VAI? NÃO VAI? RACHA? LASCOU!

 

O tempo vai passando

e já vai se aproximando

o momento da eleição

em que todo brasileiro

levado feito cordeiro

vota por obrigação

decidindo por inteiro

os destinos da nação.

 

O alvoroço já é notado

nas redes sociais e Gabinete

onde a mentira risonha

é sempre atração

e a verdade tristonha

quase sempre é deixada de lado

à custa de robôs de macete

e gado de plantão.

 

Por causa do sistema eleitoral

eleição de bem passa a ser mal

já que é jogo de carta marcada

onde não se aproveita quase nada

o que está fora dificilmente entra

e o que está dentro quase não sai

com o povo que não mais encontra

a esperança que se retrai.

 

Na política é geral a corrupção

onde tem até um tal de Centrão

que entra ano sai ano e qual flagelo

está lá feito Poder Paralelo

chantageando e tomando decisão

do qual não adianta reclamar

pois impedido pode ficar

ou até sofrer cassação.

 

Nosso povo vive de fantasia e ilusão

quando surge algo dizendo ser novo

pensa que está aí a solução

sem se dar conta, faz papel de bobo

já que roupa velha não é algo a ser remendado

conforme diz o Livro Sagrado

que muitos carregam na mão

(mas sem o aceitar de coração).

 

E assim as coisas vão sucedendo neste país desigual

que quando se troca muito é meia dúzia por seis

já que ninguém cuida de uma reforma eleitoral

onde tudo pudesse ser consertado de vez:

número de políticos e de partidos com redução

fidelidade partidária, voto distrital

controle de gastos, tudo de forma legal

e tempo de mandato sem direito à reeleição.

 

Uma verdade que não pode ficar de lado

embora ninguém parece enxergar:

enquanto o povo vai ser criticado

sob alegação que não sabe votar

quem lá está lá vai permanecer

já que com esse sistema

fica sem solução o dilema:

correr e o bicho pegar, ficar e o bicho comer.

 

Nossa democracia, coitada

de bandido, golpista e vilão

por todo lado é cercada

Então, cabe perguntar:

este ano vamos ter eleição?

Tal pergunta não quer calar

tendo em vista que um tal capitão

tudo faz pra acabar com a tal de votação.

 

E mais preciso explicar

já que existe oficial militar

que por ser descompensado

prefere leite condensado

a ter que roer rapadura

deixando de ser polícia

para se unir à milícia

sonhando com a Ditadura

 

Que sou pessimista você pode até pensar

mas o que quero é ser realista

pois como bem diz o ditado

não adianta o chapéu tirar

depois que a procissão passar

E que isso fique registrado

bem de frente de sua vista

pra que não venha depois chorar

 

É hora de agir com precisão

todos juntos, em resumo,

fazendo daqui uma grande nação

Que o Brasil deixa de ter o ofício

de ficar correndo o risco

de ser sem prumo e sem rumo

onde, se colocar lona, vira circo

onde, se colocar muro, vira hospício.

 

Vixe! Que lascou a tábua da beirada!

Etelvaldo Vieira de Melo

QUANDO VIVER DEIXA DE VALER A PENA

 

Manhã de domingo. Rolando a tela do smartphone em busca de uma notícia leve e agradável para adoçar (de forma diet) o final de semana, tenho a atenção voltada para uma reportagem sobre Alain Delon, notícia que não era – vi logo depois – nem um pouco leve ou agradável.

Para quem não sabe, Alain Delon foi um ator francês de grande sucesso nos anos sessenta e setenta. Entre seus filmes, destacam-se Rocco e Seus Irmãos, O Sol Por Testemunha, Os Sicilianos (do qual guardo uma agradável lembrança por causa da trilha musical, composta por Ennio Morricone, um de meus elepês favoritos, em gravação de Raymond Lefrève – Le Clan des Siciliens, veja no YouTube).

Confesso que não tinha muita simpatia por ele, o Alain. Por pura bobagem de minha parte, já que o associava a Jean-Paul Belmondo, outro ator francês. Enquanto Alain Delon era muito bonito (foi considerado o homem mais belo do mundo), Belmondo era narigudo e feio. No fim, a feiura de um acabou contaminando a beleza do outro, e acabei desgostando dos dois.

Talvez meu preconceito tivesse a ver com a escola de cinema francês de muito sucesso na época, chamada Nouvelle Vague. Que podia ser artística, mas que eu considerava de uma chatice sem tamanho. Os diretores usavam câmeras preguiçosas, que ficavam em determinada tomada por longo tempo. Por exemplo, enquanto rolava uma cena de galinhas ciscando no quintal, você podia sair da sala de projeção, fumar um cigarro no hall e ir depois ao banheiro dar uma mijada (mulher faz xixi) – quando voltava pra sala, ainda lá estavam as galinhas ciscando. (Mas não seria essa uma peculiaridade do Cinema Novo brasileiro?)

Alain Delon, que era um ator muito bonito e não fazia esse tipo de filme, acabou caindo no meu conceito por um crime que não cometeu.

Quanto à reportagem do domingo (já estava até me esquecendo), ela dizia algo que me chamou sobremaneira a atenção: Alain Delon estava orientando seu filho Anthony para que providenciasse sua eutanásia, ou morte assistida.

Estando com 86 anos e morando na Suíça, onde tal prática é permitida, ele considerava que esse seria o desfecho natural de sua vida. Ou seja: ele pensa que a vida, a partir de certo momento, só dá prejuízo. Usando de linguagem matemática, seria dizer: a vida deixa de ser adição e passa a ser subtração. Passamos a perder tudo que era bom e adquirimos só coisa ruim.

Recorrendo à analogia de uma baciada de jabuticaba (que você vai ‘plocando’ aos poucos, tendo o cuidado de deixar as maiores e mais saborosas para o final), assim também deveria ser a vida: acabar de maneira saborosa, e não de forma amarga, com dor pra tudo quanto é lado.

Sob determinada perspectiva, Alain Delon tem lá suas razões. Já que a morte é inevitável, que ela venha sem sofrimento. O problema é determinar a hora de se colocar um ponto final em tudo.

Se eu for me espelhar em exemplos ao meu redor, vou ficar sem saber qual esse momento.

Uma vizinha, por exemplo, sempre disse ter desapego com a vida. Depois dos cinquenta anos, então, achou que sua vida era só lucro, que Deus a levasse quando quisesse.

Mas aconteceu de sua filha casar e, logo depois, engravidar. A vizinha pediu a Deus:

- Meu bom Deus, adia um pouco minha ida para seu encontro: deixe eu ver minha netinha crescer um pouco, pelo menos até aos cinco anos.

A netinha cresceu, foi para a escola. A vovó quis acompanhar seu desenvolvimento até a formatura, que Deus ‘quebrasse esse galho’, se não fosse pedir demais. A menina virou adolescente, começou a namorar, e a vó precisava acompanhar, dar seus conselhos, que Deus entendesse mais um alongamento. Depois, a moça casou... engravidou, e a história da vizinha registra um novo capítulo. Está ela agora com seus 83 anos, cheia de cuidados com a bisneta. Para Deus, ela diz assim: - Meu bom Deus, o senhor sabe que sempre me coloquei em suas mãos. Quando quiser, pode me levar dessa vida. Agora, se não for pedir demais, deixe eu acompanhar os estudos de minha bisnetinha. Depois disso, não vou incomodar mais o senhor...

Outro vizinho tem uma maneira peculiar de encarar a vida. Leva tudo com leveza e bom humor: analfabeto, sem saber olhar a hora, busca se orientar pelo Sol (quando chove, procura sentir a barriga); quando perdeu o dedão do pé inflamado, diante da pergunta: “e o dedo?”, respondia sorrindo: “ah, o dedo ficou com o doutor Alfredo”; cada vez mais surdo, vai aos poucos desistindo de conversar com as pessoas; perguntado com está passando, olha para o céu e responde: estou aqui aguardando quando o Senhor quiser me levar.

Esse vizinho ficava sentado na soleira da porta de sua casa, observando o trânsito de carros na rua, as pessoas que passavam. De uns tempos para cá, ele se recolheu. Parentes falam que ele permanece mais deitado na cama. Imagino que fica olhando para o teto do quarto, esperando o chamado de Deus. A imagem que imagino dele é de uma vela que, aos poucos, vai se apagando, apagando, apagando, até apagar de vez.

Enfim, um exemplo que tem analogia com a bacia de jabuticaba vem do cantor Sidney Magal. Ele afirma que sempre encarou os diferentes aspectos de sua vida desta forma, com início, meio e fim. “Mas esse fim não precisa ser amargo. Ele pode ser um fim digno, cheio de lembranças e com o coração repleto de coisas boas”. Neste caso, problema são as dores localizadas e difusas. Mas isso seria tema para outra conversa, que já ultrapassei em meia lauda o limite suportável de um texto digerível.

Etelvaldo Vieira de Melo

MORRE A SEMENTE PARA NASCER UMA FLOR

Foto: Aloísio Silva

Para Adriana, Aloísio, Denys, Etevaldo Britto, Geraldo Uzac, JD Vital, Júlia, Lúcio, Magda, Marcos G. Soares, Mauro Passos, Paulo Sérgio Santos, Pedro Lopes, Renê, Sandra, Santiago, Silvana, Quênia, Tadeu Gandra, Valéria Rios – com quem, semanalmente, compartilho os textos deste blog. Com meus agradecimentos pela paciência e incentivo.

Preparativos para a celebração da passagem, da travessia. Pessach. Páscoa. E, junto, a disposição para uma grande mudança.

Ontem fizemos a Procissão do Enterro. O Cristo morto desfilando pelas ruas da cidade, mostrando para todos as marcas da maldade humana.

“Ecce Homo!”

Eis o Homem que veio resgatar toda a humanidade do Pecado, da Opressão, da Injustiça, da Mentira, da Morte.

A multidão se acotovelando sob os acordes fúnebres da banda de música paroquial. O lusco-fusco das velas dos fiéis devotos e o cuidado das mocinhas ao saltar uma poça d’água.

A Verônica cantando no silêncio constrangido do povo. Desenrolando um véu e mostrando para todos os transeuntes a face do Cristo ali estampada.

(E qual a imagem que aquele pano revela? Hoje, Jesus Cristo assume o papel de quem? E quem são os sacerdotes, os fariseus, os doutores da Lei que o condenam? Quem é Pilatos, que não se compromete com nada, lavando as mãos?)

As “Marias-Beús” se escondendo por detrás de mantos negros, acompanhadas pela multidão-de-se-perder-de-vista.

O Carro Fúnebre ladeado pela Senhora de Coração Trespassado e pelos cumpridores de promessas.

Semana Santa, projeção de um passado que nunca se apaga. Lembrança de acontecimentos cada vez mais distantes no tempo e no espaço, mas sempre presentes pelas mais puras emoções, pelas alegrias despreocupadas, pelos sonhos de fantasias simples, singelas.

“Eis que vos anuncio uma boa nova!”

Tradicional namorisco de jovens no jardim atrás da igreja. Rapazes de gestos e olhares inseguros tentando conquistar mocinhas de sorrisos tímidos. Rapazes da roça e rapazes da capital em divertido contraste. (E é precisamente assim: aquele, de óculos escuros, embora seja noite, com um maço de cigarros chique no bolso da camisa, trabalha na capital – não está vendo? Já aquele outro, aquele que não sabe onde enfiar as mãos, trabalha numa roça qualquer. As moças, qual disco numa vitrola, giram pelo jardim, enquanto que os moços ficam encostados nas árvores, atentos, observando. Quando os olhares de dois chegam a um acordo, o casal se dá as mãos e vai namorar no jardim em frente à igreja.)

“Alegrai-vos.”

A voz do sacerdote rompe o silêncio da nave em escuridão: “Lumem Christi!”. Que a Luz de Cristo ilumine o caminho de cada um e de todos os brasileiros, anunciando-lhes a Verdade, a Justiça e a Paz.

Páscoa – Passagem – Travessia

Existe um luar, existe uma estrela.

O que estão dizendo, não sei.

Sei, com certeza, é que quase tudo se resolve em questão de tempo.

Páscoa, celebração de que a Esperança não é vã, de que há uma luz no fim do túnel, apesar de tudo, da escuridão, do ódio, da mentira, das promessas enganosas, dos falsos profetas, sacerdotes, pastores e messias, do medo da própria Liberdade.

Páscoa – Passagem: o ar que respiro, a brisa que sopra, o sorriso das estrelas.

Páscoa – Passagem: uma nova consciência, uma nova visão do ser humano que está dentro de mim.

Páscoa: a grande travessia, a semente que morre e germina em flor.

Páscoa: Vida que vence a Morte, que vale mais que a Morte.

Páscoa: Vida que passa pela Morte, que é feita de Mortes. Igual a semente que morre na terra para poder brotar e nascer, assim também temos que “morrer” para poder “viver”.

A noite predispõe o dia

O inverno é o arauto da primavera

A chuva prepara a sol

A tristeza é o prelúdio da alegria

A lágrima antecede o sorriso

A dor prenuncia o prazer

A Morte é o prólogo da Vida.

É preciso saber passar pelos momentos difíceis

saber encarar os tempos e os contratempos da vida.

É preciso saber morrer

 ... para poder viver.

Feliz Páscoa!

Etelvaldo Vieira de Melo

INTER NETA


Garotinha aborrescente da vovó.

Por que desejo tanto, insisto tanto, a fim de que se desligue do celular?

Imagine!

Vendo seu lindo delicioso saboroso semblante coladim na tela; mirando seu corpo jovem entrando no ar…

Uh! Sinto-me absolutamente só no imenso Uni/verso.

Desespero-me, pois a princesa meu amor escapa do meu solo coração.

A seu lado, agarradinha casta sem beijo, tenho tanto medo de tomar a caipivodka…

Lara, Bóris, Roger,  please, tonta assim, segurem-me. Caio, evacuando sobre o vácuo!

Os deuses se ofendem com a hybris alcoólica. Ordenam meu ostracismo.

Lá se dispersou a doce presença dela, Star girl.

Atravessado o caminho da realidade, Estela palíndroma dissipa-se do meu mais profundo olhar.

Ando de trás para frente, vice-versa. Dê-me, flor, mínima ternura. Olhe para por mim.

Tento segurá-la pela fímbria da blusa. Vã esperança. Detrás do visor, outros a convidam:

- Aqui, tudo é verdadeiro. Salte desse falso Spotlight, gata. Mergulhe para longe desse NÃO fantasioso. Comendo, repare num átimo de si, todos são de carne. Sangue, Osso.

Nós somos fortes simulacros. Impossível, algum desfazimento.

No filme, minha pequena aceita o pulo do gato. Zás. Vira fashion stargirl.

Um tsunami de dolorosa incerteza avança sobre mim. Perigo no mar de Maria. Naufrágio.

O que é isso? Torrentes de ciúme e inveja trovejam sobre a planta verde de meu egoísmo.

Ainda suplico, muda:

- Não fuja, anjo diáfano! Preciso sabê-la viva. Anseio por sua constância na terra dos homens. Seja!

Tolice! À meia-voz, interrompe-me o tom o cristal prolixo daquele objeto tecnológico...

- Volte da névoa para que eu possa retornar à existência concreta, neta. Perceba. O fulgor ideal do aparelho móvel obnubila-me a paisagem barulhenta de pratos samba e talheres.

- Gosta, Estelinha, de surubins no espeto?

Bobagem. Ela se foi.

Vestida de cinza, partiu-se a imagem querida.

Do outro lado do Hades, Caronte a deixou, sombria Eurídice.

E nem tenho idade para nadar. Ondas nos submergem.

Às dezesseis horas, domingo, meu filho papai seu, pára o carro frente onde eu habito.

- Você não vem hoje, vó? Ganhei o jogo Mortal Combate. Vamos.

Vou? Inútil querer. Lançarei os dados na mesa de feltro na forma idêntica ao poeta Mallarmé. De novo, você rirá do estilo antigo ingênuo da velhota.

- Tampe as cartas ao adversário. Não revele o segredo do labirínto, vovó. Preste atenção!

Então, o dinossauro... oops! o menor taurus nos devora, parceira.

Permaneço resto do fim de semana dentro do apartamento com Bach.

Melhor também agarrar o iPhone 7.

Ver se existe alegria na fantasia dos conectados.

Disco números à revelia.

Ai! Duas vezes errei, caçando Estela.

Primeiro, no Restaurante, ela de máscara branca fechada.

Para que tanto esplendor do cetim bordado, perante minha ofuscada visão?

Agora, ei-la voando para o Villa da Serra. Leva o modelo 11 com que a presenteei.

- Vó compra o 13.

- Tijolo.

Monossilábica. Rápida.

Oh, reclamo, clamo no deserto.

Sim. Há tempos, estendi os braços atrás do vulto.

Você, netinha, jubilosa e tenra, sacode a mãozinha de unhas roídas. Afunda-se no videogame.

- Adeus. Adeus, vó.

Somente o vazio, quando a bateria se rende à fiel amante.

Ponto final.

Ainda jazo um minuto presa à ferragem do prédio Amaralina. Lar.

O motor explode, sobe fumarenta a espaçonave.

Começa o episódio do Monstr Ghioday em Urano. É o nono.

- Vamos, Estela.

Graça Rios


O SURICATE E A CRISE



Quando o país da bicharada afundou numa crise sem precedentes, o Suricate, que era economista, disse:

- Quando a Bovab acionou o Circuit Breaker mais de sete vezes na semana e as Blue Chips se aproximaram perigosamente das Small Caps, tudo era sinal de que a crise estava batendo à porta. A gota d’água foi o Default do Governo com seus C-Bonds, num quadro de Demanda Reprimida e Câmbio Flutuante.

Ao ouvir aquilo, falou o Jumento:

- Putz grila! Mas por que você só vem dizer isso agora, depois que a ‘vaca já foi pro brejo com chifre e tudo’?

Moral: Assim são os profetas do acontecido: explicam as tragédias, mas são incapazes de preveni-las. Quem tem olhos para ver, que entenda.

Etelvaldo Vieira de Melo

VIA SACRA

 


A quaresmeira

cobre o cerrado

de doce buquê.

Flores tristonhas

para o tempo amargo

de abril.

Recolhem-se as folhas

sem primavera.

Por que tantas dores,

abrindo-se no manto

de Nosso Senhor?

Nada responde

ao sofrimento

das sépalas silentes.

Somente a chuva

faz um barulho

de lágrima.

Graça Rios

QUANDO OS MAUS PERDEM A VERGONHA

 

Fonte: Facebook


Além de publicar todo sábado um texto nas páginas voláteis deste blog, também repasso uma mensagem curta às segundas-feiras para algumas pessoas que me são próximas, através do WhatsApp.

As mensagens requerem um grande exercício de criatividade (o que me deixa animado), pois o texto, uma citação, vem acompanhado de comentário e ilustração. Para isso, conto com as ferramentas do Google (pesquisa de conteúdo), Pinterest – notadamente (para a ilustração), Paint e Canva (para a formatação).

O conteúdo é acompanhado de um breve comentário, onde procuro driblar o moralismo, isto é, evitando me apresentar como dono da verdade e do que é certo, repassando receitas de bem-viver.

Em certa segunda-feira, a mensagem era uma citação de Hannah Arendt, que dizia: “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”. No comentário, deixei o convite para que cada um fizesse renascer a Esperança, dando um basta à maldade, ao ódio e à mentira. Também manifestei o desejo de que essa luz da Esperança iluminasse os caminhos de todos.

Dias depois da publicação, li uma reportagem em determinada revista eletrônica, que ilustra bem o que disse a filósofa Arendt (Revista FORUM, 20/03/2022, cuja matéria serve de referência para o texto abaixo).

Laura Cardoso é uma socorrista que trabalha no SAMU em São Paulo. Em certo dia, foi atender um paciente com sequelas de AVC, de 90 anos, diabético, com hipertensão, que recebia dieta via gastronomia e com demência. Assim que chegou ao apartamento, foi surpreendida pelo modo com que o filho do acidentado a recebeu:

- Mas não tem médico para atender? – perguntou de maneira agressiva.

Alex, companheiro de Laura, pacientemente, tentou explicar:

- Nem toda ocorrência requer ou pode contar com a presença de um médico.

Ao entrarem no quarto onde estava o senhor acamado, nova surpresa esperava Laura. Uma senhora, mulher do doente, comentou, desesperada:

- E agora, ela é negra!

Ao que o filho respondeu:

- Tudo bem, mamãe, ela está usando luvas!

Laura disse que, mesmo depois de ouvir essas amargas palavras, atendeu devidamente a vítima com suas mãos enluvadas e a encaminhou para um hospital privado, seguindo a preferência da família.

- Se você está perguntando porque essas pessoas receberam o melhor tratamento possível, eu respondo: quem elas são não muda quem eu sou – desabafou a socorrista.

Veja o quanto é atual a citação de Hannah Arendt: “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo!”. Até pouco tempo atrás, uma pessoa má, preconceituosa, racista, truculenta e arrogante, parece que tinha medo e vergonha de revelar sua natureza patológica. Agora, não, de uns tempos para cá, ficou bonito ela revelar a podridão que carrega dentro de si. Pobre Brasil. Pobre mundo em que vivemos. Mais do que nunca, precisamos nos lembrar das palavras de Haile Selassie: “Enquanto a cor da pele for considerada mais importante que o brilho dos olhos, não vamos viver em paz.”

Etelvaldo Vieira de Melo

CADA UM COM SEUS MOTIVOS



Confesso que teria dificuldade em dar uma opinião isenta sobre a atual prefeita de Contagem, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Sendo professor aposentado daquela prefeitura, com o salário sempre correndo atrás do custo de vida e sempre ficando cada vez mais distante, eis que sou surpreendido por um amigo com a notícia de que teremos um reajuste fabuloso em nossos vencimentos, com a promessa de que ele será o maior entre todas as prefeituras da Grande BH. Se assim for, eu, que já tinha um monte de simpatia pela nossa prefeita, corro o risco de considerá-la a melhor administradora do mundo.

Exageros à parte, esta constatação vem mostrar que os juízos de valor quase sempre refletem nossos próprios interesses. Perguntado sobre o que significa um ‘país’ para ele, certo indivíduo deu esta resposta: “Não sei o que vocês querem dizer com ‘país’, mas a comida é o meu país. Se crescer arroz no banheiro, lá será o meu país”.

Assim são as pessoas, movidas por seus interesses. Alguns desses interesses são até simples e banais, como aconteceu com aqueles que nas eleições presidenciais de 1989 votaram em Fernando Collor, sob a alegação de ser ele um sujeito vistoso, bonito (alguns outros votaram porque ele disse que tinha ‘aquilo’ roxo, enquanto que houve aqueles que se deixaram seduzir pela lenga-lenga de ‘caçador de marajás’, ancestral de uma tal Lava-Jato). Sendo que ‘beleza não põe mesa’, no dizer do ditado, o resultado de tudo foi um desastre total. Que o diga o jornalista Alexandre Garcia, que fazia então a cobertura do presidenciável para sua emissora - aquela que foi responsável por promover Collor e a própria Lava-Jato. (Bom, pode ser que o AG diga que não foi desastre coisa nenhuma. Questão de ponto de vista, de interesse.)

Estou fazendo estas digressões numa tarde de domingo, com a semana fechando suas portas sob uma temperatura de 28,1°C e umidade relativa do ar de 56% (caso possa dar crédito ao ‘Color Screen Calendar’ que acabo de importar da China). Elas, as digressivas, refletem minha preocupação atual, que é de procurar entender as motivações que levam muitas pessoas a se definirem como eleitores de Jair Messias Bolsonaro, compartilhando de suas ideias e de seus princípios. Tal preocupação se torna complexa na medida em que Jair mantém fiéis seus 26% de apoiadores, apesar do país viver um estado de retrocesso em todas as suas áreas e departamentos.

Por isso, eu não gostaria de me aventurar em conjecturas sobre esta questão. Preferia recorrer ao Instituto Eleuteriano de Pesquisas Aleatórias (IEPA) para colher uma amostragem a respeito. No entanto, por causa do aumento do combustível, acompanhado pelos aumentos da cenoura e do chuchu, o Instituto entrou em período de férias compulsórias. Restou-me a tarefa de levantar as hipóteses e de dar os veredictos.

Assim sendo, vejo que a questão ‘o que leva determinado indivíduo a apoiar Jair Messias Bolsonaro’ pode ser compreendida nas perspectivas objetiva e subjetiva.

Do ponto de vista objetivo, não vejo uma razão sequer que leve alguém a apoiar Bolsonaro. Com mais de três anos de governo, o que assistimos foi a uma derrocada geral. Na Educação, o último ministro cuida de fazer do MEC um cercadinho para atender aos interesses de pastores evangélicos. Saúde? Foram quatro ministros, num quadro de milhares de mortes. A Economia parece que vai bem só para os que investem em paraísos fiscais. Aqui, a inflação dispara, deixando o brasileiro a roer osso. Literalmente. O Meio Ambiente também anda pegando fogo, literalmente. O único ministério que poderia contar alguma vantagem seria o da Agricultura. Mas ele está ali para atender aos interesses do agronegócio e seus agrotóxicos. O povo mesmo assiste a um aumento descomunal dos preços dos gêneros alimentícios. Quem se dá ao trabalho de ir a um supermercado, a um sacolão ou açougue, sabe o que estou dizendo. A própria ministra da Agricultura reconheceu, certa vez, que o brasileiro não morre de fome porque aqui tem muita manga pra chupar (e muita goiaba pra comer, diria outra ministra – a Damares).

Do ponto de vista subjetivo, vamos ver que entre 25% e 30% dos brasileiros parecem satisfeitas com Bolsonaro. É por sua causa que o índice de popularidade do presidente se mantém estável.

Entre tais pessoas, existem aquelas que apoiam Bolsonaro por causa do dinheiro: os militares - que tiveram uma Reforma da Previdência generosa e com seus ‘bicos’ na administração pública, líderes de diferentes denominações religiosas – com as isenções de impostos para suas igrejas/empresas, empresários do agronegócio, representantes do ‘Mercado’ (banqueiros, grandes empresários, especuladores). Além desses, temos também os chamados defensores ‘ideológicos’:  os racistas, os misóginos, os que odeiam pobres, os agressivos e truculentos defensores de armas, os ingênuos que se deixam engabelar por falsas promessas de céu e, por fim, os viúvos e as viúvas da Ditadura.

Assim que o preço do quilo de cenoura vermelha baixar e o do abacaxi mantiver estável, acredito que o Instituto Eleuteriano de Pesquisas Aleatórias (IEPA) voltará a operar. Então, vou encomendar uma série de entrevistas com esses personagens acima.

O amigo LEITURINO pode ajudar, antecipando alguma coisa. Como? Perguntando a alguém que você sabe ou desconfia ser bolsonarista: “Você apoia Bolsonaro? Por quê?”. Pode ser alguém que manifesta vontade de dar tiros nos outros, que chama nordestino de paraíba, pau-de-arara, arataca, cabeçudo; alguém que pensa que ter filha é dar uma ‘fraquejada’; ou acha que ‘pobre não sabe fazer nada’, só serve para votar, ‘título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso’; que manda índio comer capim ‘para manter suas origens’; chama de idiotas aqueles que dizem que é melhor comprar feijão do que fuzil. E por aí vai.

E eu? Eu vou ficando por aqui. Pedindo para você não se esquecer: mande pra mim suas respostas, que meus neurônios andam carentes de inovadoras ideias.

Abraços.

Etelvaldo Vieira de Melo

 


CARTA A UM JOVEM APAIXONADO

 

Meu jovem apaixonado.

Observa.

Se começas a estudar música, tu te tornas imenso, feliz, absoluto, principalmente sozinho. O recolhimento ambiental parte do Concerto palaciano.

A composição da sinfonia silenciosa te arrebata, consola. Leva-te a sentir necessário o canto da solitária alcova.

O instrumento exerce tal sedução e esplendor sobre teu consoante pensamento, sonho, imaginação criadora, elevação espiritual que os anjos invejam-te a doçura da sinfoninha voz.

BTeu gesto manso, a calma de tu’alma, os enternece. Ironicamente, também os enlouquece.

Quando artista, logo organizas o físico, a argúcia mental, a exímia maestria na sensibilidade.

Ao tocares a Tristesse’, de Chopin, uma áurea aura de bondade humana cinge tua fronte. Seguindo-se ao sublime movimento, a força expressiva de Bach tensiona-te em orgasmos múltiplos aéreos sucessivos de alegria e ardoroso frêmito. Ah!

As notas de mil espaços e linhas, dentro/fora da pauta, transbordam-te a vida de riquezas reais, duradouras, fiéis, sábias, inimagináveis.

A dança da folha, o sorriso da lua, a curva do caminho, tudo te traz arrojado clímax febril muito superior às melhores sensações terrenas.

O mistério do sol lá se faz com dó de findar-se em ré a magnitude melódica presente no tempo da pausa.

A partir da experimental primeira partitura (cerca de vinte dias), nada mais te falta. Foges ligeiro do planeta habitado por gente. Queres te encontrar.

Senhoritas e semhoritos infestam o amor com rude desilusão por mais fermosos sejam.

Faltam-lhes o compasso, o tom das colcheias, o palpitar 🎵 da sonora alma.

Quantas lágrimas se derramam por aí afora, à revelia, sugadas pela natureza aRmada daquele ser amado!

A falta no Outro, o rastro, a fenda, o hiato, a hiãncia, a história, transmitem ao amador amaro sabor de incompletude mútua.

Ao contrário, a Arte, essa gata persona feminina, florida, sempre vestida com singelo brilho ou festa estelar; ela, bela donzela, vem e se oferece cálida rosa apaixonada ao contato sensualíssimo do toque amante.

Abre-se toda, lábios, pelos, sumos, pele, vislumbrando o gozo pleno ao simples complexo amplexo ou beijo do saxofonista.

Escolhe, pois, querido, a exata mulher-viola para violarem juntos as recíprocas cordas do coração.

Há um ditado gracioso somente feito para teu deleite e reflexão:

‘Só conhece o eternal prazer másculo aquele que aprofunda sua língua na caverna do bocal das doces flautas’

E, repara:  assim que compuseres tua própria partitura, suave ave canção interior, verás que o céu está ali próximo, mesmo em cima do teu ombro, longe do trom turbulenta tuba arroubo sexual terreno.

Arranja, entre tantas belezas, uma pequenina jovem moça dourada lira. Então, a Deus, adeus, corpos fantásticos de violão sanguíneo e ósseo.

Serena-te. Busca a paz dos violinos.

Carinho. filho.

Graça Rios

EM RESGATE DA VERDADEIRA ORIGEM DE NOSSO CARÁTER


Os dicionários apresentam estes sinônimos para o termo ‘trambique’: tramoia, mamata, mutreta, maracutaia, propina, esquema, falcatrua, negociata, muamba. Sendo assim, trambique é algo assaz frequente no dia a dia do brasileiro. Se formos olhar para os políticos, então, iremos notar que a maioria sobrevive à custa de trambiques. Foi ou não foi maracutaia o esquema das ‘rachadinhas’ praticado pela família Bolsonaro, através do qual 00, 01, 02 e 03 conseguiram aumentar seus proventos, surrupiando parte dos salários de seus funcionários, efetivos ou ‘fantasmas’?

Para o vice-presidente, general Mourão – já disse aqui - ser trambiqueiro, ser malandro, faz parte da índole do brasileiro, por causa de sua herança genética. Ele disse que a trambicagem é legado de nossos ancestrais africanos. O presente texto procura lançar um pouco de luz sobre esta questão, mostrando que a história não é bem assim, que mutreta é herança de nossos ascendentes branquelos, os portugueses, ora, pois. Se não, vejamos.

Antes, porém, todavia, contudo, um adendo. Ingenuamente, eu julgava que a história do trambique no Brasil era coisa de pouco tempo. Claro que tinha conhecimento de um deslize aqui, outro acolá, mas eles eram creditados como exceções de uma regra: o país era limpo.

Em passeio a Porto de Galinhas, no Estado de Pernambuco, tomei conhecimento de um fato histórico que me deixaria com os cabelos em pé, caso ainda os tivesse.

O local era conhecido como Porto Rico, já que usado para exportação de pau-brasil e açúcar, dois produtos que valiam ouro em épocas passadas, no tempo do Império.

Escravos eram trazidos da África para o trabalho nas lavouras de cana. E tudo corria bem, até que o escravismo começou a ser abolido no mundo e o Brasil se viu obrigado a fazer suas concessões – a Lei do Ventre Livre, por exemplo, foi uma delas.

Mesmo quando o furor abolicionista se alastrou, africanos eram trazidos clandestinamente para o trabalho nas lavouras. O artifício usado era acomodá-los debaixo de engradados... de galinhas de Angola.

Quando a carga chegava ao porto, a senha para os senhores de engenho era:

- As galinhas chegaram! Có-cori-cocó!

Confesso que desconhecia esse fato histórico. Não sei se ele é de seu conhecimento. Se for, você deveria ter me avisado há mais tempo, para que eu olhasse com mais desconfiança nossos ancestrais lusitanos.

Enfim, para que esta leitura não seja perda de tempo, acrescento um dado que descobri no passeio. Quando chegamos ao Distrito (Porto de Galinhas pertence ao município de Ipojuca), o motorista da Agência de Viagens que nos transportava fez espalhar entre os habitantes do local: - Novas galinhas de Angola chegaram!

Quando voltamos para casa e olhamos pro espelho, descobrimos como fomos depenados! Tratado como galo de Angola, acabei pagando o pato, sendo espoliado sem dó ou piedade por aqueles que buscam vingança para as humilhações sofridas por seus antepassados.

Diante do que foi dito, que fique registrado para os Anais da História: a pecha de trambiqueiro está mal colocada nos costados de nossos ancestrais africanos; o hábito de praticar falcatrua está em nossa genética por conta dos brancos portugueses. É por isso, tão somente por isso, que o brasileiro sempre quer levar vantagem em tudo, certo?

Etelvaldo Vieira de Melo

 



AS FLORES E ÁGUAS

 


Panaceia / São Francisco

Raiz de padre / Tocantins

Perpétua / Araguaia

PARA-TUDO aquilo que o demolidor da terra canta,

Pois o seu defensor mais alto se alevanta.

Graça Rios