TRÊS PASSOS PARA FRENTE, UM DE LADO

E
stava Alterliano todo entusiasmado, comentando com seu amigo Elidério as novidades de seu dia:
           

- Como está sabendo, voltei a fazer Análise, e hoje foi um dia especial. Sou uma pessoa impulsiva, não avalio as condições do momento e tomo atitudes erradas. Por isso, foi extremamente proveitoso o terapeuta ter me repassado a Técnica das Três Competências (TTC).
           
- E quais são essas competências? – quis saber Elidério.
           
- A terminologia é um pouco complicada, mas acredito que seja assim:
           
1ª) Sensibilidade Situacional – onde você procura contextualizar o fato, buscando compreendê-lo em todos os seus ângulos, fazendo uma leitura adequada das demandas;
           
2ª) Flexibilidade de Estilos – quando analisa as diferentes posturas possíveis de serem tomadas;
           
3ª) Gestão Situacional – quando, após refletir sobre a situação de conflito e ter escolhido a mais adequada alternativa de ação, você parte efetivamente para uma intervenção de mudança.
           
- Entendi sua explanação – disse Elidério. – Gostaria que me repassasse um exemplo concreto, se possível.
           
- Veja você que, no Dia das Mães, minha esposa levantou, segundo expressão antiga, com a “avó atrás do toco”. Ela estava muito aborrecida e eu não sabia explica o porquê daquilo. Pensei comigo: “- O que fiz de errado?”. Como não encontrava resposta, achei que nosso relacionamento estava “indo pro brejo”, isto é, estava acabado. Fiquei deprimido e comecei a somatizar aquilo: palpitação, dormência nos pés, suor frio. Só no dia seguinte é que a situação foi esclarecida. Minha esposa era muito ligada à mãe, já falecida, e foi precisamente no Dia das Mães que seu pai, com quem ela se dava às mil maravilhas, também morreu. Conclusão: aquela data não lhe trazia boas lembranças; daí, o seu mau humor e aborrecimento. Se eu tivesse aplicado a Técnica das Três Competências (TTC), teria me saído melhor. Eu tinha conhecimento de seu histórico de vida, seria fácil ter uma sensibilidade situacional, saberia como me posicionar diante do fato, além de ter tomado uma atitude condizente com o que acontecia.
           
- Brilhante a sua colocação, meu amigo – falou Elidério. – Só um detalhe é que lhe escapa.
           

- Qual? – quis saber, curioso, Alterliano.
           
- Que essa terminologia rebuscada nada mais é do que uma roupagem nova para o velho Ver, Julgar e Agir de seu tempo de JOC e Ação Católica.
           
- Caramba! Não é que você tem razão?
           
- Quero dizer que devemos levar mais a sério a Lei de Lavoisier (na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma) e a máxima de Chacrinha (nada se cria, tudo se copia), sendo esta uma cópia daquela. Não importa. A propósito, minha amiga Isaurina diz que ser original é saber a quem copiar.
           
- Muito engraçada essa ideia de que a história se repete.
           
- Você quer saber onde está o princípio de tudo? Esses métodos nada mais são do que a explicitação da inteligência humana.
           
- Um exemplo, por favor.
           
- Vamos supor que exista um adolescente chamado Juquinha e que esteja estudando, enquanto ouve uma Rádio FM tocando músicas orquestradas. Isso é apenas uma suposição, principalmente a ideia de ter um adolescente estudando. De repente, o rádio fica mudo e Juquinha se pergunta: “- O que aconteceu?”. Antes de ligar para a distribuidora de energia ou pegar uma chave de fenda para desmontar o rádio (e depois não saber onde recolocar tanto parafuso), Juquinha vai até o Quadro de Distribuição de Energia (QDE) e constata um fusível queimado. Como não havia um sobressalente, faz uma ligação direta, tomando o cuidado de anotar a compra de fusíveis para reposição. Depois, volta a estudar, ouvindo as músicas do rádio. Isso, caro Alterliano, que é ser “inteligente”: interrogar-se sobre uma situação, buscar compreendê-la e agir em consequência. É daí que brotam todas as invenções e todos os métodos, inclusive os terapêuticos.
           
- Gostaria de saber, meu caro Elidério, se eu posso aplicar esse método, TTC, na política, numa situação eleitoral, por exemplo.
           
- É possível, mas existe um problema: como o sistema eleitoral coloca os políticos afastados dos eleitores, fica difícil a sensibilidade situacional e, por consequência, o voto consciente. É por isso que um ex-esportista disse que o brasileiro não sabe votar. Ele não pode saber mesmo, nesse contexto.
           
- Elidério, eu gostaria de repassar esta nossa conversa para o Avercílio, para que ele a postasse no Blog (ele que se encontra acometido de insônia, sem Rivotril que dê conta, buscando ansiosamente material para suas crônicas). Acontece que nossa conversa tem um tom muito sério. Você não tem um exemplo leve para ilustrar a TTC?
           
- Pois não, caro Alterliano. Estava eu e minha esposa no interior de um supermercado. Um outro casal estava em frente ao caixa e discutia aparentemente sobre a conveniência de levar um produto. Eles aparentavam um ar de mau humor, o que levaria outras pessoas a julgá-los chatos e aborrecidos.  Desenvolvendo uma Sensibilidade Situacional, procurei visualizar o produto que tinham à mão: era um desentupidor à base de soda cáustica, cujo nome não vou mencionar (para não fazer publicidade gratuita). Quanto à Flexibilidade de Estilos, considerei que não há nada mais desagradável do que um vaso sanitário entupido numa manhã de domingo (era domingo). Daí, entendi perfeitamente o mau humor e o ar de aborrecimento do casal. E a Gestão Situacional, quer saber? Caso eu conhecesse e tivesse intimidade com o casal, poderia ajudá-los na avaliação do produto ou na sugestão de outras alternativas. Como se tratava de ilustres desconhecidos, tratei de passar adiante, com os olhos abaixados, só fazendo esse comentário com minha esposa; “- Quem vê cara não vê coração; bem sabemos que não existe coisa mais aborrecida do que uma rede de esgoto entupida, especialmente numa manhã de domingo”.
Etelvaldo Vieira de Melo  

VARREDEIRA

Imagem: paulamar.blogspot.com








A senhora que está ali,
varrendo a rua,
merece ter mais
que os do Congresso,
porque seu trabalho
é forte e digno,
sem falcatruas.

                   Um dia muito próximo,
                   o anjo varredor dirá à varredeira:
                   - Benditas sejas
                   entre as mulheres
                   porque fizeste o mundo
                   limpo, sem sujeira.

                   Tu, mulher, também és estrela,
                   porque mesmo vestida
                   do pó do asfalto,
                   por dentro de teu coração
                   está brilhando a lua.

                   Formiguinha do lixo,
                   não deixaste que a torrente
                   poluída dos homens
                   te contaminasse.

                   Prosseguiste com tua roupa
                   íntima muito alva
                   e até à alva ficaste varrendo
                   flores mortas e folhas murchas
                   de ontem.

O teu semblante agora
não é mais desta terra,
o teu olhar caminha
catando o imundo,
mas a tua alma,
como as rosas,
retira seu perfume
do estrume.
                   

PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS


M
elidônio Ferrara, morando “onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém”, sente-se razoavelmente confortável para falar o que “lhe dá na telha”, isto é, o que bem quiser, sem se preocupar com a veracidade de suas palavras.
            Assim, ele recorre ao Dalai Lama, pedindo-lhe emprestados os termos “compaixão” e “empatia”. Pensando bem, ele quer mais: quer que o guru venha ao Brasil ministrar uma série de palestras sobre o tema compaixão, tentando sensibilizar o brasileiro para as agruras alheias.
            Que vai ser duro de roer tentar amolecer o coração do povo, isso vai. Melidônio chega à suposição de que o Dalai vai gastar todo seu estoque de cândido sorriso. Quanto ao resultado final, o tempo dirá.
            Por enquanto, Melidônio anda colhendo uma decepção atrás da outra, quando vê que ninguém se toca com suas aperturas. Até o Amador (que ama a dor – segundo expressão do Cleber), aquele da “Atração Fatal”, postagem de 13/04/2013, pessoa de grande coração, outro dia, falava que quase tivera um derrame cerebral, com sua pressão arterial indo lá nas alturas. Quando Melidônio falou que havia tido um infarto, o outro ponderou, rapidamente, sem querer maiores detalhes:
            - Foi um infartozinho à toa, não é mesmo? – e continuou a discorrer sobre suas próprias mazelas.
            Melidônio confabulou com seus botões: “Bem diz o ditado que pimenta nos olhos dos outros é colírio”. E arrematou o pensamento: “Até tu, Amadeus?”.
            Outros já deram mostras de insensibilidade, como foi o caso do Floriano Fatiota, aquele do bode velho, personagem de postagem em 22/03/2014. Estava ele fazendo um serviço na residência de Melidônio, quando este foi chamado ao portão. Tratava-se de Clotoaldo Ribelino, um rapazinho que se acostumara a retirar o entulho da calçada a troco de alguns trocados e de um cafezinho com pão. Melidônio explicou ao dito cujo que seria melhor esperar um pouco até que o volume de entulho fosse maior. E perguntou: “- Quer um cafezinho com pão?”, ao que o outro respondeu: “- Quero, sim”.
            Melidônio buscou o lanche, mas, na hora de descer o lance de três degraus da escada, escorregou, levando o maior tombo, caindo de costas e batendo com a cabeça no piso da área. Os ajudantes de Floriano acorreram e levantaram Melidônio, pálido feito uma cal – de susto e de dor.
            Quando ficou sabendo do acidente, Floriano (que estava nos fundos da casa), ao invés de mostrar condolência e preocupação, foi logo dizendo:
            - O meu tombo foi pior do que o seu. Caí de cima de uma escada e bati com a cabeça numa tampa de caixa d’água.
            Melidônio pensou: “- Pode ser que seu acidente tenha sido mais grave, mas é o meu que está na parada de sucesso; o seu é água passada”. Essa falta de apoio moral deixa Melidônio aborrecido.
            É na soma desses pequenos detalhes que Melidônio resolve recorrer aos préstimos de Dalai Lama. O país gasta horrores com segurança e policiamento, quase tudo a troco de nada.
            Falando de policiamento e querendo chegar a um desfecho para esta dissertação, Melidônio lembra que foi abordado no centro da cidade por um senhor, que lhe perguntou:
            - Por acaso, polícia é bom para dor de garganta?
            - Sei lá – respondeu Melidônio. – Por que a pergunta?
            - Porque – falou, rindo, o outro – esbarrei sem querer num jovem e ele me falou: “- Quando eu chamar a polícia, você, velho, vai ver o que é bom para tosse”.
            Melidônio aguarda ansioso a visita do Dalai Lama. O país vive um clima de violência, de agressividade sem igual. Insufladas por parte da imprensa, sensacionalista e inconsequente, pessoas influenciáveis fazem linchamento de mãe de família; por causa da ganância e de um egoísmo exacerbado, mulher envenena enteado. O país parece estar sentado sobre um barril de pólvora. Não será dinheiro que irá nos tirar dessa. Porque tudo é uma questão de ética, uma questão de valores e que começa com um gesto simples de julgar que “pimenta nos olhos dos outros é colírio”. Mais do que polícia, o país necessita de compaixão, conclui Melidônio Ferrara.
            Etelvaldo Vieira de Melo


            

ÁGUA

Imagem: www.fmimperial.com.br


Ave, Água cheia de graça
Água cheia de vida
Água cheia de luz.

Água que umedece
o coração do mundo
Água que enxágua o planeta
e a rosa faz florescer.

Água que anima os sedentos,
as plantas, os animais.
Que escorre dilúvio de uva
no bico dos passarinhos.

Chuva miudinha
chuva torrencial.

Cai, Água, por três dias
sobre o rio São Francisco,
sobre os mares de São Luís.
Cai muito no Cantareira
que morre à espera de ti.

Troveja, relampeja
sobre este solo alquebrado.
Sobretudo penteia, chuva,
os cabelos louros do trigo
com teu gosto feito de terra
e teu beijo e teu perfume.

FIGURAS

E
xistem tipos humanos que, de uma maneira ou outra, chamam nossa atenção de forma especial. Ainda bem para esses tipos, pois eu me considero no rol daqueles que já se tornaram translúcidos e transparentes, ou seja, já estou na lista daqueles que não chamam atenção de ninguém. Andando pelas ruas, posso gritar e espernear, posso até, em gesto tresloucado, tirar a roupa, ficando nuzinho, que ninguém vai se tocar, já que ninguém me vê.
            Quando falo isto, não estou pedindo comiseração de quem quer que seja, já que viver é completar o ciclo de nascer, crescer, aparecer, fazer e acontecer, transparecer e desaparecer. Eu mesmo, olhando para meu passado, através de fotos e de lembranças, vejo que já tive meus momentos de glória, quando não me cansava diante de um espelho: eu me olhava de frente, de um lado e de outro, perfilado e enviesado. O resultado era um gostinho de satisfação e de orgulho de ser quem eu era. Hoje, o sentimento é de amargor; quando fico frente a um espelho, aí sou tocado por profunda depressão, quase querendo dar cabo da existência.
            Quanto àquelas pessoas que chamam nossa atenção, muitas delas aparecem por acaso, por causa de circunstâncias. Aqui no bairro mesmo existe um casal que passaria despercebido, caso não fosse dono de um restaurante que, uma vez ou outra, me acorre, quando é de todo impossível pilotar o fogão lá de casa no preparo de uma comidinha caseira. É quando vou ao tal restaurante em busca de uma marmitex.
            É lá que encontro refeição de melhor qualidade, mas que se perde frente a um desagradável detalhe: a sovinice dos donos e que é repassada para as demais serviçais. Quando uma delas coloca a comida na vasilha, parece que vai contando os grãos de arroz, um por um. Feijão, salada e legumes também são servidos com tanta parcimônia que a sua vontade é de sair correndo, deixando tudo para trás. Quando você se atreve a tomar a iniciativa de colocar a comida, os donos e os funcionários ficam olhando seus gestos com olhos compridos e segurando o coração com as mãos.
            Houve um dia em que uma funcionária, estando eu mesmo me servindo, falou:
            - Não encha muito a marmitex, para sobrar espaço para o bife - grelhado numa chapa de churrasqueira pelo dono do restaurante.
            - Caso tenha qualquer tipo de problema – retruquei, com certa rispidez – você pode cobrar os acréscimos.
            Sei que você não haveria de tolerar tanto desaforo. Acontece que você não mora no mesmo bairro que eu, onde, se sair do espeto, cai na brasa.
            Estando a marmitex fechada, você vai até o caixa, efetuar o pagamento. Ali, é colocada a cereja que enfeita o bolo, ou seja, você experimenta o dissabor final. Com voz afetada, empolada, rebuscada, enojada, aborrecida, a dona, ela mesma, arremata uma odisseia que não teria poupado nem mesmo a Ulisses:
            - Bom apetite!
            Você desce as escadas, cambaleando de fome e nauseado diante de cenas de tanta mesquinharia.

Etelvaldo Vieira de Melo

TOMÁS GONZAGA NO APARTAMENTO



Eu, Marília,
contemplo de memória
a Arcádia em que houve terra,
ar e água.
Só vejo a tela fria e os outros presos
deste cárcere na ilha confinados.
Sem Norte e estrela sigo apascentado,
mas tenho a compensar tanto trabalho
teu retrato que olha
por meu fado.

          Graças, Marília bela,
          graças a esta cela.

Eu, Marília, 
agora estranho o gado
e as florestas e os rios
e as guirlandas
que te enfeitam sempre o rosto e o seio.
Sei que existem canários
Imagem: delmosaud.blogspot.com.br
em gaiolas,
mas são de mim as aves reclamadas.

          Graças, Marília bela,
          graças a esta cela.

Eu, Marília, 
vivo em plena selva
de areia e asfalto bem elaborado.
Só, de ti me sinto ausente
e os lindos campos tenho relembrado.

          Graças, Marília bela,
          graças a esta cela.

Tu não verás aqui os cem cativos,
mas milhares dos tais
à mídia entrelaçados,
porém ainda uma vez sem o descanso
na folha em que te vejo retratada.

          Graças, Marília bela,
          graças a esta cela.



CORDELZINHO DO TOTÓ

Estava eu muito aborrecido
por ter alguém me magoado.
E nem bem havia engolido o acontecido
quando meu cão de estimação
acabou fazendo algo errado.
Chamei-lhe a atenção
e dei-lhe um tapa descuidado -
Com tal força que me doeu a mão!
O cachorro se afastou apavorado
enquanto fui cuidar de outra obrigação.
Depois, tomado de vergonha
fui até ele para pedir desculpa.
Sabia que não tinha cabimento
o tamanho daquela conduta.
Quando me viu, ele abanou o rabo, sorrindo.
Constrangido, passei na sua cabeça a mão
como a demonstrar arrependimento.
Ao que ele respondeu, latindo:
Amar é jamais ter que pedir perdão.
Etelvaldo Vieira de Melo



SE

Imagem: www.maisopiniao.com
Se não temes o horror que te cerca
Se escreves de modo burlesco
Se provocas com a letra o social
Se chamas o político de mau
Se desenhas uma frase homofóbica
Se teu lápis aponta o racial
Se continuas a gozar o Corão
Se essa história registra um tesão
Se fabulas contra o país
Se descreves a livre expressão
Se ao sim dizes sempre um não
Se do sexo fazes follie
Estás morto e te chamas Charlie.



BONS CONSELHOS... DE GRAÇA!

O
 título acima recomenda duas observações.
           
A primeira: se conselho fosse bom, não seria dado, mas vendido, certo? Erradíssimo, como vou discorrer, logo em seguida.
           
Segunda: de graça, até injeção na testa, como alardeava meu amigo Jacinto, ele que já partiu dessa, ao que parece, sem sentir a tal agulhada na testa.
           
Foi esse amigo que, formado em Matemática, teve que se virar, lecionando Ciências (já mencionei o fato em tempos passados, mas - parodiando um programa de TV – vale a pena ver de novo).
           
Certo aluno, notando sua insegurança no trato da matéria, seja pelo suor a escorrer pela face, seja por certa tremedeira na voz, fez-lhe uma pergunta escabrosa, daquelas que você tem que pesquisar com lupa em pé de página.
           
Jacinto, pego assim no contrapé, mostrou presença de espírito e jogo de cintura para retrucar:
           
- Por acaso já estudamos este assunto?
           
- Não, professor – falou, com sinceridade, o frangote.
           
- Pois, então – arrematou Jacinto, com um sorriso dissimulado. - Estudo é como medicamento: tem que ser a dosagem certa na hora exata. Quando estudarmos este tema, haverei de esclarecer sua dúvida, certo?
           
- Certíssimo, professor. Muito obrigado.
           
Assim, o curso seguiu em frente, aos trancos e barrancos, mais tranco que barranco, até o dia em que o colega dependurou de vez as chuteiras das Ciências, quando da pergunta de uma aborrecente cdf:
           
- Professor, quando dorme, peixe fecha os olhos?
           
Não sei por que você haveria de ficar chateado comigo por haver reprisado essa história. Por acaso, você “bota a boca no trombone”, isto é, torna público, através de órgãos de imprensa, sua indignação ao assistir a tantos programas e filmes repetidos na TV?
           
Para se ter uma ideia, o Pica Pau mal consegue dar um “toc” na madeira, porque, mais que isso, seu bico se parte todo em caquinhos.
           
Você não vê mais o Tom correr atrás do Jerry. Agora, com cabelos grisalhos e apoiados em bengalas, contentam-se em trocar farpas, sentados em bancos.
           
Tem uma emissora especializada em importar dramalhões mexicanos. Ela passa um humorístico, querendo sem querer, em que mal você consegue visualizar os personagens, quase totalmente apagados de tão repetidos.
           
Isso me faz lembrar dos tempos em que estudava num internato. Uma vez ou outra, tínhamos sessões de cinema. Como os filmes eram graciosamente oferecidos pelas distribuidoras, muitos eram repetidos.
           
Havia, por exemplo, “O Homem da Máscara de Ferro”, não nessa versão modernosa com Leonardo DiCaprio, mas uma mais antiga. O filme repetiu tantas vezes que aconteceu o dia em que a fechadura enferrujou. Como não havia desengripante na época da história, o filme terminou assim pela metade do caminho, com o mocinho tentando inutilmente arrancar a máscara que lhe cobria o rosto.
           
Vejo que está ficando tarde, já chegando a hora de ir embora. Quanto aos prometidos bons conselhos, fica para uma próxima: não quero que você tire mais uma conclusão apressada: a de que estou sofrendo de incontinência verbal.
Etelvaldo Vieira de Melo

           


MOI, AUSSI, JE SUIS CHARLIE

Imagem: www.ndtv.com

Eu quisera ser cartunista
para criar uma ideia de Deus.
Não o Deus mau,
mas um Deus que ri
ri,ri,ri
muito do desenho,
porque ele também é uma criança,
com um lápis de cor na mão.
Como não sei desenhar,
digo Amor, apenas Amor
e já escrevi com a palavra
 alegria divina.
Vai ver que lá no Céu
Charlie brinca com os pincéis
e pinta Deus um menino,
que não participa
nem aprova
guerras religiosas
e preconceitos contra
a liberdade de expressão.

UMA AMIZADE SINCERA

A
vercílio da Granja já chegou ao ponto de concordar com o compositor, que diz: “Ando devagar e levo esse sorriso, porque já sofri demais”. Em outras palavras, ele se sente mais pra lá do que pra cá. Uma vez ou outra, esbarra num contratempo, que lhe acarreta dor ou aborrecimento. No geral, entretanto, ele se sente bem disposto e toca a vida com bom humor.
           
Daí é que brotou uma amizade com o vizinho Olestário da Niquinha, outro que sempre encontrava motivos pra rir de tudo, principalmente de si mesmo. É de Olestário aquela máxima que resumia sua opinião diante de qualquer situação:
           
“É complicado...”
           
Ultimamente, a situação tem andado complicada pro seu lado mesmo, com essa sua tirada servindo como luva para todos os dissabores que anda experimentando, sejam de natureza física ou decorrentes de aborrecimentos familiares. Embora já tenha colocado quatro safenas, o que anda lhe incomodando ultimamente é uma dor nas escadeiras que não tem otopedista (ele fala desse jeito mesmo) que acerte num diagnóstico e num tratamento. Foi ele quem falou, em relatos passados, que havia a suspeita de que seu nervo asiático estava afetado.
           
Meses atrás, sentindo-se incomodado com uma dor de garganta, foi até a farmácia do bairro e, assim, perguntou pro balconista:
           
“Por acaso você tem um comprimido bom para dor na goela?”
           
O moço olhou pra ele, assustado, só se dando conta do pedido, quando Olestário passou a mão pelo pescoço.
           
Voltando aos tempos presentes, por não estar se sentindo bem, ele tem evitado encontrar o amigo Avercílio. Este, assim que foi possível, não deixou passar uma reclamação:
           
“Você precisa melhorar porque, falando de maneira egoísta, eu preciso de você, de sua amizade e de seu bom humor. Sem eles, fica difícil tocar em frente a vida.”
           
De uns dias pra cá, aconteceu de Olestário dar uma aprumada, retomando seu humor ferino. Encontrando-se com Avercílio, ele falou esta:
           
“Ouvir as pessoas falando que pescador é mentiroso me deixa muito aborrecido. O fato deles exagerarem um pouco, não significa que estejam faltando com a verdade. Veja você, caro amigo, o que aconteceu entre dois deles. Estavam conversando sobre a última pescaria que haviam feito.
           
- E aí, compadre, pescou bastante? – perguntou um deles.
           
- Não, compadre, não sei se foi porque a lua estava minguante, o certo é que só consegui pescar um peixinho.
           
- E qual foi?
           
- Foi um pacu, pesando uns 55 quilos.
           
- O quêêê...? Você não tá exagerando não, compadre? Um pacu pesa, quando muito uns cinco quilos.
           
- Pois esse estava pra mais de 55. Eu é que não tive a ideia de tirar uma foto como comprovatório de quem mata a cobra e mostra o pau. Minha máquina estava estragada. Mas e você, como foi de pescaria?
           
- Pescaria de pegar peixe eu não fui bem, não. Mas eu consegui a façanha de pescar um lampião que meu tataravô havia perdido e meu avô e meu pai não se cansaram de procurar. Era uma relíquia de estimação e estava em perfeita condição, inclusive com o pavio aceso.”
           
Antes que desse Olestário desfecho ao caso, Avercílio atalhou, dizendo:
           
“Amigo, peço desculpas por estar cortando o seu caso, mas é que estou com um problema sério pra resolver. Tenho que ir até um hospital, fazer uma transfusão de sangue. Eu estava lá em casa ainda há pouco, feitorando uma reforma que os pedreiros estão fazendo lá na área, quando me dei conta de um baita de pernilongo mordendo o meu pé. Falei pra minha esposa: - Vai, Esleide, mata este danado, antes que chupe todo meu sangue! Esleide deu um tapa no meu pé e, imediatamente, uma poça de mais de um litro de sangue se espalhou pelo chão. Daí, a minha urgência de resolver o caso, já que sinto minha vista turvada.”
           

“Mais de um litro de sangue?” – perguntou Olestário, quase se sufocando de tanto rir.
           
“Está bem” – retrucou Avercílio. – “Eu tiro um litro de sangue, deixando só uma gotinha, a troco de você apagar a luz do lampião e tirar 50 quilos do pacu. Fica bom assim?”
Etelvaldo Vieira de Melo

           
   
           
           
             

  

VISITA

Imagem: rondoniaovivo.com


Nossa Senhora toca o interfone.
Você fala "Alô!", pensando no Correio.
"Por favor" - pede Ela. - "É Ano Novo
só quero repouso, não tenha receio."

"Nossa Senhora, ora essa, que farsante,
se tocar interfone novamente
chamarei a polícia por assalto.
Nós comendo e essa impertinência."

A Senhora se vai, com seu Menino,
interfonando pela rua afora
e todos respondendo: "Vai embora".

Vai-se cumprindo o destino dos anjos:

procurar na cidade algum vivente
que ame ao outro e não a si somente.

A VIAGEM

V
ai Terebentina visitar sua irmã Abrilina na cidade de Bonito. Uma série de inconveniências se apresenta bem antes dela colocar o pé na estrada. Pé na estrada é força de expressão, já que eles, os pés, estarão sobre as rodas de um automóvel.
           
Bonito é um lugar que faz honra ao nome, sendo reconhecido internacionalmente pelas águas cristalinas de seus rios. Lá se pratica o que chamam de ecoturismo. Como tudo ali é preservado, as muriçocas voam de braçadas, atacando impiedosamente aqueles incautos turistas que não se armam com repelentes.
           
Foi isso que ocorreu e que vi com meus próprios olhos, quando atacaram o casal Flores das Laranjeiras, precisamente o marido, Florival Floriano. Sua esposa dava-lhe tapas e mais tapas. Ele reclamou:
           
- Mulher, você está me batendo demais. Está doendo pra chuchu! -(uma expressão da qual não sei o propósito).
           
A mulher alegou que era por causa das muriçocas. Entretanto, ficou no ar a suspeita de que os tabefes vinham por causa de outras razões. Os mosquitos funcionaram como pretexto.
           
Se você quer uma desculpa para dar uns bons cascudos no seu companheiro ou companheira, fica aqui a sugestão para uma visita a Bonito. Lá, você poderá juntar o útil ao agradável.
           
As muriçocas e o risco que representam se constituem a primeira inconveniência para o passeio de Terebentina. Ela anda tão esmirradinha, tão debilitada que qualquer gotinha de sangue a menos pode lhe custar caro. Levando em conta essa razão, eu lhe daria um veto. Entretanto, tem mais.
           
Terebentina sofre de intestino solto, parece uma torneira que perdeu a bucha. Por isso, ela precisa tomar uns comprimidos de Imosec para segurar as pontas até chegar ao destino. O problema é que, às vezes, a dosagem passa da conta e Terebentina acaba ficando vários dias entupida, o que não deixa de ser outro inconveniente a marcar pontos contra a viagem.
           

Coroando essa série de riscos, fiquei sabendo que o motorista da viagem será o seu sobrinho Madurino Cruz. Não tenho nenhum reparo quanto as suas habilidades no volante, mas sei bem dos traumas de infância e adolescência que ele carrega e que podem a qualquer hora, sem mais nem menos, explodir com consequências imprevisíveis.
           
Até seus quinze anos de vida, Madurino sofria com enjoos quando viajava. Sei disso muito bem, pois estava ao seu lado, quando de um passeio a Resplendor.  Sabendo da facilidade com que ele “chamava o mico” (outra expressão da qual também não sei o propósito), sua mãe cuidava de lhe fornecer muitos limões para serem cheirados e muitos palitos de fósforo para serem mastigados (os donos da fábrica de fósforos “Fiat Lux” deveriam ficar rindo à toa nesses momentos, em decorrência do aumento das vendas).

Nessa viagem a Resplendor, o transcurso foi feito à noite. Tínhamos que atravessar uma região montanhosa e o frio era intenso. Logo, Madurino fez o favor de escancarar a janela ao lado de sua poltrona, colocando o rosto para fora e recebendo aquela lufada de ar frio. Estava pálido, com um limão rente ao nariz, enquanto um palito de fósforo rolava na sua boca tal como uma bengala em mão de cego.
           
Tentando ser agradável, tentando amenizar-lhe a angústia ante a iminência de um vômito, puxei conversa, falando de coisas banais.
           
Para quê! Madurino olhou-me com olhos enraivecidos e me disse essas palavras duras, das quais eu não me esqueço até hoje:
           
- O senhor sabe muito bem que não gosto de conversa, quando estou viajando.
           
Junta tudo isso num liquidificador, as muriçocas, a debilidade de Terebentina, seu intestino solto, os imosecs, o trauma de infância de Madurino, ainda não terapeuticamente tratado, e veja se não tenho minhas razões para estar preocupado, se não estou certo em achar nada bonito essa viagem a Bonito.
           
Caso considere isso pouco, fique sabendo que Madurino está levando também sua namorada, Dosolina Bubina. Como a relação deles anda instável, qual placa tectônica, é bem provável que ela utilize do pretexto das muriçocas para aplicar-lhe uns bons tabefes. Vai daí que, ao retornar da viagem, o trauma de infância de Madurino não venha a eclodir e ele, desorientado por causa de ter o rosto e o corpo cobertos de hematomas, ao invés de tomar o rumo das Minas Gerais, entranhe pelas terras paraguaias, sem hablar um tiquito de castelhano e com o estoque de Imosec da Terebentina zerado. Há o sério risco de termos vômitos pra tudo quanto é lado, pra cima, pra baixo, pros lados. Eu é que não gostaria de estar pelas proximidades, embora uma visita a Ciudad del Este esteja entre meus sonhos de consumo.
Etelvaldo Vieira de Melo