SER OU TER, EIS A VERDADEIRA QUESTÃO
Quando caminhava na linha da pobreza, costumava
proclamar aos sete ventos que o importante na vida é o ser, não o ter. Quando
era pobre nem tanto, começou a ter suas dúvidas. Pensava assim: se a felicidade
não é um estado definitivo, mas algo constituído de momentos, é bem provável
que o ter pode, sim, ser importante, ou seja, o ter pode ter valor, ser um bem.
Quando a China passou a disponibilizar, através das chamadas marketplaces, bens
de consumo a preços acessíveis, chegou à conclusão acabada de que ser e ter
caminham lado a lado na obtenção dos chamados momentos felizes, ambos com seu
grau de importância, nunca um podendo se sobrepor ao outro. Como chegou a tal
veredicto? Observando que o Humanismo é uma ideologia inerente ao ser humano e
o Capitalismo é o sistema econômico que conseguiu sobreviver ao longo dos
séculos. O Humanismo proclama que o Ser é a base da Felicidade, enquanto o
Capitalismo diz que é o Ter.
Nosso amigo em questão buscou um arranjo
existencial entre esses aparentes opostos, estabelecendo para si mesmo este
princípio:
- Eu serei na medida em que tiver, assim como
terei na medida em que eu for. Se não sou, não poderei ter; se não tenho, não
poderei ser. Porque sem ser não há ter, assim como sem ter não há ser. Por via
de consequência, terei sendo, do mesmo modo que serei tendo.
Acha que esse amigo está querendo “dourar a
pílula” de sua compulsão para o consumismo? Que seja. Mas você precisa ter
certeza de uma coisa: ele estava se sentindo muito bem entre uma comprinha e
outra, tomado de discreta alegria pela vida ter lhe proporcionado as
possibilidades de ter e de ser.
Não obstante o promissor andar da carruagem,
cabe não esquecer que vivemos no Brasil, e o Brasil é aquele país das
possibilidades mais absurdas e inusitadas, conforme podemos inferir da fala de
Marcelo Claure, presidente do conselho consultivo da Shein para a América
Latina, ao dizer que “o Brasil é um país complicado em termos de estruturas
tributária, logística e regulatória”.
Se um alto executivo, acostumado com todas as
tramoias possíveis e imagináveis, pensa assim, imagina o que pode suceder com
um vulgar brasileiro.
Tempos atrás, estando esse nosso amigo fazendo
compras numa loja de produtos para casa, o balconista lhe fez esta pergunta:
- Quer com nota fiscal ou sem nota?
Pego de surpresa, retrucou:
- O que você acha melhor, tendo em vista o bem
de nosso Brasil varonil?
- Penso que é sem nota fiscal – respondeu o
indivíduo, sem pestanejar. – Assim, você não estará segurando a escada para as
roubalheiras nas altas esferas.
Quando o atual governo quis fazer média com o
dito comércio nacional e com os governos estaduais, ao mesmo tempo em que
amealhava algo para seu próprio bolso, que ninguém é tão altruísta assim,
instituiu um programa chamado “Remessa Conforme”, a fim de regular as compras
feitas por meio das plataformas voltadas para produtos importados.
A regra instituída já veio com uma pegadinha:
compras até US$50 estão isentas de imposto, sendo aplicados tão somente 17% de
ICMS sobre o valor do produto e seu frete; as compras acima de US$50 serão
taxadas com um imposto de 60% mais o ICMS de 17%, chegando ao total de 92% (aí
está a pegadinha do juro sobre juro).
- Está bem, eu engulo essa aritmética, já que
não pretendo fazer compras que ultrapassem os US50 – falou o amigo em questão
para seus botões. – Vamos às compras, já que meu Ter está ficando defasado em
relação ao meu Ser.
Assim que a Remessa Conforme começou a vigorar
em agosto/2023, foi ele fazer uma singela compra de um desumidificador de
aparelho auditivo na sua plataforma de compras favorita. O produto custou no
total a importância de R$67,81. Poucas semanas depois, foi notificado de que o
aparelho havia ficado retido em Curitiba por causa de tributos a serem pagos.
Os Correios recomendavam gerar o boleto para pagamento, algo mais do que 90 reais.
Indignado, o já não tão amigo se recusou a pagar, enviando os dados comprobatórios
do preço da mercadoria. Dias depois, a Receita repassou os valores
“corrigidos”:
- Imposto de Importação: R$40,68
- ICMS: R$38,42
- Multa: R$ 6,68
- TOTAL: R$85,88
O já inimigo, analisando os valores cobrados,
chegou às conclusões:
- A Receita Federal reconheceu o valor da
compra como sendo de R$67,81, uma vez que cobrou o imposto de R$40,68 (60% do
total pago), valor abaixo de US$50 – o que seria isento de tributação;
- Cobrou, também, fora de propósito – por
reclamar um direito? -, uma multa R$6,78 (10% de R$67,81);
- Sendo mais realista do que o rei, anexou uma
taxa de R$38,42 ao valor da compra, a título de ICMS.
O agora inimigo visceral da Receita Federal, do
Ministério da Fazenda e afins, tenta entender o porquê da cobrança do imposto e
do ICMS. Ele se perdeu em cálculos, tentando encontrar uma resposta. Acompanhe
seu raciocínio:
- Se a taxa de ICMS fosse de 17% sobre o valor
do produto, teríamos: 17% de 67,81 = R$11,57 (valor que estaria atendendo às
normas baixadas pela Receita e que teria aceitação do querelante);
- Se a taxa de ICMS fosse de 17% sobre o valor
do produto + imposto de importação, teríamos (67,81 + 40,68) X 17% = R$21,84;
- Se a taxa de ICMS fosse de 17% sobre o valor
do produto + imposto de importação + multa, teríamos: (67,81,81 + 40,68 + 6,78)
X 17% = R$23,00.
Em todas as situações, a taxa de ICMS nunca
chegaria ao valor de R$38,42.
Sendo assim, ou seja, considerando que as
cobranças do imposto, da multa e do ICMS se afiguram ilegais, irracionais e
imorais (não estou falando de você não, Alexandre), meu amigo desiste do
aparelho desumidificador. Diz que pode ser doado para leilão dos BBB (Bens para
o Bem do Brasil). Como o aparelho auditivo que dispõe corre risco de estragar
por causa da umidade, o amigo pensa encaminhá-lo para esse tal leilão.
Aceita, dona Receita?
Etelvaldo Vieira de Melo
LEMBRANDO FINADOS
Passando em frente a uma capela-velório de determinado
cemitério, vislumbrei este cenário: no centro da sala estava um caixão; ao seu
lado, um castiçal daqueles grandes, com a vela acesa; sentada num banco
lateral, havia uma mulher, com o rosto cabisbaixo.
Tudo era simples naquele ambiente: o caixão era de ripas
armadas, revestidas de tecido roxo, a mulher estava vestida de maneira pobre,
não havia aquelas tradicionais coroas de flores.
Em um primeiro momento, tal cenário me fez voltar no tempo
para minha pequena cidade natal, quando morria alguém. Se o falecido era rico,
além dos tradicionais avisos espalhados pelo serviço de alto-falante da igreja
matriz (“A família de fulano de tal comunica aos parentes e amigos o seu
falecimento, ocorrido..., e convida para seu sepultamento a ser realizado...”),
tinha ele também direito à missa de corpo presente. Se o defunto era pra lá de
rico, tinha o acompanhamento do vigário até o cemitério.
A população da cidade quase inteira se mobilizava para
aquele evento; todos procuravam se vestir com esmero, retirando dos armários vestes-especiais-cheirando-à-naftalina.
As ruas que davam acesso ao cemitério ficavam interditadas para veículos,
enquanto que o dia se transformava naturalmente em feriado municipal.
Quando o defunto era uma pessoa pobre, o cenário era bem
outro. Ninguém tomaria conhecimento, não fosse o aviso pelo alto-falante da
igreja, a cidade não quebrava sua rotina. Muitas vezes, além dos quatro
carregadores, o féretro tinha a companhia de duas, três pessoas mais. O caixão
era transportado à margem da estrada, os acompanhantes iam de cabeça baixa,
quase que em gesto de pedido de desculpas por estarem incomodando as pessoas,
feito o morto da “Construção”, de Chico Buarque, que viveu na contramão
atrapalhando o público e morreu na contramão atrapalhando o tráfego.
Fico pensando: o ser humano não toma jeito; até na hora da
morte, ele julga que uns valem mais do que os outros. Minha esperança é que
fique valendo aquilo que Gilberto Gil cantava na sua música “Procissão”: Jesus
prometeu vida melhor para o pobre que vive nesse mundo sem amor, mas só depois
de entregar o corpo ao chão, só depois de morrer nesse sertão.
Enterro de pobre
que encobre tão bem
a dor que causou
Adeus de alguém
que parte sem sentir
tudo aquilo que deixou
Sentimento escondido
em coração marcado
procurando esquecer
Esquecer o adeus
a dor e o vazio
... para sobreviver
Etelvaldo Vieira de Melo
SENTOU NA BOLA, SAMBALELÊ?
Porco
coelho raposa
leão
urso
cavalo
jacaré onça
gato tigre
cobra
tico-tico
ar
fogo
terra
água,
mico,
nóis arranca rabo
e
racha os bico,
timim surubico.
Graça Rios
PRENOME, NOME, SOBRENOME
No belo poema “Minha História”, Chico Buarque fala de um amor bandido
onde a mulher, após ser abandonada pelo amante, fica ‘parada, pregada na
pedra do porto, com o olhar cada dia mais longe’. Quando, enfim, nasce o
bebê, não se sabe se por ironia ou por amor, resolve chamá-lo com o nome do
Nosso Senhor. E a história do personagem passa a ser esse nome que carrega
consigo.
O nome é algo tão pessoal, íntimo, que só deveríamos dizê-lo para as
pessoas próximas, como fazem os orientais. Em muitos países, acredita-se que
saber o nome de uma pessoa é ter um domínio sobre ela.
Creio que não existe sangue oriental correndo em minhas artérias e
veias, mas concordo com essa reverência ao nome. Ele expressa nossa
individualidade, ele nos identifica como seres únicos e originais. Como a
sociedade moderna evoluiu para os grandes centros urbanos, intensas
transformações e o rompimento com valores tradicionais geram o que
especialistas chamam de anomia, que é a desintegração das normas sociais. Esse
estado anômico, de contradição entre as normas sociais e de ausência de
valores, com certeza, é uma das matrizes das chamadas “redes sociais”, com tudo
de bom e de ruim que elas podem acarretar. Outra consequência da concentração
em grandes centros urbanos é o anonimato, que é a perda do nome, da assinatura
própria, com a identidade ficando escondida. Hoje, o nome perdeu a sua razão de
ser e as pessoas passaram a ser identificadas por números: os do CPF, do RG, do
Cartão de Crédito, da Conta Bancária, do número do apartamento. Daí, a solidão
corroendo a vida das pessoas e só indo embora quando elas são ‘re-conhecidas’ e
identificadas pelo nome. (A bem da verdade, é muito mais simples e conveniente
para o “Sistema” e seu entorno lidar com números, em vez de pessoas: um número é
manipulável e descartável.)
Sempre procuro designar com os nomes as pessoas de minhas relações,
mesmo aquelas estritamente profissionais. Quando sou atendido por alguém, minha
primeira preocupação é saber “qual é mesmo o seu nome?”. Agindo assim, espero
estar confrontando o sistema, tornando as comunicações mais
humanas.
Por detrás de cada nome há sempre uma história. Na minha família, depois
de muitos nomes triviais, meus pais, assim que nasci, confabularam:
- Vamos colocar um nome diferente em nosso filho. Quem sabe, assim, sai
algo que presta.
Escolheram Etevaldo, um nome bastante raro. O escrivão da cidade, movido
por algumas doses etílicas, resolveu radicalizar e torná-lo único: acrescentou
um “l”, tornando-me Etelvaldo. Tenho comigo, desde que me entendo por gente,
que devemos nos conformar ao destino (maktub!), já que tudo poderia ser pior do
que é. Imagina se o teor alcoólico fosse maior e o escrivão enxergasse um tanto
de “l” - Eltelvaldol! Creio que não teria sobrevivido até a idade hábil para
efetuar uma mudança, eu que, até minha adolescência, havia contabilizado mais
de 50 apelidos!
Se você observar com atenção, vai notar que as páginas deste blog estão
permeadas de vários nomes, muitos deles exóticos. Eu mesmo me nomeio com os
heterônimos de Eleutério, Ingenaldo, Cinisvaldo, Fridolino Xexeo, Tertuliano,
Loprefâncio.
No
fundo, eu gostaria de passar a ideia de que é preciso recuperar a humanidade do
ser humano. Como diria Charles Chaplin, nós não somos máquinas, não somos
números! O primeiro passo seria o de abolir as senhas secretas, os códigos e os
números, com as pessoas sendo identificadas e tratadas por seus nomes. Como o
mesmo Chaplin diz: “Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais
do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a
vida será de violência e tudo será perdido.” A guerra que está aí mostra isso, com a morte
de pessoas sendo reduzidas a números, dados para estatísticas.
Etelvaldo Vieira de Melo
A LOGÍSTICA & UM AMIGO
Uma coisa que aprendi com Eduardo Pazuello,
mesmo ele não querendo ensinar, foi a importância de se aplicar a Logística
sempre que necessário. Quando vi aquele general conseguir levar o número de
mortes pela covid para mais de setecentas mil, como queria seu chefe capitão, e
ainda assim se eleger para deputado federal, pensei com meus botões: - Essa
Logística é foda!
A partir de então, dona Logística passou a
fazer parte de meu dia a dia. Hoje foi a vez de empregá-la na compra trimestral
de medicamentos aos quais sou submetido.
Primeiro, fiz uma prévia na Internet entre as
drogarias mais em conta. Quando fui fechar com uma, vi que nem todos os
medicamentos eram disponibilizados. Achei por bem ir até a cidade, para confrontar
os preços de duas delas, tendo por base o levantamento que havia feito.
Na primeira drogaria, depois de ter me
submetido a uma pequena fila, vi que a Logística recomendava comprar todos os
medicamentos ali mesmo. Foi o que fiz, ainda cometendo a extravagância de levar
junto um complexo vitamínico que não estava na lista (reflexo condicionado de
crônica passada, quando dissertei sobre o Russo e sua vitamina M (você leu,
amigo Leiturino?).
Quando saí da drogaria, percebi que as pessoas
na rua me olhavam com comiseração. Pensei comigo: - Por que esse olhar de
compaixão das pessoas? Ao me dar conta, vi que os medicamentos eram
transportados numa sacola transparente. Quando as pessoas viam aquela
quantidade de remédio, deviam pensar: - Coitado, esse aí está mais pra lá do
que pra cá! Não sei bem, mas cheguei a suspeitar de ter visto uma lágrima
furtiva deslisando pelo rosto de uma jovem senhora.
Não sei bem por quê, aquela situação me fez
lembrar uma outra vez em que estive internado por duas semanas num hospital,
devido a um leve problema cardíaco.
Nesse período, recebi visitas de alguns
vizinhos, parentes e amigos.
Cleber lá esteve com sua namorada, Adélia.
Tratava-se de uma pessoa com agudo senso de humor (infelizmente, ele já partiu
dessa). Logo, quis se informar sobre o histórico do que havia acontecido. Minha
esposa, Percilina, começou a contar, em detalhes: as dores, o mal-estar, a ida
aos hospitais... Não aguentando tanto suspense, Cleber perguntou, interrompendo
aquela narrativa novelesca:
- Afinal, nosso amigo teve ou não teve um
infarto?
(Entre parênteses, registro um diálogo que
não existiu, mas que ficou subentendido:
- Tive, sim! Até parece que você faz parte
daqueles que praticam o que chamo de “solidariedade mórbida”, tal seu grau de
ansiedade.
- Vamos, apresente os detalhes dos exames.
- Bom, o cateterismo constatou uma ponte
miocárdica na artéria descendente anterior, com grave constrição no 1/3 médio.
- Não entendi nada, mas continue.
- Vê se entende: uma artéria, ao invés de passar
sobre o músculo do coração, inventou de passar por baixo, como se fosse um
metrô. O batimento cardíaco comprime essa artéria, o que pode provocar dor. Em
sentido figurado, com essas chuvas, uma ponte sobre o meu coração está com a
estrutura abalada e necessita de reparos de engenharia, ou seja, de
medicamentos.
- Deu pra entender. Mas é só isso?
- Não, tem mais para seu sadismo: o segundo
ramo diagonal exibe obstrução grave no 1/3 proximal, ou seja, apresenta
aterosclerose com obstrução luminal grave (99%), o que requer angioplastia com
implante de stent.
- Ah, agora estou plenamente satisfeito e vejo
que não foi perda de tempo esta visita, eu que temia ser tudo um falso alarme.)
Depois de ouvir as explicações de minha esposa,
ele se levantou e começou a vasculhar as coisas que estavam no quarto. Pegou um
livro de J.K. Rowling, autora dos sete livros que compõem a série Harry Potter,
e perguntou:
- Quem está lendo este livro?
- Sou eu - falou Percilina.
- Mas você tinha de vir com este livro para cá?
O título do livro era “MORTE SÚBITA”.
- Você não faz ideia do pior, Cleber – eu
falei. – Imagine que Percilina me trouxe uma revista Seleções outro dia. A
manchete de capa era: “45 segredos que os cirurgiões não diriam a você”.
Quando comecei a comentar a reportagem, ela tratou logo de me tomar a
revista...
Pouco tempo antes de se retirar com Adélia, me
deixou a recomendação de que praticasse Tai Chi Chuan e deu exemplos de
exercícios. Para ele, baixinho e magrinho, até foi bem. Como tenho uma certa
obesidade na região abdominal e, definitivamente, não disponho de coordenação
motora, já naquela época achei que seria dificílimo para mim...
A lembrança do Cleber veio assim a propósito
dos medicamentos. Na verdade, me senti bem reconfortado quando pensei naquele
amigo.
Quanto a Logística, depois de ter experimentado
tantos olhares de simpatia (por causa da sacola de medicamentos), peguei o ônibus
e estou retornando para casa. Lá, Percilina e Deusarina me aguardam. Falei para
Deusarina que devo chegar em 20 minutos, para lhe preparar um café
gourmet. O trânsito está agarrado. Só
espero que ele não venha jogar por terra todo meu esquema logístico.
Etelvaldo Vieira de
Melo
CACA & COCA
ET
Elvoaldo Vaibém,
indo
vindo em
vem
cá, meu bem,
tão
tico-tico
quão
surd’bico,
maneja
pão de queijo
com
xarope de carquejas,
e
galinhando, cacareja.
Paz
e Amor. Oh, Dor!
Tem
um pesadelo,
escrevendo
o besta selo
“Memórias do Grão Suor d’Anã
Giga-Lombriga,
Ultrafã do Maior Cãotôr, Thor”.
Graça Rios
UMA CONVERSA AMIGÁVEL
Em
plena segunda-feira, oito horas da manhã, a campainha toca e, ocasionalmente,
escuto. Vou saber quem é:
-
É o Jésus – fala alguém pelo interfone.
Dividido
entre os sentimentos de ir e não ir atender, ainda tomado pelo sono, sem saber
direito de quem se trata efetivamente, respondo:
-
Aguarde só um momentinho.
Troco
de roupa, coloco os óculos. Deixo de lado o aparelho auditivo, que tomaria
muito tempo para ser ajustado.
Quando
abro o portão, vejo que se trata de um velho amigo, que não via há muito tempo.
-
Passando em frente, resolvi toca a campainha, pensando que talvez nem morasse
aqui mais.
-
Puxa, Jésus, é um prazer ver você, depois de tanto tempo.
Conversa
vem, conversa vai, fico sabendo que ele construiu uma casa em cidade perto e
resolveu ficar por lá. Sua casa, próxima da minha, ficou com o filho, com quem
não combina direito. Quando abrem a boca um para o outro, sai é briga. Das
novidades que me contou, uma diz respeito à sua saúde, que não anda nada bem. A
pressão só fica na casa dos 20, sua perna esquerda anda inchada, com problema
de circulação. Mesmo assim continua trabalhando. Jésus é pedreiro.
Eu
o conheci justamente por isso, pelas vezes que precisei fazer algum serviço em
casa. Jésus já trabalhou aqui várias vezes. Menos do que eu gostaria, já que
sua mão-de-obra não era barata e, muitas das vezes que precisei de um pedreiro,
a situação financeira não andava boa das pernas.
Foi
assim que brotou uma amizade entre nós. Somado a isso, havia também o fato dele
ser um passarinheiro e, naquela época, cismei em ter passarinhos em casa. Desse
modo, ele me forneceu várias espécies: belga, trinca-ferro, azulão,
pintassilgo, pássaro-preto, chapinha e até mesmo uma espécie rara, chamada
sofreu.
Ao
fim do dia e nos finais de semana, tinha até que enfrentar fila para entrar na
sua residência, tal o número de pessoas querendo fazer “catira”, quer dizer,
negócios. Jésus atendia a todos, fazendo questão de oferecer a cada cliente um
cafezinho. Uma garrafa térmica estava sempre à mão, bem próxima da gaiola de um
papagaio linguarudo.
Entre
os frequentadores, havia um rapaz de nome Ivair. Ele falava com voz arrastada,
com jeito de retardado. Mas aquilo era só aparência, pois o moço era de uma
esperteza sem igual para fazer negócios. Até no Jésus ele passava manta. Eu
mesmo cheguei a levar alguns tombos deles, ao comprar, entre outros, um
trinca-ferro, tido como macho, mas que era fêmea, e um chapinha danado de bravo
e que não cantava tiririca.
Ivair
sempre se apresentava do mesmo jeito, vestindo uma camisa do Atlético toda
desbotada, e isso pra mais de ano de convivência.
Na
conversa com Jésus, no portão de casa, lembramos do Ivair.
-
Você não sabe, Jésus – falei -; por esses dias, vi o Ivair. Ele está quase do
mesmo jeito, só que com cabelos brancos e, o mais extraordinário, com uma
camisa nova do Atlético!
Entre
as novidades que Jésus me contou, teve aquela que me deixou pesaroso: a morte
de outro vizinho amigo, o Abel. Esse era uma figura antológica no bairro, que
ficava, invariavelmente, de terça a sábado, sentado numa cadeira em frente à
sua residência, na avenida principal do bairro, ali do outro lado da antiga
padaria do Altamiro (as segundas eram reservadas para idas ao centro da cidade;
nos domingos, ele dava um tempo aos ouvidos). Muitas e muitas pessoas, eu
inclusive, iam até ele querendo saber das novidades e também precisando jogar
conversa fora.
Ao
saber da notícia de seu passamento, logo imaginei ele no céu, sentado numa
cadeira, com as pernas cruzadas, conversando com São Pedro e um tanto de gente.
Assunto é que não vai faltar. Só espero que não falem mal a meu respeito, eles
que, lá de cima, enxergam tudo que acontece aqui embaixo e sabem muito bem que,
no fundo, no fundo, não sou flor que se cheira.
Quando
nos despedimos, Jésus fez questão de, mais uma vez, apertar minha mão, gesto
que, para ele, significa consideração e respeito, eu sei.
Foi
o que lhe disse, quando já estava se afastando:
-
Cuide direitinho de sua saúde, Jésus. Nós, seus amigos, não queremos ver você
doente.
Etelvaldo Vieira de Melo
ANÁGUA DE CEREJA (62)
Assim,
eu te revelo
pequena
janelinha
de
rósea carne
ou
mesmo provoco
um
escândalo de paixão
quixotesca,
onde
o grafo se jogue
no
último
lance
de dados.
Cometo,
contigo,
a
mais alta infidelidade
na
ordem textual.
Vê
o movimento
do
corpus poético:
A
littera dura
segue
rasurada.
Más
caras!
COMPLEXO VITAMÍNICO
Descobriram agora o que pais de antigamente
praticavam por ignorância ou necessidade. Então, os filhos eram produzidos em
série, quase um por ano, já que não havia ainda sido inventada a pílula e a TV
era artigo de luxo. Com a casa infestada de filhos, era a higiene também artigo
de luxo. Cresciam as crianças barrigudinhas, quais porquinhos, como queria o
antropólogo Darcy Ribeiro. Só que ele as queria gordinhas de saúde, enquanto
que esses outros meninos eram assim por uma coletânea de vermes, regularmente
expulsos por lombrigueiros administrados nas escolas. Esses lombrigueiros,
muitas vezes chamados de purgantes, não tinham a sofisticação e eficiência
desses modernos. A criança os tomava às dúzias, ficava tão debilitada que tinha
que se ausentar da escola por, no mínimo, uma semana. Os vermes acabavam
morrendo, mas a criança quase que ia junto também.
Os tempos mudaram e filhos passaram a vir gota
a gota. Viraram artigo raro. Os filhos, como produtos raros, passaram a merecer
tanto cuidado, tornando-se objetos de obsessão, especialmente em se tratando de
higiene. Agora, parece que reinventam a roda: descobrem que um pouco de sujeira
não faz mal a ninguém; pelo contrário, a vitamina S até mesmo fortalece as
crianças, criando anticorpos e ajudando o organismo no combate a vermes, vírus
e bactérias.
O Russo, assim chamado por causa dos olhos
verdes e tipo de cabelo amarelado, embora fosse de estatura baixa, é desse
tempo de antigamente e criou seus filhos com muita vitamina S. Enquanto trabalhava,
era mecânico de fundo de quintal, mas não conseguiu sobreviver, quando os
carros trocaram o carburador pela injeção eletrônica. A vitamina que deu a seus
filhos era à base de óleo, graxa e tanto produto tóxico que um deles acabou
ficando doidão. Os outros filhos, incluindo aí uma menina, ficaram com a mãe,
quando ela e Russo se desentenderam definitivamente, ela que havia se
convertido e passara a frequentar uma igreja pentecostal, não querendo mais
nada com aquele homem que, naquela época, era cheio de vícios.
Conheci o Russo nesses tempos de então, por
causa de meu carro, um Fiat 147. Quando se encontraram pela primeira vez, meu
carrinho se apaixonou perdidamente, ao ponto de não conseguir ficar mais de uma
semana sem visitar a oficina desse eficiente mecânico. Por causa dos dois, tive
que frequentar de cabo a rabo e de rabo a cabo umas mais famosas avenidas da
cidade, especializada em peças para carros, novas, usadas, recondicionadas e
roubadas.
O tempo foi passando e Russo, por ser magro e
ter o corpo franzino, parece que nem viu. Deixou de fumar e abandonou a bebida
mais pesada, embora continue amigo de uma cerveja. Por ser meio sardento, não
aparenta a idade que tem. Sei que já passou dos 65, pois está dispensado de
pagar passagem nos ônibus.
Uma vez ou outra a gente se encontra. Sua
conversa, vem daqui, vai dali, acaba terminando em assunto de mulher. Durante
muito tempo, falava de uma morena, casada com um policial, mas que era sua
amante e que queria porque queria ter um filho seu, talvez na esperança de que
saísse um moreno de olhos verdes. Muitas vezes, ele chegava a detalhes que me
deixavam constrangido, por inveja: “Cara, ontem saímos, pegamos uma sessão de
cinema e depois fomos para um motel. Cara, pode parecer conta de mentiroso, mas
foram sete vezes...”
De uns tempos para cá, essa morena saiu do ar,
mas as mulheres continuam no cardápio de suas conversas. Só que ele anda
apelando para mulheres lá do centro da cidade, nas imediações de uma rua famosa
pelo baixo meretrício (!). Se for assim, é que a situação está ficando russa,
com o perdão do trocadilho, para o Russo.
Pensando bem, isso não importa. Estou vendo que
o ser humano necessita de um complexo vitamínico. Não basta a vitamina S. O
Russo, por exemplo, necessita de vitamina M.
Outro dia, estávamos conversando e eu lhe
falei:
- Estou notando que você tem ido com frequência
ao Posto de Saúde do Bairro. Anda doente?
- Que nada! Tenho é ido buscar remédio para meu
filho!
Vida longa pra você, Russo. Não se esqueça de
suas vitaminas!
Etelvaldo Vieira de Melo
MÁSCARAS (61)
UMA ATRAÇÃO FATAL
Já estava eu cometendo um
deslize ao associar o título acima com um filme homônimo, julgando ser aquele
estrelado pela estonteante Sharon Stone. Em tempo, dei-me conta que a
personagem em questão, com o devido respeito para com a atriz, Glenn Close,
aparece mais para Repulsa Fatal do que atração propriamente. Sharon é
protagonista de “Instinto Selvagem”.
Feito o reparo e estando tudo em conformidade
com os trâmites legais, vamos às considerações em torno do conceito “atração
fatal”.
Ele tem o sobrenome de Amador, mas isso só no
nome, pois se trata, na verdade, de um grande profissional. Assim como existe o
músico de sete instrumentos, ele pode ser considerado um polivalente,
realizando bem qualquer tipo de trabalho, embora sua profissão originária seja
a de carpinteiro. Sua aparência física lembra a do excepcional ator Morgan
Freeman, que foi descoberto para o cinema – infelizmente – já com mais de 40
anos e que conheci através do filme “O Poder de Um Jovem”. Mas ele é personagem
de outros sucessos como “Conduzindo Miss Dayse” e “Um Sonho de Liberdade”.
Pouco tempo atrás, trabalhando como
carpinteiro, Amador sofreu um acidente, quando, ao bater um prego numa peça de
madeira, esse saiu voando e atingiu seu olho direito. Foi coisa séria, que
quase o deixou completamente cego, uma vez que não enxergava lá essas coisas
com a vista esquerda. Escrevendo essas lembranças, ocorre-me também a do filme
“Perfume de Mulher”, estrelado por Al Pacino, outro excepcional ator, que se
destacou em “O Poderoso Chefão”, “Scarface”, “Um Dia de Cão”.
Ao contrário do personagem cego de “Perfume”,
que carregava um sentimento de revolta muito grande, Amador vivenciou seu drama
com muita dignidade. Nas vezes em que nos encontramos, ele cuidava de explicar
cientificamente seu acidente e seu processo de recuperação. Sou péssimo para
guardar detalhes, mas eu me lembro de ter ele mencionado como o prego havia
perfurado a córnea e atingido o cristalino. Mostrava, tampando ora a vista
direita, ora a esquerda, seu índice de visão, sempre em base percentuais,
tentando explicar como as imagens eram captadas fora de foco. Em resumo, ele
não enxergava praticamente nada, tinha que usar óculos escuros, pois a luz
solar lhe era insuportável, ficava quase o tempo todo em casa, só saindo para
as consultas com os oftalmologistas. Em nenhum momento eu ouvi de sua boca uma
palavra de ressentimento ou revolta.
Ele tinha muitos motivos para se sentir
revoltado, pois, infelizmente, ainda vivemos em um país onde as pessoas que
dependem do atendimento público estão sujeitas a todo tipo de humilhação e
pouco caso. No final de seu drama, que se arrastou por anos, acabou ele
colocando um cristalino artificial, procedimento que poderia ter sido feito
logo após o acidente.
Caso soubesse que estou escrevendo essas coisas
a seu respeito, tenho certeza que daria boas risadas com aquela sua voz grave,
diria que sou uma pessoa exagerada, que seu drama não tinha sido nada. Como
dizer que não foi nada? – pergunto eu. Amador, além de carpinteiro, é um exímio
pedreiro, cantor, violeiro, eletricista, inventor. A perda da visão acabou lhe
roubando tudo isso.
Para dizer a verdade, não sei de onde ele tirou
forças para enfrentar seu drama. Gostaria muito de saber, eu que, por qualquer
bobagem, sou tomado por depressão e sentimento de que não vale a pena viver.
A coisa toda se confunde ainda mais na minha
cabeça, quando penso do que ele se privou durante esse tempo de cegueira.
Amador tinha uma atração fatal, uma fixação por Ferro Velho. Aqui mesmo perto
de casa existe um, que ele visitava religiosamente toda semana. Nesse e em
outros que encontrava nas suas andanças, ele vasculhava em busca de motores,
peças, móveis, coisas aparentemente vulgares. Sempre encontrava algo que, por
suas mãos era transformado em invenção ou objeto de arte. Amador acaba me
mostrando que é muito pouco o que pode nos tornar felizes. Mas é preciso ter
atração fatal, isto é, fazer as coisas com amor. Só isso.
Etelvaldo Vieira de
Melo
ESPADAS (60)
Astros
emergem do embaralhamento
Rei
de Espadas / Rainha de Copas.
Blefe
e burla, quatro naipes A J Q K
formam
imagens
num
painel iluminado
a
néon.
Quanto
ao crupiê,
às
vezes, buliçoso
à
luz de spots,
voz
em off,
trama
ver
vir
mirar
olhar
sobre
ases
ou
damas.
Graça Rios











