CADA UM COM SEUS MOTIVOS



Confesso que teria dificuldade em dar uma opinião isenta sobre a atual prefeita de Contagem, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Sendo professor aposentado daquela prefeitura, com o salário sempre correndo atrás do custo de vida e sempre ficando cada vez mais distante, eis que sou surpreendido por um amigo com a notícia de que teremos um reajuste fabuloso em nossos vencimentos, com a promessa de que ele será o maior entre todas as prefeituras da Grande BH. Se assim for, eu, que já tinha um monte de simpatia pela nossa prefeita, corro o risco de considerá-la a melhor administradora do mundo.

Exageros à parte, esta constatação vem mostrar que os juízos de valor quase sempre refletem nossos próprios interesses. Perguntado sobre o que significa um ‘país’ para ele, certo indivíduo deu esta resposta: “Não sei o que vocês querem dizer com ‘país’, mas a comida é o meu país. Se crescer arroz no banheiro, lá será o meu país”.

Assim são as pessoas, movidas por seus interesses. Alguns desses interesses são até simples e banais, como aconteceu com aqueles que nas eleições presidenciais de 1989 votaram em Fernando Collor, sob a alegação de ser ele um sujeito vistoso, bonito (alguns outros votaram porque ele disse que tinha ‘aquilo’ roxo, enquanto que houve aqueles que se deixaram seduzir pela lenga-lenga de ‘caçador de marajás’, ancestral de uma tal Lava-Jato). Sendo que ‘beleza não põe mesa’, no dizer do ditado, o resultado de tudo foi um desastre total. Que o diga o jornalista Alexandre Garcia, que fazia então a cobertura do presidenciável para sua emissora - aquela que foi responsável por promover Collor e a própria Lava-Jato. (Bom, pode ser que o AG diga que não foi desastre coisa nenhuma. Questão de ponto de vista, de interesse.)

Estou fazendo estas digressões numa tarde de domingo, com a semana fechando suas portas sob uma temperatura de 28,1°C e umidade relativa do ar de 56% (caso possa dar crédito ao ‘Color Screen Calendar’ que acabo de importar da China). Elas, as digressivas, refletem minha preocupação atual, que é de procurar entender as motivações que levam muitas pessoas a se definirem como eleitores de Jair Messias Bolsonaro, compartilhando de suas ideias e de seus princípios. Tal preocupação se torna complexa na medida em que Jair mantém fiéis seus 26% de apoiadores, apesar do país viver um estado de retrocesso em todas as suas áreas e departamentos.

Por isso, eu não gostaria de me aventurar em conjecturas sobre esta questão. Preferia recorrer ao Instituto Eleuteriano de Pesquisas Aleatórias (IEPA) para colher uma amostragem a respeito. No entanto, por causa do aumento do combustível, acompanhado pelos aumentos da cenoura e do chuchu, o Instituto entrou em período de férias compulsórias. Restou-me a tarefa de levantar as hipóteses e de dar os veredictos.

Assim sendo, vejo que a questão ‘o que leva determinado indivíduo a apoiar Jair Messias Bolsonaro’ pode ser compreendida nas perspectivas objetiva e subjetiva.

Do ponto de vista objetivo, não vejo uma razão sequer que leve alguém a apoiar Bolsonaro. Com mais de três anos de governo, o que assistimos foi a uma derrocada geral. Na Educação, o último ministro cuida de fazer do MEC um cercadinho para atender aos interesses de pastores evangélicos. Saúde? Foram quatro ministros, num quadro de milhares de mortes. A Economia parece que vai bem só para os que investem em paraísos fiscais. Aqui, a inflação dispara, deixando o brasileiro a roer osso. Literalmente. O Meio Ambiente também anda pegando fogo, literalmente. O único ministério que poderia contar alguma vantagem seria o da Agricultura. Mas ele está ali para atender aos interesses do agronegócio e seus agrotóxicos. O povo mesmo assiste a um aumento descomunal dos preços dos gêneros alimentícios. Quem se dá ao trabalho de ir a um supermercado, a um sacolão ou açougue, sabe o que estou dizendo. A própria ministra da Agricultura reconheceu, certa vez, que o brasileiro não morre de fome porque aqui tem muita manga pra chupar (e muita goiaba pra comer, diria outra ministra – a Damares).

Do ponto de vista subjetivo, vamos ver que entre 25% e 30% dos brasileiros parecem satisfeitas com Bolsonaro. É por sua causa que o índice de popularidade do presidente se mantém estável.

Entre tais pessoas, existem aquelas que apoiam Bolsonaro por causa do dinheiro: os militares - que tiveram uma Reforma da Previdência generosa e com seus ‘bicos’ na administração pública, líderes de diferentes denominações religiosas – com as isenções de impostos para suas igrejas/empresas, empresários do agronegócio, representantes do ‘Mercado’ (banqueiros, grandes empresários, especuladores). Além desses, temos também os chamados defensores ‘ideológicos’:  os racistas, os misóginos, os que odeiam pobres, os agressivos e truculentos defensores de armas, os ingênuos que se deixam engabelar por falsas promessas de céu e, por fim, os viúvos e as viúvas da Ditadura.

Assim que o preço do quilo de cenoura vermelha baixar e o do abacaxi mantiver estável, acredito que o Instituto Eleuteriano de Pesquisas Aleatórias (IEPA) voltará a operar. Então, vou encomendar uma série de entrevistas com esses personagens acima.

O amigo LEITURINO pode ajudar, antecipando alguma coisa. Como? Perguntando a alguém que você sabe ou desconfia ser bolsonarista: “Você apoia Bolsonaro? Por quê?”. Pode ser alguém que manifesta vontade de dar tiros nos outros, que chama nordestino de paraíba, pau-de-arara, arataca, cabeçudo; alguém que pensa que ter filha é dar uma ‘fraquejada’; ou acha que ‘pobre não sabe fazer nada’, só serve para votar, ‘título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso’; que manda índio comer capim ‘para manter suas origens’; chama de idiotas aqueles que dizem que é melhor comprar feijão do que fuzil. E por aí vai.

E eu? Eu vou ficando por aqui. Pedindo para você não se esquecer: mande pra mim suas respostas, que meus neurônios andam carentes de inovadoras ideias.

Abraços.

Etelvaldo Vieira de Melo

 


CARTA A UM JOVEM APAIXONADO

 

Meu jovem apaixonado.

Observa.

Se começas a estudar música, tu te tornas imenso, feliz, absoluto, principalmente sozinho. O recolhimento ambiental parte do Concerto palaciano.

A composição da sinfonia silenciosa te arrebata, consola. Leva-te a sentir necessário o canto da solitária alcova.

O instrumento exerce tal sedução e esplendor sobre teu consoante pensamento, sonho, imaginação criadora, elevação espiritual que os anjos invejam-te a doçura da sinfoninha voz.

BTeu gesto manso, a calma de tu’alma, os enternece. Ironicamente, também os enlouquece.

Quando artista, logo organizas o físico, a argúcia mental, a exímia maestria na sensibilidade.

Ao tocares a Tristesse’, de Chopin, uma áurea aura de bondade humana cinge tua fronte. Seguindo-se ao sublime movimento, a força expressiva de Bach tensiona-te em orgasmos múltiplos aéreos sucessivos de alegria e ardoroso frêmito. Ah!

As notas de mil espaços e linhas, dentro/fora da pauta, transbordam-te a vida de riquezas reais, duradouras, fiéis, sábias, inimagináveis.

A dança da folha, o sorriso da lua, a curva do caminho, tudo te traz arrojado clímax febril muito superior às melhores sensações terrenas.

O mistério do sol lá se faz com dó de findar-se em ré a magnitude melódica presente no tempo da pausa.

A partir da experimental primeira partitura (cerca de vinte dias), nada mais te falta. Foges ligeiro do planeta habitado por gente. Queres te encontrar.

Senhoritas e semhoritos infestam o amor com rude desilusão por mais fermosos sejam.

Faltam-lhes o compasso, o tom das colcheias, o palpitar 🎵 da sonora alma.

Quantas lágrimas se derramam por aí afora, à revelia, sugadas pela natureza aRmada daquele ser amado!

A falta no Outro, o rastro, a fenda, o hiato, a hiãncia, a história, transmitem ao amador amaro sabor de incompletude mútua.

Ao contrário, a Arte, essa gata persona feminina, florida, sempre vestida com singelo brilho ou festa estelar; ela, bela donzela, vem e se oferece cálida rosa apaixonada ao contato sensualíssimo do toque amante.

Abre-se toda, lábios, pelos, sumos, pele, vislumbrando o gozo pleno ao simples complexo amplexo ou beijo do saxofonista.

Escolhe, pois, querido, a exata mulher-viola para violarem juntos as recíprocas cordas do coração.

Há um ditado gracioso somente feito para teu deleite e reflexão:

‘Só conhece o eternal prazer másculo aquele que aprofunda sua língua na caverna do bocal das doces flautas’

E, repara:  assim que compuseres tua própria partitura, suave ave canção interior, verás que o céu está ali próximo, mesmo em cima do teu ombro, longe do trom turbulenta tuba arroubo sexual terreno.

Arranja, entre tantas belezas, uma pequenina jovem moça dourada lira. Então, a Deus, adeus, corpos fantásticos de violão sanguíneo e ósseo.

Serena-te. Busca a paz dos violinos.

Carinho. filho.

Graça Rios

EM RESGATE DA VERDADEIRA ORIGEM DE NOSSO CARÁTER


Os dicionários apresentam estes sinônimos para o termo ‘trambique’: tramoia, mamata, mutreta, maracutaia, propina, esquema, falcatrua, negociata, muamba. Sendo assim, trambique é algo assaz frequente no dia a dia do brasileiro. Se formos olhar para os políticos, então, iremos notar que a maioria sobrevive à custa de trambiques. Foi ou não foi maracutaia o esquema das ‘rachadinhas’ praticado pela família Bolsonaro, através do qual 00, 01, 02 e 03 conseguiram aumentar seus proventos, surrupiando parte dos salários de seus funcionários, efetivos ou ‘fantasmas’?

Para o vice-presidente, general Mourão – já disse aqui - ser trambiqueiro, ser malandro, faz parte da índole do brasileiro, por causa de sua herança genética. Ele disse que a trambicagem é legado de nossos ancestrais africanos. O presente texto procura lançar um pouco de luz sobre esta questão, mostrando que a história não é bem assim, que mutreta é herança de nossos ascendentes branquelos, os portugueses, ora, pois. Se não, vejamos.

Antes, porém, todavia, contudo, um adendo. Ingenuamente, eu julgava que a história do trambique no Brasil era coisa de pouco tempo. Claro que tinha conhecimento de um deslize aqui, outro acolá, mas eles eram creditados como exceções de uma regra: o país era limpo.

Em passeio a Porto de Galinhas, no Estado de Pernambuco, tomei conhecimento de um fato histórico que me deixaria com os cabelos em pé, caso ainda os tivesse.

O local era conhecido como Porto Rico, já que usado para exportação de pau-brasil e açúcar, dois produtos que valiam ouro em épocas passadas, no tempo do Império.

Escravos eram trazidos da África para o trabalho nas lavouras de cana. E tudo corria bem, até que o escravismo começou a ser abolido no mundo e o Brasil se viu obrigado a fazer suas concessões – a Lei do Ventre Livre, por exemplo, foi uma delas.

Mesmo quando o furor abolicionista se alastrou, africanos eram trazidos clandestinamente para o trabalho nas lavouras. O artifício usado era acomodá-los debaixo de engradados... de galinhas de Angola.

Quando a carga chegava ao porto, a senha para os senhores de engenho era:

- As galinhas chegaram! Có-cori-cocó!

Confesso que desconhecia esse fato histórico. Não sei se ele é de seu conhecimento. Se for, você deveria ter me avisado há mais tempo, para que eu olhasse com mais desconfiança nossos ancestrais lusitanos.

Enfim, para que esta leitura não seja perda de tempo, acrescento um dado que descobri no passeio. Quando chegamos ao Distrito (Porto de Galinhas pertence ao município de Ipojuca), o motorista da Agência de Viagens que nos transportava fez espalhar entre os habitantes do local: - Novas galinhas de Angola chegaram!

Quando voltamos para casa e olhamos pro espelho, descobrimos como fomos depenados! Tratado como galo de Angola, acabei pagando o pato, sendo espoliado sem dó ou piedade por aqueles que buscam vingança para as humilhações sofridas por seus antepassados.

Diante do que foi dito, que fique registrado para os Anais da História: a pecha de trambiqueiro está mal colocada nos costados de nossos ancestrais africanos; o hábito de praticar falcatrua está em nossa genética por conta dos brancos portugueses. É por isso, tão somente por isso, que o brasileiro sempre quer levar vantagem em tudo, certo?

Etelvaldo Vieira de Melo

 



AS FLORES E ÁGUAS

 


Panaceia / São Francisco

Raiz de padre / Tocantins

Perpétua / Araguaia

PARA-TUDO aquilo que o demolidor da terra canta,

Pois o seu defensor mais alto se alevanta.

Graça Rios


CONFISSÃO DE UM METAMORFOSE AMBULANTE

 

Não querendo ficar na categoria das pessoas alienadas, Eleutério procura, na medida do possível, se informar sobre as coisas relevantes que ocorrem no Brasil e no mundo.

Sendo as notícias numerosas, ele tenta fazer uma triagem, dedicando mais tempo àquelas que lhe parecem relevantes, enquanto as outras são atualizadas em segundo plano, conhecidas tão somente pelos títulos e manchetes.

Tal procedimento, apesar de correto, não o deixa satisfeito, já que fica sabendo pouco de muitas coisas. “Não seria melhor saber muito de pouco?” – ele sempre se pergunta.

Quando tem de dar opinião sobre determinado tema, nosso amigo carrega um sentimento de desonestidade, como se não tivesse direito de falar o que pensa. Ele pensa também que esse é o preço a pagar por seu enciclopedismo. Se fosse um especialista, cuidando só de determinado tema, tudo seria mais fácil.

Para ilustrar seu desconforto, pede para observarmos a situação que vivemos no momento. As redes sociais estão nos bombardeando com notícias e informações acerca do conflito entre Rússia e Ucrânia. As notícias são disparatadas, enquanto que as análises são contraditórias, atendendo a todo tipo de gosto ou interesse. Para ter uma noção com um mínimo de fundamento sobre o assunto, Eleutério acredita que terá de pesquisar muito, confrontando muitas análises políticas e geoeconômicas, além de ter que estudar História (o que ele faz). Quando chegar a um veredicto há o risco de a   guerra ter chegado ao fim ou então o mundo ter sucumbido a uma hecatombe nuclear.

Não querendo ficar em cima do muro, mas também não abrindo mão de seu senso de honestidade, Eleutério se permite pensar igual a Guimarães Rosa: - Não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. Sente pena daquelas pessoas que, sabendo pouco ou mesmo nada, são compelidas, impelidas e coagidas a darem seus pitacos sobre o tema. Como foi o caso da apresentadora de TV Ana Maria Braga, que disse: “A Rússia é um regime comunista, né? Você não pode dizer ‘não’ sem ordem. Tem que dizer ‘sim’ pra tudo”. As pessoas no Brasil que têm alergia ao comunismo devem ter sentido o estômago embrulhando, enquanto um sentimento de ódio subia até a boca. Quando o dito ficou pelo não dito já era tarde e o estrago da desinformação já havia sido plantado. Pouco adiantou ficarem sabendo que a Rússia deixou de ser comunista com o fim da URSS, em 1991.

Por essa e outras, Eleutério pensa que as pessoas só aceitam aquilo que elas querem. Verdade é o que me interessa, e todo o resto é mentira. E pensar que, até poucos dias atrás, os céticos criticavam o dogmatismo dos crentes por encontrarem na religião resposta para tudo...

Hoje, a opinião vem antes dos fatos e, se os fatos contrariam a opinião, mudam-se os fatos. Indo contra a corrente, Eleutério prefere ficar com a ideia de Raul Seixas que, sabiamente, já dizia há dez mil anos atrás: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Desorientados diante dos possíveis desdobramentos do conflito entre Rússia, Ucrânia e OTAN, muitos estudiosos querem fazer valer aquela máxima de Voltaire, dita por volta de 1700: “A paz vale ainda mais que a verdade”. Resta combinar com os poderosos, os que mandam no mundo.

Para os mandachuvas, Eleutério deixa este outro recado, agora dito por Charlie Chaplin, em 1940 – quando a 2ª Guerra Mundial estava em efervescência: “A ganância, o ódio e a prepotência envenenaram a alma dos senhores, os senhores que tratam os outros como um gado humano e que os utilizam como carne para canhão! (Lembrem-se:) Mais do que de máquinas precisamos de humanidade. Mais do que inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido.”

Etelvaldo Vieira de Melo


DEFENDE OS BICHOS

 


Quemquem-de-tela-do-solo

Cachorro-do-mato-vinagre

Gato-maracujá

Tamanduá-bandeira, tatu-canastra, tucano-toco, sabiá-do-campo

                & Cia ilimitada

Graça Rios


NANO DICIONÁRIO ELEUTÉRIO (VOLUME II)

 

DIVAGAR: Pensamento que caminha passo a passo, quase parando.

GASTRONOMIA: Comer olhando para o céu (contribuição de Millôr Fernandes).

ASTRONOMIA: Artista comer olhando para o céu.

ECONOMIA: Mia, se for de gato.

OVACIONAR: Atirar ovos em manifestação pública. (OVAÇÃO: O resultado disso.)

DEVANEIO: Quando o pensamento desprende da matéria e entra em estado de levitação.

CONTUNDENTE: Dor de dente aguda.

EXCLUDENTE: Extrair um dente.

DECADENTE: Extrair todos.

IMPRUDENTE: Quebrar um dente comendo piruá.

CONTADOR: Aquele que, condoído, contabiliza a dor de uma declaração fiscal.

VIOLAR: Tocar viola em casa.

SERGIPE: Sonho secreto de estado brasileiro.

SERPENTE: Anfíbio (também pode ser sonho de cobra).

ARREDAR: Dar marcha a ré no carro.

REPARAR: Parar o carro depois de dar uma ré.

REBATER: Bater o carro de ré.

PIAMENTE: Mentir de mãos juntas, jurando para Deus. (TEMENTE: Aquele que teme e, mesmo assim, mente).

SUSTENTADA: A saúde pública no Brasil.

SUSTENTAÇÃO: Governo querendo acabar com SUS.

PAPELADA: Uma pá sem cabo.

PAPELÃO: Quebrar o cabo da pá (quem faz isso: pessoa da pá virada).

PACIENTE: Estar ciente que a pá quebrou.

RESSALTAR: Modalidade de salto em que o atleta faz um movimento para a frente e se joga para trás.

ACORDAR: Trabalho de pintor.

COMPASSO: Modo de andar.

SOCORRER: Ajuda própria de atleta.

SÓ CORRO: Atleta respondendo a apelo de socorro!

CONTRABALANÇAR: Lançar a lança contra a balança.

EXERCITADOR: Espécie de sadismo (EXCITADOR: de sadomasoquismo).

EXTREMIDADE: Pessoa muito idosa.

TEMERIDADE: Ter medo da extremidade.

CONTEMPORÃO: Tipo de moradia que contém área abaixo do primeiro piso.

COMBATENTE: Espécie de porta almofadada.

REMEDIAR: Um doente se automedicar.

REMOVEDOR: Tomar um bom medicamento com receita médica.

CONDOLÊNCIA: Pêsame de preguiçoso.

DETERGENTE: Especialidade de soldado.

REFEIÇÃO: Fazer cirurgia plástica do rosto. (NOV IDADE: A feição depois da RE FEIÇÃO.)

ELOCUBRAÇÃO: É você estar em quarto escuro, à luz de vela bruxuleante, ponderando ideias em seu encéfalo absconso (o que acabo de fazer).

KBÔ!


Etelvaldo Vieira de Melo


A PEQUENA SEREIA


Quando nasci,

marmanjo movido a jato

falou:

- Ó brutal produto interno,

gerada pelo underground:

                             

Vai, escreve a desdita

de vossa puta

conduta.

    

- Oh, pá lavrada em sangue,

mau fel dos gugu glúteos

nus ainda no berço.

Praga:

Rasgue-se nele o sidéreo saco

Graça Rios 


MÁ ÍNDOLE OU FALTA DE EDUCAÇÃO?

 

O lobinho pela mãe abandonado

Foi por um pastor adotado

Que lhe deu toda atenção e carinho

Além de paciente ensinar

A arte de roubar

As ovelhas do vizinho.


Tendo aprendido muito bem a lição

Pôs-se o guri a roubar ovelha até do patrão.

Este, ao se dar conta do ocorrido,

Reclama: - Por que fizeste isso comigo?

Ao que responde o lobinho sem pestanejar:

- Mas por que me ensinaste a roubar?

Moral:

Esta fábula reflete a questão: o ser humano é mau por natureza, ou é a vida em sociedade que o corrompe? Ela também nos ajuda a pensar sobre o quanto carregamos de herança genética e o quanto aprendemos com os outros.

Uma autoridade do país, o atual vice-presidente, criticou certa vez o povo brasileiro, dizendo que ele apresentava uma falha de caráter por causa de uma herança cultural: “Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. E a malandragem, nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano”. Já a fábula diz que somos moldados pela educação, que aprendemos através dos exemplos.

Desse modo, torna-se perigoso ficar transferindo para a população, o povo em geral, a responsabilidade que é daqueles que detêm o poder e daqueles que tiveram acesso à educação e que desfrutam de boa qualidade de vida.

A fábula quer dizer: não faz sentido ficar acusando o povo pelos pequenos deslizes que comete, justificando, assim, grandes faltas.

O povo necessita de educação, de bons exemplos. Daí, políticos, magistrados, líderes religiosos, autoridades e membros das elites precisam ser boas referências. Mas eu pergunto: - É isso que temos no país? Nossas elites são exemplos de honestidade, de honradez, de defensores da verdade e da justiça, de verdadeiro patriotismo?

É muito cômodo jogar a culpa de nosso atraso na conta de uma herança cultural, assim como é ridículo responsabilizar o pobre pela destruição do ambiente, como se ele fosse culpado pelas queimadas na Amazônia. O Brasil é o que é por conta da irresponsabilidade e da ganância de nossas elites. O povo propriamente deve ser o último a ser responsabilizado por alguma coisa. Quando faz algo errado, muitas vezes está se espelhando nos exemplos que vêm lá da cima.

Etelvaldo Vieira de Melo

SI LE GRAIN NE MEURT

Vídeo: Pinterest

A penumbra da chuva seria esquecimento.

Que esterco metafísico todos os propósitos,

raiva de ter rabo na memória!

Barca absorta, masturbo tempos onde cruzo com.

Plagiária de Vênus sob sensual sede solar,

jogo séries de mim de alguém dentro de mim.

 

- Depois, durmo - água dura   vaga   rendição -.

Graça Rios

SE FICAR, O BICHO PEGA; SE CORRER, O BICHO COME

 

Como haveria de dizer o brilhante ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, “houveram tempos” em que cultivei a pretensão de encontrar uma explicação racional para o sentido da vida, ou seja, em que seria capaz de encontrar uma resposta para estas três perguntas fundamentais: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?

O tempo foi passando e aquele propósito foi esvanecendo, esvanecendo, até sumir de vez. Hoje, contento-me com explicações periféricas, aquelas que me chegam através da leitura dos chamados ditados populares. O que tenho procurado fazer é ajuntar um daqui com outro dali para ver o que pode dar. Sei que os ditos populares representam o substrato de tudo aquilo que a humanidade foi aprendendo através dos tempos. Por se traduzirem em linguagem delimitada pelas circunstâncias, acaba de me cair a ficha, muitos deles se tornam incompreensíveis, à medida em que o tempo muda trazendo novos termos e novos conceitos. De qualquer modo, o que fica é sempre enriquecedor, contribuindo de seu jeito para desvendar o enigma da existência humana.

Um ditado antigo e ainda pertinente para os dias atuais é este: “Se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come”. Tal ditado fazia muito sentido no tempo em que as pessoas viviam mais no meio rural e estavam cercadas de bichos, muitos deles perigosos e selvagens. Hoje, quase não há mais bichos, domesticados que foram, e as pessoas já não correm o risco de serem pegas ou comidas. O ditado se torna pertinente pelo seu sentido figurado: vivemos situações sem saída, onde, de um jeito ou de outro, vamos nos dar mal.

Foi o que deduzi ao assistir a um vídeo, onde determinado cidadão extravasava sua indignação com o preço da tarifa da energia elétrica.

De uma conta de👉R$227,08, ele constatou que estava pagando 🔎R$176,00 (74,68%) de taxas (tributos, incluindo uma taxa de escassez hídrica, transmissão, distribuição, encargos, perdas, taxa de iluminação pública), enquanto 🔎R$51,39 (25,32%) ficavam por conta de seu consumo de energia. Ou seja: de R$10,00, R$7,50 eram pro governo, enquanto R$2,50 pagavam o serviço.

E o cidadão vociferava, quase eletrocutado de raiva:  - Isso aqui é escravidão? O povo é escravo? Tem que trabalhar pro estado ladrão? Cadê os hospitais funcionando? Cadê a saúde melhor? Cadê as estradas melhores? Esse país é livre?

Assistindo ao vídeo, fiquei pensando. Um antigo compositor dizia que o Brasil é um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. E, ainda com esses bônus: tem carnaval em fevereiro, tem futebol e tem uma nega chamada Tereza. Mas cabe perguntar: tanta coisa boa acaba sendo revertida em favor da maioria da população?

Desde que me entendo por gente, percebi que ser cidadão brasileiro é viver sendo jogado entre esses dois extremos: se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come.

Veja o caso da energia elétrica. Estando nas mãos do governo, temos uma exploração danada. Mas, e se cair para a iniciativa privada, vai melhorar? Ela que só pensa em lucro! Foi isso que assistimos com a privatização da VALE e das telefonias.

Falando em telefonia, depois de sugar tudo o que podia do governo e mesmo assim quebrar, a empresa da qual sou cliente acabou sendo leiloada entre outras três. E deste modo estou: sem opção de escolha, encurralado no dilema de se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Ou, no dizer de outro ditado: se sair da brasa, acabo caindo no espeto. Parece que ser brasileiro é ter a opção de não ter opção.

Mas, não obstante, porém, contudo, vislumbro uma luz no fim do túnel, capaz de me animar e acalmar o indignado cidadão da energia elétrica.  Pesquisando sobre a origem do ditado, descobri que ele é conhecido pela metade, faltando o complemento. Enunciado na sua forma original e verdadeira, ele diz assim: Se ficar o bicho pega. Se correr o bicho come. Se juntar o bicho corre. Daí: - Vamos juntar, gente, e fazer o bicho correr!

Etelvaldo Vieira de Melo


CEIA CIA

 

A panela ferve salsa cebolinha erva.

Rainha de Copas olha vermelho na cozinha.

Entoando vassoura,

limpa-me Carollina o último lírico cocô.

Trágico destino o de bicho condenado!

Chapeleiro Louco anuncia jantar nietzschiano:

          ‘O coelho está - quase - morto’

         - País dos Atos Ratos & Pratos! 

             Enfim, termina a censura.

     Alice e Arganaz, bem - a 2 - comidos,

               bebericam livres licor.

        Peixe-lacaio executa ao pistom

           o Réquiem de Mim menor.

Graça Rios

CONFESSO: CORTEI A CEREJEIRA!


Por causa de seu temperamento extrovertido, Fridolino Xexeo pode aparentar ares de arrogância, metidez. No entanto, trata-se de uma pessoa simples e agradável, tirando sua propensão de exagerar as coisas e de ser um tanto quanto aproveitador, pecadilhos de somenos importância. Ingenaldo, que detesta gente cínica e metida, é um de seus amigos mais próximos.

Ingenaldo gosta de adivinhações. Sabendo disso, Fridolino lhe propôs este enigma:

Em viagem, certo estudioso do comportamento humano chegou a uma ilha distante do oceano Pacífico. Os moradores dali – o pesquisador já sabia de antemão – apresentavam uma característica peculiar: quem era político só falava mentira; quem não era político só dizia verdade. Querendo saber quem era quem, o pesquisador perguntou a um indivíduo de topete e bigode, que usava uns exagerados óculos esportivos:

- Você é político?

O sujeito respondeu na língua nativa, deixando o entendimento do pesquisador do mesmo tamanho, sem nada esclarecer.

Outro indivíduo, agora um senhor de cabelos grisalhos e cavanhaque, traduziu:

- Ele disse que é político.

Já um terceiro personagem, um jovem de incipiente barbicha, contestou:

- Não. Ele disse que não é político.

Com base no que disseram, meu caro Ingenaldo, quem é e quem não é político nessa história?

Ingenaldo, que acompanhava com atenção a narrativa, ao ser questionado, tirou do rosto seus óculos de armação azul e ficou limpando lentamente suas lentes com um lenço de papel. Depois, conferiu contra a luz se estava tudo certo. Aparentemente satisfeito, colocou os óculos de volta entre as orelhas. Só depois desses preliminares é que falou:

- Está aí uma coisa que me incomoda muito, uma das grandes tragédias dos tempos modernos.

- O quê? – quis saber Fridolino Xexeo. O fato de os políticos serem mentirosos?

- Não. Estou me referindo a esse dualismo entre verdade e mentira. Seria bom demais se as pessoas só dissessem a verdade ou, então, só mentissem. Não haveria o risco de alguém ser enganado.

- Mas, então, por que as pessoas mentem?

- Vivemos uma época onde os valores são pervertidos, com mentira e verdade sendo relativizados. O que predomina mais do que nunca é o interesse: se for de meu interesse acreditar em algo, ele passa a ser verdadeiro para mim. Então, começo a usar até mentiras para justificar o que me interessa.

- Dentro do princípio de que os fins justificam os meios.

- É por aí. Além disso, o que determinada pessoa fala ou faz deixa de ser desabonador, desde que na essência estejamos de acordo. Essa máxima acaba valendo para quem está à direita, à esquerda, ao centro e até para quem não sabe em que lado está.

- Realmente, essa relativização da verdade é algo terrível. A verdade, que deveria ser um valor supremo, acaba sendo sujeitada aos interesses. É isso que te incomoda?

- Sim, meu maior medo é ver as pessoas misturando interesse com verdade, achando que verdade é aquilo que lhes interessa. Com isso, passam a condenar o que é bom, inocente, enquanto endeusa o que é perverso, o que espalha maldade, só porque atende um pouco que seja aos seus interesses. Quem se deixa levar pelos interesses corre o risco de se tornar cego à verdade.

- A verdade nem sempre é agradável aos olhos; pelo contrário, a mentira é cheia de atrativos – falou Fridolino.

- Seria bom que as pessoas se espelhassem no exemplo de George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos. Ele era tido como uma pessoa íntegra, honesta. Diz a lenda que, aos seis anos de idade, cortou a preciosa cerejeira de seu pai, mas, quando seu vandalismo foi descoberto, o menino imediatamente admitiu o erro: 'Eu não posso mentir. Eu cortei a cerejeira'.

- É. Infelizmente, são poucos os que assumem que cortaram a cerejeira. Estão sempre jogando a culpa nos outros. Mas, voltando à questão da história que te contei: quem é e quem não é político?

- Meu caro Fridolino.  Vamos deixar a solução desse enigma por conta dos leiturinos. Caso algum não saiba, é só avisar, que venho dar a mão. Certo?

Etelvaldo Vieira de Melo