matando, não pode
estar suicidando outra pessoa. Eu acreditava que dizer “se suicidou” é estar
praticando um pleonasmo, tipo “entrar para dentro” ou “subir para cima”. Para
mim não faz sentido esse “se”.
Mas isso não vem ao caso, como haveria de dizer um ex-juiz, atualmente
ministro empenhado em armar a população e baratear o preço dos cigarros. Quanto
ao fato, não faz sentido a morte de Garcia em si. Suicidar-se em defesa da
honra é coisa de japonês, nunca de latino-americano. Causou espanto o
ex-presidente dar um tiro na própria cabeça.
Alan Garcia tinha 69 anos de idade. Ele era um dos quatro ex-chefes de
Estado do Peru investigados sob a acusação de terem recebido suborno da
construtora brasileira Odebrecht. Governou seu país como um nacionalista de
1985 a 1990; de 2006 a 2011 ganhou um novo mandato, onde se reinventou como um
defensor do livre mercado. A acusação que pesava no seu ombro foi a de ter
recebido US100 mil da construtora brasileira.
Alan Garcia deixou uma carta-testamento onde garante: - “Não houve nem haverá contas nem propinas”.
Disse mais: - “A história tem
mais valor que qualquer riqueza material”.
Essas suas palavras mostram como ele está num nível diferente dos
demais políticos, notadamente dos brasileiros. Um senador de nome Major Olímpio
(PSL, SP) – aquele mesmo que apresentou a brilhante sugestão de que professores
e funcionários das escolas fossem trabalhar armados - queria que o gesto de
Alan Garcia fosse copiado pelos políticos daqui (“Tomara que essa moda pegue no Brasil”). Isso não é possível, pois
vergonha, hombridade, honradez e senso de história são atributos que não fazem
parte do caráter dos políticos tupiniquins. Se políticos tidos e havidos como
corruptos dessem fim às próprias vidas, teríamos uma carnificina geral,
sobrando poucos, muitos poucos dos íntegros e honestos.
Alan Garcia disse mais em sua carta: - “Deixo o meu corpo como uma amostra do meu desprezo aos meus
adversários”. E arrematou: - “Neste
tempo de boatos e ódios repetidos, que as maiorias acreditam serem verdadeiros,
vi como são errados os procedimentos para humilhar e não para encontrar
verdades”.
Dói ler essas palavras e ver como o ambiente político é corrompido e
podre. Dói perceber como delações desonestas podem ser injustas e levar até à
morte (talvez o caso de Garcia; certamente o caso de Luiz Carlos Cancellier de
Olivo, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina).
Muito podemos aprender com Alan Garcia e sua dramática história: o amor
à verdade, sentimentos de vergonha e honradez, o cuidado com acusações levianas
e baseadas em prêmios. Para o Major Olímpio podemos dizer: nossos políticos não
precisam dar tiros em suas próprias cabeças; o que eles precisam é aprender o
sentimento de vergonha na cara, isso sim.
Para mim, tem mais: o fato ocorrido no Peru mostra que essa construtora
Odebrecht tem que sumir, desaparecer, ser riscada do mapa. Antes, ele precisa
recontar toda a corrupção que praticou no Brasil, revelando os nomes daqueles
que, por interesses sórdidos, ficaram encobertos.
Além de Alan Garcia, a investigação sobre suborno da Odebrecht no Peru
envolve outros três ex-presidentes, entre ele Pedro Pablo Kuczynski (mais
conhecido como PPK), acusado de ter recebido quase cinco milhões de dólares de
suborno (Garcia se suicidou por causa de 100 mil), enquanto era ministro de
Alejandro Toledo (2011-2016). PPK havia renunciado em 2018, quando sofria uma
ameaça de impeachment.
A lembrança de PPK vem a propósito de sua entrevista para uma revista
brasileira, em fins de 2016. No início, ele quis saber sobre o combate à corrupção
no Brasil, perguntando se estavam “limpando tudo”. Quando questionado sobre a
disparidade entre ricos e pobres, disse: “A
ideia de que o comércio causou miséria e desigualdade é falsa, mas o que
importa na política é a percepção. Uma pessoa pode ir a uma favela e do outro
lado do muro ver uma mansão de bilhões de dólares na qual o dono tem uma
Ferrari. Isso é ruim. Para evitar esse tipo de coisa, as altas classes deveriam
dedicar-se um pouco mais ao serviço público, e não a fazer alarde de sua
prosperidade”.
O que PPK demonstra: ele não é contra a desigualdade social, mas ela
precisa ser maquiada para não dar tanto na vista. No seu modo de entender,
talvez com muros mais altos a tal da percepção possa ser ainda melhor. Estando
agora preso, talvez ele se dê conta de que nada é mais acertado que o ditado
“não há como um dia após o outro”. Como bem diz o ditado, o Peixe Político
Korrupto morre é pela boca do bolso.
Etelvaldo Vieira de Melo
JESUSA ENTRE DOUTORES
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| Imagem: brasildelonge.com |
Respondendo
ao agravo dos moradores, comparecemos ao BHTRANS quatro homens e eu, a fim de
reverter o trânsito de nossa rua EUA. Faz dois meses, somos incomodados pelo
barulho, poluição, perigo, no tráfego anteriormente justaposto aquém-logradouro. Chegamos ao
local. Somando, havia no recinto doze magistrados, e a mulher que vos fala. Iniciou-se
logo intensa discussão a respeito do tema. Observei, entanto, que nenhum membro
forte deu por nuestra feminina presença (malgrado minha face maquiagélica bem pintada.).
Paixão, olhares caíam eloquentes sobre companheiros, solicitando adendos,
provas, abaixo-assinados.
Vagava
tempo escoava. A oportunidade de me acrescentar às sugestões sucedia alhures. Esperei,
tomei água, calei o celular. Nada! Permaneci eumente meia hora e trinta entregue
às curiosas baratas. Então, à frente do espelho, passamos dedo em batom
manchado, visando a concertar Stella
Matutina.
Ah, fera
ferida! Referendei-me sob numerosos títulos acadêmicos, expliquei-me condômina
do Edifício Amaralina, referi-me ao transtorno vital após tão relatado movimento
(súbito, um déspota esclarecido lançou no ar polegar: Não podemos resolver
problemas pessoais, cara senhora. Precisamos urgente consultar mapas, números, instituições.).
Narizinho
empoado arrebitou-se: Data vênia, pedimos a palavra. Usamos metonímia. Discursamos
em nome do todo. Sofrem conosco a Clínica de idosos, os apartamentos ausentes,
as crianças cruzando o asfalto não sinalizado.
Aproveitou vermelho o ensejo, surgiu
fulgurante no celeste altar. Lembrei-os de Carlota Pereira de Queirós, primeira
Deputada Federal Brasileira. Contemplei-os com dada pesquisa num retrato em
1933. Ostentava charmosa, pronunciei, florido chapéu com estampas competentes.
Dobrava pregas do longo vestido, assentadinha entre duzentos colegas de fraque.
Onde? Na Câmara Federativa. Natural que a foto seja, as melhores são, em preto
e branco. Concluindo, raciocinei em cima, arraZoando: O que o segundo sexo
colocaria em pauta naquela similar reunião? Certamente, esta nossa
argumentação.
Após batidas
na Estados Unidos mais conchavos na assembleia, aproximaram-se desta humilde Ginevra
(It., Rom.), Guinève (Fr.), Ginebra (Port.), Gineva (Arpit., Ing., Hol.), Gineva
(Pol.), Genf (Ted.) ou Gwenhwyfar (Gal.); repetindo: aproximaram-se de nós doze cavaleiros da távola redonda. Eram eles: Rei
Arthur Pendragón, Sir Lancelot del Lago, Sir Galahad, Sir Perceval de Gales,
Sir Bors de Ganis, Sir Bevedere, Sir Tristan de Leonir, Sir Gawain, Sir Lmorak
of Wales, Sir Gahedis, Sir Kay, o Stewart. Todos queriam - deixem disso, deixem
disso! - sem parar par o número de Vosso
Iphone, Plano de Saúde, Escola de Música, Curso atual. Favor, favor, madame, esteja
sempre nesta sua casa, leve consigo minha recolhida flor!
Por
desaforo, mesmo porque o último clown funcionasse de bico no Gran Circo Stewart
CIrkey, eu disse adeus às ilusões. Cantarolei saindo de lencinho PARA NÃO
CHORAR DEPOIS/ EU DISSE ADEUS, tal qual Roberto Carlos César em alto-mar.
Graça Rios
ENGANANDO O GOLEIRO
PRIMEIRAS FAKE NEWS DA HISTÓRIA
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| Imagem: galeria.colorir.com |
Em passagem da Bíblia, no Livro de Gênesis, li: estavam Eva e Adão
vivendo aparentemente tranquilos e felizes no Jardim do Éden, desfrutando de
tudo de bom e do melhor.
Certo dia, caminhava sorrateiramente pela proximidade o Demo, o
Tinhoso, quando pareceu ouvir um suspiro, “Ai, Ai”. Colocando a mão em concha,
aguçou os ouvidos, prestando atenção. O suspiro se repetiu, com certeza: “Ai, Ai”.
O Capeta olhou atento em volta até perceber a presença de Eva, sentada debaixo
de um pé de goiaba.
Sabendo que sua aparência poderia assustá-la, o Coisa-Ruim tomou a
forma de uma serpente. Deslizando sobre gramíneas e folhagens, aproximou-se da
moça. Falou:
- Olá, minha pequena Eva! Como tem passado? – E acrescentou,
confundindo-se um pouco com as palavras: - Bem, e Adão também está bem?
- Estamos bem – falou Eva, dando outro suspiro (“Ai, Ai”).
“Tem coelho nesse mato” (em espanhol: “haber gato encerrado”), pensou o
Cramulhão, inventando a expressão. Arriscando um palpite, disse:
- Vocês devem levar uma vida nababesca (*) aí, cheia de divertimentos e
novidades, não é?
[(*) Pelo vocabulário, dá para perceber que tal diálogo ocorreu há
muito e muito tempo.]
- Até que você se engana, dona Serpente. Aqui eu não tenho tudo o que
quero.
- Como assim?
- Eu não tolero essa rotina de ter de fazer tudo sempre igual, acordar
às oito da manhã e, depois de um lanche frugal, ficar roendo uma romã (quando o
que queria mesmo era devorar uma maçã).
- Como assim?
- Ora, o senhor Deus fez o favor de nos permitir tu-do, menos comer do
fruto daquela árvore. – E Eva apontou para uma macieira carregada de frutos
maduros.
A serpente olhou na direção da árvore, ao tempo em que uma aragem
trazia até suas narinas o aroma inconfundível de maçã.
O Pé-de-Bode - ou seja, a serpente – arregalou os olhos, enquanto
dizia:
- Mas está clara a razão pela qual Ele fez tal proibição: se comerem
daquele fruto, vocês irão ter conhecimento de tudo, serão plenamente felizes.
Serão como o Senhor Deus.
- Tem certeza do que está dizendo? – perguntou Eva, um tanto
desconfiada.
- Absoluta – respondeu o Zarapelho. E falou mais: - Come! Come! Come!
(Tal expressão inspirou um propagandista de canal de TV, especializado
em vendas, a criar o bordão: “Compra! Compra! Compra!”.)
- Mas o Senhor disse que, se comermos desse fruto, haveremos de morrer.
- Que nada! Quando o comerem, seus olhos se abrirão, serão como deuses,
conhecedores do bem e do mal.
Convencida, Eva comeu do fruto, oferecendo um pedaço ao marido que, sem
pestanejar, o engoliu. No entanto, ele o fez com tamanha sofreguidão que acabou
se engasgando. Tanto tossiu que acabou formando uma saliência no pescoço, mais
tarde chamada de pomo-de-adão, maçã-de-adão ou gogó.
Desse relato, algumas inferências podem ser feitas:
- Tivemos aí a invenção da roupa, ou vestuário, usada no início para
cobrir a nudez. Adão (Adam d’Ève) tem o título de primeiro estilista de moda.
- Ali aconteceu também pela primeira vez uma prática que se tornou
comum: o chamado “jogo do empurra” – Pressionado por Deus, Adão joga a culpa na
Eva; esta acusa a serpente. E a serpente? – ela faz o papel do estagiário na
história.
- A sociedade nascente se define como patriarcal e machista: “Seus desejos a impelirão para o seu marido,
e você estará sob o seu domínio” (Deus dirigindo-se à mulher).
- Pero no mucho. Deus falando ao homem: “Porque você ouviu a voz de sua mulher...” Daí, os homens sensatos
passaram a acreditar que deveriam se sujeitar ao comando das mulheres, fazendo
valer o ditado “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
- “Porque ouviu a voz de sua
mulher, comendo o fruto da árvore que eu lhe havia proibido de comer, maldita
seja a terra por sua causa. Tirará dela com trabalhos penosos o seu sustento
todos os dias de sua vida. Ela lhe produzirá espinhos e abrolhos, e você comerá
a erva da terra, comerá o seu pão com o suor de seu rosto, até que volte à
terra de que foi tirado, porque você é pó, e em pó se tornará.” Com essas
palavras, o Senhor instituiu o trabalho, tal como é visto pelo comum dos mortais,
tirando os políticos.
- Finalizando, ao mesmo tempo em que atendo ao título desta. Quando a
serpente diz: “Oh, não! Vocês não
morrerão. Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos irão se
abrir, e serão como deuses, conhecedores do bem e do mal”, ela estava
inventando o que mais tarde seria chamado de “fake news”. É por isso que se
diz: - Quem usa deliberadamente de fake News é porque já vendeu sua alma ao
capeta.
Etelvaldo Vieira de Melo
O XIS DO TEOREMA
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| Imagem: revistacircuito.com |
Recolhi ontem
elementos importantes, querendo expressar ideias sobre duas películas recentemente
assistidas: O Gênio e o Louco (The Professor and the Madman) e O Tradutor. Para efeito onomástico,
chamarei às produções GL e T.
T gira em
torno de um professor cubano (Rodrigo Santoro) sob crise de identidade, ao ter
as aulas suspensas para, obrigado, traduzir do idioma russo mensagens de
crianças vítimas do desastre de Chernobyl (atual Ucrânia), recepcionadas por
Fidel Castro durante a Guerra Fria (1989). Falantes do espanhol, médicos e mães
no hospital, assim, entenderão os pequenos pacientes. Ascensão e queda na
economia da Ilha correspondem à ascensão e queda psicológica de Malin, Dramatis
Persona. Rodrigo e Sebastián Bariusso didaticamente preconizam: Fidel é fiel!
GL, por sua
vez, marca o encontro do Professor James Murray (Mel Gibson) com o Doutor W. C.
Minor John Boorman (Sean Penn), esse último louco, sábio, artista. Planejam, aquele
no ápice, este no calabouço, organizar pesquisando, mesmo condenados
judicialmente, o Dicionário Oxford, acrescentando-lhe dez mil novos étimos
desconhecidos na Inglaterra. Sanidade e loucura tornam-se equívoco social,
quando da obtenção do livro desejado. Permanece o espectador com a incumbência
de perguntar sobre o destino de ambos e suas famílias, sem conseguir prever o
que o Diretor Fahrad Safina encobrirá debaixo de cenas sombrias, chiaroscuras.
O imaginário viaja ao ritmo da obra de Simon Winchester.
“Todo mundo é um gênio. Mas se
você julgar um peixe por sua habilidade de escalar uma árvore, viverá sua vida
inteira acreditando que é estúpido.” Tais palavras de Einstein (1920)
teriam sua recíproca verdadeira na
palavra grega Phármakon, tão ao gosto de Platão. Ela significa ao mesmo tempo
remédio e veneno. Aproveito tais afirmativas, no intuito de conceber certa
visão dos objetos escolhidos. Parto, sim, da premissa do Professor
James
Murray: “Um de nós é o Gênio e o outro, o louco. Mas quem é quem?”.
Eis a indistinção
épica entre GL e T, quanto à narrativa
histórico-política. T parece surpreender
a plateia, através do entusiasmo e eloquência durante a chegada de Mikhail Gorbachev
a Havana. Crianças embandeiradas, flores, risos, comemoram a esperteza dos líderes
russo e cubano, na colorida cena inicial. Então, advém a sequência de
prosperidade do casal Malin/ Yoandra, junto ao filho Javi. A fartura no
supermercado, a felicidade da família, o conforto da residência, equivalem à elocução
do Castro. Porém, que inferno! O déficit comercial esvazia
progressivamente os cofres da União Soviética, conduzindo-a à eventual falência. A URSS
entra em colapso (1991) com a chegada de Boris Yeltsin ao poder, após um fracassado golpe que tentou derrubar Gorbachev,
revertendo-lhe as reformas.
Consequentemente, Malin embebeda-se, machuca o braço, cai
da bicicleta, consciente de não fazer o suficiente pelos internos de Chernobyl
(aquela explosão do reator quatrocentas vezes mais radioativo que a bomba de
Hiroshima). Idem, pela dor de nada ter a fazer, diante dos cânceres no
hospital, na sociedade, na família separada. Isso é revelado no silêncio e no
chiaroscuro utilizado na história sensível dos Bariusso. Somente a coadjuvante Gladys
ocupa maior tempo de tela, ao tempo da finalização interativa URSS/Cuba.
Sumarizando: Quanto clima de autocontrole, reação aos
problemas, sacrifício da classe média ilhada, faminta! Maricel/Gladys,
excelente atriz/personagem, enuncia a solução para o trauma maliniano: “Ora, procure
o Fidel!”. E o final? Beijos e abraços reconciliadores, imagens sonoras, conforme
o espectador sonolento/ maçado imaginava. Nada de Bicho de Sete Cabeças, Santoro. Comparado com GL, T redescobre o
caminho das Índias.
Loucura igual
genialidade continua até o derradeiro letreiro e número da realidade fictícia
do diretor Farhad Safima. Onde, quando, por que a incongruência reinante?
Persistem na luta, sempre: Minor (fantástico Penn)
enclausurado na letargia geral; James (fabuloso Gibson) às voltas com índices,
signos, termos enigmáticos, processos judiciais. Amor, apenas subsiste o
coletivo, sob a luz natural das tomadas de cenas, a maquiagem, o figurino da época.
Esplendor, somente saber que esse foi o pano de fundo para a construção de uma
ode à língua inglesa por entre homens e mulheres que viveram intensamente suas
vidas no tombar do século XIX.
Suspense: Ser ou não ser didático no Brasil, eis a
questão. Arremate: Politicamente, cubano/canadense versus inglês/mineiro, quem
é quem misturado?
Pois é! Escreveram ‘Lição’, eu li BERDADE.
Graça Rios
MARCAÇÃO
NOVOS CHAVÕES PARA O BEM DA PÁTRIA AMADA BRASIL

Regularmente uma vez por mês, nas manhãs de domingo, a campainha lá de
casa toca. Pelo interfone, vejo que é alguém recolhendo donativos para a
chamada “Campanha do Quilo”, iniciativa de associações espíritas que visa
arrecadar alimentos para pessoas famintas e marginalizadas. Geralmente é um
senhor – alto, usando óculos, de cabelos brancos e ascendência oriental – quem
toca a campainha. Esses dois detalhes, ser alto e de ascendência oriental,
chamam minha atenção. Dificilmente vejo um asiático alto; depois, penso que
espiritismo kardecista não tem muito a ver com a cultura de lá.
Deixando de lado essas suposições, devo dizer que nem sempre atendo as
chamadas. Muitas vezes, falta um macarrão ou coisa que o valha; outras vezes,
sou tirado da cama e fico com preguiça de trocar o pijama e atender ao portão.
Quando isso acontece, peço ao nosso cão, Thor, para avisar, através de latidos,
que não tem gente em casa. Com aperto no coração, vejo pelo interfone o senhor
caminhar para outra residência, com um embornal ao ombro.
Tempos atrás compartilhava a ideia de que “é preciso ensinar a pescar,
em vez de dar o peixe”, ou seja, o assistencialismo não é um bom negócio, mais
prejudica que ajuda. Hoje penso um pouco diferente, sei que não adianta dar a
vara de pescar para pessoas para quem nem existe rio (e muito menos peixe), tal
sua situação de miséria.
Tomado de compaixão dalailamática, aprendi a admirar os espíritas, eles
que ajudam os mais necessitados sem a hipocrisia daqueles que só se lembram dos
pobres por ocasião do Natal.
Geralmente, assim que faço a entrega da doação, recebo uma mensagem
impressa, quase sempre de autoria de Francisco Cândido Xavier. A última se
chama “Legenda” e diz assim:
Se nós pudéssemos
colocar uma legenda na frente de cada conjunto residencial, de cada cidade, de
cada aldeia, de cada metrópole, de cada grande capital do progresso humano, se
nós pudéssemos e tivéssemos bastante autoridade para isso, escolheríamos aquela
frase de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele nos disse:
“Amai-vos uns aos
outros, como Eu vos amei”.
Como o Brasil está se tornando um país assumidamente religioso ((“Brasil
acima de tudo, Deus acima de todos”; “Brasil e Estados Unidos acima de tudo,
Brasil e Es... acima de todos” – em novíssima versão), mesmo renegando o preceito do 5º
mandamento (“Não Matar”), penso que seria interessante fixar legendas com
preceitos bíblicos nas fachadas de instituições espalhadas pelo país. Desse
modo, teríamos faixas dizendo assim:
Nas entradas das igrejas e dos templos: “Não amemos de palavras nem de
boca, mas por ações e em verdade” (1 João 3:18).
Nós pórticos das agências
bancárias:
“Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm” (Hebreus
13:5-6).
Nas Escolas: “A sabedoria
deve ser prioridade em sua vida” (Provérbios 2), mas lembre-se: “A doçura no
falar aumenta o saber” (Provérbios 16:23).
Nos tribunais de Justiça: “Quem semeia a
injustiça colherá a desgraça” (Provérbios 22:8).
No Palácio do Planalto: “Seja forte e
corajoso! Mãos ao trabalho! Não tenha medo nem desanime” (1 Crônicas 28:20).
Na fachada do Congresso Nacional: “Mas ponham à
prova todas as coisas e fiquem com o que é bom. Afastem-se de toda forma de
mal” (1 Tessalonicenses 5:21-22).
No Supremo Tribunal Federal: “Por que estão
dormindo?” (Lucas 22:46).
Nas casas dos brasileiros: “Deus não é como
eu penso. Ele é Amor” (1 João 4:8).
Etelvaldo Vieira de
Melo
DESESPERAR? JAMAIS
Eu sei, Freddy Krueger é o nome de um personagem de filmes de terror
que, “após ser queimado por pais vingativos, passa a atacar adolescentes em
seus sonhos, matando-os no mundo real por tabela” (informações da Dra. Wikipédia).
Ao longo de horripilante série de 9 filmes, foi responsável pela perda de sono
de muita gente. Inspirados na sua frase “é
melhor você não dormir e dirigir”, publicitários brasileiros criaram esta
outra: “se beber, não dirija”.
(Como se vê, no mundo na fantasia, nada se perde, tudo se copia).
Pois bem, longe de Springwood, Ohio, em plena selva amazônica, teve um
bebê que, mais tarde, também iria receber o nome de Freddy Krueger. Já em seus
primeiros dias de vida, foi esse Freddy tupiniquim arrancado dos pais e levado
em cativeiro, junto com mais seis irmãos. Sua mãe reagiu bravamente, avançando
contra os saqueadores, mas um tiro na cabeça a deixou arrebentada no chão.
Depois disso, as lembranças de Freddy se tornam imprecisas. Acha que
foi jogado numa espécie de gaiola junto com os irmãos; em seguida, foram parar
num lugar escuro. Ali, começou a sentir enjoo, com a sensação de que estavam
num barco, com ondas balançando de lá para cá, de cá para lá.
Quando o balanço parou, viu a gaiola ser tampada por uma espécie de saco
de aniagem. Daí para a frente, o sentimento que experimentou é que estavam
rodando por estradas, ora de chão, ora de asfalto. Aí, perdeu a noção de tudo.
Quando voltou a si, viu que estava na cozinha de uma casa. Estava só,
nem sinal de seus irmãos. Pessoas falavam aos gritos, com palavrões e risos. Um
homem se aproximou de Freddy, seu hálito fedendo a cachaça.
- E aí, seu bebê chorão, espero que me devolva cada centavo que gastei
com você – falou, enquanto jogava um prato de comida dentro da gaiola.
Freddy olhou para o prato com nojo. Era uma espécie de canjica. Mesmo
com o estômago embrulhando, comeu aquela gororoba, pois se sentia faminto.
A partir desse dia, a vida de Freddy virou uma rotina de muitos
sobressaltos. Seu “padrasto”, de nome Jasão, além de beberrão, traficava
drogas. A casa era frequentada por toda espécie de gente: viciados, “mulas”,
prostitutas. Ali o dia começava tarde, mas não tinha hora para acabar. Freddy,
com uma corrente presa no tornozelo, ficava mais na área em frente à casa, ouvindo
as conversas, os gritos, as risadas. Jasão tinha o costume de embriagá-lo para
que ele “soltasse a língua”. E o que Freddy falava era só palavrão, o que fazia
todo mundo rir. No entanto, de vez em quando o clima ficava alterado, com
sopapos e até tiros.
Numa das frequentes confusões, apareceu a polícia. Houve intensa troca
de tiros, um deles resvalando no rosto de Freddy. O resultado ele ficou sabendo
depois: cego do olho direito e nariz deformado. Depois da batida, ele foi
levado pela polícia até uma instituição.
Ali sua vida mudou para melhor. Mas as sequelas de sua história ainda o
marcavam. Freddy continuou agressivo e violento. Só falava palavrão, quase
igual aquele astrólogo, tido como guru de muitos políticos, como é o nome dele
mesmo?
Em conversas, o diretor da instituição, que gosta muito de Freddy,
costuma dizer:
- Esse aí é muito vida louca. Com tudo o que lhe aconteceu, não sei se
é muito azarado ou muito sortudo.
O diretor começou a falar isso depois que a instituição foi invadida no
dia 16 de abril, numa plena terça-feira. Três pessoas armadas “adentraram ao
local” (segundo relato policial), renderam o guarda e sequestraram Freddy e um
seu companheiro, além de roubarem um botijão de gás. Semana antes do roubo,
Freddy havia apresentado um ferimento na perna. Ele não falou nada, mas
funcionários da instituição desconfiaram que podia ter sido por uma mordida de
cobra pequena, não peçonhenta.
Com tantas desavenças, não é que Freddy Krueger acabou voltando dois
dias depois do sequestro?
Ao fim e ao cabo desta narrativa, é preciso dizer:
- Freddy Krueger é apelido; o nome verdadeiro do adolescente é Lourival
Pittuco – o apelido decorre de seu gênio truculento, agressivo.
- Apesar da deformação no rosto - consequência do tiro, que o deixou
cego do olho direito e lhe tirou um pedaço do nariz - Freddy se alimenta bem,
“tem uma saúde de ferro”, comenta Ilair Dettoni, o tal diretor da “instituição”.
- Este texto se baseia em fatos, relatados pela Folha de São Paulo, do
dia 29/04/2019. A reportagem é assinada por Raphael Hernandes. O título: “Papagaio que leva tiro, mordida de cobra e
foi roubado volta sozinho para zoológico”.
- O zoológico é da cidade de Cascavel, na região Oeste do Paraná.
Fiquei sabendo mais: Em 2014, no mesmo
zoológico, uma criança teve o braço arrancado por um tigre quando o pôs para
dentro da grade - o pai do menino filmava a cena. Do mesmo zoológico já
roubaram dois jacarés e araras. No último assalto, levaram um botijão de gás e
dois papagaios - entre eles Freddy. Então, estou sabendo, com essa falta de
assunto que anda me assaltando, é bom ficar bem atento às notícias do zoológico
de Cascavel. Ali é um lugar de fortes emoções, Pittuco que o diga.
Etelvaldo Vieira de Melo
DARCY RIBEIRO, UM MINEIRO EM BUSCA DA IDENTIDADE NACIONAL
Maria da Graça Rios (1)
“Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve.
Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de
antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de
viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma.”
Antonio Candido, Folha de São Paulo
Falar
sobre Darcy Ribeiro é sempre um desafio. Mineiro, de Montes Claros, foi um
incansável estudioso, apaixonado pelo Brasil. De seu arrebatamento e
inquietação com os problemas do povo brasileiro e fascínio pela antropologia
social, proliferaram ideias e projetos que fizeram dele, mais do que um
intelectual, um realizador, uma personalidade atuante na causa pela educação e
cultura brasileiras.
Ele é um homem de causa. E causos. Daí o livro
Maíra, pela salvação dos índios, escolarização das crianças, liberdade. Libertas
quae sera tamen. Teve muitos fracassos, mais que vitórias. Pior seria ficar
ao lado dos vencedores.
Um cruzado, com várias cruzadas na literatura, na
etnologia, na humanidade do coração. Darcy das comunidades tribais, junto à
natureza, aos pássaros, às matas e rios. Nesses mananciais, sonhou projetos de
várias qualidades. Darcy Ribeiro, Uirá Sai à procura de Deus (74), anjo
vestido com a Arte plumária dos índios Kaapor
(57), O
conhecido dos Urubus-Kaapor ,
em Diários índios
(96).
Grande Ribeiro, escrevedor de inglês of
the American Peoples. Antropólogo tenaz, tentando entender
o Dilema da América Latina (78).
Como ficará a modernidade, com as Teorias sobre a Nação?
Os processos de formação e as causas do desenvolvimento são apenas etapas da
evolução sociocultural em 1968 ou em 2015. O jeito é resgatar o Sentido do Brasil (95).
Os romances profundíssimos do autor focalizam o
amor e o óbvio, mas vão Aos trancos e
barrancos (85), por meio de Testemunho
(90) e acabam transformando uma Utopia
Selvagem (82) em esperança de paz e alegria.
O Mulo
(81) e o Migo (88) relatam O problema do Brasil (95), e o escritor
entende que o caminho venturoso só será encontrado quando o homem conseguir
obter Noções de coisas
(95).
O Brasil, todos sabem, é um dos países mais
miscigenados do mundo. Essa diversidade é resultado da contribuição de diversos
povos que formam sua identidade. O que define um povo não é só a demarcação
territorial, mas a “Nova Roma”, expressão de Darcy Ribeiro, carismática e
construtora.
Em sua obra, o cunhadismo, antiga prática
indígena, relaciona os nascidos na Pátria num mesmo laço de sangue. Os homens e
as mulheres, todos são iguais, na mestiçagem, na linguagem importada e local,
na mamãe negra que alimentou e embalou as crianças e que constitui uma imagem
sagrada para o patrimônio nacional. O nheengatu, o tupi, o banto, o iorubá
ficam presentes no português ouvido e escrito pela narrativa do autor e pelos
falantes- leitores de sua inolvidável obra.
Vasta prosa Kadiwéu
(50) ensaia o saber, o azar, a beleza do que há no universo florido e perfumoso
do Senhor.
Então surge, no horizonte de Brasília, a Capital
do país, um Plano orientador de Universidade (62).
Que seja um espaço caudaloso de ensino e aprendizagem, fruto de condições
financeiras e de professores concursados pelo seu conhecimento e pesquisa.
Segue o ribeirão a se dar com suas Propuestas acerca de la renovación (70)
e vai viajando para o Peru, para as Ciências d’Alger, até abranger o conceito de que aqui a Nossa
Escola é uma calamidade. ( 84)
Como chegar à Universidade
do Terceiro Milênio (84)? Visitando e descrevendo O Norte Fluminense (93)?
Andando pelo descaminho (78) até
alcançar a Universidade Necessária
(69)? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, como disse Fernando Pessoa. A
finalidade maior é tomar, com o leitor, um ótimo Café com Sociologia.com (blog com 93.086 acessos).
Para o antropólogo, a contribuição da cultura
negra estaria no plano ideológico de sua obra, na força física dos jovens e
adultos, nas crenças religiosas dos Estados, na gastronomia e na sensibilidade
adquiridas da civilização africana. Os índios igualmente compareceram no
dicionário e nos costumes do Brasil.
No perseverante trabalho do escritor perpassa a
música do vento, dos violinos, dos moinhos tocando milho, do encantamento
auditivo de uma gente que orquestra sinfonias nas palavras de sua boca, mesmo
estando na “ninguendade” dos caribocas, dos caboclos, dos mulatos, dos imigrantes
alemães, portugueses, franceses e outras nacionalidades.
O Brasil crioulo (do litoral de São Luís do
Maranhão ao Rio de Janeiro), o Brasil caboclo (da região Norte com a Amazônia e
os índios), o Brasil sertanejo (do Nordeste, sertão, caatinga), o Brasil
caipira (do Centro-Oeste, Sudeste, São Paulo) e o Brasil sulino (dos Pampas
gaúchos) sempre estiveram na memória de Darcy, em busca da democracia social.
Algum dia haverá o Paraíso?
E a estratificação de classes, e a diferença
entre ricos e pobres, e a concentração da riqueza nas mãos de poucos, e a
desumanização das relações de trabalho, como ficariam lá pelos anos 2016?
Afinal, o povo sempre se reinventa e crise é
sinônimo de oportunidade, em grego. Porque a questão do país sempre passou pela
capacidade criativa dos brasileiros.
Darcy pensava que o investimento na educação
seria a quebra das correntes escravas, o verdadeiro descobrimento de qualquer
nação. Anistiado em 1980, coordenou um Plano Especial de Educação, criou a
Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil. Imagine o leitor deste texto
que Darcy chegou a implantar o Sambódromo, com duzentas salas de aula para
fazê-lo funcionar como uma extensa rede primária.
Para tamanho esforço, pouca recompensa. Mas o que
importa, é que o seu nome atravessará o tempo e já anuncia, no século passado,
que as futuras gerações se lembrarão dele, o DR, doutor das letras e dos
membros da sociedade brasileira.
Sua trajetória sempre esteve próxima às
lideranças dos governos, sendo inevitável sua participação na vida política,
fato que o tornou vulto da recente História do Brasil.
Exilado, preso, nada impediu que continuasse sua
luta pela educação no país e na América Latina. Influenciado por outro grande
educador, o professor Anísio Teixeira, trabalhou incansavelmente para melhoria
do ensino e para a sua universalização.
Sua produção deixou marcas no país. Concebeu e
executou projetos inovadores para a rede pública de ensino. Com uma nova
proposta educativa criou os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), no
Rio de Janeiro.
Também, para confirmar sua presença, foi um sábio
maior, reitor da Universidade de Brasília.
Para tão grande amor, tão curta a vida. O
querubim subiu ao céu, muito doente, e foi ministrar aulas para os santos em
tupi-guarani. Dizem os biógrafos que todos acham muita graça em suas narrativas
e lhe cochicham rindo e sambando que ele nunca vai precisar pedir licença a São
Pedro bonachão para começar suas infinitas pesquisas.
Numa ocasião, indagado por que, a
despeito de todas as condições favoráveis, o Brasil ainda não dera certo,
respondeu que “para superarmos o que nos amarra, é imperioso saber
quem somos, qual a gênese de nossa formação e no que ela resultou.”
Darcy Ribeiro é como seu próprio nome: caminha na
História, com as águas claras do saber.
Obras
consultadas:
Arte Plumária dos índios Kaapor (1957).
Uirá Sai, à
procura de Deus (1974).
O Dilema da
América Latina (1978).
Kadiwéu – Ensaios
etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza (1950).
O Brasil como
problema (1950).
Diários índios –
os urubus-Kaapor (1996 – Companhia das Letras).
Nota: Os números entre parênteses se referem às datas
em que os trabalhos foram publicados
[1]
Mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Autora de 10 livros publicados.
Professora aposentada do Centro Pedagógico da UFMG.
RÁDIO É PURA INVENÇÃO
PÉS DESCALÇOS
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| Imagem: eustaqiotolentino.espinosa.blogspot.com |
Fátima
Fonseca está lançando seu livro “Pés descalços: Infância na roça” pela Amazon,
agora em formato digital. Através de poemas curtos, de mais pura poesia, a
autora faz – assim mesmo, de pés descalços – uma visita aos tempos de infância
na roça, com seus dias compridos, cheios de histórias e fantasias. Um livro
primoroso, que indico vivamente. Através de suas páginas, ficamos sabendo como
o ser humano desaprendeu de ser feliz, abrindo mão da simplicidade, das
alegrias das pequenas coisas da vida.
Pedi a
Fátima que indicasse um poema para ilustrar a publicidade do livro. Ela me
respondeu: - Qualquer um, mas escolha um pequeno, que as pessoas hoje são
preguiçosas.
Contrariando
sua recomendação, escolhi dois dos maiores, que falam um pouco de sua visão do
que é ser feliz.
O link de
endereço está logo abaixo. O preço do livro também é baratinho como a própria
felicidade: somente R$4,99.
A FELICIDADE ESTÁ NA SIMPLICIDADE
Quando eu morava numa casa velha,
telhados com goteiras, quintal com árvores frutíferas, cacimba com águas
brotando nos fundos e vários animais, sonhava com a cidade grande e desejava
morar em um apartamento.
Quando eu tinha bonecas de pano,
carinhas bordadas feitas pelas mãos de minha avó, sonhava com bonecas de louça
com olhos de vidro.
Quando eu bebia água na bica com a
concha de minhas mãos, achava “que bom seria tomar água em taças de cristal”.
Quando eu andava a cavalo e carro de
boi, sonhava com os veículos motorizados, escadas rolantes e elevadores.
Quando eu tomava banhos em rios e cachoeiras,
sonhava nadar em piscinas.
Perdi a conta dos “quandos”, acho-me perdida nesse tempo que vivi querendo
partir, quando tudo era perfeito dentro das imperfeições do meu querer.
Hoje o cerrado não é mais o mesmo
quando ouve os estalos dos meus passos ao regresso sobre as folhas secas.
A felicidade está na simplicidade, mas
é em vão dizer isso: um dia a gente acaba por descobrir.
FELICIDADE
A menina acordava
com remela nos olhos,
cabelos espigados, vestes amarrotadas.
- Uai, menina, cê saiu de um borralho?
- Não! É que a felicidade é assim mesmo,
desalinhada,
moda derramada.
A menina era feliz,
acordava girassolada,
lá fora o dia a esperava
para ser poeira, vento, borboleta.
Correr como quem canta
até o poente cansar,
viver como se aquele dia
fosse tudo que tinha na vida.
Fátima
Fonseca









