CORDEL CABULOSO

Quadrienalmente, no reino animal
Acontece uma feroz competição
Através de uma corrida nacional
E pela qual alguém se consagra campeão.

Para a corrida de determinado ano, inscreveram-se o javali
Mais a raposa, o ganso, a arara e o nhambu.
Chegando um pouco atrasado, apareceu o jabuti
E, por ser de baixa estatura, quase não se via o tatu.

As regras determinavam como principal requisito
Que o trecho fosse percorrido a pé, não cabendo recurso
Fato que prejudicava ganso, arara e nhambu em tal dito
De não poderem usar voo durante o referido percurso.

Favoritos para ganhar a disputa estavam a raposa e o javali.
Institutos de pesquisa diziam serem eles os prováveis campeões.
Correndo por fora, devagar quase parando, vinha o jabuti
Com o peso de sua carcaça a lhe provocar lamentações.

Tudo seria diferente se o veado entrasse na competição
Mas o tatu interpôs recurso por motivo de veadofobia
Que ele não reunia princípios éticos, estéticos, de fiscalização
E que, por isso, participar da corrida não podia.

Durante a maratona, em quatro intervalos regulares
Deviam os competidores frente à emissora de televisão
Trocar insultos com seus pares
Pra ver quem mais tinha razão.

A raposa dispunha de uma assessoria especial
Sabendo que seu telhado era de vidro em profusão
E temendo tornar-se um alvo principal
Achou por bem de estilingue ter a posição.

Enquanto a raposa usava dessa tática genial
Sua cotação caía pelas tabelas, e era assim que queria
Sabendo que chegaria o dia
Em que haveria de dar o golpe fatal.

Assim, o jabuti passou a chamar a atenção
E, sendo usado como boi para piranha
Embora entusiasmado com a súbita promoção
Sem perceber que era vítima de uma artimanha.

A bem da verdade, era o jabuti um animal articulado
Dono de um falar inteligente e pausado
Logo tornou-se foco de geral atenção
Com risco de roubar do javali a taça de campeão.

Estampavam jornais em edição:
Quem haveria de ganhar a competição?
Seria por acaso o truculento javali
Ou ele iria sucumbir frente ao delicado jabuti?

Enquanto isso, o ganso de olhar distraído
Balançava o longo pescoço em trejeito
Parecendo não querer de nada tirar partido
Achando que tudo estava bem feito.

A arara de plumagem loura e olhar azul
Atirava pra tudo quanto é lado
Não se importando se do norte ou do sul
Até que, descuidada, acertou o próprio rabo.

O tatu desde que sua fobia de veado foi ciência da população
Não cresceu de tamanho mas passou a chamar atenção
Comprou uma briga feia com o ganso e a arara
Chegando à ameaça de lhes dar uns tapas na cara.

O nhambu procurava falar em tom comedido
Desde que em entrevista pra televisão
Ao soltar um “pum” foi surpreendido
Fato que provocou enorme repercussão.

A corrida caminhava para a reta de chegada
Quando o jabuti passou a sofrer um processo de desconstrução
Com o javali procurando lhe dar cabeçada
 A raposa atirando pedra e escondendo a mão.

Cientistas políticos perguntavam, mesmo a troco de nada:
Quem criou aquela trama, quem forjou a desconstrução?
E diziam à boca pequena que o Maquiavel da bicharada
Era um sorrateiro pássaro que atendia pelo nome de Gavião.

Assim, da palpitação passou o javali para um suspiro aliviado
As noites de insônia sumiram quando clareou a situação
O temível jabuti havia sido jogado de lado
Aquele animal de couraça dura estava fora da competição.

 Pensava o javali: brigar com a raposa é mais seguro
Com seu teto de vidro, não vou jogar no escuro
Com o jabuti seria muito mais perigoso
Seu jeito manso esconde um animal ardiloso.

De uma coisa o javali não sabia:
Enquanto dava suas cabeçadas no jabuti
A raposa trocava os vidros de seu duplex
Substituindo-os por temperados, por blindex.

No final, tudo acabou como no quartel de Abrantes
O que veio depois perdendo para o que era antes:
Javali e raposa apontando na reta de chegada
Enquanto os demais ficavam comendo poeira pela estrada.

A raposa se escondeu atrás do jabuti
Evitando assim que lhe atingisse cabeçada
De um raivoso e acuado javali
Ao tempo em que preparava sua faca afiada.

A pergunta final é: quem será campeão
Ao final dessa maratona que buliu com nossa paciência?
Quem levará os louros da competição
Dessa corrida que tanto brincou com nossa inteligência?

Neste mato tem rastro de cobra, tem couro de lobisome
Se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come.
Etelvaldo Vieira de Melo










DEFINIÇÃO

Imagem: educacao.cc

                                                   






  

  


Espécie de Homo Asnus
Levado ao voto
Em estado de cabresto.
Inclinado a não marcar números
Tentando não escutar promessas
Organizadas por corruptos e propagandas
Recortadas no tabuleiro de xadrez desde  1890.

ÓI NÓIS AQUI TRAVEIS

Imagem: novacharges.wordpress.com
               

        Ai,ai, aiai, está chegando a hora...
da população brasileira praticar tiro ao alvo. 
Bom seria se fosse, como naquela outra 
música de Adoniran Barbosa e Osvaldo 
Molles, “Tiro ao Álvaro”. Nesse caso, 
seriam uns poucos a serem atingidos. 
No caso das eleições, e estou falando 
delas mesmo, os “álvaros” somos todos 
nós. Por isso, todo cuidado é pouco pra 
fugir de uma bala fatal. Bom seria se ela 
passasse de raspão ou que, no máximo, 
atingisse nosso dedão do pé. Mas não 
tem jeito: todos – em maior ou menor 
escala – sairemos feridos.
           
Vivemos um arremedo de democracia. Tanto é assim que nem dispomos do princípio básico de escolha: somos obrigados a comparecer às urnas e votar. A democracia aqui é tanta que se tornou obrigatória. Quando chegamos à sala de votação, estamos referendando um jogo de cartas marcadas. E tudo por conta de nosso sistema político corrupto e corrompido.
           
Com tanto “santinho” para colar numeração, tem gente que pensa que a eleição para presidente é a principal. Ledo engano. Ali, quem quer que seja eleito, terá que se submeter às chantagens e ao fisiologismo de um Congresso que funciona na base do “dá cá, que eu vou pensar se dou lá”.
           
Estou sendo pessimista demais? Que nada! Tanto é que, muitas vezes, chego a ser confundido com meu amigo Ingenaldo, a pessoa mais crédula que existe na face da Terra.
           
Considerem vocês outra questão: gasta-se muito e cada vez mais com as eleições em nosso país. Advinha quem financia esse gasto. Pense mais um pouco: quem vai pagar a conta? Colocando lenha na fogueira, levantamento feito pelo UOL constatou que “sete das maiores empresas doadoras de campanha nas eleições de 2010 foram ou estão sob investigação, devido a indícios de corrupção envolvendo contratos públicos ou por conta de relacionamentos com partidos e políticos”.
           
Comenta-se à boca pequena que, como o país para a cada dois anos, ele para para (!) que alguns possam encher seus bolsos com dinheiro à rodo.
           
Além dos “cientistas políticos” e tantos mais, quem ama de montão as eleições são os institutos de pesquisa.
           
Engraçado: ao longo de meus não sei quantos anos de eleitor, nunca, mas nunca mesmo, fui entrevistado por um desses institutos. Pergunto para as pessoas de meu círculo de relações se algum já foi (entrevistado). A resposta é sempre a mesma: Não!
           
De duas, uma: ou os institutos têm um quadro fixo de um mil e pouco eleitores-padrão, ou eles realizam suas pesquisas usando de um atributo peculiar ao meu cãozinho de estimação, Thor: o olfato.
           
É quase certo que tais institutos funcionem movidos por sensores olfativos, quando não por montões de “Deus seja louvado”. Se eles dispõem do chamado “quadro fixo”, seria melhor que tal quadro nos representasse nas eleições, proporcionando aos cofres públicos (isto é, nossos bolsos) uma economia fabulosa.
           
Para dar um desfecho a este texto, deveria recheá-lo com dados estatísticos. Vou fazê-lo, embora lidar com números seja para mim uma tremenda dor de cabeça. Quando eles envolvem valores, aí a coisa complica de vez. Como assalariado, consigo lidar com valores até R$10.000,00; passando disso, minha cabeça entra em parafuso. No entanto, em defesa da honra, vamos lá:

O desfecho foi inspirado numa daquelas revistas antigas que folheio, quando minha mente fica vazia. A revista em questão é de 2012, com quase dois anos de existência, sendo, pois, página da História que, todo mundo sabe, é essa sucessão de fatos sucedidos sucessivamente. A reportagem, de duas páginas, descreve as perspectivas de gastos com as eleições daquele ano.
           
            Resumidamente, a estimativa era que o TSE iria gastar R$6 bilhões para organizar a eleição daquele ano. O custo da propaganda eleitoral gratuita para o contribuinte seria da ordem de R$606 milhões e R$52 seria o custo do voto de cada eleitor aos cofres públicos. Para não me sentir completamente perdido diante desses números, dados complementares me chamam à razão: naquele ano, o governo iria destinar R$260 milhões para a erradicação do trabalho infantil e R$70 milhões no combate à violência sexual contra crianças e adolescentes. Só não entendi os R$50 milhões que seriam desprendidos na prevenção e combate à corrupção. Isso foi o que li na revista.

Como esses dados representavam previsões, procurei confrontá-los com outras fontes posteriores, obtendo resultados bem diversos. Quem me ajudou a ter uma compreensão melhorada do gasto na eleição daquele ano foi o Jornal Folha de São Paulo, edição de 31/12/2012. Para o que vem ao caso, destaco as seguintes notas:

- Os quase meio milhão de candidatos a prefeito e a vereador desembolsaram cerca de 4,1 bilhões de recursos públicos e privados, próprios ou captados;

- Em média, a eleição municipal custou a candidatos R$29,44 para cada um dos 138,5 milhões de eleitores;

- Quanto aos gastos públicos, foram investidos cerca de R$1,3 bilhão (R$286,3 de Fundo Partidário R$606,1 milhões não arrecadados p/horário eleitoral gratuito R$395,3 milhões de gastos operacionais do TSE).

No frigir dos ovos, vejo que os dados apresentados pela Folha se aproximam daquela projeção inicial de R$6 bilhões, passando a ser esse valor referência para minhas considerações.

Quanto às eleições de 2014, ou o STF está fazendo boca de siri, ou não estou sabendo pesquisar corretamente. De qualquer modo, consegui encontrar em alguns sites os seguintes dados:
           
- Só os onze candidatos à presidência deverão gastar quase 1 (hum) bilhão de reais;
           
- Já os 178 candidatos à vaga de senador deverão gastar um pouco mais que 1 (hum) bilhão de reais;
           
- A soma do limite de gastos de todos os candidatos já registrados na Justiça Eleitoral será de R$73,9 bilhões;
           
- O limite médio de gastos com campanha é de R$2,9 milhões por candidato.
           
Concluindo, quero deixar registrada a minha indignação diante de tanto gasto. Sei que, ao fim de tudo, quem vai pagar a conta é o povo, conta que será acrescida de juros e correção monetária. Gostaria de poder contar com a ajuda de meu amigo de adolescência, Aloísio, o Homem Que Calculava, para determinar o quanto de tempo deverá trabalhar um cidadão de salário mínimo para ganhar o que se gasta numa eleição. Eu me pergunto: a quem pode interessar ver o país parado de dois em dois anos por causa de uma suposta democracia, graças a um Sistema que torna a eleição um jogo de cartas marcadas? Como gente do povo, eu me recuso a aceitar a acusação de ser responsável pela classe política que temos aí. As eleições, nos moldes em que estão postas, são uma fonte de desmando e de corrupção. Dizem que é um grande negócio, com muita gente ganhando muito dinheiro (ao ponto de certos políticos terem dificuldade em administrar “sobras de campanha”). Certamente é por isso que somente o povo quer as regras mudadas, o povo, ninguém mais.
Etelvaldo Vieira de Melo

            

ALDRAVIAS

Imagem: recantodasletras.com.br

                   

Aldravia
un'
altra
volta
da
poesia

Uma                                 Políticos
lua                                   da
crescente                        nova
flor                                 era:
na                                    tudo
semente                           primavera

Dilma                               O
ou                                    Aécio
Marina:                            tira
olho                                 ouro
na                                    do
mina                                 nariz



CAGADA DE JACU

“O comentário da lei é a eterna malícia“ – Machado de Assis .

Uma coisa que me tira do sério e bole com minha crença no ser humano é encontrar alguém que não cumpre com a palavra dada.
        
Não que eu seja uma pessoa dura, exigente, já que me vejo tão flexível quanto uma vara de marmelo. Se a pessoa em questão arranja uma desculpa, esfarrapada que seja, eu aceito, uma, duas, três vezes. Depois disso, coloco ponto final em minhas expectativas e risco aquela pessoa do rol dos confiáveis.
        
É frequente encontrar tais indivíduos no ramo dos prestadores de serviços, notadamente nas famílias dos “eiros”: pedreiros, carpinteiros, serralheiros, lanterneiros, marceneiros, bombeiros. Eles não são os únicos, pois poderia nomear outros, como os pintores e os mecânicos.
        
Se, entre tais profissionais, a palavra dada vale pouco, entre outros parece que ela não vale nada.
        
Entre esses, colocaria no rol da fama a categoria dos políticos. São eles que me tiram ainda mais do sério, abalam meu sistema nervoso.
        
Uma coisa que um político faz com a cara lavada e que é a maior sem-vergonhice ocorre em época de eleições.
        
Temos, por exemplo, o caso daquele que se elegeu vereador, prometendo trabalhar em favor da cidade. Pelo que me consta, o mandato de um vereador é de quatro anos, mas, no segundo, já está ele em campanha para deputado estadual.
        
Ele deveria considerar que ninguém lhe deu o seu voto para meia legislatura. Por uma questão de consciência, para que honrasse os seus compromissos, deveria permanecer na vereança por quatro anos.
        
Quando ele tenta um voo mais alto, está usando de faca e de queijo para atingir seus interesses, nunca os de seus eleitores. Ele terá à sua disposição os recursos da máquina administrativa e, não estando de licença, as benesses e os salários do cargo. Sem contar o “empurrão” que o suplente de sua vaga estará lhe dando. Caso seja eleito no pleito estadual, irá ganhar a sorte grande; caso perca, retornará à função de vereador, julgando ter expandido seu nome junto a outros municípios, deixando a semente para futuras empreitadas.
        
Não é à toa que, desde sempre, estou batendo nesta tecla da necessidade de uma reforma política e de uma reforma eleitoral. É um absurdo acontecer uma coisa assim em nosso país.
        
Agora, se o político que faz uma jogatina dessa, cospe no prato em que comeu, renega os compromissos firmados com seus eleitores, até que poderia tomar essa deslavada atitude, desde que abrisse mão dos salários e das bonificações, renunciando ao cargo anterior, caso as eleições não lhe sejam favoráveis.
        
Eu nunca vi um indivíduo dessa espécie fazer isso. Caso fizesse, pelo menos estaria demonstrando um pouco de vergonha na cara, sem fazer essa coisa mal feita, essa “cagada de jacu” – expressão usada pelo povo de Pernambuco e que estou incorporando ao meu vocabulário.

Nota: Não faço crítica endereçada a este ou àquele político em particular. Falo de forma generalizada, já que deixar um mandato pela metade do caminho para ir em busca de outro é uma prática de “fazer política”. Gostaria de estar enganado neste meu juízo, que viesse alguém para me contestar, para dizer que estou sendo injusto, que estou faltando com a verdade. Eu me sentiria reconfortado ao constatar que a política em nosso país não é tão dramática como imagino. Já a expressão “cagada de jacu” permite uma releitura: de coisa malfeita, pode se tornar uma coisa boa, como acontece com alguns cafeicultores do Espírito Santo. É de lá o “Jacu Bird Coffee”, produzido com sementes retiradas das fezes do jacu, quando esse se alimenta de frutos maduros de café. Assim, a cagada de jacu rende ótimos dividendos, com aquele exótico café vendido a preço astronômico. Quem sabe a analogia não sirva para nosso quadro político e algo de bom (uma reforma) não saia daí, dessa outra cagada. Esta é a minha esperança.    
Etelvaldo Vieira de Melo              

ENTREVISTA COM A ESCRITORA ANA CRISTINA CESAR (BASEADA EM "INÉDITOS E DISPERSOS")



Imagem: www.draandreanutrologia.com.br





R  : Defina-se para o leitor, ACC.
AC: "Não sou divina, não tenho causa.
        Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
        Sou a própria lógica circundante."
        Sou uma mulher do século XIX disfarçada em século XX."
        "Femme d'interieur e Femme intrigante."
R  : Que pensa neste momento?
AC: "Eu penso
        a face fraca do poema
        a metade na página partida
        mas calo a voz dura
        flor apagada no sonho."
R  : Faça uma pergunta ao leitor.
AC: "Pergunto aqui, meus leitores,
        Quem é a loura donzela
        Que se chama Ana Cristina
        E que se diz ser alguém.
        É um fenômeno mar
        Ou é um lapso azul?"
R   : Do que você anda atrás?
AC: "do depoimento mais inteiro
        da simplicidade mais erma
        da palavra mais recém-nascida
        do nascimento a mais da palavra."
R   : Com que você sonha?
AC: Sonho "Inesperadas estrelas
        silhuetas
        que se unem
        ajuntam
        céus sem vácuo
        véus caindo."
R   : Fale sobre a Política.
AC: "É difícil ancorar um navio no espaço."
        "Devo impor justiça do um gesto da outra mão
        alimentá-los."
        "Ao meio-dia ligo e leio a última notícia:
        menina de dois anos causa pânico na vida da cidade.
        O tempo virou dramaticamente."
R   : Para quem você escreve?
AC: "É para você que escrevo
        hipócrita, fã, cônjuge, craque,
        de raça, travestindo a minha pele."
R   : Despeça-se do leitor.
AC: "Pensei que não viria mais aqui,
        nas fiz por onde."
        "Chegamos ao mesmo tempo ao mirante
        onde a luz se rompe."
R   : Obrigada pela entrevista.
AC: "Que perdoem (meus) silêncios,
        e os ventos altos."
("Inéditos e Dispersos" foi tema de nossa tese de Mestrado)

CONSIDERAÇÕES SOBRE A PALAVRA

(100ª Postagem)

Existem pessoas que temem as palavras. Tom Jobim, por exemplo, dizia: “Cuidado com as palavras. Eu digo ‘Maria’ e fico achando que conheço Maria. As palavras são enganadoras”.

Existem outras para quem elas são assustadoras. Belchior cantava: “Sons e palavras são navalhas”.

Existe aquele que acredita poder brincar com as palavras. Uma hora as coloca aqui, outra hora as joga para lá; em certos momentos, quer que elas sirvam à verdade, em outros, que elas se prestem à tapeação. Para ele, a palavra é pura conveniência. Usada para atender a interesses, ela passa a ter um preço e serve a quem lhe paga mais.

Existem outros que vivem de discursos, Porque as palavras podem ser como embalagens de caixas vazias.
        
Existe pessoa que reverencia a palavra, quer lhe conferir poderes sobrenaturais. Para ela, a palavra é pura magia.

Procuro tornar as palavras minhas amigas. Não as trato mal e nem as desprezo, a não ser por ignorância ou por dificuldade de articulação. Também gostaria muito que elas pudessem estar a serviço do bem, que elas contribuíssem para tornar esse mundo melhor, um lugar mais agradável, onde as pessoas pudessem viver em paz, construindo a felicidade.
        
Gostaria que as palavras não pudessem ser usadas para servir à mentira e à falsidade. Quando alguém fosse dizer uma mentira, que ele se engasgasse com as palavras, não conseguindo dizer nada.
        
Vejo que o mundo seria um lugar maravilhoso se houvesse mais respeito com as palavras. Assistindo a um noticiário pela TV, por exemplo, junto com a imagem, que não deixa de ser uma palavra, ouviríamos aquelas outras, que chegariam aos nossos ouvidos de forma límpida e nos ajudariam a entender cada vez mais e melhor o mundo, as pessoas, os acontecimentos.
        
Gostaria mesmo que a palavra estivesse a serviço da verdade. Você poderia perguntar: O que é a verdade? Eu não saberia responder, nem da forma como entendo e nem da maneira que você seria capaz de entender ou aceitar. Mas isso não importa, já que a verdade não é propriedade minha, nem sua, mas da vida, essa que está aí, independentemente do que penso ou deixo de pensar.
        
É assim que vejo as palavras. Quisera que sempre estivessem a serviço do bem, ajudando a colorir o mundo e a vida das pessoas. Olhando ao redor, vejo tanta coisa sombria! Eu me pergunto: não há como melhorar tudo isso, resgatando a alegria, o amor e a paz? Acredito que, uma das formas de tornar isso possível, seja através da palavra. Uma boa palavra, uma palavra bonita, sincera, transparente, uma palavra honesta. Uma simples palavra, uma palavra extraordinária.
Etelvaldo Vieira de Melo




POEMA EM LINHA DUPLA

Imagem: www.gazetainterior.com.br

.

Vou deixar   
para depois de amanhã
a resolução do teorema.

Hoje está tudo resolvido.

Vou deixar 
para depois de amanhã
o pensar sobre a vida
e as filosofias da morte.

Hoje a vida está viva.

Vou deixar
para depois de amanhã
as premissas do dia
e os juízos de valor.

Hoje, na matemática,
dois e dois são três.

Vou deixar 
para depois de amanhã
o tema que não escrevi
por causa do mau tempo.

Hoje a poesia
nasce cheia de sol.

O HOMEM QUE NÃO AMAVA AUTOMÓVEIS

       A casa onde mora Modestino Gurgel não é aquela casinha branca de varanda ♫ com quintal e uma janela para ver o sol nascer. Ela fica situada numa rua, que termina na avenida principal do bairro, justamente numa curva. Com o tráfego intenso, somado a um posto de saúde e a um depósito de bebida, frequentemente visitado por caminhões que ali vão desovar engradados e engradados de cerveja, o local se tornou perigoso para pedestres e motoristas, embora a Prefeitura tenha tomado o cuidado de montar dois quebra-molas, tentando refrear a ferocidade dos hps de cavalos instalados nos motores dos veículos. Mesmo assim, são frequentes as freadas bruscas, pedestres correndo como galinhas tontas, querendo alçar voo, brigas, discussões e xingamentos, temperados com palavrões.
        
Outro dia, um vizinho, o Alberto Grabulosa, tentou fazer um seguro de vida, mas acabou desistindo no meio do caminho: quando informou o endereço residencial, o corretor aumentou o valor da prestação, justamente por causa do risco de vida a que Alberto estava exposto.
        
Hoje, outro vizinho teve sua mãe, avó, bisavó e tataravó xingadas, justamente porque queria converter seu carro, da avenida em direção à rua, e um afobado quase arrebenta sua traseira (a do carro).
        
Modestino sabe que não está inventando a pólvora quando fala essas coisas, pois problemas de trânsito são comuns no Brasil, de rabo a cabo, exceção para algumas cidades do Sul Maravilha, onde sequer existe semáforo. Nas faixas marcadas no asfalto, o pedestre pode atravessar até de olhos fechados. Quando esteve numa dessas cidades e se deu conta desse privilégio, o Gurgel ficou indo e voltando pela faixa, até se sentir expurgado do trauma de ter que atravessar ruas correndo, com o coração saindo pela boca.
        
Se existe uma categoria humilhada no Brasil, essa é a de pedestre. Mesmo quando o sinal está verde para sua passagem, tem que ouvir o ronco ameaçador de motores querendo assassiná-lo.
        
Andando pelas ruas do bairro e chegando a um cruzamento, Modestino ainda nota certa tolerância de motoristas homens, fazendo sinal com o dedo para que ele atravesse; quando está ao volante uma mulher, parece que ele se torna invisível e o perigo fica real e imediato.
                 
Caso seja veraz o princípio de que, por detrás de toda ação, existe uma oculta razão, trazendo novos subsídios para o tema, Modestino tenta entender: qual a intenção oculta da Disney, quando lança filmes humanizando a figura desse monstro assassino, o carro?
        
Fazendo um exercício de reflexologia, mas sem desgastar muito os neurônios, chega a considerar que aquele estúdio está a serviço da poderosa indústria automobilística, desviando a atenção para os incontáveis danos que os carros causam à humanidade: poluição sonora e visual, envenenamento da atmosfera com monóxido de carbono, engavetamentos, acidentes fatais, desvio de verbas públicas para construção de pontes, viadutos, elevados e passarelas. Também, alegar que a produção de carros gera empregos não passa de uma balela: hoje em dia, quase tudo é automatizado, produzido por robôs.
        
Gurgel garante que não é contra o progresso, mas gostaria que o transporte fosse socializado, através de trens, ônibus, metrôs, bondes. Assim, haveria mais encontro entre as pessoas e elas poderiam andar pelas ruas, sem medo de serem atropeladas. Andando pelas avenidas, você poderia aspirar o perfume das flores e um ar puro. Não teria que usar máscaras, como já ocorre em certas cidades do planeta.
        
Quando humaniza o automóvel, a indústria cinematográfica está dizendo, subliminarmente, que acontece, de fato, o inverso: o homem se automatiza e passa a se relacionar cada vez mais com a máquina. As outras pessoas deixam de ter importância, passam a ser descartáveis e hostilizadas.
        
Talvez seja por isso que os homens são tomados de amores por seus carros. Para tornar ainda maior o poder de sedução, os automóveis são, todos os anos, repaginados com um novo figurino e designer. Modestino pede àqueles que duvidam de suas palavras para analisarem com cuidado a publicidade que fala de automóvel, digam se ele está exagerando em sua crítica.
        
Modestino também considera, usando de sua psicologia rasteira, que, quando o carro é novo, seu cheiro provoca emoções tão fortes que pode levar uma pessoa ao desmaio – caso que aconteceu com um parente. Ele se pergunta por que a indústria de cosméticos ainda não produziu uma loção com a fragrância de carro novo. Já imaginou uma loção com aroma de uma Ferrari 599XX ou de um Bugatti Veyron Superesport? Seria o maior sucesso, como era – em tempos antigos, quando a mulher não havia se emancipado – o cheiro de gasolina. Após alguma reflexão, Modestino descarta essa possibilidade, com a lembrança do romance “O Perfume”, de Patrick Süskind, onde a produção de uma essência capaz de despertar nas pessoas sentimentos de amor e de paixão acarretou trágicas consequências. Quanto à gasolina, nas cidadezinhas do interior, era costume rapazes passarem um pouco da dita por trás das orelhas, antes de irem para o jardim da praça. Naqueles tempos matusalêmicos, conforme lhe foi repassado por seu bisavô, outra coisa que atraía a atenção das mocinhas era batina preta de padre. Mas isso já é assunto que está fora de questão.  

Etelvaldo Vieira de Melo

EM MEIA HORA

Imagem: 2bp.blogspot.com
- Passo a limpo uma vida.
- Calo o bico do gás.
- Lavo o corpo e a alma.                                  
- Como o pão que a empregada amassou.
- Faço a torre de papel.
- Ligo a Internet e o E-mail.
- Resisto ao vão suicídio.

ENSACANDO O SACOLÃO

    Sacolão é aquele estabelecimento que, entre outros, vende verduras, legumes e frutas. O termo passou a ser usado quando os comerciantes do gênero começaram a vender tais produtos, com algumas exceções, a preço único, com valor convidativo. Logo, logo, quase todos os produtos foram para o campo das exceções, o que fez com que a regra se tornasse, essa sim, exceção.
        
Fato similar aconteceu com as lojas de R$1,99. Hoje, quando você entra em uma dessas lojas, tal preço só é encontrado em produtos que são a sucata da sucata. Tanto em um caso como no outro, o que verificamos foi a esperteza de artistas em engambelar a plebe ignara. No caso dos sacolões, certos produtos atingiram o patamar de primeira linha e nunca mais foram rebaixados, como o inhame, a banana e o quiabo. Outros oscilam, numa gangorra, que assusta e diverte. O chuchu, por exemplo, é um vegetal, vamos dizer, vagabundo, que não tem gosto de nada, a não ser quando cozido à moda de “chuchu beleza”, uma especialidade do amigo Raimundo e que se tornou, mais tarde, Santiago.
        
O chuchu tem, em geral, uma cotação baixa, vendido a preço de sacolão. Entretanto, existem momentos em que ele atinge preços estratosféricos. E não é que, nessas ocasiões, o desejo de comer chuchu fica aguçado? Quem vai entender e explicar o funcionamento de nossos dois cérebros...
        
A banana da espécie “prata” subiu e nunca mais perdeu sua dignidade. Logo, essa história de “dar uma banana” ou aquela outra de dizer que determinado produto é vendido “a preço de banana” mudaram radicalmente de sentido. Se alguém fala: “Estou dando uma banana pra você”, não entenda como ofensa, pois ele pode estar lhe fazendo um elogio; se outro fala: “Este produto está a preço de banana”, pode estar querendo dizer que o tal produto está caro.
        
A ida a um sacolão de bairro popular, o que não é lá essas coisas, requer paciência e análise cuidadosa do que se pretende comprar. No meu caso, quando vou a um supermercado, também demoro, pois, além de confrontar preços, tenho que alisar as latas e suas bundinhas, evitando, assim, comprar alguma amassada.
        
No sacolão onde faço minhas compras, “gigante no nome e pequenino nos preços”, noto muitos frequentadores com problemas de vista, sendo que vários já utilizam óculos. Talvez isso se deva ao fato de que os produtos à venda necessitem de exame minucioso, pois, caso contrário, a gente acaba levando gato por lebre.  Talvez seja por isso que, no quadro de avisos do estabelecimento, existe um cartaz de propaganda de exame de vista em sala das proximidades e a preço módico.
        
Pelo que andei falando, você deve estar pensando ser cansativo como uma maratona o ato de fazer um sacolão. Realmente, posso dizer que sim, mas não fique preocupado em demasia. Caso venha a esbarrar por essas bandas e tenha que se submeter a isso, terá uma agradável surpresa, que irá lhe amenizar a dor: o dono do estabelecimento, cada vez mais rico, mais estribado, logo nos primeiros contatos, estará lhe cumprimentando, apertando sua mão. Ele irá falar assim, o que deverá enchê-lo de orgulho:
        
- Bom dia, chefe. Tudo bem com o senhor?
        
Melhor do que isso, só mesmo ir ao Mercado Central da cidade e, depois de comprar queijos e doces, ouvir a vendedora, toda apetrechada, perguntar:
        
- Mais alguma coisa, querido?
Etelvaldo Vieira de Melo