A VIRGEM DO PINTASSILGO

 

Maddona florentina nos convida a beirar caminhos virtuosos. Passeemos, pois, na sagrada frondosa estrada. Interroguemos ao aldeão se ali florescem vides. Se acolá brotam roseiras, palmas, romeiras. Se há frutas dentro da escura sombra. Se a leiva outonal aguarda, doida doída, pela grainha. Acastelemo-nos acima da macia alfombra do prado. Nasce Eros, procurando verde alcatifa. Ele, fruto maduro dos numes Poros e Pênia, desliza seminu sobre nenúfares. Abranda ventos Alísios. Coroa louras melenas, haurindo cachos d’água miosótis. Cinge a real cintura com flores de lótus. Anexemos-lhe nossos pés. Envereda-se, empíreo herói, por abismo, espinho, senda, a fim de catar amora sob o místico aroma do Jardim dos Deuses. Ali, cirandinha, roda rasas asas em torno d’Ave mansa. Súbito, pousa-lhe no ombro, ferido, gentil passarinho. E voa e gorjeia e trina hinos, embora manchado na testa por divinal sangue. Louvemos tão destemido cantor. A seguir, em par mimoseiam Rafael. O angélico pintor os glorifica, modelando silvestre paisagem. Compoesita a favor de ambos um arco-íris em forma de círculo, 8 semelhante à serpente que morde seu próprio rabo. Recorda-se Jove: Eis Ouroboros, presente no enigmático ‘Livro do Mundo Inferior.’ Ressentido, Filho do Éter aplica na tela detalhes pseudo-autorais. A pincel de cinco cabelos, interrelaciona Hades, Olimpo, Oceano, Terra, em completa harmonia. Afinal, aceitemos, Amor, penetrar nesse augusto festim. Emudeçamo-nos lado a lado com o Menino Jesus, apoiados no colo da Virgem.

Graça Rios


CONVERSAS SURREALISTAS (EDIÇÃO ESPECIAL/PONTA DE ESTOQUE)



Deus acima de tudo?

- Você não tem medo?

- Medo de quê?

- Estou vendo que pregou um adesivo do Bolsonaro no vidro traseiro de seu carro.

- E daí?

- Não tem medo de que alguém quebre o vidro, risque a pintura?

- De jeito nenhum.

- É que um amigo colou um adesivo de Lula e arrebentaram o carro do pobre coitado.

- Ká ká ká ká...

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- Você viu?

- Viu o quê?

- Uma declaração do Bolsonaro dizendo que não teria problema algum em comer carne de índio?

- Não. Mas tem alguma passagem na Bíblia dizendo que é proibido comer carne de índio?

- ???

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- A Damares falou que possui vídeos provando que crianças de 4 anos da Ilha de Marajó têm seus dentes arrancados para a prática sexual.

- Que horror!

- Crianças também têm uma alimentação pastosa para facilitar a penetração anal.

- Que horror!

- Você só sabe falar “que horror”?

- Ainda bem que temos a Damares para fazer essas denúncias.

- Mas é tudo mentira!

- Entre a sua opinião e a opinião da Damares, fico com a Damares, que ela é uma pessoa pura e nem precisa provar nada. E viva Bolsonaro! E fora o Comunismo!

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- Morro de medo do Lula.

- Por quê?

- Ele é a favor do aborto.

- Onde você ouviu isso?

- Lá na igreja.

- Lá na sua igreja falaram também que, quando nasceu seu filho, o 04, Bolsonaro queria de todo jeito que sua mulher de então fizesse aborto, que ele até achava que o filho não era dele?

- Seu comunista! Vai pra Venezuela!

⇰⇰⇰ 

- Eu amo o Bolsonaro!

- Por quê?

- Veja o tema bonito de sua campanha: Deus, Pátria, Família, Liberdade!

- Mas ele copiou isso dos fascistas!

- Mentira! Que vergonha! Espalhando fake news!

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- Bolsonaro e as pessoas de bem são a favor da liberdade de expressão, da moralidade, dos bons costumes, da família.

- Ah, é? Falando em família, quantas ele tem?

- Seu comunista! Cala o bico, senão vou arrebentar sua boca de porrada!

- E seu ministro da Educação, que roubava barras de ouro?

- É por isso que sou a favor da Ditadura! Esses comunistas só falam mentira!

 ⇰⇰⇰

- O feijão está custando o ‘olho da cara’!

- Por que você não segue o conselho de Bolsonaro e compra fuzil? Lembre-se: povo armado jamais será derrotado!

- E povo com fome?

- Tem mais é que morrer.

⇰⇰⇰ 

- Já disse e volto a repetir: Bolsonaro defende a moralidade, a família, os valores cristãos.

- Tá. E quando ele dizia pra sua colega deputada que só não a estuprava porque ela era muito feia?

- Esta citação está fora de contexto.

- E quando ele disse que, ao ver umas garotas de 14, 15 anos, “pintou um clima”. Isso não é pedofilia?

- Pedofilia é sua mãe, seu excomungado! Ainda arrebento a sua cara.

⇰⇰⇰ 

- Temos que reconhecer: Bolsonaro fez muito pelas pessoas em geral, nos seus quatro anos de governo.

- Por exemplo...

- Acabou com o Horário de Verão.

- Isso não vale. Fale outra.

- Criou o PIX?

⇰⇰⇰ 

- É um absurdo dizer que Bolsonaro não contribuiu com o enriquecimento cultural das pessoas no seu governo!

- Cite um exemplo de sua contribuição.

- Foi no seu governo que as pessoas ouviram falar de uma tal Ideologia de Gênero, ficaram sabendo da  Venezuela, Cuba, Nicarágua...

- E da China?

- Da China elas já sabiam, por causa das lojas de Hum e Noventa e Nove.

FIM 

Etelvaldo Vieira de Melo

IDEIAS SALGADAS E DEFUMADAS

 

Engana-se quem pensa que filósofo vive no ‘mundo da lua’, preocupado tão somente com questões aéreas e voláteis. Para mostrar que não é bem assim, vamos recorrer ao exemplo de Francis Bacon, filósofo inglês que viveu por volta de 1500.

Além de cuidar das questões ditas filosóficas, através de seus célebres Tratados, Bacon também se envolveu com a política, ocupando vários cargos. Daí, como quase sempre acontece com quem é do ramo, acabou sendo acusado de corrupção, tendo que pagar pesada multa, além de ser afastado da vida política.

A lembrança de Francis Bacon me ocorre por duas razões. A primeira é uma pergunta que me faço: tem Bacon algo a ver com essa peça de carne de porco, salgada e defumada, e que se tornou uma das maravilhas da culinária mundial?  Falando da peça de carne, sabemos que o processo de defumação existe desde a Antiguidade; então, há quem diga que foram os chineses que desenvolveram esse processo acerca de 4 mil anos. No entanto, o bacon, tal como o conhecemos, acredita-se que foi inventado pelos alemães, no período medieval. Quando os franceses levaram a receita dos vizinhos alemães à Inglaterra, ela sofreu alterações. Os ingleses o produziam de uma maneira muito próxima da que conhecemos hoje, um corte das costas do animal desidratado com sal e defumado.

Aceitos esses dados históricos, concluo, com base em fortes suposições (técnica de raciocínio que aprendi com Sérgio Moro, vulgo ‘Marreco de Londrina’), que Francis Bacon era oriundo de uma família especializada em criação de porcos, produzindo em larga escala o que era chamado de “bacon”. Tanto isso é verdade, que passaram a adotar esse sobrenome, Bacon.

Avançando um pouco mais nessas suposições, ouso afirmar que o ator norte-americano Kevin Bacon, astro de Footloose – Ritmo Louco e Rio Selvagem, deve ser descendente do outro Bacon, o Francis. O que sei com certeza é que, nos anos 2000, Kevin foi vítima de um golpe financeiro, onde perdeu a maior parte de sua fortuna pessoal. Dessa experiência, ele tirou uma bela lição de vida: - “Se algo é bom demais para ser verdade, é bom demais para ser verdade. Em seus momentos difíceis, lembre-se de que sempre vai ter alguém em situação muito pior do que você”.

Feitos os devidos reparos (que não sei se reparam alguma coisa) e adendos, infere-se que o bacon não tem nada a ver com o Bacon, embora eu seja levado a suspeitar que o Bacon derive do bacon.

A segunda razão de estar lembrando Francis Bacon vem de uma citação sua, amigavelmente repassada por uma amiga. Diz ele: “Uma vez que o entendimento de um homem se baseia em algo, seja porque é uma crença já aceita, ou porque o agrada, isso atrai tudo à sua volta para apoiar e concordar com a opinião adotada. Mesmo que um número maior de evidências contrárias seja encontrado, ele as ignora ou desconsidera, ou faz distinções sutis para rejeitá-las, preservando a autoridade imparcial de suas primeiras concepções”.

Segundo tal assertiva, uma pessoa aceita determinada informação desde que ela alimente e fortaleça suas crenças anteriores. Essas crenças são tão importantes que o cérebro faz tudo para protegê-las. E mesmo as evidências contrárias são facilmente desconsideradas, ignoradas ou rejeitadas. Dois exemplos tornam esta citação mais compreensível.

Primeiro:  Durante culto em uma igreja Assembleia de Deus, em Goiânia, Damares Alves, pastora e ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, afirmou que tem imagens de crianças brasileiras que tiveram seus dentes arrancados para a prática de sexo oral. A senadora eleita chegou a mencionar detalhes sórdidos que nem caberiam em filmes proibidos para menores de 50 anos, muito menos em culto evangélico com presença de adolescentes e crianças.

Sem entrar nos desdobramentos de tal declaração de uma mente doentia e corrompida, não menos chocante foi a pronta divulgação que o vídeo recebeu através das redes bolsonaristas, onde aquilo que era dito passava como verdade absoluta e denúncia da mais alta gravidade. É o que dizia Bacon: não importa a evidência contrária, o que interessa é o reforço de nossas próprias convicções. A mentira institucionalizada é o capim que alimenta esse tipo de gentalha.

Depois de sua fala repercutir de maneira intensa, provocando violentas reações contrárias, Damares disconcordou com o que havia dito, alegando que ouvira aquilo por aí. Por enquanto, não assistimos a nenhuma ação judicial incriminando essa senhora de mente doentia e canalha.

Segundo: Depois de repercutir nas redes sociais a declaração de Jair Bolsonaro ao jornal New York Times, anos atrás, de que toparia comer carne de índio (“É para comer. Cozinha por dois, três dias, e come com banana. Eu queria ver o índio sendo cozinhado... Eu comeria um índio sem problema nenhum”), alguém saiu em defesa de seu mito imbrochável, dizendo: “Em qual parte da Bíblia está escrito que o canibalismo é pecado?”

Então, você está vendo que não dá para argumentar com certo tipo de pessoa: ela filtra as informações de acordo com suas conveniências e interesses, chegando à estupidez de achar que o canibalismo não contraria princípios cristãos; que Deus, ao mesmo tempo que pede amor ao próximo, não se incomoda que você lhe dê um tiro de fuzil no meio da testa.

Etelvaldo Vieira de Melo

ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJ0 (Buñuel)

 


O que move a existência humana? Eis uma pergunta formulada desde os primórdios da Filosofia. Platão, Nietzsche, Foucault, Saussure, consideram o desejo motor das ações humanas. Teoricamente, deixam post mortem estabelecido que, perdido o cordão umbilical, todo indivíduo se torna sempiterno desejante. Diante da impossibilidade de retorno ao estado homeostático uterino, projetará em objetivos futuros sua incompletude. Vide esta nossa ser hei a obra literária. Será ser? Seria? O desejo, em Psicanálise, não trata de algo a ser realizado, mas da exclusão jamais desfeita. Em toda escolha, resta sempre um novo querer. Portanto, o buraco, oco do louco bloco, permanece insatisfeito. Renasce Fênix noutro não-lugar foradentro do anulado ou no significante suscetível de símbolo. Trata-se de um fluir metonímico, pois se desloca em direção ao que aparenta ser o outro objeto perdido. O sujeito se vê aprisionado pela vã tentativa de obturar a supressão interna. O que suscita o desejo sobre nossa escritura? Algo indecifrável, diremos. Um brilho, uma textura, um som, um tom estilístico. Eles são, para Lacan, faces imaginárias daquilo que está muito além do princípio do prazer. Tal elemento concreto será alvo do artista, concentrado, em pleno gozo. Aqui, o jogo de linguagem se torna fundamental, visando a reconstruir o inconsciente recalcado pela mácula tempo. Alcançamos, À Sombra das Amélias em Flor, maquilagem proustiana quase total, porém há coisas muito maiores que tudo.
Graça Rios

PODEMOS SER TOLERANTES COM OS INTOLERANTES?

 

- Iasmim, ando incomodado com algumas questões. Devo ser tolerante com a intolerância? Como me posicionar diante daqueles que são intolerantes?

- Antes de refletir sobre essas questões diretamente, estou me lembrando daquele ditado que diz: pior do que praticar a maldade é se calar diante dela.

- Pior do que a ação dos maldosos é o silêncio dos bons.

- Exatamente. Quando a maldade não tem vez, ela se torna vazia; quando lhe dão voz, há o risco dela se tornar a única voz possível. Por analogia, podemos dizer que, quando não lhe damos vez, a intolerância se torna uma voz vazia; quando nos calamos, ela se torna a única voz possível.

- Recorrendo ainda a analogias, existe aquele poema de Maiakóvski, que não é de Maiakóvski...

- Sim. Quando nos calamos diante daqueles que praticam a maldade, acontece deles, em um primeiro momento, roubarem uma flor de nosso jardim. Porque nos calamos, eles pisam as flores e matam nosso cão. Até que, diante de nosso silêncio, o mais frágil deles rouba-nos a luz e arranca nossa voz da garganta. Por causa de nosso medo, porque nunca dissemos nada, já não poderemos dizer nada.

- Iasmim, suas palavras refletem bem o momento que vivemos. Foi o silêncio, a omissão e a conivência que tornaram possível todo esse clima de intolerância em que a sociedade está mergulhada.

- Verdade. Se recuarmos no tempo, iremos ver exatamente os momentos em que os intolerantes ‘roubaram a flor do jardim’, ‘pisaram as flores’ e ‘mataram nosso cão’. Diante disso, as pessoas boas e ingênuas diziam que não havia nada demais, que era preciso contemporizar, entender, não levar a sério o que os loucos e alucinados praticavam. Agora, aqueles que eram tidos como ignorantes estão nos ‘roubando a luz’ e tentando ‘arrancar nossa voz da garganta’.

- Exatamente. Então, fica o reconhecimento: é impossível tolerar a intolerância.

- Mesmo porque os intolerantes são os primeiros que não toleram você. Tem até aquele paradoxo da tolerância: você pode tolera tudo, mas não pode tolerar a intolerância, porque, quando permitida, ela se espalha e nada mais se tornará tolerável. Um exemplo disso é o fascismo: toleraram o fascismo e o fascismo se espalhou pelo mundo, tornando todo o resto que não fosse o fascismo intolerável.

- Então, que sejamos amigáveis e solidários com as demais pessoas. No entanto, que essa tolerância não se confunda com a passividade, com o permitir que os intolerantes ditem as regras das relações sociais.

- Existe um termo chamado ‘assertividade’, muito empregado em Psicologia. Significa você ter uma atitude positiva diante das opiniões alheias, não se deixando intimidar diante do que dizem. Isso não significa, necessariamente, que você deva ser agressivo, truculento, mas que não seja medroso, covarde na defesa de suas ideias. Seria muito bom viver em um país onde as pessoas fossem honestas umas com as outras.

- Mais do que isso, Iasmim, que elas fossem honestas consigo mesmas.

- Falando em ser honesto consigo mesmo, lembro o que disse uma amiga, a Valéria: “Devemos nos aceitar como somos e com o que damos conta …. A solidão é uma escolha de sanidade, respeito e amor por si mesmo! Ajude a quem precisa de ajuda, sem expectativas; cuide da alimentação, cuide da natureza e dos animais… Nesse aspecto, a vida vale a pena! A vitória não nos pertence, a nós só compete o esforço, pois só há uma derrota definitiva: deixar de lutar. Tudo mais é crescimento.”

“Sobre a intolerância, continua Valéria, fica óbvio que os seres humanos não são divididos por etnias, raças ou condições econômicas de sobrevivência, mas pela linha nada tênue do caráter…. Não aprecio a intolerância, aprecio o corte total do que é maligno, cínico e hipócrita que não cabem na minha vida. No mais, lembro o que li em algum lugar: ‘Quando doer, exclua. Quando incomodar, evite. Quando chatear, ignore. Quando fizer mal, se distancie. Não podemos mudar as pessoas, mas podemos gerenciar nossas vidas’.”

 

- Um texto produzido coletivamente por Iasmim de Deus Silva, Valéria Rios e Etelvaldo Vieira de Melo -

 


GRAVIDEZ


 
Imagem: freepik

Serenô, eu caio. Espero. Caio. Súbito, levanto- me. Olho. Sinto no enovelado tempo ele molhado. Chora em teor de dor? Vigio o vagido nas fraldas da hora. Bico da noite, vem, consola meu bebê o seio cheio de escumosa imagem. Vem mamando amando sobras de sonho do sono maternal, afinal. Cirando a criança na penumbra, já trocada e limpa do colostro. Canto, eu, a sabida sabiá, embalo na câmara incomodado piar. Passarinho sonoro, às vezes, me adormeço... e já babá entrou, deu-lhe chá. Seu nome, eu o inscrevo: Ísis (‘nasci de mim mesma, não venho de ninguém’); ou Mário (mar, rio, riso, ar, homem de excelência), ensaiano manto cálido mel: serão meus braços? Donde tresanda lágrima, ensandeço. Mal olhado, vento virado, benzo. Divagando vagando devagar, fio os dias, desfio necessários diversos paninho Viróis acessórios, depois. Arco-irisando coloridas horas passo lavados lenços de arroto sobre vomitados ombros. Brancos enxovais. Alvas mamadeiras. Travesseiro ligeiro uma porção de brandos bichinhos: ponto cheio, nó, laçada, entremeio. Agulhas próprias, tesoura de aparar arestas, invento. Crio. 4 Bordando com fina verde clara linha a camisa primeira, aveludo-me em teus bilros. Admiro-te a tessitura ao ficcionar linhas no argênteo tear. Nino ideais lençóis, embalo deias na seda pura. Beija-me, rosto e colo, a nívea sideral cambraia. E sirgo cosendo fronhas emendando cocô xixi cozendo papinhas ansiosas. Assino agora babies quentes temperos literários. Concebo-me autora deste livro. Ninguém duvidará da autenticidade dos manuscritos legitimados em cartório. Há testemunhas das altas horas - jardins-de-infância - digitando, regurgitando imagens, a fim de descrever lindas paisagens: sol dó fá lá capítulos ré mi, si, outros. Barrada cortada rasurada hiância, embrião do sentido, escrevo. Entre cólicas, reconheço: O parto nos sucedeu. Nove meses. Eis aqui o filhote, última atual obra! Registrei-a, signo a signo. É nossa criatura, gestada na alheia mente. Depois, publico-lhe a matéria. Algum farfalho de asa, lã elã do leito vão, virá ao vento. Ensinará ao ventre inda sem luz: ‘Eis que tanto ao leitor-leitora-parturiente seduz o ser-neném, a lhe dar alegria e cruz’.

Graça Rios

VEJA AONDE A LAVA PaTo FOI PARAR

 

Tenho para mim mesmo que, no fundo, as coisas são simples e fáceis de entender. Costumo dizer: - Tudo cabe dentro do simples! Se não couber, é porque pode ser dispensado.

O problema é que as pessoas inventaram a mania de complicar, revestindo o simples de complexidade, achando com isso que suas palavras e seus juízos terão mais credibilidade. O resultado disso tudo é que a maioria das manifestações grandiloquentes esconde... mediocridade.

O que estou dizendo pode ser ofensivo para muitos, eles que sustentam suas teorias em arranjos artificiais e rebuscados.

Tal consideração me ocorre agora, quando tento compreender o momento político que atravessamos, tentando fazer uma leitura do comportamento de seus principais atores. Vejo muitos se dizendo indignados com a atitude do ex-juiz Sérgio Moro, quando este declara de público seu apoio à reeleição de Jair Messias Bolsonaro, o Mito, o Imbrochável, Imorrível, Incomível. Estarão tais pessoas se dando conta, finalmente, de que o país está atolado em um quadro de corrupção sem precedentes, de proporções bem maiores do que os propalados ‘Mensalão/Petrolão’ e o convenientemente esquecido ‘Anões do Orçamento’ (como é o caso do “Orçamento Secreto”)? As vestais arrependidas e indignadas perguntam:

- Como o paladino do combate à corrupção foi cair nas mãos dessa corja de bandidos que ocupa o Poder?

Mas eu pergunto: Moro e Dallagnol mudaram ou as pessoas não enxergavam (ou não queriam enxergar) que eles eram sempre os mesmos?

Roberto Jefferson, essa figura ímpar e tenebrosa de nosso mundo político, disse certa vez que cabia ao PT e aos demais partidos progressistas tão somente o papel de fiscalizadores do Executivo, de oposição, mas que nunca deveriam ousar ser Poder.

Quando o PT quis ir mais alto, essa atitude começou a incomodar nossa elite, que passou a resmungar por meio de seus porta-vozes (uma parcela da classe média, aquela que ‘come mortadela e arrota caviar’):

- É um absurdo o estado a que chegamos, com os aeroportos parecendo rodoviárias!

- Veja só! O caseiro do meu sítio, além de um carro, agora comprou uma moto! Que absurdo!

Tamanha indignação foi repetida, anos depois, pelo atual ministro da Economia, Paulo Guedes:

- Chegamos ao descalabro de empregadas domésticas irem passear na Disney e filhos de porteiros frequentarem universidades!

Para acabar com tais excrecências, era preciso tirar o PT do Poder. E, para que tudo voltasse à normalidade, criaram uma tal Lava Jato (que eu chamei na ocasião Lava PaTo). A pretexto de combater a corrupção, forjaram o clima para que a presidente, eleita por voto popular, fosse destituída e o PT se tornasse um partido marginal. A imprensa no seu todo, com a Rede Globo e seu indefectível Jornal Nacional à frente, aderiu toda saltitante e feliz à empreitada.

Como desdobramento de tudo, tivemos a eleição de Jair Bolsonaro e a eclosão da extrema-direita, com suas conotações fascistas.

No frigir dos ovos (que recomendo comer pelo menos um, todos os dias), de maneira simples e singela, eu queria dizer isso: Moro, Dallagnol e Bolsonaro são iguais, farinhas do mesmo saco. Poderia dizer até mais: foi a Lava Jato que pariu Bolsonaro presidente e essa onda de violência que vivemos, esse clima de mentiras que tomou conta do país (tudo filho da máxima lavajatista de que ‘os fins justificam os meios’). Agora, Sérgio Moro, qual mãe zelosa, está indo dar papinha pro seu filhinho do coração. Que coisa mais linda!

Etelvaldo Vieira de Melo

VER DE PLANTA

 
Imagem: Casa Vogue

Miriveja esta orquídea.

Toque em seus órgãos.

Não lhe parecem

meandros róseos

de sua vagina?

São eles a força anímica

de vida

sob águas abundantes

do outro corpo criativo.

A erótica flor gera o broto

inseminada pelas abelhas.

Entre os grandes lábios

entreabertos

dá luz à orgia

desta fértil flor

Poesia.

Graça Rios

AVISO DE UTILIDADE PÚBLICA

 





































Etelvaldo Vieira de Melo


LÁ VEM O PAPO (XXII)

 

O QUE HERA, O QUE SERÁ?

Guanandi,

cambiú ubim

jacarandá.

 

ARIRAMBAS-DE-CAUDA-RUIVA, ARARAS-CANINDÉ, SOLDADINHOS, TUCANO-TOCO

 

Em cima da árvore Baru,

macacos-guigó, teiús,

curicas, tucunaçus.

No meio da árvore Araçá,

Calangos, fim-fins,

carcarás, rãs-cachorro,

rapazinhos-dos-velhos,

araras-canindé.

Na base da árvore Dedaleiro,

marias-pretas, suiriris,

calangos, sapos-ferreiros.

 

INSETOS CASCUDOS, CABUÇUS-FOLHA, ROLA-BOSTAS, BESOURINHOS, MULUNGUS

 

- NETO SERAFIM?

- Gaago estou,vovô.

Perdi a Mel, meu amor.

Ai, ai. Gota de fel.

Ela uivaava:

-Ei, au, au, Ou,

para acordar a aurora.

Fora, caipora!

Olhando as estrelas,

posso vê-la

cantar.

- Cain, cain, cain...

Por que choras,

querubim?

Consola-te,

filhote homem de mim.

 

FIM DE PAPO

 

PURO GESSO

PUR HOJE É SÓ.

Graça Rios

PODE NÃO SER, MAS PARECE

 

ESTUDOS PSICOLÓGICOS: PSICOPATIA

Conceituação: Psicopatia, ou transtorno da personalidade antissocial, é um distúrbio, de difícil diagnóstico, caracterizado por falta de empatia em relação ao outro e desprezo pelas obrigações sociais.

Exemplos de comportamento psicopata:

👉 Não sente empatia pelos outros

O psicopata não sente empatia, ou seja, não se coloca no lugar do outro e não pensa nos sentimentos das pessoas à sua volta. Todas as ações do psicopata são em prol dele mesmo. Para ele, pessoas não são mais que objetos a serem usados para seu próprio prazer. 

Imitando pessoa com falta de ar durante a pandemia

👉 Gosta de adrenalina

Os psicopatas gostam de sentimentos intensos e, por isso, a adrenalina precisa estar sempre presente. Não são fãs de rotina e até mesmo de manter relacionamentos, seja com amigos, família ou parceiros.

Ao lado do governador de Minas Gerais, ensinando 'boas maneiras' a uma criança

👉 Impulsividade

Dificilmente aceita ser contrariado, rejeitado ou frustrado, por isso reage impulsivamente de forma mais agressiva e explosiva, sem se importar com o sentimento ou envolvimento de outros ao redor.

Ameaçando jornalista

👉 Se estressa e explode com facilidade

Junto com a impulsividade, este ato dificulta muito a convivência com os psicopatas. Pessoas com o transtorno tendem a não ter paciência, porque a paciência é, em especial, uma questão de educação e sociabilidade.

Ameaçando reagir fora dos limites da Constituição

👉 Egocêntrico e megalomaníaco

Só pensa em si mesmo. Possui orgulho exacerbado e sempre acha que está certo. Essa certeza de seus atos faz com que nunca sinta medo das suas ações ou reconheça os seus atos; consequentemente, é incapaz de se sentir culpado, de ter remorso.

O 'imbrochável, incomível e imorrível'

👉 Conta muita mentira

Sua mentira é patológica a ponto de nem saber mais quando está inventando algo. Não há também uma preocupação em não se aproveitar da boa-fé de outras pessoas, a partir da enganação que seu discurso provoca.

Desde 2019: Mais de 5.000 mentiras (sem contar o período eleitoral)!

👉 Não se sente culpado

Por que se sentir mal se a dor é do outro, e não dele? O psicopata não consegue sentir remorso nem culpa por agir de forma antissocial. A teoria é que ele não sente a necessidade de seguir os protocolos sociais como nós sentimos, e, por isso, não se sente culpado por agir “fora da linha”.

- Eu não sou coveiro (sobre as mortes por Covid)

👉 Falta de emoção

Psicopata não costuma se relacionar com outras pessoas por questões emocionais verdadeiras, como amor e afeto, mas sim para se aproveitar do que essas pessoas possam lhe oferecer.

Amigo é coisa de se aproveitar e jogar fora

👉 Comportamento transgressor

Regras e parâmetros sociais não entram no mundo dos psicopatas, que constantemente buscam ‘sair das quatro linhas’, quebrar esses fatores para se sentirem grandiosos e orgulhosos de si.

Cadê o capacete?

Tratamento: Não existe um tratamento para a psicopatia. Afinal, não se trata de uma doença pontual e, sim, de um transtorno de personalidade. O acompanhamento psicoterapêutico pode ser fundamental para aliviar alguns sintomas.


BBCr é Cultura (nem que seja à base de 'Copia e Cola')

Etelvaldo Vieira de Melo



LÁ VEM O PAPO (XXI)




 
FLOCO DE LÃ

É cacho de nuvens?

Marulho de mar?

Coalho do orvalho?

 

!Nã! Nã! Nã!

- É a nossa flor

PALI-PALÃ.


ARTE & MANHA

Anjiquinho cor-de-rosa.

Inutilizam

sua flor caule cor:

a serra elétrica o gado o fogo

a soja o trator.

Antes que, vorazes,

invadam o cerrado

aos milhares,

aceite colorir as telas da

incrível artista brasileira

Beatriz Milhazes.

Pequeno! Defende a fauna, a flora, os rios em extinção.

+ Gato-maracujá

 + jatobá e muitos outros...

 + São Francisco

 + Raiz-de-padre

                         Se o baixo demolidor vitória sobre a terra canta,

       mais alto a voz brasileirinha se alevanta.


E AGORA, JOSÉ?

 

Butiá

marolo orvalinha

jerivá

carobina saputá.

 Graça Rios


ENTRE GRITOS E SUSSURROS

 

Quando a morte arrebatou pela segunda vez a vida de Eurídice, seu marido Orfeu foi tomado de profunda dor. Afastou-se das pessoas e buscou acalmar sua melancolia através de músicas, que tocava com sua lira, presente do pai Apolo.

Atraídas pelo som das belas melodias, mulheres da Trácia se aproximaram, ficando ainda mais espantadas diante da beleza de Orfeu. Tentaram seduzi-lo com palavras amorosas, mas o vate estava entregue à sua dor e não ligou para elas.

Enciumadas, as moças começaram a ofendê-lo, enquanto atiravam-lhe pedras. No entanto, assim que as pedras esbarravam no som da melodia, caíam inermes no solo. Ainda mais enfurecidas, as mulheres passaram a atirar pedras e mais pedras que, no entanto, caíam ao chão, não atingindo Orfeu.

Depois de certo tempo, contudo, os gritos conseguiram abafar o som da melodia e, com isso, as pedras finalmente atingiram o vate e o mataram.

É impressionante como este relato mitológico nunca perde seu tom de atualidade. Estamos em 2022 e, abaixo, transcrevo uma leitura possível.

O ser humano foi criado para viver em harmonia com seus semelhantes, com os outros animais e com todos os seres da natureza. É esta a ideia do Paraíso Terrestre, aquele sonho que ficou perdido no início dos tempos. A música, expressão do Amor, é aquilo que nos aproxima uns dos outros e nos faz viver em harmonia. Porque, a bem da verdade, vivemos para amar e sermos amados.

Esse sonho de felicidade é quebrado quando o Egoísmo, essa força do Mal, se manifesta, começa a falar alto, a gritar, gerando o desequilíbrio e o caos.

Em 2020, a Humanidade foi tomada pela pandemia do Corona Vírus. Diante das milhares de mortes, havia a esperança de que as pessoas se dessem conta do apelo desesperado da Natureza, para que se pusesse freio à ganância desmedida, que sufocava e matava o meio-ambiente.

Foi em vão. O que vimos depois foi o recrudescimento do Egoísmo, espelhado em queimadas, desmatamentos, agrotóxicos e novas guerras.

As redes sociais, que deveriam ser fator de agregação, de aproximação das pessoas, tornaram-se meios de propagação do ódio e da mentira. Pessoas, que nunca poderíamos imaginar, estão aí fazendo dos celulares amplificadores de seus próprios preconceitos, metralhadoras de seu racismo, de sua homofobia, misoginia e sadismo. De repente, estamos nos vendo cercados de pessoas subletradas (e que se orgulham disso) - parentes, conhecidos e até quem considerávamos amigos -, tratando as mulheres como seres inferiores, dizendo ser bobagem cuidar da natureza, debochando das milhares de pessoas que morrem vítimas da Covid, não respeitando as diferenças, defendendo as armas e perseguindo a guerra e a morte, menosprezando a democracia e querendo a tortura, a falta de liberdade. E ainda têm o descaramento de dizer que falam isso em nome dos bons costumes, da Tradição, da Moral, da pátria, da Religião e de Deus!

Quando Orfeu tocava a lira, animais selvagens se aproximavam e se abrandavam; até mesmo as rochas perdiam algo de sua dureza. Mas, e hoje, conseguimos ouvir alguma melodia que fala de Amor? Não. Porque o Egoísmo está falando cada vez mais alto, está gritando em nossos ouvidos, sufocando tudo que há de bom.

Não podemos culpar de todo as redes sociais por esse estado de calamidade que vivemos. Elas estão aí como instrumentos para dar vez e voz aos truculentos, aos estúpidos e ignorantes, aos aproveitadores e cretinos, aos crédulos e ingênuos, todos muito bem monitorados e doutrinados por inteligências espertas, instaladas em gabinetes. Com isso, tais redes acabam se tornando espelho da ignorância humana.

A lira ainda toca suas melodias, é preciso ouvir. Mas elas estão sendo abafadas e sufocadas pelos gritos da intolerância, do ódio, da violência, do individualismo, da mentira. Precisamos fazer calar essas vozes; não podemos permitir que o Amor morra entre nós.

Etelvaldo Vieira de Melo