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| Ivani Cunha |
PERDAS
Para a criança que cada um deveria carregar consigo pela vida toda.
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PERDAS
Um balão ficou preso
nos galhos de uma árvore
uma enorme árvore.
Não tem como tirar o balão de lá.
O balão é colorido
tem a forma de peixe.
Quando o vento sopra, fica balançando
de cá para lá, de lá para cá.
É muito bonito o balão preso
mas não vejo um menino sequer
aos pés da árvore
chorando, lamentando a perda do balão.
Será por quê? – pergunto pra mim mesmo.
Talvez, penso depois, porque
os brinquedos hoje
sejam descartáveis
e ninguém se apega de verdade
a um brinquedo.
A não ser eu, talvez
que na minha infância (desprotegido)
nunca tive um balão
um balão tão bonito, tão colorido.
Etelvaldo Vieira de Melo
OU ISTO OU AQUILO
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| Imagem: thiagosurian.wordpress.com |
Tu queres sono: eu, vigília
Tu queres calma: eu, Bastilha
Tu queres olhar e isenção: eu, fúria e
indignação
Tu queres silêncio e saúde mental: eu,
grito de morte e punhal
Tu queres eternidade: eu, o aqui e liberdade
Tu queres deliberação: eu, denúncia e
punição
Tu queres o congresso dos maus
Eu, sobre ele, uma arena de sangue
e sal
Graça
Rios
DÚVIDA CRUEL
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| Imagem:pausaprumcafe.blogspot.com.br |
Por essas contingências do Tempo,
Eleutério sente necessidade de usar um aparelho auditivo. Seu otorrino - aquele
que se parece
um pouco com Mr. Magoo, personagem de desenho animado, e que faz lembrar também
Yoda, de Star Wars - é radicalmente
contra; ele acha que devemos nos conformar com os percalços da idade. No
entanto, Eleutério se vê pressionado por pessoas próximas, talvez cansadas de
terem de repetir frases por várias vezes.
Você sabe: a gente só dá
atenção àquilo que nos interessa. Por isso, acho bom você não considerar este
tema desinteressante, já que, mais cedo ou mais tarde, ele vai bater à sua
porta. Com Eleutério acontece agora, na flor de sua velhice.
Mas ele está em dúvida:
usar ou não usar um aparelho para surdez? Para ter uma melhor resposta, procura
observar as pessoas, trocando ideias com umas e outras. Viu – antes nem tinha
reparado – que o amigo Adamor usava um aparelho. Eleutério quis saber o custo e
como era usar o dito cujo.
- Cara Pálida, é o maior barato,
putzgrila – (ele tem mania de usar gíria antiga). – Comprei há dois anos, e
custou R$25 mil.
- Putzgrila digo eu – falou Eleutério,
indignado. – Eu não quero um aparelho para ouvir até pensamento dos outros,
não.
Outro que usa aparelho é
o Marízio. Quando adolescente, os colegas diziam que ele era surdo por
conveniência. Foram muitas as vezes em que, nas aulas, durante arguições,
respondia coisas que o professor não havia perguntado. Quando esse chamava sua
atenção, vinha com a desculpa: “- Peço desculpas, professor, mas entendi outra
coisa”. O professor se conformava: “- Deixa por isso mesmo”. E o Marízio se
dava bem.
Em casa, assim que vai
dormir, ele pergunta para a mulher:
- Maria, você tem mais alguma coisa para
me dizer?
- Não – fala a Maria. – Está tudo bem.
- Então, boa noite – ele diz, enquanto
retira o aparelho.
Eleutério gostou da
ideia, achou tudo muito poético.
Um vizinho, o Nô, além de
surdo é analfabeto, nem sabe olhar as horas num relógio. Diz que se orienta
pelo Sol; quando chove ou o tempo está nublado, deixa-se levar pela barriga
(hora de almoçar ou de jantar). Perguntado se não gostaria de usar um aparelho,
falou:
- Comigo não tem mais jeito. Com 87 anos
de idade, agora é só esperar a hora de ir – diz ele, apontando para o céu,
enquanto uma lágrima teima em rolar pelo seu rosto.
Nô é uma pessoa emotiva e
de muita fé. Já falei sobre ele em texto passado. Lembra quando teve que tirar
o dedão do pé numa cirurgia? Quando perguntado onde estava o dedo, respondia:
“- O dedo ficou com o doutor Alfredo”.
Fazendo pesquisa de
preços, Eleutério ouviu de uma fonoaudióloga:
- Um cliente aqui da loja já refez seu
testamento três vezes, depois que passou a usar um aparelho...
Usar ou não usar um
aparelho? – Eleutério continua se perguntando. Fazendo o teste proporcionado
pelas lojas de revenda, tem hora que pensa que sim: quando ouve sons antes não
percebidos, como o cantar de pássaros soltos nas árvores. No entanto, tem
momentos em que pensa que não é melhor, não. Como, por exemplo, quando ouve o relógio
da cozinha de casa com um tic-tac parecido com aquele do filme “Matar ou
Morrer”, ou, então, quando está dentro de um lotação. Se antes o barulho do
motor mais as conversas pareciam fundo musical, agora parecem uma sessão de
tortura, sem que ele possa ficar fazendo o que gosta: pegar uma caneta e papel,
ficar escrevendo suas bobagens. Na verdade, o mundo está parecendo para ele uma
grande sala de cinema, cheio de efeitos surrounds. Ao ouvir, por exemplo, a
freada de um ônibus, ele quase enfarta.
Tem outra coisa mais
séria. Eleutério sofre de um distúrbio neuropsíquico chamado PFL. Não se trata
de uma sigla de time de futebol nem de partido político, mas de uma invenção
sua (Prolapso de Fim de Curso), quando sua filha começou a estudar medicina e
ele frequentava um curso de eletrônica. Tal nome não passa de uma forma
delicada para designar lerdeza. Eleutério quer crer que seu PFL, ou retardo
mental, se deve à sua surdez. Ele que, até agora, viveu conformado com sua
lerdeza, está preocupado: vai que ela não tem nada a ver com sua perda auditiva
e seja coisa dele mesmo. Coitado, como irá conviver com a verdade?
Etelvaldo Vieira de Melo
OS CORPOS ESQUECEM
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| Imagem: philosttwo.blogspot.com.br |
Poemas
são ardência são porrada
fantasmas
de Woodlark no rumor
da
língua.
Imagens citações
notas colagens
trechos
de canções
50
tons de filmes
numa
voz ritmada dúvida cartesiana
inflamação
textual abismo na página.
Os
poemas são a exposição plena ao contágio
das
releituras Mnemosyne
aqui/ali imagens
palavras
alacridades
de átomos
y formas solenes
em
fórmulas falíveis.
Graça Rios
FÁBULA NEBULOSA: QUANDO O RABO QUIS SER CABEÇA
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| Imagem: canoinhasonline.com.br |
FÁBULA
NEBULOSA 9: QUANDO O RABO QUIS SER CABEÇA
Certa vez, a cauda de uma cobra cismou que ela é quem deveria
conduzir o ofídio, em vez de ser a cabeça. Ela se sentia cansada de ser jogada
de cá para lá, sem poder decidir pra onde ir.
Às vezes, estava se deslocando tranquila em reta quando, num repente,
era empurrada para a esquerda; em outras, fazia bonito uma curva à direita e,
sem mais e sem menos, era puxada pro centro. – Assim não dá – ela pensou; já
não aguento mais! – Os outros membros disseram que seu desejo era uma
temeridade: por acaso tinha ela cabeça e olhos? tinha como se colocar á frente?
Não houve meios de convencê-la, e o bom senso foi derrotado. Assim, assumiu a
cauda o comando, passando a dirigir o corpo inteiro. Às cegas, foram trombando
em tudo, até que acabaram caindo num precipício coberto de espinhos. A cobra
foi toda ferida. Foi quando a cauda se dirigiu à cabeça, pedindo-lhe desculpas
e suplicando para que salvasse a todos.
Moral: Assim acontece, quando pessoas
inabilitadas e impróprias assumem o governo de um país. Por isso, as guerras e
a pobreza, sem que as nações atinjam o desenvolvimento e o progresso para
todos.
Etelvaldo Vieira de Melo
APENAS UMA PEDRA E O DESEJO DE REPOUSO
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| Imagem: Entrada de Jesus em Jerusalém - Giotto |
Um
jeito de estar
na
matéria e no nome
mirando
transgressores o burrinho de Giotto
Ao
redor de nós
a
Hidra no quintal
e
o crime de sábado no jornal
A
humana nossa histriônica raiz
com
seus dentes de sabre
perplexidade
e escavação
É
a mesma do eco descontínuo
geométrica
áurea razão cardíaca
do tempo e das imagens
Graça
Rios
FIM DOS TEMPOS: RASPA O TRAVESSÃO!
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| Imagem: folha.uol |
O
dia 16 de setembro de 2017 apareceu e desapareceu sem que se concretizasse
aquela ameaça que chegou aos meus ouvidos: o tal Armagedão, a catástrofe que
iria desabar sobre o Brasil.
No
dia seguinte, domingo, tudo ia aos conformes até as 16 horas. Pensava eu: como
o pastor vai justificar o fracasso de sua previsão de hecatombe para o país?
Enquanto
pensava essas coisas, assistia pela TV ao jogo de futebol entre Corinthians e Vasco.
Estávamos na 24ª rodada do Campeonato Brasileiro, liderado com folga pelo
Corinthians, 7 pontos á frente do segundo colocado. O jogo era na Arena
Corinthians, em São Paulo, com público de 41.235 pagantes.
Apesar
de dominar a partida, o Corinthians não conseguia marcar seu gol. Finalmente,
aos 38 minutos do segundo tempo, Marquinhos Gabriel, que havia substituído
pouco antes Jadson, fez um cruzamento para Jô entrar com bola e tudo nas redes.
Gol! Gol do Corinthians! O juiz aponta o centro do gramado. A torcida explode
em comemoração.
Jô
pega a bola, mas, em vez de correr para o abraço dos companheiros e da torcida,
vai até o juiz, colocando a bola no chão. Pela TV, vejo que gesticula, bate a
mão no braço, conversa com o juiz. O estádio é tomado de silêncio, a torcida
não entende o que acontece; comentaristas, narradores e repórteres discutem uma
explicação. A TV reprisa o lance por vários ângulos. Uma das câmeras mostra o
que aconteceu de fato: em vez de cabecear, Jô tocou a bola com a mão. Era isso
que ele falava ao juiz. Esse, depois de consultar os bandeirinhas, finalmente
coloca a bola na marca, indicando tiro livre indireto para o Vasco: o gol havia
sido anulado.
O
jogo termina empatado, estando agora o Corinthians 8 pontos à frente do
primeiro concorrente.
Após
o jogo, diante de uma profusão de microfones, Jô explica o que havia
acontecido:
-
O gol foi ilegal. Em vez de cabecear, toquei com a mão.
-
Para o juiz, tinha sido legal – falou um afoito repórter. – Por que você não deixou
passar?
-
Pode parecer bobagem – falou Jô, passando a mão pelo rosto suado, enquanto
fazia uma careta - mas esta é a minha contribuição para ajudar o país.
-
Como assim?
-
Minha mãe sempre me disse: se cada um cuidar de varrer a porta de sua casa, a
rua ficará limpa. É isso. O Brasil vive uma crise moral sem precedentes. Acho
que cabe a cada um fazer sua parte, dando bom exemplo. O que fiz aqui hoje pode
ter sido uma simples gota d’água, mas ela poderá se juntar a milhares, milhões
de outras para lavar a sujeira de corrupção e de imoralidade que assalta o
país. Se ficasse calado, estaria reproduzindo os erros que não aceito. Este é o
meu recado para os políticos, os magistrados, banqueiros, empresários e todos
os sonegadores do país: chega de roubo, de mentira, desonestidade, de falta de
vergonha na cara.
No
dia seguinte, o país amanheceu em convulsão. Todos comentavam o sucedido,
milhares, milhões de vozes se somaram à fala de Jô. As pessoas erradas
perceberam que algo de novo e extremamente perigoso estava no ar. A imprensa
internacional – New York Times, Le Monde, Yomiuri Shimbum, El País, Corriere
della Sera e até mesmo o Financial Times – destacou o feito em matérias de
primeira página.
Curioso,
quis ler o que dizia a reportagem do Le Monde, quando fui surpreendido por um
grito vindo da TV:
-
Tá no filó! Goool! Gol do Corinthians! Jô é o nome da fera. E aí, Kafunga, gol
legal?
-
Tem coré-coré: gol barra suja! Foi com a mão, com la mano, todo mundo viu,
menos esse juiz mentecapto.
Já
era tarde, a TV mostrava lances da partida. Parece que eu havia dormido.
Misturei as emoções. O sentimento de esperança sendo substituído pela decepção
e pela tristeza. O domingo chegava ao fim. Uma tragédia desabava sobre minha
cabeça.
Etelvaldo Vieira de Melo
TOCA UM TANGO!
| Imagem: br.viator.com |
Nas
instâncias do momento zero,
escrevo nesta verbal volúpia,
Sir
Arthur Conan Doyle,
a
face fraca do poema.
Filósofo
da linguagem,
apareço
no livro,
moi,
Sherlock Holmes,
xixi
escorrendo normal pelas pernas,
com
o tema do camarim.
Ouve
este blues:
puro
açúcar do desejo.
Graça Rios











