PARA ANA CLARA, PERTO DO NATAL

Imagem: femininoealem.com.br
Tanto tempo já faz que não te vejo,
Mas permanecem vivas as lembranças.
A vovó, tanto em sonhos como em beijos,
Espera o teu amor, bela criança.

Todo dia me encanto com as pinturas
Feitas nas telas e no coração.
O retratinho, posto na moldura,
Ameniza a saudade, oh Maranhão!

Em breve, Ana Clara, no Natal
Quem sabe vou te ter, num longo abraço?
Renasce em mim a crença que, afinal

Possamos unir em um só laço
A família e, juntinhos numa ceia,
Tua avó novamente em anjos creia.

ENROLAÇÕES E LADRÕES

NÃO é sempre, mas chego a ser considerado uma pessoa que gosta de enrolar as outras. Em nome da verdade, é preciso levar em conta que, sendo eu uma das dezenas de personagens que tornam possível a sobrevida deste blog, não tenho com fugir de alguns enrolamentos, caso contrário, quem acaba enrolado somos meus parceiros e eu, indo o blog pro beleléu.

Meu histórico de enrolado deve ter começado nos tempos de estudante quando, numa prova de Ciência, o professor pediu uma dissertação sobre os intestinos grosso e delgado.

O professor em questão chamava-se Augusto Pinto Padrão. Para que não haja nenhuma inferência maldosa quanto ao seu nome, é bom que fique bem claro que ele era padre e, pelo que me constava, cumpridor dos votos solenes de castidade.

Pois bem, meus conhecimentos de Ciências eram pobres, indo, com muito esforço e espremendo ao máximo os neurônios, até o estômago. Como eu disse, tratava-se de uma prova dissertativa, já que não havia sido inventada essa tal de múltipla escolha, onde, mesmo não sabendo nada, você pode arriscar um “mamãe me mandou botar um ‘x’ nesta aqui”. Lancei-me à tarefa, falando, primeiro, sobre o ambiente físico onde se desenrolava a ação, um refeitório cheio de adolescentes e jovens - famintos; em seguida, fiz uma descrição detalhada dos ingredientes que compunham o cardápio de um suposto almoço. Ganhei, com isso, uns cinco parágrafos. Depois, falei sobre o processo mastigatório (bem lento – por causa da digestão), a comida descendo pelo esôfago e se acomodando no estômago. Chegando aí, eu bordei um FIM.

Na aula seguinte, entregando os resultados da avaliação, Padre Augusto comentou: - E temos aqui a brilhante resposta do senhor Floriano que, talvez em razão de seu próprio nome, floreou um tanto de baboseira, falando de tudo, menos dos intestinos grosso e delgado, com eu havia pedido. Floreando o resultado, dou-lhe um ZERO todo bordado.

Depois destes cinco parágrafos de introdução, é tempo de ir ao que interessa, antes que a pecha de enrolado cole de vez.

Meu vizinho acaba de me contar que dois amigos seus, fazendeiros no norte do Estado, enfrentavam um problema sério: regularmente, alguns de seus cavalos eram roubados. Deram queixa à polícia, que prometeu ir, mas não foi, ficando só na conversa. Então, decidiram eles mesmos levar em frente a empreitada de tocaiar os ladrões. Ficaram escondidos e, quando a noite chegou, deram a sorte de pegar os distintos com a "boca na botija" (traduzindo: no ato de flagrante delito). Um fazendeiro estava munido com uma cartucheira, enquanto o outro portava uma espingarda, daquelas de encher pela boca. Apesar desse pequeno inconveniente, conseguiram render os ladrões, dois.

Mantendo os meliantes sob a mira das armas, falou um dos fazendeiros:

- Para não se apropriarem do que é alheio, vocês irão morrer enforcados naquela árvore e, depois, jogados naquela lagoa. – Ele falou isso, apontando para uma árvore situada justamente à margem de uma imensa lagoa.

Enquanto o fazendeiro que portava a cartucheira mantinha os ladrões sob mira, o outro tratou de passar uma corda com laço no pescoço de um dos malfeitores. Depois, jogou a ponta da corda por sobre um galho e puxou.

Estando o corpo a meio caminho, aconteceu que o galho não suportou seu peso, pois estava seco, caindo o ladrão dentro da lagoa. Mais do que depressa, ele a atravessou, nadando, e chegou ao outro lado. De lá, ele fez um gesto de “dar uma banana” (puxou o braço direito com o punho fechado, enquanto ali batia com a mão esquerda), dizendo:

- Aqui pra vocês, ó! Vocês nunca mais vão me pegar, nem aqui, nem na China.

Enquanto ele assim falava, o outro se ajoelhou no chão, exclamando – com lágrimas nos olhos:

- Vê se arranjam um galho bem resistente, para que eu morra direito, já que não sei nadar!

Esse caso me fez lembrar um livro que acabei de ler, onde dois autores debatem sobre ética e corrupção. Numa parte do livro, fazem referência ao que é chamado de “Dilema de Pascal”: vale ou não vale a pena acreditar em Deus?

Se você acredita em Deus, mas ele não existe: tudo bem, já que você não perde e nem ganha; se Deus existe, aí você sai ganhando, pois será recompensado pela sua crença.

Se você não acredita em Deus: se ele não existe, tudo vai dar em nada, apesar de ter julgado certo; se ele existe... aí, você vai se dar mal.

Conclusão: entre acreditar ou não acreditar em Deus, faz melhor quem acredita.

O segundo ladrão da história, de qualquer modo, iria se dar mal. Por isso, sob qualquer circunstância na vida, é sempre bom a pessoa saber nadar. Saber tocar flauta transversal também é uma boa opção.

Etelvaldo Vieira de Melo

ARCAÍSMOS E NEOLOGISMOS

Imagem: www.jornaldosamigos.com.br
- Acho que vosmecê está arrastando a asa para outra mulher.
- Que é isto? Você ainda é minha gata.
- Janota, pode tirar o cavalo da chuva que não vamos mais juntos nem ao animatógrafo.
- Demorou. Qual foi o veio que não botou fé no nosso rolo?
- Tenha cautela de não tomar sereno. Só uma burra não percebe que você está passando a manta e dando uma de Vila Diogo, por causa de outra que não pode amarrar cachorro com linguiça.
- Na moral, bichão! Deixa de ficar dando uma de tilelê.
- Vamos fazer o quilo e depois vai pregar em outra freguesia.
- Brother, marca aí. Tô computando tudo no meu tablet.
- Se continuar nessa sangria desatada, vou chegar urtiga no nariz dessa peralvilha por qualquer tutameia.
- Bora, pra balada. Tenha a manha de pensar certo, ou acabo te deletando.
- Não tenho sangue-de-barata, mequetrefe, safardana.
- Vai catá coquinho. Cê num tá com nada, seus papo tão fraco.
- Adeus, vosmecê me fez de gato e sapato.
- Num tô nem aí. Vai secá gelo.
- Seu bilontras. Que vosmecê caia no precipício.
- Beijo, me liga. Beijim no ombro pro seu recalque.





SOCORRER

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A vida assim eu vejo
como um rato
que corre por um queijo
um gato que corre atrás do rato
e um cão a perseguir o gato.

A vida também é assim:
eu corro atrás dela
enquanto algo sombrio
corre atrás de mim.

É a morte?
pode até ser
mas nessa correria
nem tenho tempo pra ver

se é minha sombra
se é a felicidade
a se oferecer.

Com tamanha desdita
a nos atormentar
melhor ser o queijo
que nada tem a procurar.

Ou terá?
Teria
se pudesse do rato correr.

Corre o queijo do rato
que corre do gato
que corre do cão.

Corro da morte
corro da sombra
corro da sorte

corre a vida em ilusão.                                           Etelvaldo Vieira de Melo


HERANÇA DO MUNDO MODERNO

Imagem: www.jornaldelavras.com.br

Um passarinho pousou em cima do muro. A faxineira me chamou e comentou que a gente poderia aprisionar o fugitivo, se ele viesse comer pão em nossa janela.

Foi o que fizemos. peguei o sabiá e vi uma plaquinha em sua perna.

- Vou ligar para o IBAMA.

Ninguém atendeu. Ficamos as duas sem gaiola, porque no apartamento só tinha uma caixa de sapatos. Pronto! E daí?

- Você pode levar o curió, disse eu.

- Então furo a caixa e levo.

Na semana seguinte, ela acrescentou:

- Está cantando que é uma beleza.

Disse-lhe eu então que o meu filho pedira para ficar com o xapim.

- Está bem, dona Graça, mas agora ele custa 550 reais, sem a gaiola.

EM DEFESA DO VIDEOGAME

A
o longo de minha caminhada por este espaço cibernético (gosto desta expressão), uma vez ou outra, tenho sido vítima de críticas, ora veladas, ora ostensivas, notadamente quando menciono gostar de videogame. Muitas pessoas torcem o nariz a esse fato, como se eu estivesse realizando uma atividade menor, coisa de adolescente. Tais pessoas não entendem que é nessas ocasiões, quando estou com um manete de jogo nas mãos, eu descarrego minha adrenalina (naftalina, diria o ex-jogador Jardel), que, caso fosse desviada para outras pessoas, poderia ocasionar ferimentos e até mortes.
        
Os jogos de videogame estão aí para isso mesmo. Por essa razão, estão todos carregados de violência. Caso eu tivesse que expiar, pagar as mortes virtuais que provoquei, não haveria inferno que conseguisse me acomodar.
        
Quero, pois, dizer para esses desavisados críticos: só apelando para tais jogos que consigo manter esse meu tom de bom humor. Se eu me contentasse com as notícias de jornais e de TV, teria um linguajar ácido a provocar gastrite em todos de minha convivência, a começar por eu mesmo.
        
Dessa maneira que levo a vida, o máximo de desconforto que carrego é, às vezes, o que chamam de “LER” (lesão por esforço repetitivo), uma dor enjoada nos dedos das mãos - em especial, no anular esquerdo.
        
Para esses críticos de plantão, eu diria, também, para olharem a história, quando iriam saber que muitas invenções só foram possíveis em momentos lúdicos.
        
Vou dar dois exemplos. Quando Isaac Newton descobriu a famosa “Lei da Gravidade” (e que enchia a paciência da gente, quando estudante), ele estava fazendo o quê? Estava ele tirando uma soneca debaixo de um pé de maçã, depois de haver lanchado num piquenique com umas três donzelas (era assim que as moças de então eram chamadas). A extraordinária invenção do para-raios foi feita num momento em que Thomas Edson se debruçava sobre um calhamaço de livro? Não! Ele estava se deliciando, soltando pipas ou papagaios. E não era ele, então, um adolescente espinhento, mas um senhor respeitável, de barba e bigode.
        
Portanto, não tem nada a ver o fato de que amo videogame. Foi durante um jogo que tive o insight da invenção do espelhosohp ® ou mirrorshop® (crônica postada em 28/09/2013). Está claro que ela não deu em nada, mas isso só se deve ao fato de ser eu um brasileiro, de estatura mediana, de não ter sido Made in USA (ou in China).

Etelvaldo Vieira de Melo

MENSAGEM DO LEITOR

O vosso blog faz hoje dois anos.                    
Tanto tempo perdido em palavras
que hoje merecem um bolo.
Bem dado!
A princípio os temas brilham
mas ganham apenas o ouro
do chocolate.

Neste aniversário, vou dar-lhes um presente:
O Etelvaldo continue vermelho
mesmo porque é a cor de sua cara
quando faz as postagens.
A Graça não seja cor-de-rosa.
Malandra,
não fique em cima do muro
esperando que eu, leitor, a socorra
na escolha dos bombons da linguagem.

Este é o meu recado
neste dia em que aniversariam:
escrevam em paz seus textos
e deixem-me atordoado de vinho
com a ideia de achá-los muito bons
ou com a vontade enjoada
de largá-los de vez na lixeira. 

CONTRADIÇÕES

      
T
empos atrás, fui até certo cemitério da cidade para acompanhar o enterro de um conhecido.
        
Entre as capelas-velório, havia uma com um corpo aparentemente abandonado, sem ao menos uma coroa de flores. Com esforço, vislumbrei na penumbra o vulto de uma mulher sentada num canto.
        
Aquela cena de aparente abandono e solidão me chocou profundamente, fez com que eu voltasse no tempo, para minha cidade natal, quando aconteciam os enterros.
        
Havia aqueles que provocavam comoção geral, com direito a missa de corpo presente, badalos de sinos, o comércio fechando suas portas e toda a população, compungida, acompanhando o esquife. Formavam-se filas imensas e até o vigário se dava ao trabalho de ir ao cemitério para fazer as orações finais.
        
Outros, entretanto, procuravam atalhos para chegar logo ao destino. O caixão, em vez de construído em madeira trabalhada, era uma armação coberta de pano. Além dos quatro carregadores, havia, quando muito, mais três a quatro acompanhantes.
        
Adolescente, então, tomado de veleidades poéticas, cheguei a produzir este texto, que até hoje guardo de cor:

Enterro de pobre
Que tão bem encobre
A dor que causou.

Adeus de vivente
Que parte e não sente
Aquilo que deixou.

Sentimento velado
Em coração marcado
Procurando esquecer:

Esquecer o adeus
Esquecer o vazio
Para continuar a viver.
        
São contradições assim que me fazem sofrer. Mesmo no momento de despedida, alguns são mais reconfortados, enquanto outros partem pedindo desculpas pelo espaço que ocuparam nesta vida. Isso dói.
Etelvaldo Vieira de Melo

FIM DA POLÍTICA

Imagem: diariodocentrodomundo.com.br








volto a votar
embora a Sereníssima República
continue dormindo em berço esplêndido
embora o desejo de todos
seja ir embora para fora
embora haja luta física e poucos projetos
entre os candidatos
embora o governador eleito ontem
já esteja envolvido com jatinhos
embora os botox não escondam
os olhos velhos e vermelhos de Aécio
embora Dilma não rime
de jeito nenhum com renovação
nesta eleição de domingo
eu volto a votar

TUDO PASSA

26/10: aniversário de 2 anos do blog BBCR

Quando me aventurei no espaço da blogosfera, imaginava estar entrando numa terra de ninguém, infestada de modernos bandoleiros, denominados hackers, onde valia a lei do mais forte e onde minha vida não valeria um dólar furado, mesmo que eu usasse o pseudônimo de Django e contasse com a direção de Quentin Tarantino.
           
Passados, agora, dois anos, vejo que meu prognóstico pessimista não se concretizou, certamente por ter tido um comportamento discreto e, sempre que necessário, ter procurado a ajuda dos donos deste empreendimento cibernético, a Equipe Blogger. Existe também uma explicação baseada no tamanho de minha insignificância, ou seja, o fato de que eu represento um grão de areia no deserto saaraônico da concorrência e ser uma espécie de Mosquito Namouss, o Perceptivo, aquele que, durante muitos anos, morou na orelha de um elefante. Quando, por imperiosas razões, teve que se mudar, achou por bem dar uma satisfação ao proboscídeo. O elefante respondeu que estava tudo ok, mas não quis confessar que, na verdade, nunca havia percebido a presença daquele mísero inseto em sua orelha.
           
Feito o registro de minha alegria incontida por estar presente neste espaço, menciono os dois sentimentos que tomaram conta de mim ao longo desses meses.
           
O primeiro foi o de pensar que estava aqui para refletir sobre o comportamento da terceira classe social do país, aquela que começava a usufruir das benesses do consumismo. Meus primeiros textos falavam muito de lojas de 1,99 e de shoppings populares, mencionava o fenômeno da globalização e alertava para os riscos das pessoas serem controladas pelo sistema e seus segmentos.
           
O segundo sentimento que tomou conta de mim foi o de assombro por perceber que, quase sempre, estava repensando ou fazendo uma releitura dos ditos populares. Essa descoberta me trouxe muita alegria também, já que havia adotado a máxima de que “aprendizagem é a arte de desocultar mistérios”. Eu, que busco ansiosamente um significado para a existência, percebo que o trato com a sabedoria popular é uma forma de me aproximar da cultura, da essência de tudo aquilo que a humanidade construiu ao longo dos séculos. Se tudo isso não me traz uma resposta para minhas indagações existenciais, pelo menos me aproxima mais da condição humana. Aparentemente pode parecer coisa banal, mas isso me parece da mais extrema importância: sentir que sou gente, que sou um ser humano, que carrego uma herança cultural de muita riqueza, sabor e beleza.
           
Por que o “tudo passa”? “Tudo passa, tudo passará” é trecho de uma canção de Nelson Ned, um cantor de estatura pequena, mas que tinha um vozeirão e enxergava longe. Sua lembrança, ele que também já passou desta, vem a propósito de uma terceira ideia que anda me rondando e eu pretendo colar às outras duas, mencionadas anteriormente, nem que tenha que recorrer a um super adesivo de secagem rápida.
           
Ao longo desse tempo, que se estende desde outubro de 2012, creio que mudei muito, que me tornei uma pessoa melhor, mais interessante. Do ponto de vista físico, nem quero fazer consideração, pois sei que os espelhos fabricados hoje em dia passam longe, quando se trata de qualidade, dos de antigamente. Há uns 30 anos atrás, eu podia demorar em frente a um espelho, analisando com cuidado cada parte do meu rosto. Hoje, devido à péssima qualidade dos mesmos, só me olho de relance, com um sentimento de aversão como a de um vampiro frente uma cruz. Mas eu já encontrei uma solução para esse problema meu e de tantos outros; ela foi postada numa crônica em que falo do projeto de exportar ideias (28/09/2013).
           
Detalhando os ganhos, posso dizer que me tornei uma pessoa mais atenta à vida e aos acontecimentos, agucei minha curiosidade frente ao que é novo, melhorei meu vocabulário, aprendi muito ao compartilhar ideias com minha parceira de blog, retomei o hábito da leitura, produzi textos (104 publicados até hoje) que, em outras circunstâncias, não haveriam de vir à luz. Resumindo, quero dizer que desenvolvi o hábito da reflexão. Hoje, posso fazer minhas as palavras de Aristóteles ao afirmar que “a vida sem reflexão não merece ser vivida”.
           
Tudo passa, mas também permanece, tudo se renova. Assim é a vida para quem não se contenta em ficar olhando pela janela. Até as mínimas coisas ensinam essa lição do novo. Semana a semana, compartilho com você essas descobertas e aprendizagens. Muito obrigado pela sua companhia amiga. Espero contar com você sempre e sempre me tornar cada vez mais digno de sua atenção.

Adendo (só pra não perder o trem da História):
          De repente, eu me vejo pensando em trechos de duas músicas.
A primeira, de Dorival Caymmi: “Marina morena Marina você se pintou/ ... Me aborreci, me zanguei / ... desculpe Marina, morena / Mas tô de mal, de mal com você”.
A outra é uma transversão daquela de Antônio Barros e cantada por Ney Matogrosso, já apresentada duas semanas atrás, neste blog: “Neste mato tem rastro de cobra, tem couro de lobisome / Se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come”.  

Etelvaldo Vieira de Melo  

MENTIRAS

Imagem: gazeta24horas.com.br





Os discursos políticos
prometem ouro
a quem não tem pão.

POSITIVISMO

“Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta”: Ordem e Progresso.

A
s pessoas deveriam abandonar as opiniões extraídas de suposições e achismos.
        
O espírito científico deveria impregnar as mentes humanas, de tal modo que a manifestação de ideias fosse baseada na certeza de que essas ideias brotaram de verificações empíricas, nunca de suposições.
        
A vida humana, norteada dessa maneira, caminharia a passos largos para o progresso e o bem estar de todos. Não obstante, fica claro que as questões últimas e cruciais só conseguem ser tratadas na base de suposições, de achismos. Infelizmente.
        
Voltando ao dia a dia, 98% das opiniões emitidas poderiam ser removidas, porque fundadas no tal achismo, sendo trocadas por outras, essas, sim, escoimadas (!) em dados científicos. (Às vezes, eu me surpreendo com a versatilidade de meu vocabulário.)
        
Um exemplo é você dizer que determinado fulano enxerga com a barriga, numa alusão ao fato de que ele é amante de comida, gosta de comer desbragadamente. Quando está com ele em um restaurante (‘restorante’), a comida em seu prato chega a competir com a altitude de uma Cordilheira dos Andes ou de um Monte Everest. Antes de condená-lo por isso, trago à sua consideração o que li em uma tampa de iogurte (iorgute – quase ia dizendo): o intestino possui mais de 100 milhões de neurônios; por isso, ele é conhecido como “segundo cérebro”.
        
Esta simples observação levará a um novo juízo de valor, onde o fulano em questão não mais será difamado. Sabendo que os neurônios se concentram em duas bases, você irá inferir que, no mencionado indivíduo, a central localizada na cabeça sofreu uma pane e necessita reparos.
        
Olhando sob essa perspectiva, como tal pessoa tem tendência a engordar, inúmeros gastos com regimes emagrecedores, internações em Spas e cirurgia para redução de estômago poderiam ser evitados. Um simples serviço de eletricista resolveria o problema, ativando os neurônios situados no cérebro nº 1.
        
Outra consideração diz respeito aos bebuns, os alcoólatras. É sabido que tais pessoas se alimentam mal, tornam-se magras, exatamente porque o álcool mata os neurônios do segundo cérebro e, com o tempo, chega a comprometer os que estão no primeiro.
        
Observo que os AAs da vida teimam com a técnica de quebra de copos, como tentativa de solução para a dependência alcoólica. Meu raciocínio lógico, positivista, recomenda a aplicação de vitaminas para o fortalecimento dos neurônios do segundo cérebro. Foi isso que inferi da leitura do texto inscrito na tampinha do dito iogurte. E é isso que eu acho, mesmo achando que não tenho direito de achar nada.
Etelvaldo Vieira de Melo 

IGREJA DE ALEIJADINHO

Imagem: folhadoindaia.blogspot.com




         A mão ferida fabrica o altar. Enquanto se esvai no sonho, renasce um anjo bom.
        
         Aleijadinho morrendo e as santas rejuvenescendo, brancas, em pedra-sabão.

         O coto do artista se esfumaça, magoado de negras manchas, mas o Cristo vai se formando, ressurrecto e cicatrizado.

         As pernas do Aleijadinho estão cobertas de chagas, daí os cinzas das vestes, porém os soldados fortes supliciam a Cruz.

         O feio artesão se esconde e as figuras resplandecem, em vermelhos azuis ofuscantes.

         Olhos oblíquos saem da pedra para verem o rosto acabado. Aleijadinho é o monstro inconfidente que produz cataclismos em Minas Gerais.

         Vede essa Virgem sorrindo e as cores de seu vestido. Olhai os laços doirados que enlaçam finas cinturas.

         A cabeça de Aleijadinho está magra e suarenta, mas os anjos esbanjam gordura e bebem no céu estrelado.
                  
         É de nimbos a boca do artista; de cúmulos, a dos santos.

         Suspirai por essas coroas, não mireis os esboços da vida. Belas são as faces dos anjos, triste a carapinha do artista.

         Entretanto é o caminho espinhoso que conduz aos roseirais.

         Ide por essas rendinhas, subi pelas falas dos púlpitos, contemplai essas dores franjadas que compõem o cenário barroco.

         Esquecei as mazelas do homem que, terminada a sua obra, também estará terminado.