BEABÁ DO FUTEBOL
AMIGO DE VERDADE
Temos
o costume lá em casa, e não sei se tal costume é costume em outras casas, de
conversar com nosso cão. Tive esta rápida conversa com Thor:
-
Uuummm... – falei, tentando me aproximar da linguagem canina. O resmungo quis
dizer: - Olá, Thorzinho, bom dia! Passou bem a noite?
-
Uuummm... – respondeu Thor, esforçando-se ao máximo para uma comunicação mais
próxima.
Geralmente,
os cães fazem comunicação visual. É o que acontece com Thor, que dificilmente
se comunica por latidos (a não ser para as pessoas que chamam ao portão).
-
Tudo bem, e você? – falou com os olhos, enquanto abanava freneticamente o rabo
(sintoma de que estava feliz em me ver).
-
Dormi bem, só acordando umas duas ou três vezes, assustado com meu próprio
ronco – falei, recorrendo da mesma forma à comunicação visual.
-
Você precisa cuidar disso. Se, até aqui de minha casinha, sua ronqueira
incomoda, imagina o que devem sentir Percilina e Deusarina, coitadinhas.
(Para quem não sabe, Percilina Predillecta e Deusarina Rebelada são minhas esposa e filha).
-
Nem te conto, Thorzinho; tem vez que meus braços e costas ficam roxos de
hematomas, tantos os cutucões que levo à noite da Percilina – falei um tanto
quanto magoado. – Teve dia em que até pensei em ir a um posto policial
registrar um BO.
-
Pois cuida de resolver esse embrulho – falou o cachorro, olhando para meus
olhos com olhar intenso. – Procure um otorrinolaringologista.
Surpreendi-me
com a fluidez com que ele pronunciou tal palavrão.
-
É o que vou fazer esta semana. Já fiz a audiometria, a vídeo-endos-copia nasos-sinusal
e a vídeo-faringo-laringos-copia.
Enquanto
tentava desenrolar minha língua, Thor perguntou:
-
Tem os resultados parciais?
-
A audiometria acusou uma leve perda auditiva, coisa que eu já sabia por exames
anteriores. Teve um otorrino que, ao se informar de minha idade, comentou: “Por seus quilômetros rodados, você quer o
quê? Conforme-se: está bom demais do
jeito que está”. Conformar até que me conformo; o problema é as pessoas no
meu entorno aceitarem isso. Estou pensando seriamente em andar com uma placa
com os dizeres: “POR FAVOR, TENHA PACIÊNCIA COMIGO. SOU PORTADOR DE UMA LEVE
PERDA AUDITIVA”.
-
Eu é que estou numa boa – falou Thor, rindo com os olhos. – Além de
escutar muito bem, converso com as pessoas usando de comunicação visual. Além
disso, por causa desse “olhos nos olhos”, liberamos oxitocina, o chamado
hormônio do amor. É por isso que cães e humanos se amam cada vez mais. Por que
você não faz o mesmo?
-
Taí, gostei de sua sugestão. Meu temor é de que as pessoas não entendam assim.
Imagina o que pode acontecer: “- O que
foi, ficou lerdo de vez?”; “- Por que está me encarando? Não gosto de homem,
não. Sai pra lá!”; “- O que você está querendo com esse olhar pidão?”. Sei
lá, definitivamente, não dá pra seguir seu conselho. Os riscos de ser mal
interpretado são muitos.
Minha
conversa com Thor foi interrompida bruscamente. Isso acontece nas vezes em que
não consigo manter os olhos nos olhos e acabo desviando os meus, ou dou uma
piscadela. Nesses momentos de perda de sincronia, o olhar de Thor fica
perguntando: “O que você está querendo? Fiz alguma coisa errada? Em que posso
lhe ajudar?”.
Por
essa e por outras, o cão é o primeiro na lista dos melhores amigos do homem.
Agora,
para você que duvida disso, que julga ser eu uma pessoa exagerada, que tem
parafusos a menos no cérebro por dar tanto valor à espécie canina, faço uma
simples pergunta: - Quando você se dignou ter uma conversa tão afetuosa assim
comigo?
SONATA DE OUTONO (1ª Parte)
CAPÍTULO I - DAS HOMENAGENS À PARTE
Começo minha narrativa cheia de saudade.
Minha atual distração são lembranças da vida. Procuro manter o equilíbrio, ante
os chamados de Socorro Urgente do povo na luta com a Flor do Lácio. Sou uma
vovó escritora, estudante de música, professora
aposentada da Federal.
Confinada no apê, penso vira e mexe
nas vividas vívidas recordações.
Meu irmão Jaime (J’aime Jaime), perdi.
Era um virtuose das violas. Aos três, quatro anos, entrava com ele nos
botequins onde se tocava bandolim, violino, flauta. Ele vivia de tanto rir,
enquanto eu, quase neném, morria e ressuscitava de encantamento musical e
artístico.
J. ria rios de lágrimas, me oferecendo uma colher de
conhaque com mel.
‘É para ficar tonta quando eu tocar. Todo mundo neste bar se embriaga quando eu entro no quadradinho de Fá do cavaco ou canto o próprio Nelson Cavaquinho’.
‘Pelo amor de
Deus, não me olhes assim
Vejo nos teus olhos humilhação
Já sei que não gostas mais de mim.’.
Depois, às 20 horas, Sebastião, que eu sempre chamo de manoTão, Jaimiko e eu entrávamos no Circo de Cavalinhos. Amarravam-me as pernocas de bebê no fundo da canoa, tangiam as grossas cordas de sisal, e íamos ouvir harpa, instrumento dos serafins.
PRELÚDIO PRÉ- REQUISITO PARA ESCRAVIDÃO
.............
David, netinho de quatro anos, quando a
guerra ininterrupta entre doença, vírus, partidos políticos, países ricaços,
findar, subirá faceiro:
-
Óila quem chegou! Tem bigadeilo? Manga? Linga de gato? Bicoto?
Colocará na cama em forma de casinha a
mochila ‘de ficar com vovó’ quando mamãe sai com papai. Beijinho-minuto, pulará
no teclado eletrônico, bom entendedor em clicar botões, e pam, pam, pam. Bam,
bam, bam.
Enfim, farto de ‘tocar’, fuçará tudo no
meu escritório. Papéis, canetinhas, desenhos, livros infantis, romances de cem
páginas, por toda parte. Morou no exterior a partir dos sete meses.
-
Tem água? Yogute?
Aos três, lia fluentemente, contava até
dois mil em Inglês, ensinava-me Geografia, na troca da fralda noturna. Férias
no Brasil.
-
A carrocinha pegou... (eu, cantarolando.).
-
...um mião de cacholos de unha veiz.
- The wagon
picked up...
- ...six thousand dogs at once. Ah, ah, ah!
CAPÍTULO II
Ademais, curso o nível avançado na
Universidade onde lecionei. Lamento:
- Ai! Cavaleira da triste figura, combatendo moinhos
de vento, carroças de prisioneiros.
Arquiteta dos castelos e princesas onde há
hotelarias e prostíbulos.
Amante de Dulcineu!
-
‘Por que lamentar, criatura? Você é uma sortuda.’. - Voz em off do leitor.
-
Sucede, querido leitor, que o coronavirus maldito amarrou as coroOnas em casa. Tenho
aulas online às sextas-feiras às oito e meia da manhã.
-Se....
-
Se fico isolada, confinada, finada, extraparada? Eu, hein?
- Se fico triste? Ah, rapaz, tenho companhia. Converso com as plantas, peixes coloridos, tartarugas, passarinhos. São companheiros alegres, tagarelas, tal qual as estrelas do Olavo Bilac. E eles amavelmente me respondem
Camões po a/e mou:
‘E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.’.
Só mudo. Nado dentro da atual
circunstância. F. Pessoa: ‘Navegar é preciso, viver não é preciso.’
Viver nunca teve precisão. É indeciso e perigoso. Navegar pelo mar afora da
tecnologia é preciso. Não há bússola, mas nos aventuramos, naufragamos, emergimos,
sofremos profundos desafios por necessidade. Luto, substantivo e verbo:
sobrevivência no cala-boca do Calabouço Número 19.
(Continua)
Graça Rios
PERFECCIONISMO
U CIRCU DUS LEITÔ
Cê iscritô paiaço di
circu é padecê dus figo sem cumê fígodu.
Tein jente leitãural
ki couá couá couuué ké y reké dus artô daz orba
passienssa gozassãos
kasca gróçias.
Miriveja, sô diretô
Riolbaudo.
Disrepenti, pôza nus
1/2 matto iscriturar 1 bizerro 7 xifre.
Kuzói nuviado, mélê
málê mulê.
Sárbio sabiá,
arsobia-çi simpina se cispinha y mi re lá...
nós pinu, opina.
Anus paiaçado, eça
polichinela iscrevinhemo
1ma corônica viruslenta, mode festejá
TRUÃO VOLUMTARO
no Istituto Braille.
Criemo meta: usemo
metá fora.
Vamo ki vamo,
pratéia,
kids tóira eu manjo.
Arm u spetacro:
Serto templus: inçerto ssego
pasçô a urzá nus óleos, visêra.
Tão pinitente
insdijente invizuar
nunkis + di - nunkis
ô viu ver-te
verdi maleros
lazuli brânkio
INTREVALIU
BUZINASSO NO
PICADÊRO
Marcô çirugia ka
dotora Luzia.
Insseja adispois da
farta du zerzui
nus borçu, arretirá o
grobo osculá + us antóiz.
Vvver á próvidos,
próral, prófussa, próstata.‘
Tein +1 sisnão: Áz bufunfa.
E nem bafano Enem
bestano Enem bufano, Pilim pimpina narjibêra.
O Circu mandemo us
dito pr1 prefessô in Purtugal.
U ditu diz dita
pelus tatu phone:
- Das Letra bufão,
querujudá u nóz cego probis.
5 miliscudu dá? Vem
ká: teu raparigu tomén dá?
- É pôco, lôko luso.
MANDA 7!
- Que iço, paiaço
Xorisso !
Lionardo dá 20, pois,
pois.
E us dado nas meza du
Bancuw
???
- Maria 10 Grassa Rizo
MAIÓ PAIAÇA
CIRCU DUS LEITÔ
Countra Correntis:
20481- 1
Arjença: 000000000 –
0 - 00
- Tu agaranti
kintegra tudas fanfa pru çegu?
- Par lavra de minêro
in mina dimdinhêru.
FOI- CE
KINRIKEI-SI
Graça Rios
UM POUCO DE POESIA, BEM POUCO, QUASE NADA
POUCO
(À moda de Carlos Drummond
de Andrade)
Um pouco de
tudo
De tudo um
pouco
Um pouco de
saudade
Da dor um
pouco
Um pouco de
angústia
- ainda bem
que pouco -
Da lágrima
um pouco.
Um pouco de
vazio
Um pouco de tédio
Do medo
quase muito
Poucas
verdades
Muito poucas
certezas
Quase muitas
mentiras
- quase. -
Um pouco de
alegria
Um pouco de
amor – oh, quão pouco!
Tantos
sonhos que sobram poucos
Poucas
fantasias para os sonhos desfeitos.
De esperança
ainda pouco
Porque não
tem como caber muito
Onde só cabe
o pouco
Um pouco de
tudo
De tudo um
pouco
Pouco muito
pouco
Quase nada.
Etelvaldo
Vieira de Melo
POR QUE PICA-PAU QUEBROU O BICO?
“Pica-pau
quebrou o bico de tanto bicar seu amor.”
Encontrei
esta frase em meio a um texto de estudo. A primeira ideia que me veio à cabeça
foi: - Onde já se viu bicar um amor?
O pica-pau, no máximo, poderia se permitir dar umas bicotas, nunca bicadas, no
seu objeto de afeto.
Depois,
conjecturei: - E se o amor do pica-pau
for uma árvore? Tomado de ansiedade, ele se põe a bicar, tanto e com tal
furor, que acaba quebrando o bico.
Neste
caso, também reprovo sua conduta. Não sabia ele que a pressa é inimiga da perfeição? Por acaso, a escola da vida não
lhe ensinou que, quem tudo quer, tudo
perde?
E
se a árvore em questão fosse daquelas de madeira bem dura, que quebram brocas e
só são perfuradas por pregos de aço?
Sendo
assim, também estaria em desacordo com o pica-pau. Nunca podemos ir com muita sede ao pote, pois cuidado e caldo de galinha nunca fazem mal a alguém.
Mas,
afinal, por que o pica-pau bica a madeira da árvore? Talvez o pica-pau em
questão tivesse pressa em arranjar um ninho, com sua amada em estado avançado
para gestação de uns ovos.
Também
esta hipótese é possível, pode ser que a frase esteja mal construída, com o
autor se esquecendo de um termo. Talvez a frase correta seja: “Pica-pau quebra
o bico de tanto bicar por seu amor”.
Deste
modo, eu não iria fazer nenhum reparo, a não ser lamentar o terrível acidente
que pode lhe trazer sequelas para o resto da vida.
Existe
também a possibilidade de que o pica-pau bica o tronco da árvore em busca de
lagartos e insetos que se escondem em seu miolo.
Neste
caso, teria o pica-pau minha reprovação. Será que ele é tão infantil que não se
dá conta de que o apressado come cru ou
queima a língua?
Estou
vendo que uma simples frase, como tudo na vida, permite infindáveis leituras.
Com este exemplo, poderia me alongar indefinidamente, levantando hipóteses,
tentando entender as razões que levam um pica-pau a quebrar seu bico. E a lição
que tiro daí é que nunca devemos nos precipitar nos juízos de valor. Sem mais
nem menos, eu não posso ficar dizendo que uma coisa está certa ou está errada.
A realidade pode ser bem diferente daquilo que imaginamos.
Sobre
este tema mesmo, estou agora recordando: li em algum lugar que o pica-pau bica
a madeira... com a língua, que é extremamente dura. Sendo esse comentário
verdadeiro, o autor da frase estaria construindo uma figura literária, usando
de uma simbologia? Neste caso, qual seria seu propósito, sua intenção?
Pode
também ser que estivesse fazendo uma brincadeira com seus leitores.
Outra
possibilidade é a de que tenha sido infeliz e, por ignorância, acabou usando
uma imagem despropositada.
Estou
aqui, mais uma vez, perdido em meio a explicações para o simples fato de um
pica-pau ter quebrado seu bico. Explicações que podem me levar a um caminho sem
volta, chegando ao ponto de desmerecer um pica-pau que quebra seu bico ao bicar
seu amor. Um gesto que, afinal, pode ter sido um acidente de trabalho,
mas que também pode ter um sentido poético, ou romântico. Ou erótico, sei lá.
PS:
Para não ser tachado de mineiro, que gosta de ficar em cima do muro, deixo
minha explicação definitiva: O pica-pau, de nome Abelardo, estava dormindo numa
serralheria e sonhava com sua amada, a Heloísa. Durante o sono, trocavam longos
e apaixonados beijos. Pela manhã, ao acordar, Abelardo viu que estava abraçado
a uma barra de ferro e, pior, no chão estavam pedaços de seu bico. Pode parecer
estranho, mas foi esta a explicação mais lógica que consegui encontrar.
LIBERDADE AMORDAÇADA: VOLUME 2 (GLOBALIZAÇÃO TEM DESSAS COISAS)
Sem dúvida, o estrangeirismo
contribui e muito para amordaçar a Liberdade. Junto com a dominação cultural,
ele vai demolindo a identidade de um país, com a progressiva substituição de
valores. O texto original é de 10/11/2012.
Traumas na minha
adolescência fizeram com que eu adquirisse rejeição a línguas estrangeiras,
notadamente o inglês e o francês. E não adiantou nada estudar tais línguas em
cursos regulares: eu simplesmente estava travado para qualquer tipo de
aprendizagem.
Com o inglês,
aconteceu de estar com um grupo de colegas quando pronunciei, não me lembro com
qual propósito, a palavra “Firestone” assim como é escrita. A reação, com risos
e gracejos, foi de tanta intensidade que, a partir daí, nem ousava pensar uma
palavra nessa língua. Quantas e quantas vezes passei diante de sorveterias, com
“água na boca” de desejo para pedir um “sundae”, mas cadê a coragem? E o medo
de cometer outro deslize de pronúncia? Eu não suportava a ideia de que pessoas
rissem novamente de minha ignorância. E, assim, o “sundae” foi jogado para
escanteio, embora sempre estivesse no topo de meus sonhos de consumo.
Com o francês, o
vexame foi mais restrito, mas nem por isso incomodou menos. O vigário da cidade
me pediu para colocar uma correspondência no correio, endereçada a um tal de
Sr. Juneaux. Para confirmar o que havia escrito, me pediu para ler. Li tal
qual, ipsis litteris. Horrorizado, o padre me recriminou: “Você não sabe que,
em francês, ‘eaux’ se pronuncia ‘ô’? A pronúncia correta é, portanto, Junô.” –
E ele me olhou de uma maneira como se eu fosse um caso perdido, e aquele olhar
de recriminação até hoje me assombra nos pesadelos.
O tempo foi
passando, as feridas se cicatrizaram mais ou menos, mas o bloqueio psicológico
continuou, tornando-se mais acentuado com a globalização e a onda de
estrangeirismo que tomou conta do país. Só que me tornei esperto o suficiente
para não pronunciar uma palavra estrangeira, sem que ela passasse duas, três
vezes pelo filtro da audição.
Quando criança,
tive um colega de escola que, por causa de seu nariz adunco, sempre era motivo
de gracejo para os outros meninos:
- Cala a boca
aí, seu filhote de tucano – dizia alguém, quando ele se atrevia a abrir a boca
para falar qualquer coisa.
Apesar das
brincadeiras das quais foi vítima, creio que chegou à vida adulta sem maiores
tropeços. Hoje, seria manchete de jornais: “Criança é vítima de bullying” – com
direito a foto em primeira página e depoimentos de especialistas e psicólogos.
Porque, convenhamos, o termo “bullying” tem seu charme e inspira consideração e
respeito. Mas joga por terra aquela máxima de Nietzsche, quando diz “O que não
me mata, me fortalece”.
Todavia
“bullying” não está só. Na onda de estrangeirismo, aparece uma coletânea
infindável de termos: a expansão da cozinha, a área gastronômica da casa
recebe, hoje, a denominação de “Espaço Gourmet”; a entrega em domicílio se
chama, agora, “delivery”; se você for de carro a uma lanchonete, poderá dispor
do serviço de “drive-thru”, ou então poderá recorrer ao autosserviço, melhor
dizendo, “self service”; para divulgar sua empresa, poderá solicitar, junto a
uma gráfica, a confecção de “folder” – prospecto, no velho e ultrapassado
português. E, para ficar tudo “cool”, é tudo uma questão de customizar as
expressões de acordo com as circunstâncias.
Dias desses (quero
dizer, acerca de oito anos atrás), fui surpreendido pela iminente necessidade
de ir a um “outlet”. Que bicho é esse? – pensei comigo. – Será que morde?
Também pensei na possibilidade de ter que me preparar adequadamente, quem sabe,
ter que me barbear, colocar um terno, passar um pouco daquela loção importada,
Handsome – da Paris Elysees, que meu irmão Jovelino Floreano, o Jojó, me presenteou.
Foi conversando com pessoas, juntando as pontas daqui e dali, que me dei conta
de que o tal “outlet”, no bom e tradicional português, não passava da querida e
velha amiga “ponta de estoque”.
Percebo que esse
avassalador estrangeirismo quebra possíveis resistências de quem gosta de andar
com nariz empinado.
- Onde você está
indo?
- Vou garimpar
algo numa ponta de estoque...
- Que horror...
- Olá, onde você
está indo?
- Estou indo
fazer compras num outlet...
- Ahhh... Que
chique!
E, assim, a vida
vai andando pra frente. Pessoas mais sensíveis ao estrangeirismo já sugerem a
troca do dia do folclore de 22 de agosto – com os ultrapassados Saci-Pererê,
Mula-Sem-Cabeça, Lobisomem – pelo moderno Halloween, ou Dia das Bruxas, em 31
de outubro (abóboras é que não faltam no país).
De minha parte
digo que, se arrependimento matasse, eu já estaria morto e soterrado há muito
tempo. Deveria, na adolescência, ter procurado aconselhamento psicológico para
quebrar o bloqueio com as línguas estrangeiras. Entretanto, não vou ficar aqui
lamentando meus erros, porque quem chora o leite derramado ou é Chico Buarque
ou é bebê com fome.
Etelvaldo Vieira de Melo
LIBERDADE AMORDAÇADA: VOLUME 1 (TERRÍVEL, ASSUSTADOR, PERIGOSO)
-
Cara, você é muito estranho! – falou um sujeito para o outro.
-
Ainda bem – retrucou o segundo. – Eu ficaria preocupado se me considerasse uma
pessoa normal.
Estamos inaugurando uma série de textos
produzidos a partir de 2012, com temas sobre a Liberdade, mostrando como as
pessoas, cada vez mais, deixam de ser “estranhas” para se tornarem “normais”:
indivíduos ajustados, despersonalizados, massificados, coisificados e
confinados em “bolhas”.
O primeiro texto, por coincidência
aquele que inaugura minha participação no blog BBCR (03/11/2012), fala da
construção da base desse novo tempo distópico: os “sistemas”, onde o “Poder”,
camuflado no anonimato, rouba a liberdade e a privacidade das pessoas, moldando
novos indivíduos que aprendem a falar e a reverenciar... as máquinas.
💣💣💣
Abri, calmamente, o boleto com a
cobrança da fatura mensal de ‘minha’ (força de expressão) operadora de telefonia
celular.
Assustado, quase tive um tono
adrenérgico, seguido de uma acinesia. (Estas expressões não faziam parte de meu
vocabulário, mas – por umas e outras razões – tento me aproximar do mundo
médico e seu linguajar.)
Logo, logo, cuidei de ligar para a
operadora, sendo atendido por uma voz eletrônica. Segui os processos
burocráticos até digitar “0” (zero), pois queria conversar com um atendente de
carne, osso e mente racional. A voz eletrônica me alertou para aguardar na
linha após o atendimento, para responder a uma pesquisa de satisfação. Pensei
comigo: “- Que bom! Hoje vou ter um atendimento educado, mesmo que seja por uma
representante do sexo feminino!”. (Antes que as belas virem feras e me atirem
pedras, devo esclarecer que minha insatisfação com as operadoras de
telemarketing tem base científica: 80% delas me tratam com pouco caso ou
grosseria.)
Fui atendido por uma voz masculina.
Expliquei-lhe que a operadora estava me cobrando duas faturas e o meu plano era
de controle, não havendo justificativa para um pagamento em dobro.
Caprichei na argumentação até ficar sem
palavras, mas julgando ter dado conta do recado.
Foi aí que a voz masculina apresentou
uma pérola de justificativa para a cobrança, deixando-me ainda mais
embasbacado:
- Senhor, a cobrança em dobro foi uma
decisão do sistema. Mês que vem a sua fatura será de apenas uma franquia.
- Mas como? – retruquei. Não tem sentido
o sistema me cobrar por um serviço que não foi prestado. É ilógico, ilegal,
imoral.
- Mas, senhor – falou o atendente,
tentando ser educado. (Será que ele
sabia da pesquisa de satisfação?) - Não tem nada a ver comigo, trata-se de um
erro sistêmico. Mês que vem será cobrado apenas uma franquia.
- E quem garante que será apenas uma
franquia? Pode ser que sejam duas, três...
- Não, absolutamente...
- Já imaginou se os sistemas de cartão
de crédito, das empresas de luz e água aderirem à brincadeira? Pelo que estou
vendo, esse tal de sistema tem uma mente complexa e um humor variável.
- Bem, senhor, - falou a voz masculina,
danando-se para a pesquisa de satisfação. – Mais alguma coisa?
- Não, é só, já que você não pode fazer
nada. Vou recorrer à Ouvidoria da empresa e ver se desmascaro esse sistema.
Dito e feito. Acessei o site da
operadora, gastei duas horas com os procedimentos burocráticos mais as
tentativas de identificar o código secreto, podendo – finalmente – registrar a
minha reclamação. Quando cliquei “enviar”, uma última surpresa: - O sistema não
está operando no momento; por favor, tente mais tarde...
Depois do acontecido, fiquei pensando
sobre o tema, chegando a perdoar muita gente que tinha como irresponsável,
bandido e corrupto.
- Os maus políticos são maus não por
culpa própria, mas do sistema político que os torna corruptos.
- Os agentes carcerários são uns
coitados, mesmo quando acusados por suborno e violência. Será que não percebem
que tudo é culpa do sistema prisional?
- Os eleitores nunca, jamais podem ser
acusados de não saberem votar. O sistema eleitoral que é ignorante, impedindo a
escolha dos melhores candidatos.
- A educação no Brasil está caindo aos
pedaços? O país ocupa as últimas posições na escala de investimentos e
resultados no ensino? Claro que a culpa
é do sistema educacional!
Estou vendo que, definitivamente,
deixamos o tempo em que um simples fio de bigode valia como uma declaração em
cartório. Hoje ninguém vale nada, o que conta é o sistema.
Mas eu preciso guardar comigo essas
declarações ou deletá-las. Pretendo digitalizá-las, mas morro de medo de que o
sistema operacional do computador apronte uma pra cima de mim, deturpe minhas
palavras e eu acabe vendo “o sol nascer quadrado”!
P.S. A propósito do Sistema Político: Estamos entrando em véspera de eleição e o
Sistema Político Brasileiro continua o mesmo, quase sempre aquele jogo de cartas
marcadas, onde o que está fora não entra e o que está dentro não sai, aquele
sistema de capitania hereditária que filho recebe de pai.
A República de Curitiba, com sua Lava
Jato, diz que se empenhou no combate à corrupção, mas não moveu sequer o dedo mindinho
para pedir uma reforma do tal sistema, tido e havido como gerador de quase toda
a corrupção política do país. Depois, falam que o brasileiro não sabe votar,
que o povo tem o governo que merece. Meu estômago embrulha ao ouvir tamanha
idiotice.
Etelvaldo Vieira de Melo












