CALHAUS BLOGUÉTICOS: VOLUME 1 (EM NOME DA MENTIRA)

 


Segundo o Nano Dicionário Eleutério (primo pobre do Mini Dicionário Aurélio), calhaus são aqueles textos curtos enxertados entre as matérias dos jornais impressos, com o objetivo de não deixar espaços vazios. Vulgarmente, também significa “encher linguiça”, conversa fiada, o que os pernambucanos chamam de potoca.



Sendo o blog um veículo jornalístico, é natural que ele tenha seus calhaus, atendendo às necessidades do blogueiro, especialmente quando a inspiração anda curta e ele se vê exprimido, comprimido e impelido a publicar alguma coisa. Como você mesmo poderá observar, muitos calhaus se constituem verdadeiras pérolas, tipo perfume francês, preciosidades em pequenas embalagens.

Parodiando Fernando Pessoa

O presidente é um fingidor demente

E ao fingir só mente

Mente, mente, tanto mente

Que chega a sentir que é mentira

A mentira que deveras sente.

Expressão Absurda, Desconexa

Alguém dizer: “Taí o Bolsonaro que não me deixa mentir”. 


FAKE NEWS: ORIGENS

Os fins justificam os meios, arrotava a Lava Jato. E todo mundo aplaudia. Mas ninguém se dá conta de que quem aprendeu bem a lição foi Bolsonaro e seus seguidores: desandaram a espalhar mentiras, com o objetivo de alcançar seus propósitos. Tudo dentro daquele princípio defendido por Sérgio Moro e Companhia de que, para se chegar a determinado fim, tudo é permitido. Palmas para a Lava Jato, que ela merece.

Analogia Bíblica

[para que até mesmo os ‘cristãos do bem’ entendam]

É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que Bolsonaro deixar de falar mentiras.

Analogia Futebolística

[para que os democratas do país ‘coloquem suas barbas de molho’]

É mais fácil o Cruzeiro retornar para a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro do que Bolsonaro e Companhia deixarem de tentar um golpe em caso de derrota nas próximas eleições.

CITAÇÃO BÍBLICA

[para que o ‘cristão do bem’ se afaste de vez de Bolsonaro, convencendo-se de que aquela história de ‘Deus acima de tudo’ não passa de ‘conversa para 'boi dormir’, engabelação de trouxas]

Depois de dizer que Deus odeia a língua mentirosa (12:22; 6:16-19), o Livro dos Provérbios faz uma declaração especialmente endereçada a Bolsonaro, e que deveria ser colocada na parede de seu gabinete em Brasília: “Os lábios arrogantes não ficam bem ao insensato; muito menos os lábios mentirosos ao governante!” (Provérbios 17:7).

Algo Assustador

No início de seu mandato, Bolsonaro só sabia rir. Quando eu abria um jornal, lá estava Bolsonaro rindo. E pensava: - Esse cara só sabe rir? Depois, com o tempo, ele fechou a cara e começou a falar mentiras, uma atrás da outra. Depois, ainda não sei. O que sei: li uma citação de Stephen King, que me deixou deveras assustado (seria uma espécie de premonição?): “Primeiro vem as risadas, depois as mentiras. Por último o tiroteio”.

Concluindo

Você pode reclamar: - Mas Bolsonaro não fala nenhuma verdade? Não sei dizer: Como bem expressa Jacinto Benavente y Martinez, “Na boca do mentiroso, até a verdade é suspeita”.

E o que me levou a todo esse trabalho de ‘copia e cola’ foi ter esbarrado com esta citação de José Saramago, dizendo: "Quando um político mente destrói a base da democracia". Democrata e empenhado na defesa da verdade, bem sei como isso é difícil: “Uma mentira pode correr seis vezes pelo mundo antes que a verdade tenha tempo de vestir as calças” (Mark Twain).

É por tudo isso que estou com Olavo de Carvalho (amigo e guru de Jair Bolsonaro) e não abro, quando diz: “Moderação na defesa da verdade é serviço prestado à mentira”.

Etelvaldo Vieira de Melo

FLASH


Não que o meu corpo

adormecido em conchas

se abrisse – planta e seiva –

em águas vivas

 

Não que o rumor

duendes grutas lutas

ferisse – chaga e chuva –

a claridade

 

Não que em cadeia

a ave intemporal

rasgasse com o bico adunco

a teia da realidade.

Graça Rios


UMA BELA LIÇÃO DE VIDA

 
Imagem: Maratona de Porto Alegre

Lucenildo Faustino Reguete* é um vizinho que, com o passar do tempo, tornou-se um grande amigo. Entre as afinidades que nos aproximavam, estava a de torcermos para o mesmo time de futebol. Os feitos do ‘Cabuloso’, como o time era identificado (agora, está mais para Horroroso), rendiam longas e agradáveis conversas.

Tínhamos nossas desavenças, especialmente no campo da política. Por exemplo, quando do golpe que destituiu a presidente Dilma, Lucenildo jurou que iríamos entrar numa nova onda de moralização no trato da coisa pública, com os corruptos sendo exemplarmente punidos.

- Bah! – falei, em tom de deboche. – Duvideodó que, por exemplo, o Temeroso vai pagar, indo pro xilindró.

Estava me referindo a Michel Temer, o homem da mala.

Lucenildo propôs, então, uma aposta: uma caixa de cerveja, caso Temer fosse ou não preso no prazo de um mês. Anos se passaram e ainda não vi a cor do prêmio.

Imagem: Maratona de Buenos Aires

Tem meu amigo outro pequeno defeito: é metido a atleta. Enquanto estou me vendo cada vez mais entrevado, tomado de dores pra tudo quanto é lado, ele continua esnobando seu preparo físico em corridas e caminhadas. Quase todos os dias, às cinco da manhã, estando eu fazendo meia-noite, lá vai ele correr pelas ruas e avenidas do bairro. Quando a pandemia não tinha virado tudo de cabeça para baixo, Lucenildo era um frequentador assíduo de maratonas, aqui no Brasil e no exterior.

Entre suas qualidades, destaco a de ser uma pessoa muito prestativa, não medindo sacrifícios para ajudar os outros. Aqui em casa mesmo são muitos os favores que presta: uma arranjada na trepadeira de jade, a colocação de uma tela de sombreamento no pergolado, uma poda em árvores e folhagens, subir no telhado de casa até as placas de aquecimento solar, para fazer uma ‘sangria’, tirando o ar do encanamento de água quente. Talvez ele faça tudo isso tomado de compaixão, ao ver que não aguento mais nem ‘segurar uma gata pelo rabo’.

Quem não se dá bem com Lucenildo é o Thor, o cão de casa metido a feroz. É só o amigo tocar a campainha que o Thor desanda a latir desesperado. E aí começa uma discussão entre os dois, Thor latindo e Lucenildo provocando. A briga termina depois de muito tempo, quando se cansam, um vendo que o outro não dá o braço a torcer.

Ontem, fui surpreendido com Lucenildo tocando a campainha, pedindo para que levasse um saco de lixo até o portão. E lá estava ele, com uma vassoura, varrendo o passeio de casa e retirando o mato em torno das árvores de resedá e  callistemon (popularmente conhecida como escova-de-garrafa).

Tem um ditado que diz: “se cada um se preocupar em varrer a porta de sua casa, a rua vai ficar limpa”. Este é um belo ditado, serve muito para os tempos que vivemos. Lucenildo, inova, vai mais além: não só cuida de varrer a porta de sua casa, como varre até mesmo a do vizinho.

Vendo aquele gesto de Lucenildo, fiquei pensando: - Brasil, Brasil, como seria bom se as pessoas daqui fossem assim, amigas, desprendidas, generosas. Quando a gente vai às redes sociais e lê as notícias, só vê maledicência, só coisa ruim, egoísmo, inveja, rancor, brigas e ofensas, presidente mandando as pessoas se armarem, em vez de se amarem, pessoas doidas (só pode ser isso) achando que é legal acabar com a liberdade no país.

Olhando para o fim da rua aqui de casa (ela é uma rua pequena), pensei também: - A vida é curta, tem que ser vivida com sabedoria: prazer, bondade, alegria. É isso que vale a pena. Vivendo assim, não só estamos dando um sentido bom para nossas vidas, como estaremos deixando as sementes de um futuro melhor para a própria humanidade. Esta lição tenho aprendido com Lucenildo, um vizinho amigo.

(*) Pseudônimo de Lúcio Tolentino Silveira.

Etelvaldo Vieira de Melo


AO VAZIO NAS REDES

Imagem: Univerdade Online de Viçosa


o real é o real – a rainha Realidade reina pelos mundos

não há que temer as certezas, amores: o certo é o certo;

o torto é o torto; há curvas, há retas e há os desencontros,

e não há que se ter prazer nesses ventos de ares imundos.

 

só porque se dizem soltos das réguas, uns tais inumanos

vendem-se como livres, estufam o peito, alargam os ombros

espalham-nos buracos ôcos, sonham tudo só de “espertos”

são vôos sem planos, rotas sem bússolas, cenas sem fundo.

querem desconstruir o que nem sequer esboçariam, ô dó!

esvaziarem o que não encheram?! Fazer-nos de meros robôs?!

almas não se esburacam como se dá em contrapisos chôcos...

nas cheias há respiros, abasteceres, devagares e bons retornos

o vazio pode ser espaço, mas primeiro da solidão, e só depois

da felicidade ou da beleza; da liberdade, jamais do abandono.

Lopes al’Cançado rocha, o Cristiano (pingodeouvido.com)

RATO? RAVEN?

 

Era pleno dezembro.

Alguém interfona.

- Se és, como te chamas, nesta funda noite umbrosa?

(Lanosa, conjeturo.)

- Espírito noturno, t’esconjuro?

-  É só isto e nada mais.

- Então, sobe, sô.

- É só isto e nada mais.

Acenam apenas penas

por trás do verde

olho.

E ela, ave amarela:

- Sou teu louro, Lenora.

- É só isto e nada mais?

Graça Rios


OTIMISMO, COM MODERAÇÃO

Imagem: O Jogo de Geri

Como disse alguém, que não sei quem: No Brasil, não precisa ser nenhum Newton pra entender a gravidade da situação. Se não, vejamos:

Tenho comigo que um dos mais graves problemas que atrapalham o desenvolvimento do país é o nosso sistema político-eleitoral: inchado, muito oneroso, com excesso de personagem e partidos (33 partidos), que não representa todos os setores da sociedade e onde os partidos são extremamente fracos – o que provoca infidelidade e fisiologismo.

Em função disso, a eleição se torna um jogo de cartas marcadas, quase que um sistema de capitania hereditária, onde o que está fora não entra e o que está dentro dificilmente sai. O presidemente e seus 1, 2 e 3 são exemplos de como a política se torna um feudo.

Outro exemplo de como o sistema político que temos é corrompido vem do chamado “Centrão”, esse conglomerado de parlamentares e partidos que escancara o jogo do fisiologismo, com o famoso toma-lá-dá-cá, o franciscano ‘é dando que se recebe’. Está aí o presidemente, mais uma vez, que não me deixa mentir, barganhando sua sobrevivência política a troco de verbas para compra de tratores, máquinas, automóveis, iates, bicicletas, patins e chicletes.

Tudo isso poderia ser evitado, se:

👉 O número de partidos fosse reduzido;

👉 Houvesse uma regra rígida de fidelidade partidária;

👉Tivéssemos uma reforma eleitoral, de modo a tornar o voto (eletrônico) realmente representativo;

👉 Houvesse efetiva transparência com os gastos dos parlamentares, acabando de vez com as excrecências de auxílio pra isso, auxílio para aquilo, verbas pra aqui e pra ali, gabinetes entulhados de funcionários efetivos, afetivos, laranjas, mexericas, limões e bananas-caturra.

Certamente que essa máquina do sistema político do país é muito poderosa, não é fácil de ser reformada. Lembro-me de um político, Miro Teixeira, que – coitado! – vivia batendo na tecla da reforma política. Por volta de 1900 e kafunga, chegou a conversar com Michel Temer, então presidente da Câmara, que lhe prometeu “estudar com carinho a proposta”. Já aposentado, depois de forjar um golpe e ter usufruído das benesses da presidência, o temeroso deve estar estudando a proposta do Miro até hoje.

As eleições de 2022 já batem à porta e o jogo de cartas marcadas já se prepara para (!) sua exibição de gala. Melhor seria dizer: de cédulas marcadas, como quer o presidemente? Ele pensa: - Enquanto o senhor lobo da ditadura não vem, vamos bagunçando a vida do Chapeuzinho com esse tal de voto impresso, talquey?

Como disse alguém, que não sei quem: O Brasil pra ficar ruim vai ter que melhorar muito.

Etelvaldo Vieira de Melo


SÉRIE BLOGFLIX - TEMPORADA 1

 


O QUE OS OLHOS NÃO VEEM, O CORAÇÃO NÃO SENTE

Li num Portal de Notícias do dia 13/05/2021 que certo vereador de BH, Bim da Ambulância, corre o risco de ter seu emprego na Câmara cassado.

Bim está no seu terceiro mandato. Na eleição de 2020, concorreu com mais 1.584 candidatos a uma das 41 vagas para vereador; conseguiu se reeleger com 6.022 votos. Na disputa, além dos tradicionais médicos e professores, teve pela frente muitos militares (o que está se tornando comum na política), além de muitos pastores e missionários (o que também está se tornando muito corriqueiro).

Bim também teve que enfrentar outros concorrentes diretos: Baixinho, Balbino, Dimas, Eduardo, Joãozinho e Márcio Almeida – todos pilotos de ambulância. Algumas figuras estranhas também apareceram na sua frente, tentando roubar-lhe a rapadura: Bigode das Latinhas, Breoso, Daniel Picolé Cremoso, Embaixador Cósmico da Paz, Franklin Protetor dos Animais, Ivan Papo Reto, Key Klaus Key Shimabukuro, Laíde Brigado Denada, Macalé do Chup Chup, Nildão Só Alegria, Nós Por Nós, Pompito Love, Preguinho Meu Rei, Rômulo Buldrini Filogênio, Rosy Rosa, Sabonete, Torrada, Tico Pato Roco e Vibrantinho. E teve também, você sabe, a Cláudia Filha do João.

Não sei qual foi o slogan de campanha usado pelo Bim. Penso que pode ter sido este: “Tudo pra fazer você feliz”. Penso assim porque nunca vi uma pessoa tão preocupada em compartilhar sua alegria com os outros. 

Imagina você que, em pleno Dia do Trabalhador, quando deveria estar descansando da labuta diária, ele se deu ao trabalho de ir até Armação dos Búzios, no litoral fluminense, onde alugou uma mansão. De lá, gravou vídeos para compartilhar com os 588 mil internautas que o seguem. O mais impressionante de tudo é que ele fez questão de registrar até o momento em que foi usar o sanitário do banheiro! Sentado no sanitário e seminu, o vereador mostrou os detalhes do cômodo de luxo (a gravação não me permitiu inferir que ele estivesse também “obrando” naquele momento, segundo linguajar de uma velha conhecida).

 Em outras postagens, ele filma a sala e a varanda da mansão a beira mar, agradecendo aos seguidores:

- Isso só está acontecendo na minha vida graças a vocês – diz, em tom emocionado.

Bim da Ambulância, nesta viagem a trabalho, teve a companhia de outro vereador, o Leo Burguês. Em um dos vídeos de prestação de serviço, o vereador também mostra o momento em que Burguês precisou ser atendido em um hospital da cidade, por causa de um ferimento no pé. Bim gravou o colega parlamentar sendo conduzido numa maca e sua declaração, depois do atendimento médico:

- Não tem coisa melhor do que o SUS [Sistema Único de Saúde] no Brasil. Cheguei na recepção, já me atendeu, me colocou aqui e me costurou. Estou pronto para outra.

Só faltou gritar, como um torcedor de futebol: - Viva o SUS!

Bom, no frigir dos ovos desta história, devo dizer que Bim da Ambulância está sendo denunciado por um advogado, o Mariel Marra, pedindo a cassação do mandato do vereador, sob a alegação de quebra do decoro parlamentar. A denúncia vai ser analisada pela Procuradoria da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Além deste, outros dois episódios foram arrolados na denúncia:

- O fato de Bim já ter realizado sorteio de carros pelas redes sociais;

- Em março, participou de uma disputa automotiva com aglomeração.

Vale lembrar também que, em janeiro de 2017, o parlamentar foi preso e indiciado pela Polícia Civil após aterrissar com um helicóptero em uma praia de Guarapari, no Espírito Santo. Na época, ele teve a licença de piloto cassada.

Diante da ameaça, agora, de cassação do mandato ou suspensão por 60 dias, Bim declarou:

-  O que a gente tem que fazer é lamentar. Eu não vou deixar de ser quem eu sou, por ninguém. Quem não gosta de como eu sou na rede social, que deixe de me seguir. Na minha rede social eu vou ser eu, não importa meu cargo ou meu poder financeiro. Jamais irei me corromper por cargo ou poder.

Pois é, por causa de uma bobeira, nosso amigo Bim, o Rubens Gonçalves de Brito, corre o risco de perder sua mamata, conquistada a duras penas. Por exemplo, tendo que se deslocar até Armação dos Búzios, em pleno Dia do Trabalhador, para ostentar, digo, para compartilhar com amigos internautas as belezas de uma mansão a beira mar.

De minha parte, o que tenho a dizer é o seguinte: É muito difícil ter que começar o dia tendo que ler esse tipo de notícia. Nem sei onde vamos parar com essas redes sociais. Melhor é ignorar tudo isso, cortar com uma faca afiada essas redes que aprisionam as pessoas. Como bem diz o ditado, “o que os olhos não veem, o coração não sente”.

Etelvaldo Vieira de Melo

 

 


PLÚVIA FLAMA

PLÚVIA FLAMA

A chuva intermitente seria esquecimento.

Escuto no passado até velhos pingos nos is.

À luz de velas: PRESTE ATENÇÃO!

Jogo damas com a própria Clariana.

Séries de mim de alguém fora de mim

montam Quéops, enigmática pirâmide

da construção feminina: estranhos oleodutos.

- Depois, sob o dossel de rendas,

adormeço,

pluviosa

ardilosa

rendida.

Graça Rios

UMA QUESTÃO DE LOGÍSTICA

 

Desde que dependuraram as chuteiras das atividades profissionais, Percilina Predillecta e Eleutério Caparros decidiram adotar um regime comunista em casa (por favor, não deixe esta notícia chegar aos ouvidos de Bolsonaro e sua tropa de elite). Sendo assim, acordaram de comum acordo, comunisticamente: Percilina ficaria responsável pela limpeza do lar, pela lavagem da roupa suja, pelo cuidado das flores do jardim da casa e de Thor. Já Eleutério deveria se preocupar com a manutenção física do imóvel (reformas e contrarreformas), abastecimento alimentar e confecção de comida. (A partir da pandemia, Percilina passou a cuidar também da pãodemia.)

Quando esse regime socialista foi implantado, Eleutério disse:

- Quanto a pilotar fogão, só posso responder pelo trivial simples.

- Tudo bem – disse Percilina. – Ainda mais que tenho muita restrição alimentar, por causa de uma intolerância à lactose e uma síndrome do intestino irritável.

Feito tal acordo, tudo caminhou dentro dos conformes, só acontecendo entrevero uma vez ou outra, normalmente quando recebiam a visita para almoço de Deusarina Rebelada e seu esposo, Renevildo. Nessas ocasiões, sem ter bem por quê, Eleutério arrumava uma confusão danada, com a comida atrasando e tudo quase terminando mal, não fosse o adjutório de Percilina, que acabava tendo que ir também pilotar o fogão, fato que a deixava deveras aborrecida.

Quando a pandemia do coronavírus despontou no horizonte de Belo Horizonte, as visitas de Deusarina e seu esposo começaram a diminuir e, assim, foram raleando, raleando, até que se restringiram a datas especiais: Natal, aniversários e Dias dos Pais e das Mães, todas com obediência aos protocolos de uso de máscaras, distanciamento social e álcool em gel.

Neste último Dia das Mães, Eleutério surpreendeu, com a comida sendo preparada exatamente dentro do horário previsto, fato que deixou todos embasbacados, notadamente Percilina, ela que, no dia anterior, tinha feito este comentário:

- Creio que seu atraso com a comida se deve ao fato de você conversar demais e beber mais ainda.

Quer saber o que levou Eleutério a seguir rigorosamente o horário?

1º) Ele fez um cardápio. O almoço constaria de: - arroz à grega, purê de batata, salada de alface, feijão cozido e, veja bem, miolo de alcatra acebolado em tiras. Focaccia seria servida como antepasto, enquanto que pudim seria a sobremesa (estes dois, preparados por Percilina). As bebidas seriam vinho e cerveja.

2º) Eleutério escreveu e dependurou na porta da geladeira um roteiro do que deveria fazer: 1 – Lavar arroz; 2 – Picar as carnes e temperar; 3 – Cozinhar o peito de frango; 4 – Cozinhar batata e cenoura; 5 – Desfiar o frango; 6 -  Fritar bacon; 7 – Cozinhar arroz; 8 – Lavar alface e brócolis, descascar uma cebola em rodelas finas; 9 – Cozinhar a carne; 10 – Cozinhar o feijão; 11 – “Fechar” o arroz, adicionando o frango fatiado, bacon, cenoura, ervilha, azeitona e milho; 12 – “Fechar” o purê.

Enquanto degustava aquela deliciosa refeição, Renevildo quis saber de Eleutério de onde ele tinha tirado a ideia de se programar tão bem para fazer a comida.

- Sendo sincero, tive esta ideia inspirado no Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello e sua famosa logística.

- Como assim? Ele não fracassou no combate à pandemia, o que levou até agora a mais de 400.000 mortes?

- Sem dúvida. Mas aí é que estava a sua logística: fazer dar errado aquilo que poderia dar certo. É essa a política do presidemente Bolsonaro.

- Pois é – falou Renevildo, rindo. – O capitão Bolsonaro deve ter dito assim pro general Pazuello: “Alto lá, nada de vacina! Nós estamos aqui para negar. Morrer faz parte. O povo tem deixar de mimimi e ser macho. Caralho! Talkey?”.

- Ao que o general respondeu: “O senhor manda, e eu obedeço”. Ou seja, manda quem pode, obedece quem tem juízo.

🔒🔑

P.S. Quando editava este texto, li num portal de notícias a nota de que um churrasco havia sido feito lá no Palácio da Alvorada, naquele domingo, em homenagem ao Dia das Mães. Uma das atrações foi a picanha de gado da raça wagyu, de origem japonesa, chamada “Picanha Mito”, produto do Frigorífico Goiás. O preço da dita cuja? R$1.799,99 o quilo. (Eu me pergunto: será que o general Pazuello estava lá, para estabelecer uma logística de degustação?)

Para ti, estimado Leiturino, te apertando sem abraçar, pergunto: caso tivesses sido convidado, ao mesmo tempo, para o almoço na casa de Percilina e o churrasco do Palácio da Alvorada, qual teria a honra da tua presença?

Etelvaldo Vieira de Melo

O GRANDE CIRCO BAMBUCAI

 

- Seu Leo, Ioiô está mal.

- Amanhã lhe dobro o serviço.

- Ele é tão fiel ao senhor...

- Chihuahua preguiçoso!

- Papai, queimou-se?

- Ah, Fifi.

- Mãe?

- Ligaram o fogo nele.

- Que monstro?

- O treinador do Circo.

- Tremendo, mô anjinho?

- São os choques de dança. 

- Posso substituir Ioiô?

- Cachorrinha. Belo papel!

- Sou pequena, mas sofro bem.

- Vale a pena, filha de um Cão?

- Sou micro, mas tenho orelhas

largas e bicudas.

Veja meus olhos: maiores que

a medida do corpo.

E a oval cabeça, igual à maçã.

Levanto o nariz miúdo. Aponto pro céu. 

 - ...Vaidosa do coração oco...

                - ... vindo dos índios techichi.

                                        Eles ofereciam chihuahuas

                                                    aos deuses. 

- Sou seu dono, firifimfina.

    Viajo faz quatro anos.

- Dizem que os índios toltecas

nos criaram há mil deles.

- Mentira!

 Este pelo feio, fino, liso,

           pouco ondulado...

- ...disfarça-me lágrimas.

Mais cem gemidos,

por parte do treinador.

-  A pluma fede a orelhas,

   gola, membros, cauda...

 

- ... pois já foram sacrificadas

         em altares.

- Baba ovo, nos braços

      da Madonna...                                       

        - Eh!

   Hoje em dia,

   para os lobos

        bobos,

                                         todo bom cachorrinho

       é sempre

      um palhaço.

- Eu sei.  Hoje em dia, todo bom cachorrinho é sempre um palhaço.
Graça Rios

MAGIA E ENCANTO

 

Para Sandra e todas as mães 

O poeta abre a caixinha de magias

E lá de dentro saem flutuando

Palavras, um tanto de palavras.

 

Mais que depressa

- com medo de perdê-las –

Vai aprisionando

Uma por uma

Nas linhas de um texto.

 

Com desconfiança e medo

Ele pega a folha com as palavras presas

E sai do quarto

Vai até a frente da casa.

 

Então, um vento sopra

Arranca-lhe o texto das mãos

Que voa voa

Agita-se ao vento e pousa

Junto às flores do jardim.

 

Diante de tanto colorido

Tanta simplicidade e beleza

O pobre poeta

- tomado de espanto -

fica sem saber

Onde repousa a poesia enfim

 

Se na armadura das palavras

Se no perfume e na delicadeza

Das flores de seu jardim.

Etelvaldo Vieira de Melo