MÍNIMA MORALIA

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                                            Para alguém que não pode suportar a ‘ferid’alíngua

                Façamos da língua perplexidade e sobrevivência
                               Escavação  e manobra de versos
                para fora        para dentro
                                               para 1 outro texto
                        para outra voz

Sejamos o arquivo da vida danificada
                                               palavra-pensamento de alguma projeção do artista :
os perigos da linguagem costurarão textos & ensaios de fala
                     absolutamente estrangeiros :
      une voix venue d’ailleurs
   e  não pertencimento

A poesia precisa dizer-se c/ palavras de outros

                               em fissuras claudicantes e fotografias da memória IMG 6942
Graça Rios

ATÉ ONDE FOR POSSÍVEL

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Imagem: sopenumbra.blogspot.com.br
Até onde for possível
quando acordar toda manhã
ao ver o Sol ou a chuva a cair
quero dar graças pela possibilidade
de viver mais um dia feliz
até onde for possível.

Até onde for possível
ao me ver no espelho
quero rir, rir de mim mesmo
que a vida não é de se levar tão a sério
que há de se ter leveza
até onde for possível.

Até onde for possível
que eu continue com minhas esquisitices
como ter medo de bicho assombração
olhar debaixo da cama temendo um ladrão
testar a fechadura da porta um tanto de vez
até onde for possível.

Até onde for possível
quero me desocupar de coisas demasiado sérias
quero ter animadas conversas com o cão lá de casa
chorar sem vergonha com uma cena emocionante
e tomar sorvete sem sentimento de culpa
até onde for possível.

Até onde for possível
quero ser simples
correr das coisas complicadas
das pessoas arrogantes e que se acham
quero cultivar as alegrias do dia a dia
até onde for possível.

Até onde for possível
quero crer na honestidade
quero ser autêntico, ser eu mesmo
quero ser livre
quero ter respeito pelo outro
até onde for possível.

Até onde for possível
quero acreditar no meu país
na esperança de que os políticos tomem jeito
que a prosperidade e a paz venham para todos
e que o povo todo possa ser feliz
até onde for possível.

Até onde for possível
ainda haverei de acreditar no amor
na possibilidade de amar e de ser amado
sabendo que ele é uma força poderosa
e que reafirma a esperança do mundo novo
até onde for possível.

Até onde for possível
tudo isso faz parte de meu viver.
Sei que um dia tudo vai desaparecer
e quando esse dia chegar
quando cada um desses bens me deixar
aí, sim, irei morrer, deixarei eu de ser possível.

Etelvaldo Vieira de Melo



O BEIJO DE KLIMT

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            Ela, amarela
            Ele, azul
            Ela, com bolas
            Ele, em quadrado
            Ela, submissa
            Ele, dominante
O manto que os envolve sobe até ele e desce até ela
            Pra que chão?
            Sobre o plano os amantes
            Cairiam das nuvens
Obnubilando o beijo que vai ser consumado
            Pra que nuvens?
            Pra que quê?
            Ele vira a cara dela
            Em sinal de onipotência
(Klimt é um misógino: pinta-se dois. Se pintasse o meu retrato, socava ele no nariz de tinta.)
Graça Rios






          






















FÁBULA NEBULOSA 3: O GANANCIOSO E O BURRO DE CARGA

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FÁBULA NEBULOSA 3: O GANANCIOSO E O BURRO DE CARGA (*)
            Um burriqueiro conduzia seu burro por uma estrada esburacada.
            - Ploc, plec, ploc, plec – era o barulho que fazia o burro, por conta de uma pata sem ferradura.
Durante muitos anos, o quadrúpede havia prestado incontáveis serviços ao seu dono. Agora, estava cansado e mal se aguentava em pé. Chegaram à beira de um precipício.
            - Veja bem, que eu não queria isso, desejava continuar cuidando de você. Contudo, quer me deixar. Sendo assim, a vitória é sua. – Enquanto falava essas palavras, o homem empurrou o animal com as duas mãos sobre o abismo.
            Moral: Assim procede o ganancioso que, ao invés de proporcionar uma velhice decente para quem lhe prestou tantos serviços, prefere vê-lo morrer à míngua, quando não o mata covardemente.
            Submoral: Qualquer semelhança com o Projeto de Reforma da Previdência na República das Bananas não é mera coincidência.
(*) Invento e/ou releitura de Fábulas, Esopo
Etelvaldo Vieira de Melo

UMA HISTÓRIA POÉTICA

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O poeta atapulhou um poema que gonadia inspiração.
Foi um mastaréu de rimas em crúmen
E o famoso astro lonqueadou versos em boa endiva.
Gonadia outrossim que ele fosse longerão nas estrofes
A fim de nucular o mastaréu de invisos.
Afinal foi evônimo o gossip da crítica.
O herói gornope da silva publicou o seu belo gongom.



PARODIANDO RONDÓ DOS CAVALINHOS (*)

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Imagem: arterocha.blogspot.com.br
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Ministro do STF dá festa em salão
Pra político que pode ser seu réu por corrupção.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Ministro do STF e do TSE presidente, sem cuidados,
Discute reforma política com delatados.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Primo de ministro do STF é nomeado diretor da ANT
Pelo presidente da República, procê vê.

(Pode ser? / Aqui, na república das bananas, pode.)

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Ministro do STF diz que crimes de caixa 2 são relativos
Que os atos ilícitos são opções das empresas em seus ativos.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Ministro do STF com presidente sempre está jantando
Que parece não temer julgamento que o está aguardando.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Ministro do STF busca holofotes da mídia diária
Agindo de forma partidária.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Ministro do STF aparece de cara feia nos jornais e tevês
(Tá fazendo beicinho. Feio vai ficar quando fechar a cara de vez.)

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Esmeralda, Esmeralda, só mesmo tua beleza
Pra acalmar minha dor e afastar a tristeza.

“Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh’alma  - anoitecendo!”

(*) Paródia a “Rondó dos Cavalinhos”, de Manuel Bandeira,com citações de Felipe Pena  -  jornal Extra, de 16/03/2017.
Etelvaldo Vieira de Melo 





ULTRALIGHT

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Imagem: portalcoop.com.br

Confira esta embalagem de stevia
brancaverdevermelhapreta
como bandeira da Martinica
Há um suco amarelo no rótulo verde
A tampa também é verde e o
corpo de plástico é branco também
80 ml Edulzante líquido
Kosher B.K. A Parve
Contiene educorantes artifi
ciales glucosideos de stevol
Vire e leia
Modo de usar: 3 gotas equivalen a uma cucharadita de té de
azúcar
Lightsweet
Nota da tradutora – Azúcar =açúcar (s.m.)
Graça Rios


O QUE AMENIZA, FACILITA E TORNA A VIDA DE UM HOMEM MAIS AGRADÁVEL?

Dinheiro. Foi o que alguém já disse: “O dinheiro é tudo. Ele é a fonte de todo o bem. Faz dentes mais claros, olho mais azul, amplia a dignidade individual, aumenta a popularidade, produz amor e paz espiritual e, quando tudo falha, paga o psicanalista.” Foi o que falou Millôr Fernandes.
            Disse outras coisas mais. Com umas concordo; de outras, noto leve exagero. Por exemplo: “O dinheiro compra o cão, o canil e o abanar do rabo.” Está aí uma coisa que discordo. O cão lá de casa, o Thor, apesar de todo meu esforço para ter sua amizade, fica sempre me olhando com indiferença. E olha que, todo dia, procuro ter agradáveis conversas com ele, mas não tem jeito: o seu amor já está comprometido com outras pessoas.

            Por causa do dinheiro, não sei se como causa ou consequência, tem uma moça que aparece nas notícias de fofocas e achou que colocar uma melancia na cabeça era pouco - mais parece carro que saiu da oficina: trocou os faróis, botou um capô mais arredondado, zerou o velocímetro, mudou a caixa de marchas, pôs um câmbio automático. Tenho “um dó” danado dessa menina, já até andei falando sobre ela (“Parem o mundo, que eu quero descer”: 30/11/2013). O que ela não sabe é também aquilo que Millôr não se deu conta. Tem coisas que o dinheiro não compra, e uma delas é o tempo. Ele, o tempo, é o tipo que até pode fazer de conta. Pode fazer de conta, por exemplo, que está sendo enrolado, mas chega a hora em que ele é quem vai dar as cartas, perguntar: E agora, José?  


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Agora, alguém aqui está buzinando nos meus ouvidos, dizendo pra abreviar o texto. Então, vamos lá.
            

Além do dinheiro, uma coisa que pode amenizar a dor da anomia (anonimato, pra quem não sabe) é a pessoa ter um nome exótico, estranho. Quem possui nome exótico, nunca passa despercebido, notadamente quando frequenta os bancos escolares. Pode ter certeza que vai chamar a atenção dos professores, nem que seja só por causa do nome. E isto é bom, porque na escola sobressaem os extremos: os cdfs e os indisciplinados. Quem fica no meio, não é nem uma coisa e nem outra, acaba no ostracismo. Tendo um nome exótico, querendo ou não, vai ser lembrado nos conselhos dos professores: “- Sabe aquela menina?” “-Qual?” “- A Holofontina Fufucas...” “- Ah, é claro que sei!”
            Finalizando, uma coisa que facilita a vida é usar um boné. Foi isso que depreendi de uma entrevista de Clarice Lispector com Pablo Neruda. Ela disse: “Neruda é extremamente simpático, sobretudo quando usa o seu boné”.
            Como vê, ajuntando uma coisa daqui, outra dali, temperando tudo com criatividade, você acaba encontrando muitas coisas que podem amenizar, facilitar e tornar a vida mais agradável. Eu, por exemplo: 1) Não tenho Dinheiro, não sou estribado; 2) Possuo um nome mais ou menos exótico, estranho, porque, quando nasci, meus pais disseram: “- Vamos colocar um nome estranho no nosso filho pra ver se sai algo que presta!”.  Escolheram este nome “que ainda hoje carrego comigo”, com um “l” sobrando, exagero que se deve ao escrivão da cidade, que era amante daquela água que passarinho não bebe; 3) Quanto a usar boné, lamento não ter adotado este costume há mais tempo. Sempre tive os cabelos repartidos; depois, eles ficaram “unsdoslados”; depois,foram raleando, raleando, até desaparecerem quase por completo. Enquanto isso, eu ficava brigando contra o vento, tinha ódio de lufadas de vento. Só agora é que fui me dar conta das vantagens de se usar um boné. Quando estou com um, fico igual ao Neruda, extremamente simpático. Quem convive comigo vive dizendo isso.
Etelvaldo Vieira de Melo
           



UM CLICK NUM ÉCLAIR

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Imagem: arteparacegos.blogspot.com.br
Diz o jornal que há um cego projetando mundo afora
suas fotografias concebidas em alto mar.
Diz-que-diz que o moço apreendeu o arco-íris
nos dourados palhacinhos que nadavam num coral.
O aquanauta mergulha a máquina nas águas
e reproduz num flash o tubarão-baleia
 preso na câmera clara.
Discover and swim with the whale sharks! – convida ele.
Quem revela as cores prodigiosas dos golfinhos
morsas focas tartarugas cobras seixos
é a mulher superstar também cega
do clarividente artista plástico.
Graça Rios

FÁBULA NEBULOSA 4:O SEGREDO DO MAU CHEIRO DAQUELA CASA

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Imagem: fortalezadesentupidora.com

FÁBULA NEBULOSA 4: O SEGREDO DO MAU CHEIRO DAQUELA CASA (*)
Quando se elegeu pela primeira vez, aquele político estranhou muito o mau cheiro das dependências da Casa Legislativa. Nos corredores, salas, gabinetes e, especialmente, no salão de reuniões havia um mau cheiro quase insuportável, que chegava a provocar vômitos.
Em conversas com colegas, esses aconselhavam:
            - Tenha calma, que você irá entender a situação.
Outros colegas, novatos como ele, chegavam a usar máscaras. Alguns desistiram da profissão. Nosso político, por sua vez, começou a ver que tanto desconforto tinha lá suas compensações: o excelente salário, os inúmeros abonos e auxílios, sem contar os poucos dias semanais de “trabalho”, dois a três. Além disso, percebeu que sempre poderia ganhar mais, vendendo emendas orçamentárias, quando não seus votos.  Gostou daquilo tudo, chegou a se acostumar com o mau cheiro, reelegeu-se para novos mandatos.
Certo dia, um colega lhe falou:
            - Já está na hora de entender a razão do mau cheiro desta casa. Existe um erro de arquitetura e que faz com que o cheiro de esgoto se espalhe por todas as dependências.
            - Não existe reparo?
            - A única solução é demolir o prédio e construir outro.
            - Mas por que isso não é feito? – perguntou nosso político.
          - Ora, se fizermos assim, todos aqueles que foram embora e mais outros irão querer voltar. Então, não teremos vez. Nós servimos é para conviver com esse mau cheiro, tirando daí todo proveito.
Moral:
Em ambiente enevoado, ultrajado, até o ar fica empestado.
(*) Invento e/ou leitura/releitura de Fábulas, Esopo
Conversa de Leitor com Redator
Leitor: - Você não se sente incomodado por “bater” tão pesado na classe política?
Redator: - De fato, eu me sinto muito chateado com isso.
Leitor: - Pois, então: tenha um pouco de consideração e de respeito.
Redator: - Mas eles, os políticos, por acaso demonstram respeito e consideração para com os eleitores? Não vejo a hora de elogiar alguns, mas me sinto como Diógenes, o Cínico: ando com uma lamparina na mão, à procura de um que seja honesto. Depois, eu só falo mal de uma espécie de político e que é, infelizmente, a que nós temos. O problema maior, no meu modo de ver, é a estrutura, essa construção política que está aí e que precisa ser derrubada.
Leitor: - De fato, com ela de pé, não há Lava Jato que dê jeito.
Redator: - Fala-se muito em combate à corrupção, mas as pessoas se esquecem de um detalhe importante: a ocasião faz o ladrão, como diz o ditado. Só mudando as caras dos políticos, estaremos trocando seis por meia dúzia. Nossos sistemas político e eleitoral são fábricas de ladrões. Depois, as coisas não são assim de graça. Esse tipo de político está lá para atender a outros interesses. Ao fim de tudo, o mau cheiro vem dos políticos e daqueles que se beneficiam da situação.
Etelvaldo Vieira de Melo

BLINDNESS

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BLINDNESS

                       o beijo que não beijei a carta que não escrevi a viagem que não fiz fim do
o amor que não gozei o voto que não anulei o dia que não vi passar o mote que não
          cantei a vida vil que me
morreu
a morte que
                     não vi o beijo
       __________________________________________________________________

Graça Rios

TANTO CHORO, OH, QUANTA TRISTEZA! (EXERCÍCIO DE REDAÇÃO)

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            Leovigildo – Leo, para os íntimos – teve uma infância e adolescência pra lá de difícil; até hoje, quando pensa no que passou, costuma ficar de boca aberta que nem burro que comeu urtiga. Sua mãe enviuvou cedo, tendo que dar conta sozinha do cuidado de sete rebentos, sendo Leo o que vinha na rabeira, a rapa do tacho, isso numa época em que as castas menos favorecidas não dispunham dos favores de bolsas família, educação, botijão e outras tantas mais.
            Leovigildo foi criado, pois, com rédea curta e estômago nas costas. Sua mãe, ao contrário do que se podia imaginar, não usava de coerção física. Ela incutia na mente dos filhos princípios religiosos e morais, através dos cujos exercia seus mátrios poderes. Fazia isso tão bem que parecia o Big Brother, de 1984, o Grande Irmão, uma sombra onipresente em todos os momentos da vida dos filhos.
            Leo sentia que seus atos, pensamentos e omissões eram monitorados 24 horas por dia. Só faltava ele vislumbrar pra tudo quanto é lado placas com os dizeres “Sorria, você está sendo filmado”. O coitado não se achava livre nem nos momentos em que se trancava no banheiro, ficando naquela posição de “O Pensador”, de Rodin.
            (Estou lhe repassando esses informes para que tenha uma ideia de como era a vida de nosso personagem, ao tempo em que lhe ofereço a oportunidade de aumentar seu acervo cultural. E não precisa me agradecer por isso; só espero que tenha paciência suficiente para levar a leitura até seu desfecho.)
            A pãe de Leo (pãe = mãe que assumiu a condição de pai, ou vice-versa) acalentava o sonho de ver seu rebentinho seguindo a carreira religiosa. Por isso, foi com um arrepio pelo corpo, seguido de vertigem, que ouviu dele, já beirando a fase da maioridade, a assertiva de que iria, finalmente, a um baile de carnaval.
            - Como pode pensar em fazer isso, filho do meu coração? – falou ela com voz prestes a irromper num choro. – Você não sabe que ali é um antro de perdição, casa do capeta e de todos os seus súditos?
            - Ora, mãe – falou Leo, tentando se armar de paciência. – Ali é apenas um clubezinho, onde as pessoas vão buscar distração inocente.
            - Distração inocente... – imitou ela, em tom de deboche. – Você não faz ideia do que mocinhas são capazes de aprontar, depois de terem tomado, Deus que me livre, bebida alcoólica. – A mãe falou isso com os olhos arregalados, a ponto de saltarem das órbitas.
            Leo pensou: “É isso mesmo que quero ver!”, mas o que disse foi:
            - Manhê, o meu diretor espiritual falou que o carnaval é uma festa religiosa que antecede a quaresma; a palavra significa “despedida da carne”: “carnis valles”. É uma festa que abre os quarenta dias de jejum e de abstinência até a Páscoa.
            - Muito bonito o que você falou, mas não me convence.
            - Veja, mãe, a senhora não sabe e nem tem obrigação de saber, mas o carnaval é mais animado onde a tradição religiosa é mais intensa, forte, como é o caso de Salvador, Olinda e até mesmo o Rio de Janeiro, com seu sincretismo, aquilo que Stanislaw Ponte Preta, em alegoria, chamava de Samba do Crioulo Doido. Aqui em Minas, o carnaval tem destaque em cidades como Sabará, São João Del Rei, Diamantina e Ouro Preto, todas fortemente marcadas pela tradição religiosa.
- Bah... – resmungou a mãe. – Agora – desferiu ela, com os olhos vertendo lágrimas, - se quer me matar de desgosto, vai.
E Leo foi, quer dizer, tentou ir. Chegou a entrar no salão de festas, mas carregava a sensação de que todos os presentes estavam a observá-lo. Soterrado de timidez, achou por bem tomar umas bebidas para animar. Acabou passando mal, indo “chamar o mico”, seus pais, todos os familiares, a micaiada toda. Voltou para casa amarrotado e amargurado. Não deu um pulo sequer no salão, nem viu as meninas em vestidos atrevidos e cheias de liberdade.
O tempo passou. Hoje, Leovigildo carrega o trauma de carnavais que não brincou, das sacanagens que não viu nem aprontou. Ele está fazendo um curso de redação. Sabe qual o tema da semana proposto pelo professor? Logo na abertura da aula, sem saber em quantas feridas estaria pisando, foi logo dizendo que o tema da aula seria o carnaval. Pediu pros alunos fecharem os olhos e vestirem uma fantasia ou desejo; depois, que descrevessem um encontro ou um beijo. Leovigildo ficou bloqueado. Quando saiu do curso, sentia-se como quem havia sido nocauteado com um cruzado no queixo, só chegando em casa às altas horas.
Foi se recuperar três dias depois quando, em conversa com Neguinho – não o da Beija-Flor, mas um jardineiro que prestava serviço em sua residência – este lhe disse que iria trabalhar de garçom num clube durante o carnaval. Os olhos de Leovigildo, que estavam opacos, brilharam, e ele pensou: Taí uma boa ideia. Se não for adotá-la este ano, que fique para o próximo. Trabalhando num clube e servindo bebidas para homens e mulheres, vou acabar vendo coisas que irão me redimir dos traumas de carnavais que não brinquei. Sei que, até em meus pensamentos, minha mãe haverá de ficar horrorizada diante de tanta pouca vergonha, mas eu lhe direi: "Não se aflija, mãe, que tudo isso é apenas carnaval. Quarta-feira haveremos de passar cinzas, entrando de vez na quaresma da vida”.
Etelvaldo Vieira de Melo

POMPOM, O FILÓSOFO

Imagem: oversodoinverso.com.br
Aí vem ela, com a comida.
Debruçada na gaiola,
contempla o seu objeto.

A panela está fervendo
de desejos saborosos.

Tem os olhos vermelhos
sobre mim, o amarelo.
Bem quisera o meu pelo
branco, ao esfolar-me.

Agora vem a cenoura,
o jornal, a ração.

Com a vassoura nervosa,
limpa o límpido cocô
(lírico, esferoidal).

Enquanto isso,
ouve Chopin.
“Esta noite, um chopinho...”

Meu trágico destino
é o jantar nietzschiano.

“O coelho está morto!”

À luz de velas
sou velado.
Graça Rios